segunda-feira, 8 de agosto de 2016

As idiossincrasias do Alaska na campanha presidencial dos EUA

A Isabel Lucas, jornalista do «Público», anda a viajar pelos Estados Unidos, patrocinada pela Fundação Luso-Americana, para dar conta dos espaços abordados na escrita dos seus escritores atuais.
Esta semana tivemos o longo artigo dedicado ao universo de David Vann.  “A Ilha de Sukkwan”, o seu título mais conhecido, tem muito de autobiográfico sobre a experiência de infância vivida no Alasca. De facto em «Legend of a Suicide» ele dá conta da experiência de um dentista, que vai viver com o filho para uma das zonas mais desérticas na já de si quase despovoada região, e aí se suicida. A diferença em relação à vida real foi que Vann recusou o convite do pai para passar esse verão com ele e preferiu ficar na Flórida, para onde acompanhara a mãe depois do divórcio. E, nessa mesma altura, o progenitor escolheu rebentar com os miolos.
Mas, mais do que a vertente literária da reportagem, o que apreendemos do texto de Isabel Lucas é o conjunto de idiossincrasias de quem vive ali e explicam a razão de ali estarem tantos entusiastas apoiantes da mais troglodita direita norte-americana. Basta lembrar que Sarah Palin foi ali governadora e continua a ser das suas políticas mais relevantes.
O Alasca representa um tipo de universo, que ajuda a explicar o efémero sucesso que Donald Trump conseguiu ao ser designado candidato republicano para a Casa Branca. É que, tratando-se da “Última Fronteira” ali chegaram os derradeiros representantes de uma cultura de faroeste em que tudo vale, a começar por disparar primeiro e perguntar depois. Os defensores da NRA têm aí apoiantes fervorosos, sendo um dos Estados onde a compra e posse de armas é mais facilitada.
Tratando-se, igualmente, de terras com densidade populacional muito baixa, os escrúpulos da lei aligeiram-se e a sobrepõe-se-lhe a lógica do mais forte. Daí a intenção da maioria dos que ali vivem em se dizerem apenas de passagem: a iminência de uma violência não declarada, mas pressentida, justifica a intenção de ganhar tanto dinheiro quanto possível e demandar depois os Sunshine States do sul, onde os dias e as noites têm durações e temperaturas mais equilibradas ao longo do ano.
Explica-se assim, que o próprio David Vann nunca tenha sentido nenhuma atração por voltar ali tanto mais, que o livro aqui citado exprime um sentimento de culpa íntima, que a escrita terá ajudado a diluir. No entanto não terá sido por acaso, que escolheu para viver em grande parte do ano uma outra paisagem não muito diferente, mas onde as pessoas adotaram comportamentos completamente diferentes: a Nova Zelândia.
É que, pensando nesse país austral ou noutros onde os rigores da Invernia justificaram a presença humana mais mitigada - e penso necessariamente nos países escandinavos! - essa cultura de faroeste não encontrou ali qualquer expressão.
Trump surge como um descendente espúrio dessa tradição e não é propriamente um acaso que o dirty Clint Eastwood seja das escassas personalidades de relevo a apoiá-lo. O vale tudo, independentemente dos escrúpulos, não faz qualquer sentido numa civilização onde a violência tenderá a ser cada vez mais execrada por valores, que retomam a sua importância como se viu no relativo sucesso da campanha de Bernie Sanders.
Os últimos cowboys estão a morrer, e encontram no anacrónico cangalheiro de Atlantic City o seu mais histriónico estertor.

