quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ainda sobre as praxes e os refugiados

Os textos publicados neste blog têm felizmente muitas reações, a maior parte delas positivas, raras as que desprezo porque insultuosas, e algumas felizmente com críticas, sugestões e contestações bem fundamentadas de discordância, a merecerem-me a  melhor atenção.
Uma dessas leitoras frequentemente críticas ao que vou escrevendo é a Joana Maria-Lobo, que reagiu assim ao que escrevi sobre as praxes e o fardamento académico: “Concordo em parte, acabe-se com esse abuso que são as praxes sobretudo se violentas e humilhantes. Mas discordo quanto ao traje académico, ele existe em quase todo o lado, frequentei um pólo universitário inglês e aqui também existe traje académico. Há-o em quase todas as Universidades que conheço e o seu uso não prejudica nem humilha ninguém. Resumindo, praxe não, capa e batina aceitável, até porque só os usa quem quer. É um pouco violenta a apreciação de «palhaços», poderia estender-se a todos os campos onde é conveniente o uso de um uniforme, e a polícia, o exército, os juízes, os bombeiros passam nesse conceito a ser todos «palhaços».
Tenho de reconhecer que a utilização do termo «palhaços» pecou por excessiva, mas mantenho a aversão a tudo quanto constitui esse conceito de fardamento, mesmo tendo sido obrigado a usá-lo na tropa, nos navios de cruzeiro e, até nos anos em que dirigi uma empresa e era tacitamente exigível o uso de fato e gravata.
Como diz a Joana, existe a liberdade para o uso da batina e portanto, se admitimos o uso do burkini nas praias francesas, quem somos nós para pôr em causa o recurso a ela quando se é estudante universitário?
O problema que eu vejo, e sempre me causou a antipatia pelo fardamento tem a ver com o seu carácter normalizador, eliminando as diferenças, as características individuais. Ora ser jovem deve ser o contrário disso mesmo: aberto a todas as ideias e opiniões, sem vestir o hábito que, inevitavelmente, faz o monge.
Num texto muito conhecido o Umberto Eco lembrava que, de manhã, quando estamos perante o espelho a compor o nó da gravata, significa assumirmos de imediato uma opção de classe. Daí que sentisse como um dos mais libertadores efeitos da minha chegada à reforma, a colocação definitiva dos fatos e das gravatas nas zonas menos acessíveis dos guarda-fatos. Não é, aliás, por acaso que vemos nos grupos parlamentares a diferença entre a diversidade do vestuário nas esquerdas em contraponto com o formalismo conservador à direita, que espelha logo à partida as respetivas diferenças ideológicas.
Mas a Joana também reagiu ao texto sobre o paradoxo de vermos o fluxo de refugiados causar efeitos perversos no comportamento dos eleitorados, levando-os a votar cada vez mais nas direitas radicais. Diz  essa leitora: “Subordinemo-nos portanto à insubordinação, sejamos tolerantes com a intolerância, tomemos como amigos todo o género de terroristas e aceitemos a possibilidade de um atentado, contra os nossos costumes, as nossas vidas como sendo um ato normal. Interessante o tema, a sua negação conduz de imediato à xenofobia, aqui expressa na cor da pele, a sua aceitação está eivada do pecado da bipolarização, porque quem é a favor pertence, incontestavelmente a partidos extremistas. Não seria preferível antes de se aceitar tudo e todos, o separar-se o trigo do joio?
Em principio concordo que a solução ideal seria a análise detalhada de cada um dos candidatos para a entrada no espaço europeu, mas eles são tantos milhares, que é inexequível avançar para essa possibilidade. Por isso podemos estar condenados a essa bipolaridade se não avançarmos para soluções de esquerda, que nada tenham a ver com as reações de ódio e de medo das direitas. Por exemplo seria bom que as esquerdas tivessem força bastante para fazer da Declaração dos Direitos do Homem a Constituição Universal à conta da qual teriam de ser eficazmente combatidos os traficantes de armas - a começar pelos governos franceses, alemães ou italianos, que vendem tanto armamento para as guerras em curso - e as empresas, nomeadamente ligadas a interesses agroalimentares e mineiros - que garantem a sustentabilidade de ditaduras terríveis como as da Etiópia e da Eritreia donde provém muitos dos desgraçados, que vão morrendo afogados no Mediterrâneo.
Significava ostracizar e condenar o mais possível os governos saudita, qatari e outros, que financiam direta ou indiretamente os jiadistas, que atuam em cenários de guerra asiáticos e africanos. E impor como regra a incompatibilidade dos Estados com as religiões, ilegalizando internacionalmente os do Irão ou da Turquia onde o poder dos clérigos ou da sharia ganham estatuto de lei.
Existem, pois, soluções para acabar com este paradoxo, mas as esquerdas têm de assumir uma capacidade de persuasão muito maior para impor o respeito dos Direitos Humanos como critério fundamental do ajuizamento da legitimidade dos governos deste planeta.


