O filme que o jornalista francês de origem portuguesa Paul Moreira foi rodar à Ucrânia sobre os movimentos neonazis e fascistas ali existentes - «As Máscaras da Revolução» - demonstram o que há muito se sabe: a intervenção norte-americana no governo de Kiev destacando para ele uma sua espia, que se naturalizou à pressa para justificar a integração no Executivo de Arseni Iatseniuk, a total rendição das forças regulares do Exército às milícias, que lhe usurpam as funções e o armamento, a integração dessas milícias em movimentos transnacionais neonazis e fascistas, que pretendem ali criar a base expansionista para conquistarem o poder noutros países europeus e a degradação assustadora da qualidade de vida da população, que empobreceu continuamente desde a “Revolução” da Praça Maidan.
Moreira denuncia o indisfarçável propósito assassino dessa extrema-direita com imagens terríveis do massacre por ela promovido em Odessa. E nem faltam as presenças de Tony Blair, Durão Barroso ou Bernard Henri Lévy a legitimarem uma situação, que mais não foi do que um golpe de Estado planeado e executado muito provavelmente a partir de Fort Langley.
Se Putin não é propriamente flor que se cheire, os que contra ele dizem lutar em Kiev ou nas cidades na alçada do ilegítimo governo de Poroshenko ainda mais fedem e revelam-se perigosamente venenosos.
E saber que ainda há quem os gostasse de ver na União Europeia!!!
Na emissão da «Quadratura do Círculo» desta semana Jorge Coelho fez um pedido singelo: que todos quantos têm falado a propósito da situação da banca em Portugal se calem durante oito dias, os suficientes para o governo conseguir do Banco Central Europeu e da Direção da Concorrência em Bruxelas a luz verde para recapitalizar a Caixa Geral de Depósitos.
Compreende-se facilmente o desespero laranja das últimas semanas perante essa possibilidade, chegando ao ponto de encomendar a Marques Mendes uma intervenção de autêntica sabotagem económica contra os interesses nacionais, e sucedendo-se as declarações bombásticas de Passos Coelho ou Maria Luís Albuquerque a acusarem António Costa de ser ainda mais luciferino do que o próprio Lucifer. É que o sucesso do governo nesta batalha significará a derrota clamorosa de quem sempre quis privatizar o Banco estatal e assim limitar ao máximo a capacidade de qualquer futuro Executivo para se livrar das correntes neoliberais.
Daí a importância de toda a esquerda continuar a conjugar-se no mesmo objetivo de vedar o acesso da direita ao poder por muitos anos. Se possível para sempre. Porque tudo quanto foi recuperado nestes últimos oito meses de pouco valeria se os pupilos do sr. Schäuble recuperassem a capacidade de atormentarem a vida dos portugueses.
A esquerda plural tem até muito que fazer em conjunto criando nomeadamente as condições para devolver ao Estado um papel mais determinante na economia, mormente repetindo noutras empresas de referência o tipo de acordos conseguidos na TAP.
Depois de termos tido no BPN, na PT, no BES ou no Banif o desmentido eloquente quanto à falsa superioridade da gestão dos privados em relação à do Estado, é fundamental que este último recupere recursos, que criem as receitas necessárias ao aprofundamento dos seus investimentos na Segurança Social, na Saúde, na Educação ou na Investigação Científica. Ainda na semana transata fui ao Oceanário deparar-me com multidões, que se acotovelavam nos corredores e em frente aos vidros do aquário principal e a darem à família do sinistro Alexandre Soares dos Santos os lucros, que Passos Coelho decidiu roubar ao Estado sem qualquer escândalo público.
Sabemos que as instituições europeias tenderão a ser obstáculos difíceis de vencer, mas nenhum sucesso se revelará possível se nele não porfiarmos. Daí a exigência que o eleitorado dessa esquerda plural em rejeitarem nos líderes dos seus diversos partidos as entropias, que tudo ponham em causa.
Qandeel Baloch tinha 26 anos e era uma estrela das redes sociais no Paquistão. A sua morte às mãos do irmão, num daqueles «crimes de honra» tão frequentes no mundo muçulmano, só confirma o carácter criminoso de uma religião e da cultura a ela associada, que tarda em ser ostracizada por um Ocidente temeroso de impor a lógica da Filosofia das Luzes - que é a dos Direitos Humanos fundamentais - como bitola para redefinir a sua relação com algumas nações e com alguns dos seus cidadãos.
Sei que este não é um ponto de vista muito aceitável para os defensores do politicamente correto e para quem defenda a miscigenação de culturas, mas acredito que a luta contra o terrorismo, que se tornou uma chaga terrível em diversos países europeus, passa pela proibição de ideologias em contradição com a Declaração aprovada pela ONU em 1948 e que deveria ter aplicação universal. O que equivale a proibir as ideologias fascistas, surjam elas a coberto de populismos nacionalistas ou de preconceitos religiosos.
