terça-feira, 23 de agosto de 2016

A “naturalidade” de se ser de direita

No artigo que hoje assina no «Publico» («O jornalismo tem razões para se arrepender todos os dias») José Vítor Malheiros arrisca seriamente a sua continuidade como colaborador no jornal da Sonae ao verberar a forma como ali foi tratada a recente  entrevista a Catarina Martins, em que lhe puseram na boca palavras em clara oposição com tudo quanto ela ali diz.
JVM começa por pegar num exemplo bastante elucidativo: na RTP, onde colaboradores seus têm lugar garantido nos vários painéis de comentadores, nenhum pivot os anuncia como pertencentes a uma publicação da direita radical, «O Observador», que foi criado por um conjunto de gestores ultrarreacionários para favorecer a sua agenda de privatizar tudo quanto no Estado ainda dá lucro, desregulamentar todos os mecanismos impeditivos de fazerem bons negócios e eliminar da lei tudo quanto ainda possa proteger quem trabalha.
No entanto, e se por hipótese académica, o «Observador» fosse uma publicação de esquerda, logo veríamos os mesmos pivots a sublinharem essa condição como se aceite como natural a pertença à direita e uma excentricidade a opção pelo campo ideológico contrário.
Da mesma maneira não escapa a JVM o esgar quase inconsciente, que os pivots dos telejornais fazem quando referenciam algum dirigente do PCP, o que não acontece quando citam Passos Coelho ou Cristas nos maiores dislates que possam estar a dizer, mas cujo fundamento nem sequer equacionam.
Estamos numa fase crucial no que diz respeito ao tipo de comunicação social, que existe para nos informar. A atualmente existente desinforma-nos, quer-nos manipular, procura aliciar-nos para valores cuja falência está mais do que comprovada por factos, que tudo fazem por nos sonegar.
Criar as condições para a viabilização de imprensa escrita e audiovisual de acordo com o que precisam os cidadãos para tomarem mais responsavelmente as suas decisões torna-se imperativo, que não pode ser adiado por mais tempo. Importa criar uma grande movimentação de quem, nas redes sociais, está disposto a apostar em tal tarefa. Contribuindo para que, sem espectadores ou leitores, a atual comunicação social dominada pelos interesses dos que pretendem continuar a ser donos disto tudo conheça a merecida falência.

A modernização japonesa não significou ocidentalização

Em 1853 quatro ameaçadores navios de guerra americanos apareceram na baía de Edo, a maior cidade japonesa para forçarem os “anfitriões” a reabrirem o comércio, que os shoguns tinham proibido nos últimos dois séculos.
Face aos canhões apontados para os principais edifícios do poder político, este cede e assina tratados desiguais, que logo suscitaram um debate intenso na elite governativa. Esta sente a urgência em compreender como conseguiram os bárbaros tornar-se tão imbatíveis.
A crise interna teve as suas consequências:  em 1868 o desacreditado shogun é derrubado e substituído por quem fora esquecido durante séculos a fio - o Imperador, que abandona o seu palácio em Kyoto e instala-se em Edo, doravante conhecida como Tóquio. É o início da era Meiji, durante a qual o Japão irá evoluir e equiparar-se ao ocidente.
Durante décadas os historiadores ocidentais leram essa época de acordo com os seus padrões culturais e por isso mesmo concluíram que se tratou de uma acelerada ocidentalização, com os nipónicos a copiarem tudo quanto tinham visto aos estrangeiros.
Pierre-François Souyri, professor da Universidade de Genebra, tem uma leitura diferente: em aparência o Japão ocidentalizou-se , mas, na realidade, modernizou-se sem se ter verdadeiramente ocidentalizado.
A realidade manda reconhecer que a Revolução Industrial começara muito anos dessa prova de força dos ianques quando, em 1820, surgiram manufaturas têxteis em Osaka e uma grande aposta nas políticas educativas.  Os mais letrados também já se insurgiam contra o fecho dos portos a navios estrangeiros.
Por isso, aquando do ultimato norte-americano os japoneses já estavam intelectualmente preparados para avançar para tal modernização. Tanto mais que os avanços educativos tinham muito de confucionista e é nesse quadro que a apetência pela mudança se faz sentir.



