sábado, 9 de julho de 2016

O sintoma que revela o tiroteio de Dallas

Esta semana, num daqueles documentários transmitidos pelos canais de notícias durante a madrugada para compor o vazio de nada de novo terem a acrescentar ao já por todos conhecido, pudemos ver como a extrema-direita norte-americana se anda a preparar para a explosão social de inaudita violência, que ela perspetiva num futuro próximo.
A morte dos polícias em Dallas como corolário ilógico dos crimes praticados sobre cidadãos negros nos dias anteriores - um na Louisiana, o outro no Minnesota - expressa bem a agudização por que passa a luta de classes em terras do tio Sam.
Podemos lamentar que a vingança de um autoproclamado justiceiro tenha incidido sobre um corpo policial, que melhor tem evoluído no sentido de lidar com as diferenças raciais e os movimentos de cidadãos. A própria manifestação contra as mortes dos dias anteriores tinha corrido de forma exemplar e com uma colaboração inexcedível entre a polícia e os organizadores do protesto. O que mostra os limites deste tipo de ações individuais: vitimam quem menos mereceria ser punido pelos crimes de eventuais parceiros corporativos. Tendo tantas cidades do sul dos Estados Unidos um registo tão comprometedor da prepotência policial contra cidadãos não brancos, porque decidiu o assassino realizar o seu ato naquela onde é conhecida uma atitude contrária a esses maus exemplos?
No documentário sobre as milícias patrióticas era evidente o racismo dos seus elementos. Preparados por antigos militares eles exercitam-se em cenários de guerra, que terão como inimigo preferencial o exército federal. Obama personifica o ódio de estimação, acusado de ter contrariado os «valores» previstos numa Constituição lida de forma parcial e apenas no que pareceria adequar-se aos seus ideais.
È absolutamente falaciosa a tese, felizmente cada vez menos popular, de já não se justificar a aplicação da leitura marxista da luta de classes,. Numa altura em que o capitalismo global dá sinais sérios do seu esgotamento, e enquanto não ocorrer a transição para a sua fase seguinte - a da transformação dos cidadãos em apáticos consumidores sem acesso a emprego, dotados de subsídios irrisórios, mas suficientes para manterem em funcionamento uma máquina produtiva assente em robôs e automatização! - verificar-se-á o já ocorrido noutras épocas transatas, quando essa alteração de paradigma se verificou (do capitalismo assente no comércio marítimo para o industrial, deste último para o de escala imperialista, etc): grandes contradições a nível local e transnacional passíveis de gerarem conflitos muito violentos.  O que de pior tem a espécie humana - o egoísmo, a xenofobia, o medo do que virá, etc. - tenderá a manifestar-se na forma absurda como a constatada tantas vezes nos últimos tempos. Com os refugiados e o terrorismo como meras manifestações de um fenómeno bem mais global.
É claro que toda a força exercida num sentido também gera a outra, a que força os acontecimentos em sentido contrário. Por isso temos fenómenos como o de Bernie Sanders nos EUA ou Jeremy Corbyn na Inglaterra (onde os analistas talvez se tenham mostrado excessivamente exagerados ao decretarem-lhe a iminente morte política). E também o governo português, por muito que no contexto europeu tarde em revelar-se como a andorinha que anuncia a Primavera.
Aos que acreditam que existem outros caminhos, que não os dos justiceiros inconsequentes ou dos fascistas de diversos matizes (desde os islâmicos aos do Ku Klux Klan passando pelos evangélicos, que estiveram por trás da destituição de Dilma), caberá participar nos esforços comandados pelos partidos e organizações, que creem possível um futuro bem mais auspicioso.

Empáfias...