Uma União sem conserto

Existirá ainda salvação para o projeto europeu?
Fiel ao seu ideário de salvaguarda do capitalismo só a direita parece apostada em crê-lo, e aqui se incluem os que, ainda dentro do Partido Socialista, não se reveem na atual solução governativa. Francisco Assis é o seu exemplo mais eloquente, muito embora todo o setor derrotado nas Primárias de 2014 deva continuar a crer no futuro de uma instituição que lembra um navio a meter água por ambos os bordos.
É certo que António Costa tem mantido um discurso ambíguo de quem vai reconhecendo os limites do seu desejo de mudança no presente estado das coisas, mas ainda sabe ser cedo para redefinição constitucional do país quanto aos seus compromissos internacionais como desejariam os parceiros parlamentares. Mas quantos socialistas identificados com a estratégia do seu líder podem discordar de João Semedo quando, na entrevista de ontem ao «Público», fez a sua leitura do que se está a passar?
“O Reino Unido vai deixar a UE, vários Estados membros não cumprem resoluções do Conselho Europeu — veja o que se está a passar com os refugiados e migrantes —, as eleições para o PE têm taxas de participação baixíssimas, sempre que alguma coisa relacionada com a UE vai a votos é derrota pela certa, o desemprego não para de crescer e a economia europeia está numa crise arrastada, há pobreza na Europa como há décadas não se via, as desigualdades entre Estados e entre regiões acentuam-se em vez de se esbaterem. É difícil não ver nisto uma União Europeia a desagregar-se, lenta mas inexoravelmente. A UE falhou e não vejo que tenha conserto.”
Os ingleses e os galeses, mesmo que manipulados pela demagogia populista do UKIP e de um setor importante dos tories, puseram o acento na ferida, quando repudiaram a presente falta de democracia nas instituições europeias e o seu enfeudamento aos interesses dos grandes grupos financeiros. Depois de ter constituído a esperança de se transformar na tradução prática de uma Europa das nações e dos seus povos, a União Europeia constituiu-se, nas alterações subsequentes à queda do Muro de Berlim, como a ferramenta ideal para o capitalismo europeu se reestruturar e encontrar um modelo eficaz para ir sobrevivendo.
Nesse sentido, e por muito que os teóricos do marxismo e do leninismo tenham teorizado sobre a necessidade de internacionalização dos explorados - era a palavra-de-ordem “Proletários de todos os países, uni-vos! - foram os capitalistas a serem mais lestos na consagração desse princípio. E, hoje em dia, até se revelam particularmente eficientes na exploração da tónica nacionalista, que só facilita a sua estratégia de ir dividindo para reinar. Não espanta, pois, que a classe dominante representada pelos seus governantes, ou pela maioria dos seus partidos, tenha sido tão bem sucedida na difusão da ideia de se trabalhar arduamente no norte da Europa para que os “madraços” do Sul recebam fundos europeus e financiamentos a juros quase inexistentes.
Para João Semedo os danos são irreversíveis e a luta para os reverter vai ser prolongada: “a União hoje é um enormíssimo mercado e é isso que interessa aos seus mentores, é isso que protegem. Não creio que tanto poder se esfarele como se esfarelou a União Soviética e os países do Pacto de Varsóvia. Vai ser um duro e prolongado confronto.”
Mas como cantava Zeca Afonso, se a luta é dura, mais dura é a razão que a sustem. E por isso continuamos apostados nela. Diariamente e sem perder o norte... 