Problemas no Paraíso

Inicio agora a leitura de «Problemas no Paraíso», o livro que o filósofo Slavoj Žižek escreveu para abordar a nossa contemporaneidade em que, parafraseando Brecht, “o que é o roubo de um banco quando comparado com a criação de um banco?”
Nada pois que ver com «Trouble in Paradise», o filme que Ernst Lubitsch assinou em 1932, e em que os problemas do título tinham mais a ver com equívocos sexuais.
O Paraíso de Žižek era o que Francis Fukuyama anunciava como sendo o do fim da História por pressupor a aceitação universal do capitalismo liberal democrático como constituindo a melhor ordem social possível. Uma ilusão que até o seu proponente já abandonou!
Um bom exemplo do que poderia ilustrar essa Utopia neoliberal é a que se apresenta na Coreia do Sul, porém desmistificada por um texto de Franco Berardi: “o capitalismo high tech implica naturalmente um aumento constante da produtividade e uma intensificação incessante dos ritmos de trabalho, mas é também a condição que tornou possível um aumento impressionante da qualidade de vida, da alimentação e do consumo.” Mas “a intensificação do ritmo de trabalho, a desertificação da paisagem e a virtualização da vida emocional convergem para criar um nível de solidão e desespero que é difícil recusar e a que é difícil criar oposição de modo convincente.”
Os números são mais elucidativos quanto à colateralidade negativa de tal «Paraíso»: o suicídio é a segunda causa da morte dos cidadãos sul-coreanos abaixo dos 40 anos.
Uma constatação que temos de considerar nesta análise à forma tão globalizada de «paraíso neoliberal» é a capacidade de se acomodar a todas as civilizações, de cristãos a hindus e a budistas, de leste a oeste. Mais difícil tem sido a sua entrada nos países condicionados pelo islamismo: enquanto a ocidente essa modernização foi gradual a sua súbita aplicação a realidades muçulmanas causou reações de pânico, traduzidas no fundamentalismo que, mais não é do que “ a reafirmação psicótico-delirante e incestuosa da religião como a compreensão direta do Real divino, com todas as terríveis consequências que essa reafirmação traz consigo.”
Hoje estamos tão imersos na nossa realidade, que não a conseguimos ver no que tem de contraditório com tudo quanto dela deveríamos exigir. Somos capazes de achar risíveis as imagens de idolatria dos norte-coreanos pelos seus líderes, mas nós próprios revelamos idêntica submissão a rituais que conformam a aceitação de um sistema, que deveríamos constantemente subverter. 