Neste ano com menos praxes, também teremos menos palhaços?

Sempre fui contra praxes e nunca vesti uniforme a que não fosse obrigado. Por isso mesmo tenho esperança de que este seja o primeiro de muitos anos em que sejamos poupados ao grotesco espetáculo de caloiros a serem humilhados pelos colegas mais velhos a pretexto de supostas «tradições de iniciação».
Nesse sentido a orientação dada pelo ministro Manuel Heitor aos reitores para que não reconheçam qualquer legitimidade a organizações de estudantes, que extravasem as suas Associações eleitas, tenderá a limitar essas ações, que há muito vinham a ser execradas pelos movimentos políticos mais à esquerda.
Mas, esta é também a época em que somos agredidos no campo visual por súcias de rapazes e raparigos vestidos com o chamado traje académico como se estivéssemos em pleno carnaval.
Esses jovens têm de perceber que entrar na universidade é algo de tão normal como o tinha sido a da sua escola secundária, não se justificando rituais nem palhaçadas que lhe deem cunho especial. A sua preocupação deve cingir-se `aquisição de mais e melhor conhecimento.
Para gente vaidosa, da estirpe daquele idiota, que telefonou ao pai todo entusiasmado por ter sido feito ministro, já tivemos que chegue. Livremo-nos de vez deste tipo de comportamentos, que acabam por ser de uma parolice sem limites.

Obsoletas tradições

Na infância vivi num ambiente familiar, do meu ramo materno, onde se prezava a cultura das touradas. O meu avô João era um aficionado e levava-me consigo sempre, que decidia ver um desses espetáculos na Moita, no Montijo, em Setúbal, em Vila Franca ou em Santarém.
Curiosamente só não me lembro de alguma vez termos ido ao Campo Pequeno, mas a explicação talvez decorra de não existir ainda a Ponte sobre o Tejo e as passagens para a margem norte ocorrerem preferencialmente pela ainda recente ponte Carmona.
Essa condição de aficionado também se conjugava com a sua amizade com um dos donos de uma das então maiores ganadarias do país: os Oliveira & Irmãos. Nunca soube da origem dessa afinidade, mas suspeito ter sido forjada na solidariedade colhida da participação de ambos na campanha da Flandres durante a Primeira Guerra Mundial.
Quer isto dizer que assisti a touradas e à exploração taurina nos campos de Samora Correia desde a mais tenra idade.
Foi isso suficiente para eu mesmo me ter tornado num apreciador desse tipo de espetáculo? Claro que não!
Lembro-me, por exemplo, de uma tourada na Praça de Santarém, em que terei passado mais tempo em correrias de miúdos nos corredores por baixo das bancadas do que sentado ajuizadamente ao lado do meu avô e do motorista, que sempre nos acompanhava.
Esse distanciamento em relação a esse tipo de cultura foi-se aprofundando, embora tenha sofrido uma recaída breve, quando li com especial agrado a «Fiesta» de Hemingway.
Progressivamente fui confirmando a existência inequívoca de inteligência e de emoções nos mais variados animais. Com o contributo inestimável da minha mulher que, a esse respeito, foi sempre mais vanguardista. Por isso mesmo, quando numa prova de pré-seleção para um concurso da RTP chamado «Arca de Noé», ela chumbou clamorosamente na possibilidade de ir à sessão a sério por ter discutido acaloradamente com a produtora, e ao mesmo tempo juíza de seleção, que teimava não terem os animais esse tipo de similitudes connosco humanos.
Data, pois, de já várias décadas a minha repugnância pelo espetáculo taurino. Conoto-o indubitavelmente como algo de bárbaro, inaceitável numa sociedade que se pretende civilizada. E olho para os seus apreciadores como trogloditas, que bem mereceriam ser deixados à solta num campo onde andassem touros à solta para comprovarem como são tão marialvamente audazes quanto querem parecer.
Quem viu um vídeo, que anda aí pelas redes sociais, em que um touro se prostra de joelhos face aos toureiros como que pedindo-lhes a compaixão de não o torturarem, não pode ficar indiferente ao sofrimento de um animal que passa longos minutos num espaço donde não consegue fugir e sucessivamente agredido com as afiadas bandarilhas.
É claro que não me espanto que os betinhos do CDS tenham agora decidido organizar uma corrida em Coruche como manifestação de defesa de tão repugnante «tradição».  Embora alguns dos principais dirigentes do partido se tenham associado ao evento - a começar pelo estulto João Almeida! - a direção teve algum pudor e distanciou-se do evento.  Mas os jovens, que se reveem nas propostas ideológicas do Largo do Caldas confirmam o que sobre eles já sabíamos: são uns patetas sem préstimo destinados a serem exibidos no Museu das mais obsoletas «Tradições», arvorando os seus sorrisos idiotas e tendo a pancarta indicativa de que eram aficionados das touradas.