domingo, 7 de agosto de 2016

Paralelismos singulares

Eu sei que a grande maioria dos que me leem logo dirão “Não vale a pena gastar mais cera com tão ruim defunto!”, quando compreenderem quem aqui chamo à colação, mas um documentário da BBC sobre Richard Nixon, concebido e apresentado pelo historiador David Reynolds, permite-nos estabelecer alguns paralelos com o anterior inquilino do palácio de Belém, e até, nalguns aspetos em particular, com o atual líder da oposição.
Os três estão aparentados na origem social, que era a de uma pequena burguesia capaz de ir provendo ao seu sustento, mas sem grandes folgas. Nixon era filho de um merceeiro, Cavaco de um gasolineiro e Passos de um médico de aldeia. Todos eles cresceram em ambientes onde os preconceitos religiosos sobrepunham-se aos acenos da laica realidade e sentiriam sempre despeito perante os filhos de família das elites, que tinham podido estudar em escolas e universidades mais conceituadas e por isso acederiam mais facilmente aonde eles almejariam chegar.
Olhando para as fotografias de Nixon e de Cavaco em crianças e jovens, nota-se-lhes a rispidez do falso sorriso, que escondia o ódio de se sentirem num patamar demasiado baixo da escala social para cumprirem as suas ambições.
Não admira que chegados à vida adulta militassem ou agissem de acordo com o seu anticomunismo larvar. Nixon destaca-se no macarthismo a perseguir comunistas ou suspeitos de deles serem próximos e Cavaco vai à Pide para comprovar o seu conforto com o regime salazarista.
Porque eivados de complexos de inferioridade, hão-de compensá-los com a autossuficiência do seu pensamento: sentir-se-ão sempre dotados da razão. Eles sabem e nunca se enganam. Passos a quem a juventude permitiu alguma catarse sobre esse lado mais despeitado da sua personalidade, dissocia-se destas últimas características, muito embora em algumas alturas se lhes pareça replicar, como sucede com as suas certezas sobre os «benefícios da austeridade».
Prossigamos, pois, no paralelismo entre os senhores do Watergate e de Boliqueime. Um e outro sentem uma inveja enorme por quem lhes possa fazer sombra: Nixon detesta Kissinger, que lhe retira palco sobre os sucessos da distensão com a China de Mao e a URSS de Brejnev. Cavaco tudo faz para apear Sócrates, cuja visão de futuro contrasta com os seus ímpetos salazarentos de querer manter o país no diminutivo de que falava Alexandre O’Neill.
E, cereja em cima do bolo, ambos são dados à intriga, às jogadas sem escrúpulos, um criando a cultura dos «canalizadores», que redundaria no assalto ao edifício dos Democratas e o outro saindo-se mal da tentativa de criar um caso estival à conta das supostas escutas.
Resta para concluir uma outra característica comum: um e outro promovem à sua corte os medíocres, que não provém das tais detestadas elites e por isso mesmo os que nunca se cansaram de resgatar Nixon do seu justo olvido são verdadeiros sósias dos nossos duartes limas, dias loureiros e quejandos, que vindos do mesmo caldo social pequeno-burguês, muito enriqueceram sem nunca o Ministério Público ter cuidado de onde lhes terão surgido tantos proventos.
O interesse do filme de Reynolds vai, pois, muito além do da História em si: ele alerta-nos para um tipo de homens sem qualidades,  que conseguem á custa de um bem sucedido arrivismo chegarem muito além do que ditariam as suas capacidades. E isso faz-nos lembrar inevitavelmente de outro exemplo bem atual: o do novo colaborador não executivo da Goldman Sachs.