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Dois crápulas

Numa altura em que os nossos media vão cumprindo as encomendas do Pentágono ou da CIA diabolizando Bashar al-Assad ou Nicolas Maduro, e poupando os Erdogans, os Orbans ou a clique da família Saud, foram notícia dois crápulas, que fazem a unanimidade de quase todos quantos habitam este planeta.
Ahamad al-Faqui a-Mahdi começou a ser julgado no Tribunal Penal Internacional em Haia por ter sido o responsável pela destruição de inúmeros monumentos em Tombuctu, quando o seu grupo jihadista tomou de assalto a cidade em 2012.
Contra ele não deveriam só ser considerados os crimes decorrentes dos monumentos ou dos documentos históricos destruídos, porque, enquanto chefe da polícia dos costumes teve um prazer sádico em fazer cumprir a sharia, mandando lapidar os acusados de adultério ou cortar as mãos aos supostos ladrões.
Num país como o Mali, onde a paixão pela música  é identitária, os que a ouviam ou tocavam não escaparam ás chicotadas por ele decididas.
Agora, fingindo um arrependimento em que ninguém acredita, surgiu em tribunal a reconhecer-se culpado. Como poderia ser de outra forma se as provas para o condenarem são irrefutáveis?
Até certo ponto pode-se questionar por que lhe são dadas garantias de defesa, que  sempre negou às suas vítimas enquanto se sentiu imbuído de um poder absoluto.
Também essa sensação de impunidade é a que se está a colar a Rodrigo Duterte, uma espécie de Trump, que conseguiu ser eleito presidente das Filipinas graças ao seu asqueroso discurso populista e, desde então, tem proporcionado aos polícias a autorização para fuzilarem sumariamente quem suspeitem de envolvimento no negócio da droga.
Nós sabemos bem o que esse tipo de «liberdade de ação» significa: à pala de uns quantos dealers, safam-se sempre os verdadeiros donos desse tipo de tráfico, e limpam-se as ruas de quem nada tem a ver com o assunto, mas desagrada por esta ou aquela razão a quem se sente no direito de disparar primeiro e perguntar depois.
Claro que a ONU aconselhou o ditador (“democraticamente eleito”) de Manila a ter mais contenção no gatilho, mas só exasperou a besta raivosa, que ameaçou retirar-se da organização.
Talvez fosse bom que isso sucedesse, porque existem governos, que bem merecem ser ostracizados como párias e sujeitos às mais rigorosas sanções. Mas, nesse capítulo, a comunidade internacional dispara sempre ao lado, punindo quem não deve e deixando incólumes quem mereceria ser definitivamente banido do convívio com as demais nações civilizadas. 

Eles a quererem-nos tomar por ingénuos!

Uma das muitas mentiras engendradas por Passos Coelho ao longo do seu mandato foi a de que iria promover a nomeação de dirigentes da Administração Pública através de concurso de forma a eliminar a tradição de, cada governo, arranjar poiso dourado nesses cargos para os seus apaniguados.
Depressa se concluiu qual era o plano em causa: criava-se uma Comissão dita independente, que escolhia entre os candidatos os três nomes, que ajuizava serem os mais adequados para cada função e o governo escolheria qual deles preferiria. Resultado: 100% de nomeações de gente conotada com o PSD ou o CDS.
Seria, pois, natural que a tomada de posse do novo governo desse lugar a uma imediata revisão dessas nomeações, porque, não sejamos ingénuos, todos os que delas tinham beneficiado estavam em cargos de responsabilidade donde lhes seria fácil sabotarem as novas políticas a serem implementadas. Um desses nomeados até estava em posição de definir a que empresas privadas iria atribuir os 6 mil milhões de apoios provenientes de um programa europeu no que isso subentende de satisfação de predeterminadas clientelas!
Demiti-los liminarmente dessas funções, constituiu uma obra meritória de saneamento público e de prevenção contra os danos que poderiam advir da sua conduta.
É claro que muitos dos visados portam-se agora como impolutas criaturas ofendidas com a desconfiança de que são alvo e iniciaram litigância contra o Estado.
Não se trataria de matéria digna de notícia - quantos casos hoje em curso nos Tribunais do Trabalho merecem tal atenção dos media, nomeadamente dos que muito justificadamente opõem trabalhadores contra empresários? - se o «Público» não fizesse disso tema de capa e a SIC (somada provavelmente aos demais canais!) não andasse a referi-lo  a todas as horas?
A falaciosa promessa de Passos Coelho tinha por trás a intenção de encher o topo da Administração Pública com quem se predispusesse a fazer dela o braço armado das políticas da direita. Corrigir essa situação e, até virá-la do avesso, é mais do que necessário.