O redespertar dos nossos piores pesadelos

Um dos maiores paradoxos do nosso tempo é que, ideologicamente, ninguém apoia mais os refugiados do que os partidos de esquerda, e, no entanto, são eles as maiores vítimas políticas do fluxo contínuo de desesperados vindos, na maior parte, das frágeis embarcações, que atravessam diariamente o Mediterrâneo. Por toda a Europa os partidos defensores de estratégias mais humanistas vão perdendo influência e veem-se ameaçados eleitoralmente pelos que, ainda não imitando o discurso de Trump quanto aos mexicanos, o decalcam intimamente dentro de si mesmos.
O que se passou em Calais anteontem é um bom exemplo disso mesmo: proclamando-se como não pertencentes ao partido de Marine Le Pen (o que é duvidoso, tendo em conta o sucesso eleitoral da Frente Nacional nas últimas eleições regionais ali disputadas!) a população de Calais insurgiu-se contra a existência da Selva, o tenebroso campo onde se acumulam cerca de dez mil candidatos à travessia do Canal da Mancha.
E tenebroso é, de facto, esse espaço lamacento, pejado de lixo e onde os ratos circulam descontraidamente no meio das pessoas.
Qual a resposta que a esquerda deverá encontrar para esta situação, que favorece objetivamente a extrema-direita? Veja-se o resultado eleitoral do fim-de-semana num dos Estados alemães menos sujeito aos fenómenos da emigração, onde essa mesma direita radical conseguiu mais de 20% dos votos, metade dos quais provenientes do Partido Social-Democrata e do Die Linke (o equivalente ao nosso Bloco de Esquerda).
Tarda essa urgente resposta, que desincentive eficazmente os sentimentos de medo e os preconceitos mais estúpidos contra quem não tem a tez clara e a religião católica ou protestante.  Enquanto ela não for encontrada a Europa arrisca ver reavivados os seus mais sinistros pesadelos.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Quando se demonstra a idiotice de um adiantado mental