No Liceu de Almada, quando frequentávamos os dois últimos anos do ensino secundário, já tinha uma antipatia bem assumida por Durão Barroso. A sua postura esquiva, quase sempre colocando-se à margem do convívio com os colegas, denunciava-o como um individualista só preocupado com os seus interesses próprios.
Em certa altura uma das suas atitudes de falta de solidariedade para com o coletivo dos colegas tornou-se tão evidente que, nas cadeiras do café Repuxo, à Fonte Luminosa, passámos uma tarde a preparar-lhe uma espera para lhe dar justo corretivo. O facto de termos decidido poupá-lo a uns quantos sopapos não me inibe de pensar que perdemos uma boa oportunidade em lhe aplicar um justo corretivo, mesmo que por antecipação de todas as vilanias, que lhe viríamos a conhecer.
Nunca mais o vi nas proximidades, muito embora tivéssemos depois frequentado o mesmo cenáculo maoísta. Mas, entre os que o tinham conhecido no liceu, o espanto era genuíno: um tipo sempre conhecido por não se interessar senão por ele próprio ia agora «defender a classe operária»?
- Du jamais vu!
Nos anos seguintes fomos acompanhando as sucessivas fases para onde o ia guindando a sua natureza arrivista tramando todos quantos pudessem prejudicar-lhe a ambição e, quando isso já não chegava, tratando de estragar a vida a milhões de pessoas, entre iraquianos que ajudou a matar com a sua cumplicidade para com Bush, e os muitos europeus prejudicados não só pelas consequências dessa guerra, mas também por todas as decisões da Comissão Europeia durante os anos em que ele personificou a implementação da agenda neoliberal.
Se existisse um concurso sobre a personalidade mais odiada pelos portugueses nesta altura o sr. Schäuble teria boas hipóteses de sair vencedor, mas Durão Barroso poderia perfilar-se como adversário temível para o alemão.
É claro que a direita exultou com a nomeação de um cargo não executivo para a Goldman Sachs. Na mente muito pequenina dos nossos saudosistas do PàF isso significa uma distinção, que lhes enche a empáfia. Mas para quem conhece aquele banco até esta notícia tem de ser relativizada.
É que desde a altura em que cometeram a imprudência de contratar António Borges para um cargo executivo (mas atenção que ser vice-presidente na Goldman nada tem a ver com aquilo que a direita quis fazer crer, já que são centenas os assim designados chefes de departamentos só na City!), os donos da instituição têm redobrado de cuidados quando tratam de convidar as “estrelas cadentes” do firmamento direitista português.
Borges, a quem a condição de defunto não nos deve inibir de classificar como um vaidoso incompetente, foi daqueles que um par de anos depois de chegar à Fleet Street ao som de trombetas e gaitinhas, teve de procurar outro emprego. Ainda conseguiu enganar o FMI mas não tardou a sentir-se sem pedalada para a função, demitindo-se antes de ser demitido. Em má hora, porque Passos logo decidiu pagar-lhe 25 mil euros mensais para ajudá-lo na tarefa de privatizar empresas públicas rentáveis tornando-as ótimas oportunidades de negócio para os tais amigos com que andava a cultivar as afinidades eletivas.
Foi essa a razão porque com a «estrela» seguinte (José Luís «Asnô») o cuidado já incluiu só o ter como consultor. Ainda assim com estragos consideráveis pois dizem as más línguas, que os conselhos para compra de ações do GES pelo novo empregador resultou num prejuízo, que ainda está por resolver em tribunal. Com hipóteses significativas de não vir a ser recuperado.
Compreende-se, que deem a Barroso um cargo em que ele ganhará apetecido ordenado sem ter de fazer mais nada do que «passear o charme» de lobista. Que é a única razão porque interessa a Lloyd Blankfein e seus muchachos.  É que competências justificativas para chegar onde chegou nunca ninguém as vislumbrou, se excetuarmos as da habilidade arrivista com que sempre se conseguiu vender como o «génio», que nunca foi…
Resta-nos uma consolação: com Portas e Barroso arrumados, quem restará à direita para apresentar à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Pensamentos políticos nada corretos

Não são poucas as vezes em que, vendo os atentados terroristas numa Bagdad juncada de ruínas e de ruas ensanguentadas pelo martírio de crianças, penso no quanto se passará na mente dos antigos sonhadores de um país conforme com os padrões democráticos ocidentais.
E não só em Bagdad. Também no Cairo, quando encheram a Praça Tahrir e não tardaram a ver a partida de Mubarak transformada no sucesso dos islamitas radicais. Ou em Alepo, quando se julgaram com capacidade para enviar Assad para Moscovo e afinal abriram as portas a todas as formas mais extremistas de impor a religião.
Desde sempre que defendi a vantagem de apoiar regimes autoritários, mas radicalmente laicos, mesmo que à custa da repressão de quantos ali apostam na conjugação de religião com exercício do poder.
Por muito que os meios de informação ocidentais teçam de Assad a imagem de cruel ditador, prefiro-o mil vezes aos seus opositores cujas práticas assassinas conseguem ser bastante mais repugnantes.
E não me falem de uma suposta oposição democrática -  aquela mirifica corte de oportunistas que também estiveram presentes no Iraque e até foram dos mais destacados denunciadores das armas de destruição maciça, que ninguém depois ali conseguiu encontrar.
Se não são os idiotas uteis, que serviriam de batedores a regimes assentes na sharia, depressa se revelariam novos ditadores a pretexto de contarem com uma oposição demasiado forte à sua fraca representatividade social apressando-se a fazer bem pior do que o odiado presidente, que tenham entretanto ajudado a derrubar.
Não espanta, pois, o que uma reportagem da BBC mostrou recentemente, quando foi à procura do homem entusiasmado há treze anos em derrubar a estátua de Saddam Hussein em Bagdad. Khadim al-Jabbouri, assim se chama, estava então esfuziante com a vitória sobre aquele que mandara executar catorze dos membros da sua família e o mantivera preso durante dois anos. Agora é um homem arrependido: é que “Saddam foi-se, mas agora temos mil Saddams.”
É mais do que evidente que, enquanto o ocidente não apostar seriamente na segregação de regimes como o qatari ou o saudita, que financiam ativamente o terrorismo islâmico, nenhum modelo ocidental conseguirá frutificar no Médio Oriente. E, mal por mal, antes ditadores laicos, que defendam a existência de outras comunidades (católicas, judaicas, etc) para além das maioritariamente muçulmanas e garantam às mulheres os direitos, que os seus detratores se apressam a recusar.
O Iraque teria ficado melhor com Saddam, a Líbia com Khadafi ou a Síria com Assad, se o Ocidente tivesse continuado a pressioná-los para um maior respeito com os direitos humanos e com a sua efetiva laicização. Para já o problema europeu com os refugiados e com a ameaça terrorista nunca teria atingido esta dimensão que, diariamente, nos inquieta.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Bisbilhotices, falsos ares angelicais, lapsos de língua e confirmação do que sabíamos