sábado, 6 de agosto de 2016

O que a direita pretende com as Sondagens

Os estudos da Eurosondagem merecem-me tanta «credibilidade» quantos os dos concorrentes que fazem do estado de alma dos eleitorados o seu negócio. Num certo sentido a empresa de Rui Oliveira e Costa até me suscita maior descrença nos seus resultados tendo em conta que vai refletindo as tendências já expressas nos da Aximage, mas salvaguardando valores ainda tidos como «honrosos» para o PSD e Passos Coelho.
Será crível que, depois de todo o mal imposto aos portugueses ,e dos sucessivos erros estratégicos já enquanto líder da Oposição, o ainda líder do PSD possa conta com mais de 41% de opiniões positivas?
As sondagens mais recentes têm pretendido criar uma mudança política, muito desejada pela direita, e anunciada em primeira mão por Marques Mendes: empolar a circunstância de, juntos, o PS e o Bloco já conseguirem a maioria absoluta, pelo que dispensariam facilmente os comunistas.
Que importa o facto de, também juntos, o PS e o PCP já conseguirem estar nesse limiar, e justificando-se, pois, a ideia de que poderiam ser os bloquistas a serem descartáveis?
Se a direita e as empresas de sondagens tentam apressar o fim da atual maioria governativa através da velha regra de «dividir para reinar» não é porque António Costa dê sinais de incómodo com os acordos assinados com os partidos de esquerda e por todos respeitados até aqui, mas porque sabem quanto, entre bloquistas e comunistas, seriam estes últimos a causar maior mossa a um eventual governo PS/Bloco através dos seus influentes aparelhos sindicais e autárquicos.
Há ainda outro fator em que os criadores desta estratégia da direita apostam: mesmo que hoje sejam críveis os 53% que a Eurosondagem atribui aos partidos da «Geringonça» (e até mesmo os 58% na Aximage) estamos perante um caso típico da tese em como a soma global dos fatores vale mais do que a das suas parcelas. Isto significa que, com um marketeiro habilidoso como o brasileiro contratado pelo PSD para as últimas eleições, e a conivência certa das televisões, rádios e jornais, conseguir-se-ia reduzir a votação da «Geringonça» à conta da contínua aposta na mensagem da falência desta «efémera» experiência governativa.
Estou convicto de que no Rato, na Rua da Palma ou na Soeiro Pereira Gomes, os estados-maiores dos três maiores partidos da esquerda estão atentos a estas formas insidiosas de precipitar acontecimentos, que o cumprimento integral dos quatro anos de legislatura deverão evitar. Mas depois da semana silly em que foram alguns secretários de Estado a porem-se a jeito para se tornarem bombos da festa de uma direita sem ideias, é altura de tudo voltar ao normal: o governo a governar, a direita a continuar à procura do labirinto em que se descobriu encerrada e a economia a dar os primeiros sinais dos desmentidos a que as UTAOs, Fitchs % Cª serão obrigadas a emitir no final deste ano.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Quando os defensores da «Geringonça» se deixam embalar pelo conto do vigário

Os últimos dias têm sido um fartar vilanagem para quem tem por objetivo criar as condições para a queda do governo liderado por António Costa.
Bem vejo uns quantos insurgirem-se contra as mentiras e as deturpações à verdade promovidas pelos josés gomes ferreiras e pelos josés rodrigues dos santos das nossas televisões, e logo os vejo a alinharem na manipulação intensiva em torno do suposto (e falso) aumento do IMI ou até a pedirem a demissão do secretário de Estado envolvido nessa revisão legislativa.
Não aprenderam ainda com a história dos colégios privados, que o padrão é sempre o mesmo? É só a direita e os lóbis a ela associados encontrarem alguma alteração do status anterior e logo iniciam a diabolização do governante em causa, acabando por promover os mais indignos assassinatos de carácter.
Com Tiago Brandão Rodrigues foram à procura de um invejoso, cuja carreira medíocre em nada se compara com o brilho da do ministro, e vieram com uma estória desconchavada sobre subsídios indevidos ou não devolvidos. Depois, com a secretária de Estado agarraram no facto dela ter a sua prole a estudar no Colégio Alemão para a menorizar, quando sabiam de sobra que ela escolheu o ensino privado, mas paga-o do seu bolso sem estar à espera da ajudinha dos contribuintes.
Falei atrás do padrão e ele lembra aquela célebre quadra do Aleixo, que constata que “para a mentira ser segura/ E atingir profundidade /
Tem que trazer á mistura/  Qualquer coisa de verdade.”
A verdade aqui foi a de um secretário de Estado ter ido a um jogo de futebol, havendo quem dentro do Partido Socialista viesse exigir a sua demissão para se manter a “coerência” suscitada pela saída de João Soares. Ó que só demonstra como, apesar de terem ficado órfãos do seu antigo líder, os derrotados das Primárias estão sempre disponíveis  para, ao virar da esquina, assentarem a sua ferroada.
Mal vão os militantes e simpatizantes do atual governo quando aceitam apontar as baterias na sua direção, desviando-as do verdadeiro perigo que está e continuará a estar na trincheira onde se acoitam os que, durante quatro anos, causaram tanto mal.
Eu sou o primeiro a desejar que os padrões éticos de quem nos representa sejam os mais irrepreensíveis, mas não estou disposto a dar para um peditório em que se prescinda da competência irrefutável de alguém só porque cometeu o erro de, na euforia de um instante, aceitar um convite, que julgava inócuo mas logo serviu para o diabolizar na praça pública.
Aceitasse António Costa a sua demissão e logo teria de prescindir de outros dois secretários de Estado, que também terão ido ao futebol, criando-se o precedente por dá cá aquela palha ir prescindindo dos membros sua equipa. E, como toda esta estratégia obedece a esse padrão, lembre-se outro exemplo em que idêntica situação quase levou à demissão do ministro da Defesa, quando abordou com lucidez e equilíbrio as práticas homofóbicas de quem dirigia o Colégio Militar.
Ao fim de dois dias, nem a vitória  da seleção olímpica sobre a Argentina, travou os ímpetos da porcina figura que lidera o CDS em querer interromper as férias parlamentares para a exibição do tipo de populismo, que vai grassando além-fronteiras e que cá devemos extirpar antes que ganhe maior dimensão. Mas para tal é preciso que os próprios defensores da «Geringonça» não se deixem levar pelo conto do vigário. Mesmo quando ele parece tão bem contado...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