Acontece que, nestes dias de ausência dos blogues e das redes sociais, vi uma reportagem inglesa sobre os casamentos forçados de meninas adolescentes no Reino Unido. Segundo apuravam os jornalistas todos os verões há pelo menos 400 raparigas levadas de férias para o Paquistão durante as férias escolares e que já não regressam por terem sido obrigadas a desposar desconhecidos por imposição dos pais. Um número que reconheciam estar calculado muito por baixo por ser bem mais volumosa a ocorrência de tais situações. E verificava-se que até em mesquitas aparentemente libertas de conceções fundamentalistas os repórteres disfarçados de pais ou irmãos de raparigas com 14 anos encontravam sempre imãs dispostos a casá-las contra vontade, mesmo sabendo da ilegalidade de o fazerem à luz da lei britânica.
Significa isto que, mesmo em ambientes tidos como respeitadores das leis locais, os clérigos muçulmanos darão sempre prioridade à sharia em relação às que imperam à sua volta. Daí a necessidade de opor às diversas formas de totalitarismo vigente nas nossas sociedades, uma resposta igualmente firme a criminaliza-las, tornando os seus líderes nuns párias. E daí a importância de uma outra geopolítica em que, contra o radicalismo assassino dos que combatem Assad, importaria apoiá-lo na recriação de uma Síria onde o carácter laico da sua sociedade voltasse a ser a regra. Já que não foi possível fazê-lo no Iraque, na Líbia ou no Egito, importa recomeçar por algum lado. E sempre tendo em conta que o Irão ou a Arábia Saudita, por muito que os líderes de ambos os lados se odeiem, deverão ser igualmente proscritos por nenhum poder político ser aceite como decorrente de uma qualquer legitimidade divina.
Nos quinze dias de férias fui acompanhando espaçadamente a realidade política, sempre surpreendendo-me com a deriva alucinada em que Passos Coelho parece cada vez mais atolado.
Embora aparecendo, amiúde, com aquela ridícula pose de estadista, que os seus “marketeers” afinaram até à exaustão para o aparentar asizado, o antigo primeiro-ministro lembra aqueles doidos do manicómio, que se pavoneiam pelos corredores a proclamarem-se como reencarnações de Napoleão Bonaparte.
Ouvi-lo falar de lhe terem “roubado” a governação sem manifestar uma pinga de pudor sobre a violação dos mais elementares conceitos de Democracia só demonstra a incapacidade para assimilar a derrota sofrida em 4 de outubro de 2015 e explicar essa deriva atoleimada.
Quando dias depois acusa o governo de António Costa de ter uma “conduta criminosa” relativamente ao setor bancário revela a completa pouca-vergonha de quem se escusa a responsabilizar-se quanto ao seu papel no sucedido no BES, no Banif ou na Caixa Geral de Depósitos. A realidade pode ser outra mas a obsessão alienada fá-lo só tomar os desejos por algo de concreto.
É certo que o ainda líder do PSD continua a usufruir da boa imprensa, facultada pelos seus cúmplices nos jornais, televisões e rádios pertencentes às oligarquias responsáveis pelo estado do país. Mas vamos acreditar que o povo chega a uma daquelas fases de maior lucidez e se livra da manipulação constante a que é bombardeado: nesse dia Passos descobrir-se-á não propriamente no prosaico caixote do lixo da História, mas na sua fossa mais nauseabunda…
Talvez se lembre, então, com saudade dos tempos em que a ambição não o levava mais longe do que a aspirar ao palco encenado por La Féria.
Nos finais dos anos setenta vivi uns meses no Bahrain e uma das imagens, que me ficaram desse tempo foi a de sujeitos baixotes e barrigudos a passearem-se pelo bazar de Manama à sexta-feira à tarde, logo seguidos pelas quatro mulheres alinhadas duas a duas e quase impercetíveis por baixo das abayas.
Nessa altura o estaleiro onde me encontrava ainda estava sob a gestão da Lisnave, pelo que os portugueses possuíam algum ascendente sobre os poucos bahranis, que trabalhavam ali, no meio de tantos filipinos e indianos. A um encarregado local questionei sobre o casamento, tendo em conta que uns quantos compatriotas açambarcavam logo quatro mulheres para si, o que deveria dificultar a possibilidade de outros conseguirem pelo menos uma.
A resposta não me surpreendeu: ele próprio andava a poupar há imenso tempo para conseguir a verba necessária para o dote a entregar à família da prometida. Tratava-se de uma espécie de compra da noiva, que a família dela tornava numa “mercadoria” assaz dispendiosa.
Então, e os que não conseguem arranjar dinheiro para tal?