1. Única e exclusiva vontade de bisbilhotar. Assim pode considerar-se a insistência do CDS em conhecer o teor da carta que António Costa terá enviado a Juncker a propósito da ameaça de sanções pendente sobre o nosso país.
Ninguém terá ensinado a Cristas e Magalhães o quanto é feio andar a espreitar para a correspondência alheia? Ou será que a falta de argumentos para criticar o governo é tão notória, que já andam a esgaravatar o caixote do lixo do primeiro-ministro na esperança de nele encontrarem algo de comprometedor?
Se o ridículo matasse, os dirigentes do CDS estariam na primeira linha para caírem que nem tordos…
2. Outra característica neste CDS é a de tomarem os outros por parvos. Nesse sentido Mota Soares distingue-se com o seu pretenso ar de seminarista, que arrisca as maiores atoardas na esperança de que nele ouçam apenas manifestações de boa-fé.
Vem isto a propósito da legislação ontem recusada na Assembleia da República em que se procurava voltar à tentativa de privatizar a Segurança Social sob a aparência de só estar a possibilitar ao cidadão o aumento da sua futura reforma com dotações complementares.
Está-se mesmo a ver o filme: se voltasse ao governo Mota Soares encontraria aí a plataforma necessária para encetar a fase seguinte do projeto da direita - o plafonamento  trapaceiro.
3. A passear-se no Douro, Marcelo lá teve de corrigir o lapsus linguae da véspera quando se dissera disposto a aguentar o governo de António Costa “por mais uns tempos”.
Gente desconfiada, entre a qual me insiro, logo viu nessa frase a confirmação do que vai na alma do inquilino de Belém: vai convergindo aparentemente com António Costa enquanto não conta no PSD com quem lhe possa servir de instrumento para o seu projeto ideológico pessoal, porque assim isso suceda e tudo fará para pressionar o primeiro-ministro a dissociar-se dos parceiros à esquerda e aceitar a formação do tal centrão com que os «beaux esprits» da elite dos negócios se sentem confortáveis.
4. Esta tarde o debate sobre o estado da Nação irá permitir o terçar de argumentos em torno dos índices oficiais produzidos pelo INE e pelo Banco de Portugal. A direita verá neles o deitar a perder do seu esforço para tornar o país mais competitivo à custa do empobrecimento dos portugueses, enquanto o governo aproveitará para olhar esses números e apoiar-se neles como incentivo para o muito ainda a fazer . Nos partidos que apoiam o governo realçar-se-á a inversão no ciclo político, que marcou o aprofundamento das desigualdades entre os portugueses.
Uma vez mais será crível que, no balanço do debate, fiquemos com a noção de uma nova banhada dada por Costa à desconchavada direita.
5. Não é que o Relatório Chilcot constitua uma novidade mas, na forma exaustiva como analisou todas as circunstâncias que estiveram na origem da invasão do Iraque, dá argumentos acrescidos a quem acredita na urgência de levar Blair, Bush, e já agora, Aznar e Durão Barroso ao Tribunal Internacional de Haia para serem julgados como criminosos de guerra. O número de mortos que a intenção belicista do Pentágono, secundada pelos cúmplices europeus, provocou então, e ainda continuará a causar nas violentas sequelas que dela decorrem, atinge dimensões comparáveis às dos mais terríveis conflitos do século XX.
A culpa, como diz o provérbio, não pode morrer solteira, nem ficar-se, como o pretende David Cameron, como lição para o futuro!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Descarados, exploradores e negligentes