Um dos programas que mais aprecio ver na RTP é «Os Números do Dinheiro», onde podemos assistir ao terçar de argumentos entre Ricardo Paes Mamede e Jorge Braga de Macedo, com António Peres Metello e Teixeira dos Santos no papel de moderadores.
Sei que em relação ao antigo ministro do governo de José Sócrates  alguns logo dirão, que ele ocupa o mesmo estatuto de Mamede e de Macedo, mas a designação de «moderador» tem para ele um significado distinto de Metello, que desempenha esse papel formal, porque ele se situa no frágil equilíbrio entre posições opostas, ora aproximando-se algumas vezes da posição ideológica mais à direita, ora a maior parte das vezes a acompanhar a situada mais à esquerda.
No programa de ontem foi demasiado expressiva a diferença entre o brilhantismo argumentativo de Mamede em contraponto com o simplismo medíocre daquele que, no tempo do cavaquismo, se considerava um «adiantado mental».
Ficámos assim a perceber melhor, através de gráficos fáceis de compreender, como a quebra das exportações no primeiro semestre é só aparente, apesar de todos os comentadores de direita se esforçarem por dá-la como exemplo quase definitivo do «falhanço» das políticas do governo. Só Mamede lembrou agora o papel determinante da paragem anual da Refinaria de Sines para reduzir em mais de 700 milhões de euros as receitas daí auferidas. E Angola terá tido um impacto quase idêntico ao da quebra total verificada. Assim, sem ambos os fatores - produtos refinados e Angola - as exportações teriam subido 3,3%, sendo quase de 7% esse crescimento para a União Europeia.
Relativamente à quebra no Investimento ela é explicada pela paragem dos projetos públicos, desde que se concluiu o Túnel do Marão. E aqui tem causa fundamental a preocupação do governo em conseguir um défice abaixo de 2,5% do PIB. Acaso a Comissão Europeia levasse em conta o apelo quase desesperado dos líderes dos Bancos Centrais de todo o mundo reunidos recentemente em Jackson Hole, quanto à necessidade de políticas de crescimento como prioritárias em relação à redução das dívidas soberanas, e outra realidade se concretizaria: imagine-se o impacto económico, que a possibilidade de, por exemplo, ser facultado um défice de 4 ou 5%, que possibilitasse de imediato as construções de hospitais, que estão por concretizar ou de outros investimentos públicos fundamentais para o desenvolvimento do País? Numa situação desse tipo o quase parado setor da construção constituiria uma alavanca poderosa na criação de emprego e de riqueza tão necessárias para a saída desta «morte lenta» em que reconhecidamente nos encontramos.
Uma palavra final, ainda para o programa de ontem, quando Braga de Macedo se atreveu a dizer que a crise da banca nacional ainda é devida à «cultura»  oriunda da época em que era nacionalizada. Como se ela tivesse conhecido então falências, sequer aproximadas, das que vericaríamos recentemente com o BPN, o BPP, o BES ou o Banif.
Como Ricardo Paes Mamede recordou, o problema vem de muito depois, quando as privatizações levaram muitos grupos económicos a formarem-se sem qualquer capital próprio, apossando-se dos bancos com empréstimos dos mesmos, e depois criaram a partir dos anos 90 uma estratégia apenas baseada no alcatrão e no cimento.
Aguardo com expetativa as próximas «tareias» argumentativas que o adiantado mental levará do excelente professor de Economia, que tem pela frente.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Classe média, dizem-me eles que sou!

Na perspetiva de Assunção Cristas eu enquadro-me na tal classe média, que ela diz ser tida como rica pelas esquerdas. De facto tenho carro e casa própria, o que significa ver-me como recetor privilegiado da sua mensagem discursiva a encerrar os trabalhos da sua escolinha de betinhos, desculpem o lapso, quero dizer quadros do CDS.
Teria, pois, muito a ganhar com a “sensatez” por ela proposta para a governação de que ainda mal saiu. O pior é eu não me esquecer que, à conta dos cortes, que o governo do PSD e do CDS, me fizeram nas remunerações mensais, vi-me delas esbulhado em 1o% durante vários anos. O que significa uns razoáveis milhares de euros capazes de ainda me tornarem mais “classe média”, permitindo-me outros luxos dignos dessa condição como por exemplo mais viagens para ir ver a minha neta, cujo crescimento vou acompanhando a excessiva distância.
Assunção Cristas está, pois, a ser mentirosa e desavergonhadamente populista, como se tem acentuando nos últimos tempos com o discurso anti-partidos e anti-sindicatos. Tudo para ganhar os votinhos das beatas de sacristia e dos devotos mais empedernidos, quando a Democracia prescinde bem das igrejas para se concretizar - por isso reconhece a liberdade religiosa - mas não prescinde de Partidos e de Sindicatos. O insulto que a líder do CDS fez à inteligência da maioria dos portugueses, que não compreendem como ainda é possível manter uma Concordata com o Vaticano negociada pelo salazarismo, é uma pérola acrescida ao pensamento bafiento de tal criatura.
Mas também Passos a tenta imitar em desaforo. Ouvi-lo dizer no discurso da escola laranja do mesmo tipo de betinhos, desculpem, quero voltar a dizer quadros do PSD, que “reafirmar que o primado da política é sempre a pessoa e a sua dignidade”, é mais do que risível, porque os quatro anos de governação da direita foram mais do que eloquentes na demonstração que a sua prioridade sempre foram os interesses dos mandões da Europa cujas ordens cumpria sem tergiversar e de todos os amigos, que foram abocanhando as empresas privatizadas e o quinhão desleixado pelo Estado na Educação e na Saúde, tão oportunamente transformados em rendas sob a forma de subsídios, apoios e acordos de associação.
Quer Cristas, quer Passos, quer por exemplo os opinadores do «Eixo do Mal» desta semana, estão condenados a reverem o discurso à medida que o ano for evoluindo e as políticas do governo começarem a surtir efeito. Basearem-se em números do primeiro semestre, depois do atraso da entrada em vigor do Orçamento de Estado para 2017 - culpa óbvia de Cavaco, que marcou as eleições para a data mais conveniente para o PàF e tudo fez para sonegar a António Costa o direito para formar governo! - continua a ser demasiado precipitado. Tanto mais que começarão a ter expressão os aumentos de receitas colhidos por um ano excecional da indústria do turismo e que os dinheiros provenientes do Programa 2020 também infletirão a curva negativa do investimento.
Se Passos Coelho engoliu a história do Diabo em setembro, mais terá de se socorrer de sais de fruto para a alteração de discurso a que se verá obrigado. E talvez tome igualmente maiores cuidados para não impedir a putativa parceira à direita de se fazer ouvir até ao fim, como sucedeu este fim-de-semana nos discursos em causa. É que, além de necessitar de um bocadinho mais de inteligência para se livrar do labirinto mental onde está encerrado, a boa educação deve sempre ser um requisito do líder político digno desse nome, deixando qualquer senhora concluir o que tem a dizer antes de se lhe sobrepor. Mesmo que a senhora em causa seja Assunção Cristas, que, bom, fico-me por aqui...