Vão-se safando como podem!, disse-me ele de forma equivocamente irónica. Foi assim, que percebi a inevitabilidade de relações homossexuais em muçulmanos devotos, ou nem por isso, que sempre olhariam para as mulheres do bazar como um fruto totalmente proibido.
Vem isto a propósito de uma notícia sobre o sucesso dos «lady boys» vindos da Tailândia junto de homens sauditas. Inequivocamente adornados de membro viril apesar da aparência mais ou menos feminina, eles subvertem a política moral do reino da família Saud onde a homossexualidade é proibida.
Desconheço se essa intolerância chega aos extremos do Daesh, que filmava execuções de supostos homossexuais atirados do alto dos edifícios mais proeminentes do território, que ocupavam, mas a crer na facilidade com que os súbditos sauditas são executados ou chicoteados não me admiraria, que a lei contra a sodomia contemplasse esse tipo de penas. Mas, como sucede em todas as sociedades profundamente vinculadas a preconceitos religiosos - sejam elas muçulmanas, católicas, judaicas, budistas ou hindus - a hipocrisia é a regra principal. Conquanto se salvaguardem as virtudes públicas, os vícios privados são tolerados até aos limites do seu recato…
Tal como a 28 de junho previ que Theresa May seria a próxima primeira-ministra inglesa, quando todos apostavam em Boris Johnson (http://ventossemeados.blogspot.pt/2016/06/a-direita-confrontada-com-os-seus.html), não tenho grandes dúvidas em prever um epílogo muito brutal para Erdogan.
Há ditadores, que só uma bomba ou um tiro certeiro, conseguem derrubar. Infelizmente para nós a equipa de Emídio Santana teve pouca habilidade, quando se tratou de fazer saltar o carro de Salazar obrigando-nos a aturá-lo mais uns anos. Tal como Hitler escapou ao atentado promovido por militares da Wehrmacht, mas mais tarde ou mais cedo, teria quem lhe tratasse da saúde se os soviéticos não houvessem chegado lestamente a Berlim.
Em compensação para tais falhas, o penúltimo primeiro-ministro de Franco, Carrero Blanco, foi parar ao topo de um prédio e a nossa monarquia caiu por obra e graça dos tiros de Buiça e de Costa.
Poder-se-á argumentar que não se trata propriamente de um método muito democrático, mas quando o poder ditatorial trata de prender generais e juízes, destituir das funções públicas quem não lhe agrada, reprime violentamente quem contra ele se manifesta e impõe a lei da rolha nos jornais e televisões, poder-se-á criticar quem decide abreviar o curso da História e tratar da pele ao facínora de serviço? Sobretudo, quando a manipulação das consciências é brutal e milhares de alucinados vêm para as ruas defender quem de facto os oprime?
Erdogan é o exemplo lapidar do crápula, que merece morrer violentamente até por, na sua sanha contra quem se lhe opõe, se apressar a restabelecer a pena de morte. Ora, pelos ferros há-de morrer, quem com os mesmos ferros quererá matar.
Aceitam-se apostas para quando a sua morte será tema de abertura nos telejornais de todo o mundo. É que ele tem feito tantos inimigos, que é só escolher de onde surgirá a mão justiceira: dos curdos, que têm sido assassinados barbaramente em quase todo o seu consulado? Dos militares que vêem cada vez mais frustrados os sonhos de laicização de Ataturk? Dos discípulos do clérigo Gullen, seu antigo compagnon de route, que se autoexilou nos EUA? Dos próprios norte-americanos, que não gostam de tão incómodo “aliado” dentro da NATO?
A ditadura de Erdogan tem sido tão aviltante para milhões de cidadãos - tantos quantos os que o dizem ainda apoiar! - que a lista poderá ser acrescentada de muitos outros candidatos.
Por mim apresso-me a pôr uma garrafa no frigorífico para, mais tarde ou mais cedo, celebrar o seu fim.
Uma das notícias mais discretas ocorridas nos meus quinze dias de férias foi a da visita a Portugal de David Harvey, professor inglês na Universidade de Nova Iorque, convidado para um congresso de Sociologia no Algarve e que deu a Alexandra Prado Coelho uma interessante entrevista na edição do «Público» do dia 17 de julho.
Foi uma pena, que as suas palavras tivessem passado quase despercebidas, importando assim regressar a elas e resumir algumas das suas ideias.
Por exemplo que a salvação do capitalismo foi garantida pela China nos últimos anos: apenas nos últimos três anos a antiga pátria de Mao consumiu tanto cimento como os Estados Unidos em cem anos. Mas essa é uma receita clássica, também utilizada pelos norte-americanos, quando tiveram de arranjar emprego para os seus soldados acabados de regressar da Segunda Guerra Mundial. O sistema, quando está em dificuldades de sobrevivência, encontra na construção civil a sua válvula de escape.