1. Que eu desse por isso não fui um dos «premiados» com o convite para a Universidade de Verão do PSD, que terá sido enviado a uma boa parte dos que constam da lista de endereços da newsletter do «Expresso Online». Por uma vez sou obrigado a desdizer-me quando exijo a justiça de, se há convites para uns, têm de haver para todos! Desta feita prescindo bem da “honraria”…
O episódio tem, porém, duas leituras imediatas: por um lado os organizadores dessa iniciativa, devem estar tão aflitos em arranjar «macaquinhos» para servirem de figurantes em tais imagens - apenas visando ocupação de tempo antena gratuito nos telejornais! - que já se servem dos expedientes mais desajeitados. Por outro lado há a progressiva falta de pudor das publicações e dos canais televisivos de Balsemão ao serviço do PSD.
É claro que vieram pedir desculpa pelo sucedido, mas a impunidade com que a partidarização dos meios de comunicação anda a evoluir merece mais do que o repúdio dos que a não aceitam, reiterando-se a urgência da ERC no sentido de fazer cumprir a objetividade a que, legalmente, e até contratualmente no caso das televisões, estariam obrigados.
2. As notícias sobre nepaleses resgatados de estufas da zona de Almeirim onde se sujeitavam a trabalho escravo são mais uma prova da falta de escrúpulos dos que olham para os lucros, e não para os seus deveres enquanto patrões. É que, embora possam invocar a política de esmagamento de preços aos fornecedores por parte dos hipermercados - também eles responsáveis a montante por estas situações ignóbeis! - não lhes pode ser indiferente o tipo de alimentação, alojamento e remuneração a que esses emigrantes vindos de longe estão sujeitos. Considerá-los-ão sub-humanos sobre os quais se podem praticar as maiores indignidades? Ou quererão enganar-se com a mentira praticarem o «piedoso bem» por lhes darem o trabalho, que não encontram donde vêm?
E o mais inquietante é sabermos que, em vez de estarem a diminuir, este tipo de casos de polícia, vão sendo cada vez mais frequentes…
3. O feitiço a virar-se uma vez mais contra o feiticeiro? Será que o PSD tanto quis a Comissão de Inquérito par(a)lamentar da Caixa Geral de Depósitos, que se arrisca a vê-la concluir pela sua responsabilidade nos muitos milhões necessários para a recapitalizar?
Foi isso mesmo que Mário Centeno veio sugerir ao apontar o "desvio enormíssimo" no plano de negócios da CGD, acima de três mil milhões de euros, herdado da gestão "negligente" do governo liderado pelo PSD.
Não é difícil encontrar razões para essa estratégia de Passos Coelho nos últimos quatro anos. O seu desejo confessado de privatizar o banco obrigaria a degradar-lhe a situação financeira de forma a não possibilitar qualquer outra alternativa, quando chegasse a altura de o resgatar.
Ora, nesse sentido, a lógica sempre passou pela tese de não intervir no setor bancário, “acreditando” que a mirífica “mão invisível” operasse prodígio miraculoso. E assim deixou o BES e o Banif evoluírem até à bancarrota, assim como assegurou a progressiva degradação do banco público até quase atingir esse patamar de irreversibilidade.
No que acreditariam Passos e Maria Luís? Que os novos donos os viessem a premiar com a mesma generosidade que a Mota-Engil revelou para Paulo Portas?
A Comissão de Inquérito poderá redundar numa questão singela: tanta negligência não constituirá crime merecedor de atenção pelo Ministério Público?

Rendimentos fixos e universais

Tenho para comigo que, no contexto de automação e robotização da economia, com programas informáticos e equipamentos de tecnologias já disponíveis a tornarem obsoletas muitas das tarefas ainda capazes de garantirem emprego a milhões de pessoas, o capitalismo não tardará a entrar numa nova fase, que nada tem a ver com a atualmente imposta pelos figurões à frente das instituições europeias. Pelo contrário: hoje em dia eles já estão obsoletos no confronto com um futuro próximo para o qual as suas mentes já não se conseguem reformatar. Os Schäubles & Cª estão politicamente mortos, mas ainda cuidou de os informar.
Para sobreviver o Capitalismo precisa que a maioria dos seus cidadãos abandone a condição de fornecedores de mais-valias à conta da exploração do seu trabalho, mas em consumidores, cujo dever é o de se deixarem alienar com tudo quanto lhes passará a ser disponibilizado por uma sociedade autocrática, com os meios de produção possuídos e comandados por uma casta ciosa de preservar esse poder. Por isso venham muitos futebóis, telenovelas, reality shows e coisas similares, que despojem de sentido crítico os que só valerão em função do que consumirem.
Existirá, então, um rendimento fixo e mensal por cidadão, desde o nascimento até à morte. E enquanto os defensores desta ideia conotados com a direita, são fiéis aos seus sentimentos assistencialistas, que faria dos cidadãos-consumidores uma enorme multidão de pobrezinhos agradecidos e submissos, à esquerda defende-se esta remuneração como uma base à qual se somarão os rendimentos obtidos complementarmente em atividades laborais ou criativas.
A ideia até nem é muito inovadora, porque Milton Friedman, em nome do seu monetarismo, chegava a sugerir que a Reserva Federal Americana emitisse dólares e, depois, os distribuísse através de helicópteros, que voariam sobre as cidades a distribuírem-nos aleatoriamente por quem os apanhasse. De alguma forma também é isso que, sem sucesso, Mario Draghi anda a fazer para promover o crescimento europeu, facilitando dinheiro aos bancos para que eles financiem projetos de empreendedores privados, o que não tem acontecido. Por isso já há quem defenda, que estes índices muito baixos de inflação e crescimento só terão solução se, em vez de entregar dinheiro aos bancos, o BCE oferecesse, por exemplo, 500 ou 600 euros de uma assentada a todos os cidadãos comunitários, que, logo os gastando em bens e serviços transacionáveis, alavancariam as economias para patamares mais elevados de oferta e de procura.
É por isso mesmo que esta ideia de um rendimento fixo a distribuir pelos cidadãos vai ter pernas para andar, apesar da derrota dos seus promotores no referendo suíço de algumas semanas atrás. Até por já estarem a avançar novas experiências nesse sentido, nomeadamente na Finlândia e na Holanda.
O capitalismo acaba sempre por encontrar uma solução judiciosa para sobreviver a cada iminente fim. E, então, se se mascarar de conceitos roubados à esquerda - como a igualdade de rendimentos num grande número de cidadãos - as hipóteses de sucesso serão bastante maiores.
Caberá à esquerda defender que esse tipo de rendimentos não se destinarão a acautelar a paz social para os detentores do poder e dos meios de produção, mas de conquistar ambos e distribui-los de acordo com os princípios de Igualdade, Solidariedade e Liberdade, que devem nortear todas as instituições políticas...