domingo, 21 de agosto de 2016

Uma relação de forças que urge corrigir

Lata é o que não falta ao Paulo Baldaia, quando prevê maior agressividade dos comentadores políticos contra o governo de António Costa por ter tido um mês de agosto algo comprometedor com as histórias das viagens a França para ver o futebol, os fogos espalhados por todo o território e as atitudes menos compreensíveis na gestão do dossiê da Caixa Geral de Depósitos.
Para o futuro diretor do «Diário de Notícias», a coisa seria mais ou menos assim: dando ao governo um suposto estado de graça, os comentadores em causa, afiariam agora as garras e passariam doravante a ataca-lo sem qualquer prurido.
Baldaia bem pode fingir que tem vivido noutro país, que bem o temos visto a criticar continuamente a governação socialista a coberto de uma aparência de «objetividade». Olhando para a generalidade da imprensa escrita e televisionada desde há muitos anos que existe um claro desequilíbrio entre os defensores da direita e os da esquerda. Já assim sucedia nos tempos de Sócrates e bastou ele ensaiar algumas tentativas para contrariar essa relação de forças e bem se viu o que veio a acontecer: muito do que se tem passado com a suposta «Operação Marquês», nomeadamente qanto á promiscuidade entre alguns jornais e televisões com o Ministério Público, tem muito a ver com esse medo sentido à direita quanto à possibilidade de perder o monopólio da manipulação das consciências.
É verdade que este mês não tem sido particularmente benigno para o governo, tanto mais que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa também nada facilitam com declarações incendiárias destinadas a vender caro o seu voto positivo no Orçamento para 2017. Mas todos deveremos ter a noção de que funciona aqui o jogo dos oito e dos oitenta. Tudo o que de bom o Governo fizer será minimizado pelos media, enquanto qualquer erro tenderá a ser enfatizado como se de crime de lesa pátria se tratasse.
Cabe-nos a nós, nas redes sociais,  irmos criando algum reequilíbrio, enquanto não se conseguem alterar os jogos de forças no universo dos que mandam nos jornais e nas televisões.

sábado, 20 de agosto de 2016

Facts, just facts

(1) Sete meses depois dos eleitores portugueses terem desperdiçado a oportunidade de terem como presidente da República uma personalidade da estirpe de Sampaio da Nóvoa - algo com que nunca me conformarei! - os jornais voltam a essas eleições para dar notícia dos saldos das contas das campanhas. E, confirmando a superioridade ética e moral, que o caracteriza, o antigo reitor da Universidade de Lisboa comprometeu-se com a entrega do 80 mil euros de saldo positivo para bolsas de estudo ou de investigação nas áreas da participação cívica.
Eu sei que ainda sobram por aí muitos iludidos com o mandato daquele que se tem particularmente distinguido como co-modelo para selfies alheias, mas o tempo dará razão às desconfianças a respeito de quem nada tem a ver com o país tal e qual apontam os rumos da atual maioria governativa. A rota de colisão está traçada e só espero que ocorra em altura propícia, que permita à esquerda limitar-lhe seriamente o potencial de nocividade colado a quem não disfarça ser um conservador decidido a travar as grandes reformas sociais e de costumes tão-só elas conflituem com a sua essência ultramontana.
(2) O Congresso do MPLA não está a ser um passeio tão pacífico quanto o desejaria a família do ainda presidente angolano. Há vozes influentes, que se começam a fazer ouvir sobre a insensatez dos rumos seguidos nas décadas mais recentes. O enclausuramento de Zédu com pouco mais do que o seu clã familiar faz presumir o final próximo de uma cleptocracia inaceitável. Sobretudo sabendo-se que andou a encher desmesuradamente os bolsos não deixando agora o mínimo necessário para investir no desenvolvimento de novas descobertas petrolíferas e muito menos afetar recursos bastantes para retirar o país da cauda da tabela na classificação internacional dos índices de mortalidade infantil.
(3) Bastariam estes números para explicar o quanto de criminosa foi a política de Passos Coelho em abandonar o programa das Novas Oportunidades: 55% dos portugueses entre os 25 e os 64 anos não concluíram o ensino secundário. O que faz do nosso país um dos mais atrasados de quantos se enquadram na OCDE.
É certo que, em termos de pior ministro da Educação do último século, Nuno Crato pede meças ao salazarista Carneiro Pacheco que infletiu as políticas educativas da I República, porque a maioria dos portugueses deveriam contentar-se com uns rudimentos de leitura e de contas de somar.
Tendo em conta que o governo de Passos Coelho pretendia desqualificar suficientemente os portugueses de forma a que se tornassem tão competitivos quantos outros povos conhecidos pelo seu analfabetismo - o Bangla Desh ou o Vietname - compreende-se que considerasse um luxo a aposta na educação, sobretudo se dedicada a adultos.
Muito tem de trabalhar a atual equipa da Educação para recuperar o atraso provocado pela trágica herança do crítico do «eduquês», insulto com que quis reduzir as competências académicas dos portugueses.
(4) Segundo as contas agora anunciadas as diatribes da clique cavaquista no BPN deverá custar-nos a todos mais de nove mil milhões de euros. E perante tanto crime financeiro ali perpetrado o Ministério Público não parece ter pressa nenhuma em apurar responsabilidades. Como se esperasse a morte natural de Oliveira e Costa para arquivar  um caso que é, definitivamente, o melhor exemplo do que uma autêntica mafia, colada ao antigo presidente da República, foi capaz de fazer para garantir aos seus acólitos as prebendas que nem as fortunas familiares, nem o mérito, poderiam alguma vez justificar.