Que importa haver na China vastíssimas cidades sem qualquer habitante se o propósito da sua edificação teve apenas a ver com a especulação financeira e não propriamente com a facilitação de novas residências aos seus cidadãos?
Mas já mais complicados são os efeitos de tal aposta na dívida acumulada pelo Estado ou pelos privados, bem como a progressiva contestação social a quem procura na cidade condições de vida de maior qualidade e acaba por se deparar com disfuncionalidades nos transportes, na educação ou na saúde.
Uma constatação deste fenómeno foi possível obter na grande explosão contestatária nas grandes cidades brasileiras em 2014 e que para Harvey denotou a possibilidade de existirem grandes movimentos revolucionários não tanto pelas questões do desemprego, mas dessa asfixia sentida por milhões de pessoas em urbes cada vez mais insuportáveis, sobretudo quando elas não se sentem representadas nas suas preocupações e aspirações pelo poder político.
Harvey é sibilino, quando denuncia o défice democrático nas nossas sociedades: podemos eleger partidos e líderes, que nos mereçam apreço, mas, à distância, há poderes nunca submetidos à dinâmica do voto a decidirem medidas governativas para as quais não toleram alternativas.
Essa a razão, porque Harvey recupera a importância das ideias de Karl Marx: “Ler Marx hoje faz todo o sentido. De certa forma estamos a voltar às condições de trabalho do século XIX, que é o que pretendia o projeto neoliberal: reduzir o poder do trabalho e pô-lo numa posição em que não tem capacidade para resistir a processos maciços de exploração”.
Corroborando uma possibilidade, que aqui tenho desenvolvido em textos anteriores, David Harvey considera muito provável a tentativa de sobrevivência do capitalismo através da transformação dos trabalhadores em consumidores, sempre na lógica do mesmo tipo de exploração, dotando-os de um rendimento básico: “Tem de se dar às pessoas meios para que possam continuar a consumir para que o sistema se mantenha”. É que a redução dos volumes do emprego só tende a acelerar-se com as inovações tecnológicas, que visam a redução da intervenção da mão-de obra nos processos produtivos. Mesmo tratando-se de um processo, que já vem de longe - em 1969 existiam em Baltimore 37 mil trabalhadores na siderurgia, que se reduziram para 5 mil nos anos noventa, sempre mantendo estável a quantidade de aço fabricada - a sua acentuação só tem conhecido uma mais rápida expressão.
Não é que o rendimento básico corresponda a uma renovada tentativa de levar por diante aquilo que nunca existiu - um “capitalismo de rosto humano” - mas é a única via alternativa aberta ao sistema económico vigente para que, alterando alguma coisa, tudo fique na mesma.
Importa, pois, criar uma alternativa, que não pode assumir contornos de anárquica liberdade. É Harvey quem conclui com o alerta para o facto de não existir um sistema de total liberdade. “Um sistema livre é sempre baseado em alguma percentagem de falta de liberdade. A liberdade existe muitas vezes num contexto de certos tipos de dominação”. O que, por outras palavras significa, e parafraseando alguém, que a Revolução anticapitalista não é nenhum convite para jantar. Tratando-se de uma guerra entre classes de interesses diametralmente opostos constitui uma guerra, que como em todas, dá para dar e levar… esperando-se que, no fim, penda a favor da maioria dos cidadãos.~
Esta semana, num daqueles documentários transmitidos pelos canais de notícias durante a madrugada para compor o vazio de nada de novo terem a acrescentar ao já por todos conhecido, pudemos ver como a extrema-direita norte-americana se anda a preparar para a explosão social de inaudita violência, que ela perspetiva num futuro próximo.
A morte dos polícias em Dallas como corolário ilógico dos crimes praticados sobre cidadãos negros nos dias anteriores - um na Louisiana, o outro no Minnesota - expressa bem a agudização por que passa a luta de classes em terras do tio Sam.
Podemos lamentar que a vingança de um autoproclamado justiceiro tenha incidido sobre um corpo policial, que melhor tem evoluído no sentido de lidar com as diferenças raciais e os movimentos de cidadãos. A própria manifestação contra as mortes dos dias anteriores tinha corrido de forma exemplar e com uma colaboração inexcedível entre a polícia e os organizadores do protesto. O que mostra os limites deste tipo de ações individuais: vitimam quem menos mereceria ser punido pelos crimes de eventuais parceiros corporativos. Tendo tantas cidades do sul dos Estados Unidos um registo tão comprometedor da prepotência policial contra cidadãos não brancos, porque decidiu o assassino realizar o seu ato naquela onde é conhecida uma atitude contrária a esses maus exemplos?
No documentário sobre as milícias patrióticas era evidente o racismo dos seus elementos. Preparados por antigos militares eles exercitam-se em cenários de guerra, que terão como inimigo preferencial o exército federal. Obama personifica o ódio de estimação, acusado de ter contrariado os «valores» previstos numa Constituição lida de forma parcial e apenas no que pareceria adequar-se aos seus ideais.