Recuperar os Valores que importam

Será uma das lutas essenciais dos próximos tempos: a recuperação de uma sociedade baseada nos Valores. Que são os da Dignidade, da Solidariedade, da Igualdade, da Liberdade e muitos outros quase tornados subversivos por uma mentalidade neoliberal para a qual o Individuo e o Mercado foram os únicos a respeitar.
Não era Friedman e toda a sua corja de seguidores, que defendiam a eliminação do papel do Estado na criação de reequilíbrios económicos e sociais, porque só favoreceriam os madraços em detrimento dos empreendedores e os incompetentes em desfavor dos verdadeiramente competitivos?
Estamos a chegar ao fim de um período, que durou quase meio século, em que o marxismo foi declarado morto e enterrado e os movimentos socialistas e sociais-democratas cooptados para servirem de muletas aos desígnios dos que pretendiam levar o capitalismo mais além, até à sua presente fase globalizada.
O que se passou no Reino Unido com o referendo foi a vitória de uma decisão justa por más razões, porque nenhum diretório burocrata tem o direito de subjugar a vontade soberana de um povo, por muito que ele vá atrás de discursos xenófobos e a contrario dos verdadeiros interesses dos que neles votaram. Mas a União Europeia demonstra a sua irrecuperabilidade, quando nela se constata a intenção reiterada em agravar os erros, que têm precipitado o divórcio entre os seus povos e as instituições, que os tendem a empobrecer em benefício de oligarquias financeiras ou industriais.
Estamos ainda na fase em que sair da organização custa mais caro do que nela mantermo-nos, mas sempre na pose de quem contesta e não se submete Se Tsipras foi obrigado a render-se, António Costa terá inteligência bastante para evitar o duelo aberto, que o líder grego quis forçar até ao momento derradeiro, sabendo flanquear as feras e atingi-las onde elas mostrem ser mais fracas.
Se a História dos povos está bem preenchida de exemplos de golias derrubados por intrépidos davides, quem nega a possibilidade de, em nome dos valores em que se reconhecem multidões, um pequeno e intrépido povo vergar os que só ostentam cupidez e a vazia empáfia no olhar?

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A estratégia que procura vergar o governo de António Costa

Portugal é hoje o campo de batalha de uma luta europeia. Este é o título do artigo de leitura obrigatória que Ricardo Paes Mamede publicou hoje no site «Ladrões de Bicicletas».
Com a racionalidade e a argucia, que lhe conhecemos ele desvaloriza a mesquinhez ou o preconceito ideológico como sendo os que justificam as declarações recentes de Schäuble e outros cortesãos da sua alcova.
O que está em causa é uma estratégia ambiciosa de retirar espaço às decisões soberanas de cada nação em áreas, que lhe são muito queridas - desde a Segurança Social à legislação laboral - de modo a tornar toda a União Europeia num todo dirigido a partir de Bruxelas e onde as empresas, sobretudo as alemãs, ganhem economias de escala para melhor competirem com as americanas ou as asiáticas.
Ora, porque os maiores entraves a esse projeto residem em França ou em Itália, os seus mentores poupam-nos momentaneamente preferindo ataca-los no elo mais fraco, que somos nós, os portugueses. Com isso pretendem sinalizar aos investidores internacionais quem, efetivamente manda em Portugal e os riscos em que incorrem se apostarem em quem se desviar um milímetro, que seja do script congeminado.
Mamede não o refere no seu texto mas, por muito que os principais rostos do Brexit já tenham abandonado o barco, porventura temerosos de se verem responsabilizados pelos efeitos da porta que abriram, e a provável primeira-ministra Theresa May ensaie a reversão do decidido no referendo, os conspiradores farão tudo por a rejeitar, porque o sucesso da estratégia reside em nações dispostas a renderem-se-lhes, de preferência com governantes sem coluna vertebral como Passos Coelho e Assunção Cristas revelaram ser. Muito embora o atual governo grego também lhes sirva de exemplo para demonstrarem que, sejam eles de esquerda ou direita, os responsáveis políticos de cada país não terão outra alternativa senão a submissão incondicional.
Há, ainda assim, algo que a História - nomeadamente a do seu próprio país! - deveria ter ensinado a Schäuble: a radicalização no sentido de impor uma visão alucinada de um futuro, contra a própria vontade dos povos apenas entendidos como peões desarmados num tabuleiro já muito desarrumado, resulta sempre em derrotas humilhantes. Até o mais desastrado iniciado nas lides do xadrez sabe que os peões, quando chegam à outra ponta do tabuleiro, são capazes de se converterem em peças letais, capazes de derrotarem quem os menorizava anteriormente.
O problema é que António Costa já conta com condicionalismos demasiados para ainda ter de se sobrecarregar com inimigos externos aparentemente dotados de forças exageradas e com a assumida traição aos portugueses, que os dois partidos de direita tão prestimosamente estão a personificar, mostrando que subsistem uns quantos miguéis de vasconcelos a merecerem ser atirados pela janela...