As maluqueiras próprias da estação

Teria preferido que Rocha Andrade e os outros secretários de Estado não aceitassem os convites da Galp para assistirem a jogos de futebol durante o recente Europeu. A notícia só me espantou pela leviandade com que embarcaram nessa onda sem pensarem nas consequências da impensada decisão.
É que o país ainda tem uma cultura de troca de favores entre quem tem poder e quem o pretenda canalizar em seu favor para que se encare com ligeireza tais práticas. É aceite como “normal” que haja quem receba prendas e quem as dê: assim sucede com os médicos e as farmacêuticas, com os gestores das empresas privadas ou públicas e os seus fornecedores de serviços ou de materiais, ou com os jornalistas e as empresas de que se sentem marionetas (vide o último «Negócios da Semana» em que, não tendo controlado o que um convidado ia dizer a propósito do Deutsche Bank se  viu um aflito José Gomes Ferreira a prometer ouvir a entidade bancária no dia seguinte!).
O que qualquer membro da equipa de António Costa deve ter presente a todo o momento é que a incapacidade da direita em criticar o governo - que lhe tem retirado fundamentação em tudo quanto ela pudesse querer pegar - a leva a este coro de críticas obviamente empolado pela SIC, pela TVI, e até pela RTP, como se nela só existissem virgens virtuosas incapazes de pecar por atos e, até, por omissões.
Provavelmente se fosse próprio da esquerda ser tão crapulosa quanto a direita o revela ser, não seriam difíceis de encontrar pedras para estilhaçarem os seus telhados de vidro a respeito de todos os favores recebidos nos quatro anos em que nos infernizou.
Mas os cuidados constantes com práticas, que Augusto Santos Silva prometeu inserir num Código de Ética a respeitar, não impedem a forte probabilidade de, amanhã, continuando a ver bem sucedida a estratégia da «Geringonça», a direita chegue ao cúmulo de criticar um qualquer secretário de Estado por não ter ajudado uma ceguinha a atravessar uma rua movimentada ou por ter saído um impropério da boca de um ministro incautamente pisado por algum colega à entrada para os Passos Perdidos.
No fundo quem pertence ao governo tem de seguir a regra romana de, mais do que ser sério, cada um dos seus membros tem de parece-lo.
Ao contrário de alguns camaradas socialistas, que se juntaram ao coro a pedir a cabeça dos visados ou vieram para as redes sociais autoelogiarem-se de terem estado também em Lyon e terem pago para tal, considero que o melhor que têm a fazer é levar todo este assunto à conta de se tratar da «silly season» e esperarem-se dela as notícias e opiniões mais idiotas.
Na realidade o caso até pode ter sido positivo no sentido de alertar todos os governantes para a necessidade de cumprirem os valores da ética republicana, exigindo para si a probidade, que a todos caberá assumir.
Quanto ao mais, erros todos cometem e venha lá o primeiro que diga nunca os ter cometido. Na verdade a política é algo de demasiado sério para que seja entregue a quem só está interessado na chicana com que julga propiciar o sucesso dos seus ínvios objetivos.