È absolutamente falaciosa a tese, felizmente cada vez menos popular, de já não se justificar a aplicação da leitura marxista da luta de classes,. Numa altura em que o capitalismo global dá sinais sérios do seu esgotamento, e enquanto não ocorrer a transição para a sua fase seguinte - a da transformação dos cidadãos em apáticos consumidores sem acesso a emprego, dotados de subsídios irrisórios, mas suficientes para manterem em funcionamento uma máquina produtiva assente em robôs e automatização! - verificar-se-á o já ocorrido noutras épocas transatas, quando essa alteração de paradigma se verificou (do capitalismo assente no comércio marítimo para o industrial, deste último para o de escala imperialista, etc): grandes contradições a nível local e transnacional passíveis de gerarem conflitos muito violentos. O que de pior tem a espécie humana - o egoísmo, a xenofobia, o medo do que virá, etc. - tenderá a manifestar-se na forma absurda como a constatada tantas vezes nos últimos tempos. Com os refugiados e o terrorismo como meras manifestações de um fenómeno bem mais global.
É claro que toda a força exercida num sentido também gera a outra, a que força os acontecimentos em sentido contrário. Por isso temos fenómenos como o de Bernie Sanders nos EUA ou Jeremy Corbyn na Inglaterra (onde os analistas talvez se tenham mostrado excessivamente exagerados ao decretarem-lhe a iminente morte política). E também o governo português, por muito que no contexto europeu tarde em revelar-se como a andorinha que anuncia a Primavera.
Aos que acreditam que existem outros caminhos, que não os dos justiceiros inconsequentes ou dos fascistas de diversos matizes (desde os islâmicos aos do Ku Klux Klan passando pelos evangélicos, que estiveram por trás da destituição de Dilma), caberá participar nos esforços comandados pelos partidos e organizações, que creem possível um futuro bem mais auspicioso.
No Liceu de Almada, quando frequentávamos os dois últimos anos do ensino secundário, já tinha uma antipatia bem assumida por Durão Barroso. A sua postura esquiva, quase sempre colocando-se à margem do convívio com os colegas, denunciava-o como um individualista só preocupado com os seus interesses próprios.
Em certa altura uma das suas atitudes de falta de solidariedade para com o coletivo dos colegas tornou-se tão evidente que, nas cadeiras do café Repuxo, à Fonte Luminosa, passámos uma tarde a preparar-lhe uma espera para lhe dar justo corretivo. O facto de termos decidido poupá-lo a uns quantos sopapos não me inibe de pensar que perdemos uma boa oportunidade em lhe aplicar um justo corretivo, mesmo que por antecipação de todas as vilanias, que lhe viríamos a conhecer.
Nunca mais o vi nas proximidades, muito embora tivéssemos depois frequentado o mesmo cenáculo maoísta. Mas, entre os que o tinham conhecido no liceu, o espanto era genuíno: um tipo sempre conhecido por não se interessar senão por ele próprio ia agora «defender a classe operária»?
- Du jamais vu!
Nos anos seguintes fomos acompanhando as sucessivas fases para onde o ia guindando a sua natureza arrivista tramando todos quantos pudessem prejudicar-lhe a ambição e, quando isso já não chegava, tratando de estragar a vida a milhões de pessoas, entre iraquianos que ajudou a matar com a sua cumplicidade para com Bush, e os muitos europeus prejudicados não só pelas consequências dessa guerra, mas também por todas as decisões da Comissão Europeia durante os anos em que ele personificou a implementação da agenda neoliberal.
Se existisse um concurso sobre a personalidade mais odiada pelos portugueses nesta altura o sr. Schäuble teria boas hipóteses de sair vencedor, mas Durão Barroso poderia perfilar-se como adversário temível para o alemão.
É claro que a direita exultou com a nomeação de um cargo não executivo para a Goldman Sachs. Na mente muito pequenina dos nossos saudosistas do PàF isso significa uma distinção, que lhes enche a empáfia. Mas para quem conhece aquele banco até esta notícia tem de ser relativizada.
É que desde a altura em que cometeram a imprudência de contratar António Borges para um cargo executivo (mas atenção que ser vice-presidente na Goldman nada tem a ver com aquilo que a direita quis fazer crer, já que são centenas os assim designados chefes de departamentos só na City!), os donos da instituição têm redobrado de cuidados quando tratam de convidar as “estrelas cadentes” do firmamento direitista português.