Negociatas na área da saúde

Onde o Estado falha - sobretudo propositadamente! - os privados encontram uma lucrativa oportunidade de negócio . Sucede assim com os colégios privados recentemente denunciados e acontece também na Segurança Social ou na Saúde, para onde são canalizados muitos milhões de euros, que tanta falta fazem ao saldo primário do Orçamento de Estado.
O caso que Natália Faria investigou para o «Público», que dele fez tema de capa, é igualmente elucidativo, não tanto por integrar a lógica dos subsídios e rendas transferidos para interesses privados, mas porque a omissão do Estado uma área, que lhe compete, permite a empresas pouco escrupulosas auferirem lucros significativos com estratégias de marketing indecorosas.
Frequentemente os jornais e televisões dão conta de crianças com doenças graves - normalmente leucemias - que carecem de dador compatível. Então se se trata do filho de um conhecido jogador de futebol, o impacto mediático ainda é mais exponenciado.
Foi para socorrer esse tipo de situações, que o governo de José Sócrates decidiu criar um banco público de recolha e conservação de amostras de células estaminais com custo zero para as famílias de cujos bebés tenham sido obtidas.
O processo não teria nada de complicado: no momento do parto seria recolhido sangue (e eventualmente tecido) do cordão umbilical fazendo-se a sua conservação a cerca de -196ºC. Essa amostra passaria a integrar uma base de dados disponível para utilização em qualquer parte do mundo
Só que sete anos depois, apenas foram recolhidas cerca de 500 amostras aproveitáveis porque o laboratório criado para esse efeito não tem obtido o orçamento e os recursos humanos necessários para cumprir tal missão.
Quem logo aproveitou a oportunidade foram as empresas privadas, que transformaram essa omissão do Estado num negócio muito lucrativo ao pressionarem as grávidas culpabilizando-as se não comprarem um dos seus pacotes pelos quais, por verbas entre os 1000 e os 2400 euros, permitem a recolha dessas amostras, conserváveis durante 25 anos e só disponiveis para a família do dador.
Chegaram a ocorrer denúncias públicas de pagamentos entre 800 e 1000 euros mensais a profissionais da saúde em hospitais públicos para recomendarem esses serviços junto das grávidas em vez de as incentivarem a utilizarem o banco público. E, porque nem as famílias mais carenciadas deixam de constituir potenciais clientes, essas empresas criam esquemas de pagamentos faseados, ano a ano.
Pouco importa que a probabilidade de utilização dessa amostra seja inferior a 1 em cada 20 mil, que haja grandes hipóteses dela não ser aproveitável para posterior conservação ou que, mesmo nesse caso, seja imprestável para o próprio dador por já conter células com a mutação causadora da doença onde poderia ser utilizada.
É por isso mesmo que, em certos países, como a França ou a Itália, estes bancos de células estaminais pertencentes a privados sejam proibidos. Em Portugal, e durante todo o período de governação de Passos Coelho, eles viveram à tripa forra sem que o Estado pusesse cobro aos seus anúncios falaciosos.
Trata-se, pois, de mais uma trapaça, que se espera vir a ser combatida por este governo, nomeadamente com medidas concretas de valorização do banco público para esse tipo de células.
  


domingo, 3 de julho de 2016

A realidade não replica o que se passa nas séries norte-americanas!