A nulidade ideológica da outra trincheira

Começam a surgir artigos assinados por gente insuspeita de qualquer simpatia pelas esquerdas e coincidentes no mesmo veredito: existe uma notória crise de ideias na direita, explicando-se assim os sinais evidentes do seu declínio no favorecimento do eleitorado.
Pedro Santos Guerreiro, o diretor do semanário de Balsemão, dá o mote: anuncia implicitamente a morte política de Passos Coelho por se ter tornado no “Nostradamus da política, com datas de fim do mundo que o fim do mundo não traz”. E acrescenta, a concluir: “o isolamento de Passos é também a insularidade ideológica do PSD. Basta ver a pobreza de pensamento político daqueles que se perfilam como possíveis sucessores, (…) Querer ganhar eleições não é em si mesmo pensamento nenhum”.
Na mesma lógica assina Nuno Garoupa um texto no seu blogue «Insónias». Com este comentador está a passar-se algo de muito curioso: entusiasta das ideias mais conservadoras a nível económico, foi chamado da universidade norte-americana onde lecionava para substituir António Barreto na Fundação do Pingo Doce.
A presença mais assídua em solo português,  e um melhor conhecimento dos seus putativos compagnons de route, talvez explique a evolução singular do seu pensamento político, que justificou o pedido de demissão dessa instituição destinada a ser um think tank da direita, logo agarrada por um Jaime Gama cujas afinidades eletivas com essa área política vão sendo cada vez mais indisfarçáveis.
É, pois, na expectativa quanto à orientação dessa evolução ideológica de Garoupa, que podemos tecer leituras múltiplas sobre o seu texto em que identifica a crise da direita com o momento da derrota do cavaquismo em 1995: “Esgotado o pacote dos fundos comunitários generosamente distribuídos, adiada a modernização das instituições, atrelada ao discurso social imposto pela esquerda, a direita limitou-se a gerir as suas oportunidades eleitorais sem qualquer programa reformista para Portugal.  (…)
E, mais adiante, continua com o diagnóstico de uma doença aparentemente incurável: “Desde 1995, a direita conseguiu duas vezes uma maioria para governar e falhou outras cinco. Duas em sete. Desde 1995, o PS foi sempre reeleito para governar um segundo mandato. A direita nunca foi. Ou seja, a direita só governa quando a esquerda apodrece no poder. E a direita nunca consegue manter a sua base eleitoral de apoio por mais de uma legislatura. A direita é governo por tempo limitado nos tempos mortos da esquerda. A direita é assim uma espécie de suplente da esquerda.”
Temos, pois, uma direita sem qualquer outro projeto, que não seja o acatamento dos ditames vindos das instituições internacionais, como se declinasse a ambição de ser governo soberano de um país, e aceitar, sem estados de alma, o papel de lugares-tenentes de causas alheias.
O perigo reside na possibilidade bem concreta de as esquerdas descansarem sobre essa ausência de discurso ideológico para também alienarem o seu. O perigo esteve perto, quando o PS esteve quase três anos no limbo de uma coisa informe e indefinida personificada no seu anterior secretário-geral.
Só sabendo muito bem o que quer, e como lá chegar - o que torna imprescindível uma análise permanente do contexto e a definição estratégica mais eficaz para nele neutralizar as ameaças e potenciar as oportunidades! - é que as esquerdas conseguirão a almejada transformação do país, governando-o por tanto tempo quanto merecer.