Borges, a quem a condição de defunto não nos deve inibir de classificar como um vaidoso incompetente, foi daqueles que um par de anos depois de chegar à Fleet Street ao som de trombetas e gaitinhas, teve de procurar outro emprego. Ainda conseguiu enganar o FMI mas não tardou a sentir-se sem pedalada para a função, demitindo-se antes de ser demitido. Em má hora, porque Passos logo decidiu pagar-lhe 25 mil euros mensais para ajudá-lo na tarefa de privatizar empresas públicas rentáveis tornando-as ótimas oportunidades de negócio para os tais amigos com que andava a cultivar as afinidades eletivas.
Foi essa a razão porque com a «estrela» seguinte (José Luís «Asnô») o cuidado já incluiu só o ter como consultor. Ainda assim com estragos consideráveis pois dizem as más línguas, que os conselhos para compra de ações do GES pelo novo empregador resultou num prejuízo, que ainda está por resolver em tribunal. Com hipóteses significativas de não vir a ser recuperado.
Compreende-se, que deem a Barroso um cargo em que ele ganhará apetecido ordenado sem ter de fazer mais nada do que «passear o charme» de lobista. Que é a única razão porque interessa a Lloyd Blankfein e seus muchachos. É que competências justificativas para chegar onde chegou nunca ninguém as vislumbrou, se excetuarmos as da habilidade arrivista com que sempre se conseguiu vender como o «génio», que nunca foi…
Resta-nos uma consolação: com Portas e Barroso arrumados, quem restará à direita para apresentar à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa?
Não são poucas as vezes em que, vendo os atentados terroristas numa Bagdad juncada de ruínas e de ruas ensanguentadas pelo martírio de crianças, penso no quanto se passará na mente dos antigos sonhadores de um país conforme com os padrões democráticos ocidentais.
E não só em Bagdad. Também no Cairo, quando encheram a Praça Tahrir e não tardaram a ver a partida de Mubarak transformada no sucesso dos islamitas radicais. Ou em Alepo, quando se julgaram com capacidade para enviar Assad para Moscovo e afinal abriram as portas a todas as formas mais extremistas de impor a religião.
Desde sempre que defendi a vantagem de apoiar regimes autoritários, mas radicalmente laicos, mesmo que à custa da repressão de quantos ali apostam na conjugação de religião com exercício do poder.
Por muito que os meios de informação ocidentais teçam de Assad a imagem de cruel ditador, prefiro-o mil vezes aos seus opositores cujas práticas assassinas conseguem ser bastante mais repugnantes.
E não me falem de uma suposta oposição democrática - aquela mirifica corte de oportunistas que também estiveram presentes no Iraque e até foram dos mais destacados denunciadores das armas de destruição maciça, que ninguém depois ali conseguiu encontrar.
Se não são os idiotas uteis, que serviriam de batedores a regimes assentes na sharia, depressa se revelariam novos ditadores a pretexto de contarem com uma oposição demasiado forte à sua fraca representatividade social apressando-se a fazer bem pior do que o odiado presidente, que tenham entretanto ajudado a derrubar.
Não espanta, pois, o que uma reportagem da BBC mostrou recentemente, quando foi à procura do homem entusiasmado há treze anos em derrubar a estátua de Saddam Hussein em Bagdad. Khadim al-Jabbouri, assim se chama, estava então esfuziante com a vitória sobre aquele que mandara executar catorze dos membros da sua família e o mantivera preso durante dois anos. Agora é um homem arrependido: é que “Saddam foi-se, mas agora temos mil Saddams.”
É mais do que evidente que, enquanto o ocidente não apostar seriamente na segregação de regimes como o qatari ou o saudita, que financiam ativamente o terrorismo islâmico, nenhum modelo ocidental conseguirá frutificar no Médio Oriente. E, mal por mal, antes ditadores laicos, que defendam a existência de outras comunidades (católicas, judaicas, etc) para além das maioritariamente muçulmanas e garantam às mulheres os direitos, que os seus detratores se apressam a recusar.
O Iraque teria ficado melhor com Saddam, a Líbia com Khadafi ou a Síria com Assad, se o Ocidente tivesse continuado a pressioná-los para um maior respeito com os direitos humanos e com a sua efetiva laicização. Para já o problema europeu com os refugiados e com a ameaça terrorista nunca teria atingido esta dimensão que, diariamente, nos inquieta.
1. Única e exclusiva vontade de bisbilhotar. Assim pode considerar-se a insistência do CDS em conhecer o teor da carta que António Costa terá enviado a Juncker a propósito da ameaça de sanções pendente sobre o nosso país.
Ninguém terá ensinado a Cristas e Magalhães o quanto é feio andar a espreitar para a correspondência alheia? Ou será que a falta de argumentos para criticar o governo é tão notória, que já andam a esgaravatar o caixote do lixo do primeiro-ministro na esperança de nele encontrarem algo de comprometedor?