No final da terceira temporada de «House of Cards» a série já me parecia tão esgotada, que perspetivei a hipótese de nem sequer espreitar os episódios deste ano. Acabei por me decidir a vê-los quando gente a quem atribuo alguma confiança revelaram entusiasmo com as novas vicissitudes por que passava o casal Underwood, ele seriamente atingido num atentado e ela a ambicionar o cargo de vice-presidente.
Concluído o 13º episódio encontrei-me no mesmo estado de alma em que me vira no ano anterior: sem grandes apetências pela quinta temporada, a estrear-se no início do próximo ano.  E a razão é fundamentalmente uma: embora possa condescender com a possibilidade de replicar uma realidade política mais frequente do que desejaria, recuso-me a aceitar que o exercício de cargos públicos e a militância política sejam apenas jogos de massacre onde tudo é permitido: chantagem, manipulação, tráficos de influência, etc.
Até poderia aceitar que uma boa parte dos personagens - fossem eles democratas ou republicanos! - correspondessem a esse estereotipo do político = corrupto. Mas, para aceitar a benignidade da série, exigiria modelos positivos com gente proba, dotada de um sentido ético e de serviço público, que lhes servissem de contraponto.
Não é difícil imaginar o sentimento da maioria dos espectadores da série, quando ela acaba: a política é o lugar pouco recomendável onde todas as faltas de escrúpulos se evidenciam.
Vem isto a propósito de ler um comentário sobre a suposta traição de Michael Gove a Boris Johnson, depois de já ter apunhalado David Cameron. “Parece um episódio da ‘House of Cards’”, concluiu alguém.
Como é fácil iludir jornalistas sempre apostados em acreditar nas versões onde estejam garantidas cenas impressionantes de «sangue às pázadas».
O que está aqui em preparação é uma jogada sábia de Boris Johnson, que deu a cara pelo Brexit para afastar Cameron do seu caminho para o nº 10 de Downing Street, mas aonde ainda não lhe convirá chegar devido às dificuldades governativas dos próximos meses, confirme-se ou não a decisão de forçar a definitiva separação com a União Europeia.
Por agora Michael Gove serve de lebre atirada para diante a fim de forçar o sprint de Theresa May decidida a não perder de vista a meta ambicionada por todos eles.
Embora haja gente credível, que atribui à atual ministra do Interior a capacidade para gerir com sucesso o imbróglio aberto pelo referendo da semana passada, Johnson espera que lhe suceda o mesmo que ao carro com piloto automático agora acidentado num dos seus primeiros testes: estampar-se no primeiro cruzamento.
Boris Johnson poderá vir então com vestimenta de salvador a propor o que realmente defende: a permanência na União Europeia, mesmo à custa da raiva dos mais ferrenhos militantes do UKIP.
É por isso que não vejo no episódio da candidatura de Gove à liderança do partido Conservador uma cena shakespeariana retirada de «Júlio César».
Resta a expectativa de ver os Trabalhistas deitarem a perder essa estratégia com uma nova vitória de Corbyn, apoiado nos sindicatos e nos universitários e capaz de lhe possibilitar um grupo parlamentar mais consonante com o pensamento maioritário da base social de apoio do partido.
Não acredito, pois, nem na tradução em solo inglês dos comportamentos políticos explorados nas séries norte-americanas, nem ainda dou como irrevogável a saída do Reino Unido da União...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Clarifica-se a guerra ao governo de António Costa

Temos de reconhecer que está declarada uma guerra intensa da corrente austericida europeia ao governo de António Costa. É que derrotadas as pretensões do Syriza a uma política diferente na Grécia e com Manuel Valls decidido a assassinar o socialismo em França, depois de em vão, ter querido retirar essa designação do Partido de Mitterrand e de Delors, este cantinho à beira-mar plantado arrisca-se a ser uma espécie de aldeia de Asterix, intransigente quanto à defesa de um caminho diferente para combater a crise instalada em toda a Europa.
O problema para Schäuble & Cª está no medo em que a poção mágica com que os druidas socialistas portugueses contam dilatar a possibilidade de sucesso da economia, dê mesmo resultado e os muitos, que os criticam possam, em definitivo, aumentar o clamor de tais protestos, invocando:
- Vejam, os portugueses! Estão a seguir outra via e ela está a resultar!
Por isso tentam privar a receita de alguns dos seus ingredientes fundamentais: juros relativamente baixos nos mercados da dívida soberana e o acesso aos fundos europeus tão necessários aos novos investimentos.
As palavras de Schäuble, Subir Lall, Mariano Rajoy e do até agora anónimo Klaus Regling, hoje tão enfatizado nas notícias de alguns telejornais, visam isso mesmo: sem quaisquer fundamentos dar a ideia generalizada de um fracasso total nas políticas aqui implementadas e criar o mal-estar dos mercados financeiros para com o nosso país.
Batedores de uma direita europeia, a contas com a incapacidade para lidar com o desastre financeiro, que criou, pretendem inviabilizar as soluções alternativas capazes de lhes desmascararem a incompetência e a cegueira ideológica. No fundo lutam pela sua própria sobrevivência política.
Essa estratégia tem, obviamente, uma quinta coluna interna: sem outro discurso plausível, Passos Coelho já se mostra desagradado com o protesto diplomático que o governo português endereçou ao de Angela Merkel a propósito do seu ministro e volta a defender quão auspiciosa era a política baseada nos cortes dos salários e das pensões ou no corte de direitos aos trabalhadores.
E não podemos esquecer o papel do «Observador», onde Helena Garrido volta a destacar-se pela sua dedicação em procurar o derrube de governos de esquerda: depois de ter sido por ela que Teixeira dos Santos deu, em 2011, a facada nas costas em José Sócrates, para que viesse a troika, volta a prometer a sua intervenção no sentido de incendiar a opinião dos que a leem, ao resgatar a tese da prevalência os efeitos das políticas do governo sobre a crise, em detrimento dos condicionalismos estritamente externos.
Não se entende por isso a «colaboração» que a FESAP decidiu dar a estas comprovadas manifestações de sabotagem vindas de direções diversas, mas todas com o mesmo sentido: derrubar este governo. Tendo em conta o compromisso de chegar à implementação das 35 horas em toda a Função Pública, faz algum sentido fazer greve no fim do mês?
Ana Avoila continua a mostrar que não aprende nada com os erros do passado.