sábado, 3 de setembro de 2016

Uma questão de ter princípios

Transparência, legalidade e correção - eis os três princípios inegociáveis reivindicados por Fernando Medina para travar a continuidade do projeto para a Segunda Circular. E esta decisão, que poderia aparentemente virar-se contra a provável recandidatura do autarca da capital, só a valoriza por corresponder aos imperativos de um tempo novo onde a corrupção seja o mais eficazmente combatida. Às vezes é este tipo de decisões corajosas, tomadas no momento certo, que confirma a verdadeira estatura política de quem as protagoniza.
Não sei quem são os acionistas da Consulpav, a empresa encarregada de estudar qual o pavimento mais adequado para o tipo de tráfego diariamente verificado naquele eixo fundamental da entrada de veículos em Lisboa, mas a sua decisão de aconselharem uma solução e, logo a seguir, alterarem o seu contrato social de forma a incluírem na sua atividade o fabrico e comercialização da mesma, é daqueles chicoespertismos tipicamente lusos e que tanto dano têm causado à nossa qualidade de vida.
No entanto , eis um caso paradigmático, em que valeria a pena conhecer quem manda efetivamente nessa empresa, tanto que se sabe subcontratada por um dos concorrentes à empreitada, em fase avançada da elaboração da proposta, porque poderíamos compreender se se tratou apenas de um caso de vigarice sem escrúpulos, se de algo bem mais tenebroso e com fins políticos bem definidos.
Para já só podemos congratularmo-nos por se ter sabido a tempo dessa manigância e tomar-se a decisão de não lhe dar provimento. Imagine-se o que seria esta matéria nas mãos dos propagandistas da direita em plena campanha eleitoral? Porque quem sabe se todo este imbróglio não fazia mesmo parte de uma estratégia pensada pela direita para conseguir mais facilmente aquilo que se adivinha vir a ser uma hipótese remota, com ou sem Santana Lopes: recuperar o controlo do município?
O excelente trabalho conseguido em mandatos sucessivos de António Costa e Fernando Medina não pode ser desperdiçado pela política sem escrúpulos de uma direita capaz de agir cada vez mais como uma delinquente ideológica. É que o modus operandis da direita brasileira não é exclusivo dos que conspiraram contra Dilma: um pouco por todo o lado, os que defendem a preservação do sistema de exploração capitalista não olham a meios para salvaguardarem os seus interesses. Aparentando algum acatamento nas regras democráticas nuns casos, espezinhando-as totalmente noutros como sucede na Turquia, na Hungria ou na Polónia.
Por cá a direita ainda não se definiu como deverá agir: ora fingindo-se respeitadora de uma Constituição, que desejaria torpedear, ora conspirando contra os seus inimigos fidalgais para o que conta com a colaboração da generalidade dos jornais, das televisões e do ministério público.
A requalificação da Segunda Circular continua a ser uma obra urgente para a cidade e terá de ser retomada a fim de conseguir que a cidade se vá tornando cada vez mais bela e assim suscite uma maior atração pelos fluxos turísticos, que gerarão receitas não despiciendas para a nossa economia.
Algo terão aprendido os futuros candidatos à empreitada em causa: o edil de Lisboa está atento e não permitirá que a tal transparência, legalidade e correção possam ser postas em causa.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Não quero cair em tal pecado!