Se o ridículo matasse, os dirigentes do CDS estariam na primeira linha para caírem que nem tordos…
2. Outra característica neste CDS é a de tomarem os outros por parvos. Nesse sentido Mota Soares distingue-se com o seu pretenso ar de seminarista, que arrisca as maiores atoardas na esperança de que nele ouçam apenas manifestações de boa-fé.
Vem isto a propósito da legislação ontem recusada na Assembleia da República em que se procurava voltar à tentativa de privatizar a Segurança Social sob a aparência de só estar a possibilitar ao cidadão o aumento da sua futura reforma com dotações complementares.
Está-se mesmo a ver o filme: se voltasse ao governo Mota Soares encontraria aí a plataforma necessária para encetar a fase seguinte do projeto da direita - o plafonamento trapaceiro.
3. A passear-se no Douro, Marcelo lá teve de corrigir o lapsus linguae da véspera quando se dissera disposto a aguentar o governo de António Costa “por mais uns tempos”.
Gente desconfiada, entre a qual me insiro, logo viu nessa frase a confirmação do que vai na alma do inquilino de Belém: vai convergindo aparentemente com António Costa enquanto não conta no PSD com quem lhe possa servir de instrumento para o seu projeto ideológico pessoal, porque assim isso suceda e tudo fará para pressionar o primeiro-ministro a dissociar-se dos parceiros à esquerda e aceitar a formação do tal centrão com que os «beaux esprits» da elite dos negócios se sentem confortáveis.
4. Esta tarde o debate sobre o estado da Nação irá permitir o terçar de argumentos em torno dos índices oficiais produzidos pelo INE e pelo Banco de Portugal. A direita verá neles o deitar a perder do seu esforço para tornar o país mais competitivo à custa do empobrecimento dos portugueses, enquanto o governo aproveitará para olhar esses números e apoiar-se neles como incentivo para o muito ainda a fazer . Nos partidos que apoiam o governo realçar-se-á a inversão no ciclo político, que marcou o aprofundamento das desigualdades entre os portugueses.
Uma vez mais será crível que, no balanço do debate, fiquemos com a noção de uma nova banhada dada por Costa à desconchavada direita.
5. Não é que o Relatório Chilcot constitua uma novidade mas, na forma exaustiva como analisou todas as circunstâncias que estiveram na origem da invasão do Iraque, dá argumentos acrescidos a quem acredita na urgência de levar Blair, Bush, e já agora, Aznar e Durão Barroso ao Tribunal Internacional de Haia para serem julgados como criminosos de guerra. O número de mortos que a intenção belicista do Pentágono, secundada pelos cúmplices europeus, provocou então, e ainda continuará a causar nas violentas sequelas que dela decorrem, atinge dimensões comparáveis às dos mais terríveis conflitos do século XX.
A culpa, como diz o provérbio, não pode morrer solteira, nem ficar-se, como o pretende David Cameron, como lição para o futuro!
1. Que eu desse por isso não fui um dos «premiados» com o convite para a Universidade de Verão do PSD, que terá sido enviado a uma boa parte dos que constam da lista de endereços da newsletter do «Expresso Online». Por uma vez sou obrigado a desdizer-me quando exijo a justiça de, se há convites para uns, têm de haver para todos! Desta feita prescindo bem da “honraria”…
O episódio tem, porém, duas leituras imediatas: por um lado os organizadores dessa iniciativa, devem estar tão aflitos em arranjar «macaquinhos» para servirem de figurantes em tais imagens - apenas visando ocupação de tempo antena gratuito nos telejornais! - que já se servem dos expedientes mais desajeitados. Por outro lado há a progressiva falta de pudor das publicações e dos canais televisivos de Balsemão ao serviço do PSD.
É claro que vieram pedir desculpa pelo sucedido, mas a impunidade com que a partidarização dos meios de comunicação anda a evoluir merece mais do que o repúdio dos que a não aceitam, reiterando-se a urgência da ERC no sentido de fazer cumprir a objetividade a que, legalmente, e até contratualmente no caso das televisões, estariam obrigados.
2. As notícias sobre nepaleses resgatados de estufas da zona de Almeirim onde se sujeitavam a trabalho escravo são mais uma prova da falta de escrúpulos dos que olham para os lucros, e não para os seus deveres enquanto patrões. É que, embora possam invocar a política de esmagamento de preços aos fornecedores por parte dos hipermercados - também eles responsáveis a montante por estas situações ignóbeis! - não lhes pode ser indiferente o tipo de alimentação, alojamento e remuneração a que esses emigrantes vindos de longe estão sujeitos. Considerá-los-ão sub-humanos sobre os quais se podem praticar as maiores indignidades? Ou quererão enganar-se com a mentira praticarem o «piedoso bem» por lhes darem o trabalho, que não encontram donde vêm?