Futebóis e justiças tardias

1. Pode ser opinião impopular nesta altura em que ainda se bebem as últimas bejecas e se comem os últimos tremoços à conta da passagem da seleção portuguesa para as meias-finais do Europeu de Futebol em França, mas os sucessos conseguidos por Cristiano & Cª têm sido embaraçosos por faltarem em campo os argumentos de vontade, talento e energia para tornar irrefutável o mérito dos sucessivos triunfos.
Pode-se admirar o pragmatismo de Fernando Santos, que se sentirá satisfeito se se sagrar campeão europeu só com empates, mas convenhamos que o orgulho luso exige bem mais do que chico-espertice e uma dose razoável de sorte.
Sabemos que já houve um Europeu em que os dinamarqueses até conseguiram ganhar sem serem, de longe, a melhor seleção de então. Algo que os islandeses vêm por ora repetindo! Mas perdoem-me o pudor: eu gosto de ganhar, quando sei que o meu lado é, de facto, o melhor.
Ora, o que se tem visto tem sido de uma indigência não compatível com esse requisito incontornável…
2. Na minha tentação para fazer do futebol a metáfora com a conjuntura política, poderiam alguns sugerir-me que algo de semelhante está a acontecer com o governo de António Costa: os resultados estão a aparecer, como demonstram os números do INE, mas sem o brilhantismo bastante para calar as provocações de Schäuble e Rajoy, ou as opiniões caducas de Subir Lall.
Mas, ao contrário, da seleção portuguesa de futebol, os diversos craques do Governo já estão a abrilhantar-se a toda a força, desde Maria Manuel Leitão Marques com o seu novo Simplex, Pedro Marques com a volta dada ao imbróglio da TAP, Ana Paula Vitoriano a resolver de vez o conflito dos estivadores ou Alexandra Leitão a desbaratar os parcos argumentos dos supersubsidiados colégios privados.
Explica-se assim o otimismo de António Costa, que sabe ter desafios muito difíceis para enfrentar, mas talento de negociador e de liderança de equipas ministeriais quanto baste para conseguir sucessos indiscutíveis.
É por isto que considero termos, nesta altura, uma seleção de futebol uns furos abaixo do governo que lhe cria as condições para ser mais bem sucedida do que tem acontecido até aqui.
3. Estamos, igualmente, num dia em que, mesmo tarde, vai-se fazendo justiça nas formas mais opostas.
A homenagem a Salgueiro Mais, com Marcelo a convidar a família do capitão de abril para lhe entregar a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo só peca pelo atraso com que deveria ter sido atribuída. Mas, se podemos lamentar que Mário Soares e Jorge Sampaio tenham pecado por omissão, sabemos bem quanto Cavaco teve para com o agora condecorado a reiterada mesquinhez de o querer apagar dos livros de História.
Cavaco nunca percebeu que, na forma como elegeu inimigos de estimação da dimensão de Saramago ou de Salgueiro Maia só se apoucou, desqualificando-se para a condição de pior Presidente da República, que este país conheceu até à data.
E Cavaco só não ganha o estatuto de pior primeiro-ministro do pòs-25 de abril, porque aconteceu o imprevisível: quando julgáramos ter atingido o patamar mais baixo, Passos Coelho ainda conseguiu afundá-lo um pouco mais.
No que ambos, Cavaco e Passos Coelho conseguiram equivaler-se foi na qualidade dos seus melhores amigos. Sem que precisemos ir mais atrás e evocar os diasloureiros ou os duartesliamas, estes dias deram-nos mais dois exemplos elucidativos: o homem de confiança de um para tomar conta do Museu da República e da Fortaleza de Cascais vai preso por peculato  enquanto o grande guru  Relvas perde de vez a sua polémica licenciatura.
Ironicamente o Pedro Vieira devolveu-o no facebook à condição de finalista de liceu com direito a uma viagem memorável a Lloret del  Mar.
4. Outro tipo de Justiça a longo prazo é a que anunciou um Tribunal da Flórida ao condenar o assassino de Vítor Jara, 43 anos depois dele ter  sido mutilado e abatido no Estádio Nacional do Chile .
Pedro Barrientos, o nome do criminoso, bem tentou iludir os tribunais do seu país, casando com uma norte-americana e adquirindo uma nacionalidade, que julgava inexpugnável aos que reclamavam a sua condenação. Mas o imperialismo não protege o «peixe miúdo» que lhe serviram de operacionais da tenebrosa Operação Condor.´
Agora torna-se possível a expatriação de Barrientos para o Chile onde o esperam novos julgamentos destinados a fazê-lo pagar pelos seus crimes.
Outra informação adicional também comporta o seu lado de justiça a longo prazo: apesar de contribuir para o fim de um dos mais esperançosos governos latino-americanos de sempre, Barrientos vivia agora pobremente como exilado de uma terra muito diferente da que poderia imaginar como a dos seus sonhos.