Uma folia que não faz esquecer o essencial

“A vida não é nem tem de ser um convento (não, não sou um puritano), mas também não deve ser uma folia pessoal quando tudo á volta arde ou está em vias disso. Por menos que se queira, cada um é responsável e há mais mundo para lá do de Eros”.
Esta citação retirada de uma entrevista a Mário Dionísio em 1982 no JL de José Carlos Vasconcelos, vem ao encontro do que sinto por esta altura: as circunstâncias pessoais tendem-me para uma perspetiva otimista do dia-a-dia, mas não posso ignorar o que se passa à nossa volta. Até porque bastou existir um sujeito menor arvorado em primeiro-ministro durante quatro anos para me ver espoliado de uma parte nada despicienda dos meus legítimos rendimentos.
Estou animado com a evolução da Geringonça mas não posso ignorar os riscos que subjazem à possibilidade de um Trump na Casa Branca e/ou de uma Le Pen no Eliseu. Embora encontre nos recentes relatórios do FMI  e no recuo das instituições europeias na questão das sanções (e até no significado democrático do Brexit!), os sinais de uma mudança, que ainda conto ter vida suficiente para ver.
É verdade que, mesmo aqueles que parecem mais despertos para essa urgente alteração dos paradigmas, parecem demasiado «passivos», como mo dizia quem de França veio cá passar férias e assistiu a uma memorável noitada de homenagem ao Zeca Afonso num restaurante aqui do Seixal.
Podemos, de facto, passar uma noite em que o melhor espírito do que se viveu no 25 de abril esteve presente e em que damos a ideia de irmos depois para casa sem nada termos mudado no essencial. Mas, basta recordar como, em 15 de setembro de 2012, a direita conseguiu indignar o adormecido vulcão com a questão da TSU e quase se viu escorraçada com uma manifestação, que a assustou.
Estamos numa fase benigna em que os sinais tectónicos andam embalados pelas perspetivas otimistas da Geringonça. Mas eu não apostaria nessa passividade se, por razão ilegítima, a direita cumprisse o sonho de regressar tão cedo ao poder. A passividade dos que vivem por ora nessa tranquila expectativa pode transformar-se em súbita erupção de um momento para o outro. Basta lembrar como no início de maio de 1968 o Le Monde dizia a França entediada e, dias depois, foi o que se viu.
Que ninguém aposte na passividade de quem apenas ganha forças em merecido intervalo nas lutas de todos os dias.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Reparações em vez de sanções

Eu sei que não é de bom tom atirar ainda mais lenha para um fogo ainda na fase de rescaldo, mas o tema das sanções  continua na ordem do dia até por faltar a decisão definitiva sobre a suspensão ou não dos fundos estruturais. E não foi preciso que saísse o mais recente relatório de avaliação do comportamento do FMI sobre os chamados «programas de ajustamento» para que a Sandra Monteiro, diretora  do «Le Monde Diplomatique» assinasse um artigo na edição de julho a colocar como pertinente a possibilidade de se receberem reparações sobre os danos causados. Até porque o Brexit só demonstrou que a União Europeia “mostra nada ter aprendido com a crescente desafetação que gera nos povos europeus” com as suas orientações invariavelmente destinadas a “prejudicar as políticas de devolução de rendimentos, condições de trabalho e serviços públicos.”
As instituições europeias iludem-se com a sua vitória de Pirro sobre a Grécia, que lhes fez crer na possibilidade de se estrangular suficientemente um Governo de modo a obriga-lo a conformar-se com as imposições sobre ele direcionadas, mesmo que à custa da ainda maior degradação da sua economia.
Ao contrário do que andaram uns quantos estarolas a defender, sobretudo entre os que ainda não se conformaram com o modelo de governação estabelecido no nosso extremo ocidental da Europa, “as sanções nunca são técnicas. São, na perspetiva de quem usa a sua hegemonia como direito a matar a dissidência à nascença, uma forma de fazer regressar ao rebanho neoliberal qualquer ovelha tresmalhada. À paulada, se preciso for”.
O governo de António Costa foi irrepreensível na forma como combateu a imposição dessa ilegítima punição ciente de que ela só facilitaria “uma crise muito prolongada, com constante perda de rendimentos, níveis insustentáveis de desemprego, défices permanentes e uma dívida impagável.”
Embora poucos o digam com a necessária capacidade para se fazerem ouvir, as políticas ainda ditadas por Bruxelas e pelo FMI só servem para garantir a acumulação de lucros para as grandes multinacionais e para o vampírico sistema financeiro, “coisa que exige mais desemprego e precariedade, menores salários e pensões, menos proteção social menos Estado Social.”
Na abordagem deste estado de coisas, só podemos concordar com a Sandra Monteiro, quando ela conclui que “não deveríamos estar apenas a resistir a eventuais sanções: devíamos estar a exigir reparações pelos danos causados”.
A questão estará em discernir qual o momento certo e com que apoios externos se possam contar para alcançar esse salto qualitativo no nosso posicionamento dentro da União Europeia. 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