E o mais inquietante é sabermos que, em vez de estarem a diminuir, este tipo de casos de polícia, vão sendo cada vez mais frequentes…
3. O feitiço a virar-se uma vez mais contra o feiticeiro? Será que o PSD tanto quis a Comissão de Inquérito par(a)lamentar da Caixa Geral de Depósitos, que se arrisca a vê-la concluir pela sua responsabilidade nos muitos milhões necessários para a recapitalizar?
Foi isso mesmo que Mário Centeno veio sugerir ao apontar o "desvio enormíssimo" no plano de negócios da CGD, acima de três mil milhões de euros, herdado da gestão "negligente" do governo liderado pelo PSD.
Não é difícil encontrar razões para essa estratégia de Passos Coelho nos últimos quatro anos. O seu desejo confessado de privatizar o banco obrigaria a degradar-lhe a situação financeira de forma a não possibilitar qualquer outra alternativa, quando chegasse a altura de o resgatar.
Ora, nesse sentido, a lógica sempre passou pela tese de não intervir no setor bancário, “acreditando” que a mirífica “mão invisível” operasse prodígio miraculoso. E assim deixou o BES e o Banif evoluírem até à bancarrota, assim como assegurou a progressiva degradação do banco público até quase atingir esse patamar de irreversibilidade.
No que acreditariam Passos e Maria Luís? Que os novos donos os viessem a premiar com a mesma generosidade que a Mota-Engil revelou para Paulo Portas?
A Comissão de Inquérito poderá redundar numa questão singela: tanta negligência não constituirá crime merecedor de atenção pelo Ministério Público?
Tenho para comigo que, no contexto de automação e robotização da economia, com programas informáticos e equipamentos de tecnologias já disponíveis a tornarem obsoletas muitas das tarefas ainda capazes de garantirem emprego a milhões de pessoas, o capitalismo não tardará a entrar numa nova fase, que nada tem a ver com a atualmente imposta pelos figurões à frente das instituições europeias. Pelo contrário: hoje em dia eles já estão obsoletos no confronto com um futuro próximo para o qual as suas mentes já não se conseguem reformatar. Os Schäubles & Cª estão politicamente mortos, mas ainda cuidou de os informar.
Para sobreviver o Capitalismo precisa que a maioria dos seus cidadãos abandone a condição de fornecedores de mais-valias à conta da exploração do seu trabalho, mas em consumidores, cujo dever é o de se deixarem alienar com tudo quanto lhes passará a ser disponibilizado por uma sociedade autocrática, com os meios de produção possuídos e comandados por uma casta ciosa de preservar esse poder. Por isso venham muitos futebóis, telenovelas, reality shows e coisas similares, que despojem de sentido crítico os que só valerão em função do que consumirem.
Existirá, então, um rendimento fixo e mensal por cidadão, desde o nascimento até à morte. E enquanto os defensores desta ideia conotados com a direita, são fiéis aos seus sentimentos assistencialistas, que faria dos cidadãos-consumidores uma enorme multidão de pobrezinhos agradecidos e submissos, à esquerda defende-se esta remuneração como uma base à qual se somarão os rendimentos obtidos complementarmente em atividades laborais ou criativas.
A ideia até nem é muito inovadora, porque Milton Friedman, em nome do seu monetarismo, chegava a sugerir que a Reserva Federal Americana emitisse dólares e, depois, os distribuísse através de helicópteros, que voariam sobre as cidades a distribuírem-nos aleatoriamente por quem os apanhasse. De alguma forma também é isso que, sem sucesso, Mario Draghi anda a fazer para promover o crescimento europeu, facilitando dinheiro aos bancos para que eles financiem projetos de empreendedores privados, o que não tem acontecido. Por isso já há quem defenda, que estes índices muito baixos de inflação e crescimento só terão solução se, em vez de entregar dinheiro aos bancos, o BCE oferecesse, por exemplo, 500 ou 600 euros de uma assentada a todos os cidadãos comunitários, que, logo os gastando em bens e serviços transacionáveis, alavancariam as economias para patamares mais elevados de oferta e de procura.
É por isso mesmo que esta ideia de um rendimento fixo a distribuir pelos cidadãos vai ter pernas para andar, apesar da derrota dos seus promotores no referendo suíço de algumas semanas atrás. Até por já estarem a avançar novas experiências nesse sentido, nomeadamente na Finlândia e na Holanda.
O capitalismo acaba sempre por encontrar uma solução judiciosa para sobreviver a cada iminente fim. E, então, se se mascarar de conceitos roubados à esquerda - como a igualdade de rendimentos num grande número de cidadãos - as hipóteses de sucesso serão bastante maiores.
Caberá à esquerda defender que esse tipo de rendimentos não se destinarão a acautelar a paz social para os detentores do poder e dos meios de produção, mas de conquistar ambos e distribui-los de acordo com os princípios de Igualdade, Solidariedade e Liberdade, que devem nortear todas as instituições políticas...