Veneza em perigo

Um dos anacronismos mais absurdos da indústria turística atual é a de levar enormes paquetes a Veneza, criando imagens quase obscenas de conveses mais elevados do que a altura do Campanile. Para além da agressão estética, que esse contraste suscita, a turbulência das águas por tais navios cria esforços tão violentos na estrutura em que assentam os edifícios da cidade, que esta é dada pelos especialistas como estando em sérios perigos de se manter como está.
Daí a movimentação de grupos de esquerda e de defesa da cidade, que optaram por bloqueios à deslocação de passageiros entre a escada de portaló e a cidade ou vice-versa para grande escândalo dos poucos que aproveitam com esses breves visitantes.
Confesso que a primeira das vezes, que me desloquei à cidade dos Doges foi a bordo do paquete «Funchal», mas este, na sua escala reduzida - o último presidente do Estado Novo até o considerava como uma espécie de seu iate particular! - não criava esse efeito paradoxal entre uma modernidade invasiva e a arquitetura da cidade. Até porque atracámos numa zona mais periférica do Dorsoduro, relativamente distante da Praça de São Marcos, à qual acedíamos depois de passarmos por bairros com estaleiros de construção e de reparação de gôndolas e pelo emblemático edifício da Alfândega.
Na mais recente visita à cidade, já em contexto de férias, ainda não se notava esse fluxo incessante de paquetes, mas a cidade parecia abarrotar com um número excessivo de forasteiros. A solução para usufruirmos verdadeiramente o clima veneziano implicava, ora a deslocação para zonas mais afastadas do circuito entre a Catedral e o Rialto, ora à noite, quando os cafés em frente ao Palácio dos Doges ganhavam a magia da música excelentemente interpretada por instrumentistas vindos dos países do Leste Europeu e o siroco parecia limpar toda a poluição ali acumulada durante o dia.
As autoridades da cidade estão, hoje, confrontadas com problemas muito sérios, porque ou proíbem o acesso dos grandes paquetes aos seus cais para pouparem os efeitos da ondulação nas estacas de madeira sobre as quais assentam todos os edifícios - cada vez mais instáveis na sua progressiva degradação -, ou verão o afluxo contínuo de receitas turísticas declinarem até à dimensão do desastre económico e social. É que a população residente na cidade vai-se reduzindo à medida que aumenta o custo de vida e o dos alugueres ou venda dos apartamentos, criando-se a natureza de mero parque de diversões para quem diariamente ali acorre para o visitar ou nele trabalhar.
Os problemas que se colocam a uma cidade como Lisboa, que está a combater a desertificação do seu centro histórico, faz-se sentir de forma bastante mais gravosa na cidade do Adriático. E as decisões dos políticos tardam antes de ver a cidade transformar-se numa decrépita Disneylândia abandonada sem verbas bastantes para a salvarem da acelerada ruína.
Veneza é, assim, uma das cidades europeias em perigo mais iminente. Sem que se lhe conheça líder visionário capaz de a fazer sair da aparente queda para um inclinadíssimo abismo.



