quinta-feira, 23 de junho de 2016

Metáforas e diminutivos

Quem me conhece sabe o quão pouco me interesso pelas questões do futebol. Quase tão facilmente me apresso a zappinguear os vários programas de debate futebolóide nas várias televisões, como o faço com aquele tipo de personagens que só de os ouvir fico indisposto - José Gomes Ferreira, Rodrigues dos Santos, Medina Carreira e outros mais! -, a quem logo retiroo uso da palavra, tão farto estou de os ver repetir a cartilha do costume.
Ontem, porém, cheguei a tempo da praia para ver a segunda parte do jogo contra a Hungria, e só não pude estar mais atento, porque houve quem me telefonasse, obrigando-me a dividir a atenção dos últimos minutos do jogo com uma conversa, que teria desejado mais abreviada.
Mas se já não estou para ir em grandes futebóis mantenho a opinião de ser muito fácil encontrar metáforas fundamentadas para equiparar o que se passa nos estádios com a situação política nacional.
A exemplo da equipa portuguesa temos um Governo, que consideramos competente e um líder experiente, capaz de se mostrar tão excelente quanto, amiúde, o nosso principal craque o demonstra em campo. O problema é que ansiávamos por resultados brilhantes e eles ainda tardam: vamos lá a ver se os indicadores amanhã publicados pelo INE nos dão maiores alegrias do que os dos últimos meses, porque, verdadeiramente queremos mais emprego e crescimento económico, calando de vez as bocas melífluas, que insistem em repetir milhentas vezes a mentira do “não funciona” à espera que assim a transformem num axioma irrefutável.
O problema têm sido as equipas adversárias, que contam com a força bruta (no caso das instituições europeias), a sorte (um episódio como o das lambadas prometidas por João Soares) ou alguma capacidade de contra ataque (a história da CGD) para frustrarem as nossas expetativas. Nesta altura já queríamos ter celebrado mais vitórias, e por agora pouco mais podemos congratularmo-nos do que com as conseguidas na fase de preparação para este Europeu.
Estamos, pois, com o Governo como com a seleção: confiantes em que conseguem superar-se mais do que até aqui e darem-nos as alegrias, que merecemos!
É que não há mais pachorra para aturar os candidatos a velhos do Restelo, sempre prontos a desaconselhar objetivos mais ambiciosos, porque deveríamos continuar aqui armados em coitadinhos no nosso país no diminutivo, onde acreditam, que juizinho é que é preciso (Alexandre O’Neill dixit). 

O horror sob o nosso olhar impotente

Alguns dos refugiados, que Portugal acolheu nas últimas semanas, provieram da Eritreia, um dos países do Corno de África, que conhece há vários anos uma implacável ditadura.
O ONU publicou recentemente um relatório sobre o (in)cumprimento dos Direitos Humanos nesse país, confirmando o conhecido já de diversas fontes: o regime escravizou uma boa parte da população, à qual aterroriza, igualmente, com desaparecimentos, torturas, perseguições, violações, assassinatos e outros atos de uma desumanidade inaceitável.
A Comissão responsável pelo relatório abriu assim caminho para confrontar o regime de Issayas Afeworki com o Tribunal Internacional  de Haia.
Mas, consiga-se ou não chegar a esse objetivo - o caso de Omarf al-Bachir, ainda no poder no Sudão, demonstra como isso não é fácil - o que as instâncias internacionais têm de discutir é até que ponto estão dispostas a lavar as mãos dos horrores cometidos por tal ditadura. É que, provavelmente, os jovens obrigados a fugir para não serem incorporados anos a fio nas Forças Armadas - forma de os obrigar a trabalho não remunerado ao serviço do regime! - seriam os mais interessados em ficarem na sua terra natal para a ajudarem a desenvolver-se.
Para quem milita na esquerda e, em tempos, apoiou o movimento independentista da Eritreia por o julgar legitimamente interessado em defender o seu povo e libertá-lo da marginalização a que era sujeito pelos etíopes, continuam a suceder-se as desilusões, há muito acumuladas desde que Mugabe no Zimbabwe ou José Eduardo dos Santos em Angola passaram a considerar o poder como algo de muito pessoal, vedado a quem não integra a sua família ou corte de amigos.
Um outro desses casos de desilusão está a verificar-se com a birmanesa Aung San Suu Kyi a quem a ONU não consegue, igualmente, convencer a pôr cobro aos crimes praticados contra a minoria muçulmana designada como Rohingya.
Para quem julga que os crimes mais horrendos têm sido mais recentemente os cometidos pelo Daesh, só pode nisso acreditar por desconhecer o que os budistas fundamentalistas do Myanmar andam a perpetrar contra essa gente pobre, que tem em Alá o seu guia espiritual.
Os crimes, os incêndios de casas, as violações e os roubos fazem parte do clima de terror, que está a acontecer sob o olhar do mundo. Algo que a Prémio Nobel da Paz de 1991 se recusa a fazer travar, muito embora seja ela quem realmente manda no governo hoje instalado em Rangum.
Temos de convir que Mandela constituiu, de facto, uma exceção como líder capaz de manter no poder os valores de que era porta-voz quando estava na oposição. Lutar contra um governo ilegítimo poderá ser admirável, mas evitar tornar-se noutro ditador, quando a relação de forças se inflete, ainda o é muito mais. Nesse sentido Aung San Suu Kyi está a revelar-se a confirmação a uma regra, infelizmente cada vez mais sustentada em factos concretos. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Pensamentos politicamente incorretos