Sei que subscrever a opinião de Pacheco Pereira sobre o comportamento de Marcelo como presidente, é colocar-me enquadrado numa minoria, que desejaria ver a função presidencial assumida com a tal gravitas de que Sampaio da Nóvoa era tão eloquente representante e totalmente inexistente em quem o venceu.
Posso reconhecer que o discurso de hoje na abertura do ano judicial foi interessante, mas uma andorinha não faz a primavera e o que temos visto é Marcelo a posar para as revistas sociais, a comentar tudo e mais alguma coisa como se a palavra de um Presidente fosse bem mais valiosa do que o seu justificado silêncio e  tirar muitas selfies no meio do povo como se estivesse ainda em campanha eleitoral.
O pior é se constitui essa a sua intenção, por muito que diga o contrário: Marcelo parece tão ávido de conseguir um segundo mandato em que consiga ter votações kimjongunianas que já não me admiraria nada que um dia destes me batesse à porta e dissesse com a maior lata: “O meu amigo é o único seixalense com que ainda não consegui ficar numa fotografia. Ora arreguenhe lá esse sorriso!” E catrapumba! Lá podiam os meus amigos zombarem muito justificadamente comigo, dizendo-me : “Até tu, impenitente criatura, caiste no pecado marcelar!!!”
E lá me via eu obrigado sabe-se lá a quais difíceis penitências.
Não! Em definitivo não é com papas e bolos - mesmo sendo um reconhecido guloso! - que este Presidente me convence. Sobretudo, porque queria no lugar quem fosse bem mais do que um mero especialista em relações públicas!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O outro lado dos números do INE

Os últimos dias tem sido férteis em declarações dos partidos da direita a respeito dos recentes números do INE sobre o desempenho da economia portuguesa no segundo trimestre.
O veredito é repetitivo, sem qualquer nuance quanto ao que eles vêm revelando. Assim Passos e Cristas dizem que as políticas do governo não funcionam, que o crescimento é anémico e o investimento quase não existe. E é esse o discurso dos próprios noticiários televisivos, que empolam os fatores mais favoráveis à argumentação da direita, sobretudo quando dão enfase ao recuo no consumo interno. Hoje ainda vêm com o argumento complementar da dívida soberana ter atingido novo valor record.
Será mesmo assim ou, uma vez mais, estamos perante uma mistificação dos números apresentados, diabolizando os que são mais favoráveis aos que contestam o governo e esquecendo os que vão no sentido contrário?
Por exemplo os do emprego que não só aumentou em volume como decresceu em percentagem dos que ainda o não têm.
Mas optemos pelos argumentos dos detratores a começar pelo consumo privado. Não é por acaso que a sua redução coincidiu com um claro recuo nas importações que, concluiu-se agora, valeram menos do que as exportações, fazendo a economia regressar a uma balança comercial positiva com o exterior.
Que tipo de produtos deverão ter sido menos comprados e por isso mesmo menos vendidos aos privados? A resposta só pode ser a dos automóveis com que as empresas de aluguer se tiveram de precaver para o mais que previsível crescimento da vinda de turistas para Portugal, e que tiveram um boom  neste terceiro trimestre.
Não existem, pois, razões para a direita lançar foguetes: a descida do consumo interno é compensada pela redução dos custos com as importações, o que só traz benefícios imediatos ao andamento da economia. Ademais esse comprovado crescimento do turismo, que será em números neste terceiro trimestre, poderá alavancar a percentagem no PIB para os tais 1,4%, que consta das previsões da Comissão Europeia, e bastante acima dos 0,9% atualmente verificados em termos homólogos.
Estamos, pois, num pequeno intervalo em que a direita ainda pode usar as carrancas fechadas da Maria Luís Albuquerque e da Assunção Cristas para reiterarem a vinda do Diabo prometido por Passos Coelho para este mês, mas os números do final do terceiro trimestre poderão causar-lhes sérios engulhos.
Mas aproveitemos também para lembrar como a mistificação em torno da nossa suposta dívida record face ao exterior, mais não constituir do que uma preventiva atitude de quem se responsabiliza pela sua gestão para aproveitar os juros mais baixos atualmente constatáveis no mercado para, com vantagens óbvias, substituir a componente ainda remanescente da época em que eles eram bem mais elevados.
Trata-se daquele fenómeno das transformações físicas em que uma tendência, antes de descer abruptamente, conhecer um derradeiro ímpeto no sentido em que vinha a verificar-se: é para que essa queda abrupta na dívida se verifique e se torne mais sustentável, que se têm verificado estas sucessivas emissões de obrigações, avidamente disputadas pelos investidores institucionais e internacionais.