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Hoje, como socialista, tenho de dar a razão ao Bloco de Esquerda

1. Há aspetos da governação socialista, que me são difíceis de engolir e um deles foi o de olhar para a proposta dos novos administradores para a Caixa Geral de Depósitos e encontrar nomes como os de Leonor Beleza, de Ângelo Paupério ou de Paulo Pereira da Silva, cujos conhecimentos sobre o negócio bancário eram mais do que uma incógnita e cujo entusiasmo pelo austericídio imposto pela troika não pode ser ignorado.
Sempre supus que Centeno e Mourinho Félix se sentissem de alguma forma obrigados a aceitar tais «cabeças de cartaz» por exigência de António Domingues para aceitar a liderança do Banco. Por isso fiquei assaz satisfeito com o chumbo do BCE a tais nomes, considerando estar-se a fazer justiça por linhas tortas.
Julgaria que as decisões da instituição de Mário Draghi desse a oportunidade ao governo de parecer mais sério nesta matéria, aproximando a composição final da Administração com o que a sensatez ditaria como desejável.
Afinal, contra tudo e contra todos - incluindo o Bloco de Esquerda, o PCP e a própria Comissão de Trabalhadores do Banco - o governo anuncia alterações da legislação para tornar legal o que foi agora dado como o não sendo. E, espanto maior, alega sermos um país pequeno pelo que torna-se natural que haja gente a acumular lugares de administração em várias empresas e bancos.
Não compro de modo algum esta tese, porque olhando para o número de cargos exercidos simultaneamente por gente como Marques Mendes ou António Vitorino, entendo-o como condenável e propiciador de situações ambíguas típicas do lobying, senão mesmo de manifesta corrupção.
Ademais, quando uma nova Administração nem sequer coopta para integrá-la nenhum alto quadro do Banco - que seria quem melhor lhe conheceria os pontos fortes e os pontos fracos - há muito que colocar em causa no que, a este respeito, vem sendo feito. Por isso só posso apoiar a oposição que o Bloco e o PCP já prometem avançar nesta matéria...
2. Se não fosse trágico, o discurso do cleptocrata que ainda comanda os destinos dos angolanos e aproveitou a tribuna do Congresso do MPLA para dissociar o que, em seu entender, são os bons e os maus empresários, tornar-se-ia em algo de risível: Não devemos confundir os empresários com os supostos empresários que constituem ilicitamente as suas riquezas, recebendo comissões a troco de serviços que prestam ilegalmente a empresários estrangeiros desonestos, ou que façam essas fortunas à custa de bens desviados do Estado ou mesmo roubados”  e acrescentou a necessidade de “apoiar mais os empresários com provas dadas”.
Não temos dúvidas, que estes “empresários” com provas dadas são os filhos e os amigos de Zédu, que conseguiu transformar um dos mais promissores países africanos num desolador cenário de pobreza e de injustiça para quase todos, a fim de garantir os obscenos privilégios de um punhado ínfimo de beneficiários.
E, quando o Parlamento luandense prepara legislação ainda mais repressiva contra a liberdade de imprensa e de expressão de pensamento, custa ver na presença de todos os partidos portugueses, à exceção do Bloco de Esquerda, a caução para todos os dislates dos que, arrogantemente, se julgam infinitamente no poder.