As lições que o Podemos ainda não quis aprender

Espanha continua sem governo e torna-se dia-a-dia mais improvável que Rajoy o consiga formar. Aquilo que as últimas eleições pareciam ter afastado - o espectro de repetição de nova consulta ao eleitorado - torna-se cada vez mais provável.
Para garantir a Rajoy uma maioria absoluta ou para precipitar a sua demissão, substituindo-o por outro líder mais assertivo para a negociação com os demais? Ainda não se sabe.
O que, porém, se confirma é a estupidez ideológica de Pablo Iglésias, que transforma o PSOE como seu principal inimigo em vez da direita. De facto o Podemos nada tem aprendido com o que se passa aqui em Portugal: em vez de encontrar os mínimos denominadores comuns, que facilitassem a formação de um governo bem mais útil à maioria dos espanhóis, aposta em ultrapassar eleitoralmente os socialistas e afirmar-se como principal força da oposição. O que tem sido objetivo fracassado e com potencial para ainda se mostrar mais inadequado para o impasse em que se caiu.
Na prática Pablo Iglésias está mesmo a pedir a lição dada pelo eleitorado a Louçã em 2011, quando viu o Bloco perder oito dos dezasseis deputados, por facilitar a formação do governo de Passos Coelho através do contributo para a queda do de Sócrates.
A esquerda espanhola ainda não entendeu o que os vizinhos ibéricos já demonstraram: que todas as vertentes da esquerda plural valem mais se se somarem do que se digladiarem. A expressão “Unidos Venceremos” continua a ser bem mais do que um mero chavão para animar manifestações!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O primeiro meio milhão

O primeiro dia de agosto também coincide com aquele em que o blogue «Ventos Semeados» alcançou o meio milhão de visualizações. Isto significa que, em seis anos, e de acordo com os gráficos que acompanham este texto, tem havido crescimento, quase exponencial do número de leitores, que buscam nele informações e propostas de interpretação do que, politicamente, vai ocorrendo à nossa volta. A tal ponto que, neste ano de 2016, em apenas sete meses, já vimos ultrapassado o record de visitas ao site verificadas no ano transato, sendo até crível que o crescimento em relação a ele duplique daqui até dezembro.
Este crescente sucesso do blogue enquanto veículo informativo aumenta a nossa responsabilidade em relação aos seus conteúdos, por muito que assumamos o compromisso de irredutibilidade quanto à expressão de opiniões republicanas, laicas e socialistas.
Vivemos num tempo em que os jornais, rádios e televisões estão na posse da tal minoria de 1% de exploradores, que aumentam continuamente a sua elevada riqueza em prejuízo dos tais 99%, que vão procurando sobreviver com cada vez menos recursos e direitos. Nesse sentido o «Ventos Semeados» inclui-se no esforço imprescindível de fazer das redes sociais a voz das informações e opiniões alternativas, que combatam o discurso dominante. É que, com a presente crise do capitalismo neoliberal, e enquanto tal sistema de exploração não descobre outra forma de se procurar perenizar, torna-se fundamental encontrar todos os meios possíveis de o enfraquecer, porque a sociedade por ele comandada nunca poderá ajustar-se aos valores da Liberdade, da Justiça e da Igualdade por que a Humanidade vem lutando desde, pelo menos a Revolução Francesa de 1789.
Por isso, mais ainda do que republicano, laico e socialista, o «Ventos Semeados» assume-se como blogue influenciado ideologicamente pelas correntes de pensamento, que procuram dar ao marxismo a sua tradução concreta num século onde a luta de classes já não se polariza entre a burguesia e o proletariado, mas mantem-se acesa entre quem mais tudo tem e quem se afadiga na luta quotidiana pela mera sobrevivência. E também a expressão de quem acredita que as religiões são das principais causadoras dos males que grassam por todos os principais continentes, servindo de alibi para a manifestação do que de pior comporta o ser humano - racismo, xenofobia, nacionalismo, terrorismo, etc.
Quando Lenine definiu a religião como o ópio do povo estava a ser poupado nas palavras, porque elas exaltam as piores perversões albergadas pelos seres humanos. Daí que as informações e opiniões aqui expressas continuem a ser as de quem vê no ateísmo uma superioridade moral e civilizacional, porventura tida como arrogante por muitos, mas que os factos apenas confirmam.
Por todas essas razões estaremos aqui todos os dias a ajudar numa luta que é de muitos, de quase todos nós! 