A notícia da «fuga» para a Noruega de refugiados por quem Portugal se responsabilizara, ao mesmo tempo que a reportagem do «Público» de domingo passado sobre dois casais sírios entretanto radicados em Guimarães, demonstra algumas evidências, que só o pensamento «politicamente correto» poderá questionar.
Em primeiro lugar as expetativas criadas nesses refugiados foram tão elevadas, que um país como Portugal só lhes poderá suscitar desilusão. Para serem convencidos a arriscarem a vida em tão perigosa aventura, houve quem lhes acenasse com uma Europa pronta a acolhe-los com empregos fáceis e muito bem remunerados, para além de serviços de saúde prontos a resolver-lhes os problemas mais prementes. No caso dos que o jornal da Sonae entrevistou havia a incompreensão pelo facto de uma das mulheres, que está obrigada a fazer diálise, não ter já recebido o transplante de um rim, como se não existissem listas de espera a respeitar.
O segundo equívoco tem a ver com as diferenças culturais. A ideia de «em Roma sê romano» não funciona para esses casais, cujos homens andaram a passear-se em t-shirt pelo castelo de Afonso Henriques, mas cujas esposas suaram as estopinhas dentro dos fartos agasalhos, que tapavam integralmente o seu corpo.
Podemos e devemos criticar as políticas ocidentais, que islamizaram acentuadamente as populações outrora bem mais laicizadas dos países donde provém os refugiados, mas a realidade é como é, e o que os pais ou avós acreditaram deu lugar a idiossincrasias em total confronto com aquelas em que se veem inseridos.
O terceiro equívoco tem a ver precisamente com essas mesmas políticas dos dirigentes europeus e norte-americanos, que acreditam na perdurabilidade deste fenómeno. O que de melhor poderiam e deveriam fazer era chegarem a acordo com a Rússia e com o Irão para estabilizarem o Iraque e a Síria - e aqui passa por retirar a Assad a imagem de criminoso de guerra, que não têm atribuído aos dirigentes sauditas ou qataris, que financiam os respetivos opositores, e criar-lhes as condições para aí voltarem a coexistir comunidades multiconfessionais, mesmo que sujeitas a um tipo de autoritarismo político transitório, dada a sua incompatibilidade com os ideais democráticos dos que só serviram de idiotas úteis aos líderes islamofascistas.
Resolver o problema dos refugiados significa criar-lhes condições para voltarem à Síria e no Iraque. E, já agora, à boleia, derrubar e levar para ser julgado em Haia o criminoso, que mantém a Eritreia num estado-prisão dos mais hediondos de quantos hoje existem. Porque, caso contrário, as suas frustrações e desenquadramento quanto aos valores defendidos no ocidente só redundarão em situações trágicas como as de Orlando ou Paris.
Receber os refugiados em nome dos valores humanistas, que estão na génese da cultura ocidental revelou-se tarefa de dificuldade bastante mais complicada do que o esperavam Merkel e outros líderes europeus. Mas integrá-los nas nossas sociedades arriscaria a dizer que se trata de algo quase impossível...