Fascistas sem vergonha às portas da Europa

Não tenho qualquer simpatia pela “revolução” ucraniana: na praça Maidan jovens progressistas constituíram-se em idiotas úteis dos que, provavelmente preparados por agentes de Fort Langley, arranjaram forma de correr com um presidente corrupto, mas avesso à integração do país na esfera de influência ocidental e que, ao mesmo tempo, promoveram a legitimação do passado colaboracionista com os nazis. Algumas das forças políticas emergentes em Kiev nem se dão ao trabalho de disfarçar ao que vêm: quer na simbologia, quer no discurso, a sua ideologia fascista está bem evidente e revela contornos mais do que sinistros!
Por isso lamento que um artista português, Vhils, tenha pretendido legitimar o golpe protofascista esculpindo a face de um manifestante morto pelas forças de segurança num dos edifícios próximos da conhecida praça. É que existem relatos consistentes em como o início da fuzilaria não proveio da polícia ligada a Ianukovich, mas de snipers conotados com esses movimentos fascistas, apostados em criar o clima adequado à prossecução dos seus objetivos. Que foram conseguidos!
Hoje o regime “democrático”, que comanda os destinos dos ucranianos não incluídos na faixa mais oriental onde dominam as forças pró-russas, encaram com normalidade terem sido proibidos livros e o Partido Comunista, cuja história está ligada a tantas vidas de heróis da Segunda Guerra Mundial, quando combateram os nazis envergando a farda do Exército Vermelho. Mais eloquente é ter sido resgatado como herói nacional, até com direito a nome de rua na capital, o criminoso Stépan Bandera que colaborara com os ocupantes alemães nessa ápoca através do seu Exército Insurgente Ucraniano (UPA), responsável pelo assassinato de 50 mil judeus em Lviv e de perseguições à minoria polaca.
Nesta altura a Comissão Europeia desenvolve as iniciativas ao seu alcance para dar substância à estratégia da NATO em apertar o cerco à Rússia. Muitos dos dados atrás enunciados foram retirados de uma reportagem de João Ruela Ribeiro, que se deslocou a Kiev a expensas de Junker & Cª.
O objetivo é criar nos demais povos europeus a ideia de facto consumado nessa viragem da Ucrânia para um tipo de regime bem acomodado aos piores fantasmas do seu passado. Que até são enaltecidos! Mas a ideia de substituir o Reino Unido por este putativo novo parceiro só faria pender ainda mais a União Europeia para uma direita radical, que já está demasiado representada na instituição através da Hungria e da Polónia. Importa, pois, travar tais ambições por muito que elas tenham muito peso em Bruxelas, em Kiev … e, sobretudo, no Pentágono de que a Nato é mera ferramenta!