A diferença entre uma linha e o que ela esconde

“Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai”, o romance de Gonçalo M. Tavares, que andamos a intercalar com outras leituras, continua a ser muito rico para abordar o lado menos visível da nossa realidade política e social, suscitando reflexões pertinentes.
Chegámos agora à parte em que Marius e Hanna, a menina do título, encontram um estranho homem, Josh, que os leva a casa para lhes dar a conhecer a sua estranha singularidade: ele é capaz de decifrar o conteúdo de expressões redigidas numa dimensão tão diminuta que, a olho nu, só permite vislumbrar um segmento de linha.
Marius tem uma enorme surpresa quando olha para a aparente linha inscrita numa folha de papel e o microscópio lhe faculta uma leitura mais fidedigna, permitindo-lhe ler uma frase consistente.
O que somos nós senão pobres mortais, que olhamos para o que se passa à nossa volta e a vemos plasmada numa linha de continuidade, que esconde muito maiores complexidades do que nos pareciam acessíveis à primeira vista?
O que está implícita na história criada por Gonçalo M. Tavares é a proposta de não nos deixarmos iludir pela superficialidade do que vemos. Vale a pena ir mais além, escalpelizar a capa exterior e discernir o que nos possa ela esconder. E pôr dúvidas, mesmo quando nos tentam convencer da incontestabilidade dos axiomas com que nos bombardeiam diariamente através de jornais, televisões, rádios ou redes sociais.
Peguemos num exemplo de hoje: os telejornais quase se parecem comprazer com as declarações de Dijsselbloem  ou de Draghi, que surgem concertados em aplicar sanções a Portugal pelos resultados fracassados das políticas implementadas pelo governo anterior. E escolhem imagens de arquivo em que Centeno quase parece um Egas Moniz a quem só falta meterem-lhe uma corda ao pescoço.
Que linha nos querem impor essas imagens? Certamente a de que a subserviência às instituições europeias é coisa boa, enquanto se revelaria errada a determinação do atual governo em infletir tal atitude.
Querem que vejamos essa linha, mas nós teimamos no uso do microscópio e detetamos na realidade um conjunto de razões bastantes para porfiarmos na contestação. E esperando que a tal se não atrevam, já não excluo a possibilidade, acaso me engane e o Eurogrupo as imponha, de ser justificável uma enorme manifestação como a de 15 de setembro de 2012, com um único fito: depois de os ingleses terem eventualmente decidido nesse sentido, pode-se justificar que outros povos europeus os sigam na desafeição à União Europeia se ela apenas existir para punir os recalcitrantes com as suas políticas.
Terá, pois, de existir uma grande diferença entre a linha, que nos querem deixar ver, e a efetiva leitura, que ela esconde. Ou como diria um saboroso personagem de Mário de Carvalho, vai uma grande diferença entre Manuel Germano e género humano. E é em nome dessa humanidade, contrariando os apostados em nos circunscreverem aos tais números em folhas de excel, que a defesa dos nossos interesses poderá passar por algo mais do que os cultores das inevitabilidades nos querem fazer crer...

terça-feira, 21 de junho de 2016

Não é só o Brexit a estar em causa

A dois dias do referendo sobre o Brexit é curioso que as elites financeiras da City e os burocratas de Bruxelas começam a enfrentar as tempestades, que proporcionaram com os ventos que quiseram semear.
O que leva os ingleses a pensar com o coração e não com a carteira, apesar de nove em cada dez economistas alertarem para o prejuízo subsequente a uma presumível decisão de saída, é o resultado da política austeritária, que levou o governo conservador a fazer cortes significativos nas escolas e nos hospitais públicos. Não admira que, hoje, os ingleses mais vulneráveis aos discursos xenófobos a eles adiram, quando dão com filas de espera significativas nos serviços de saúde e escolas sobrelotadas para os filhos. Culpar os imigrantes por essa consequência direta do desinvestimento do governo inglês no seu importante Estado Social só aumentou o eleitorado do UKIP.
Mas não só: as mesmas políticas de conseguir «ganhos em competitividade» à custa de manter os salários ao nível de 2009 faz com que muita gente, embora com emprego, não ganhe o suficiente para sobreviver, tendo de partilhar apartamentos com outros na mesma situação e até recorrendo crescentemente à solidariedade social.
Sem perspetivas de verem melhorada a sua qualidade de vida, também esses se mostram vulneráveis ao discurso xenófobo.
Existe, pois, uma enorme diferenciação entre o voto de quem tem diploma universitário e conta entre os trinta e os cinquenta anos, e os dos que perderam o emprego e sabem já não ter possibilidades de o conseguir encontrar, ou os jovens, que nem sequer vislumbram hipóteses de alguma vez virem a enquadrar-se nesse mesmo mercado do trabalho.
Não é apenas, porque o Reino Unido é o 4º maior parceiro comercial de Portugal, que a decisão desta semana influirá nas nossas vidas: ela antecipa o que está mal com a globalização, e precipita um conjunto de desafios políticos, económicos e sociais, para os quais as lideranças europeias não têm sabido encontrar solução.
Sobretudo, quando os burocratas da União Europeia apostam em fazer a vida negra aos governantes, que não se curvam aos seus ditames e insistem em receitas cujo falhanço é mais do que notório, ou dão rédea solta a uma visão belicista da NATO, que fecha as fronteiras russas aos produtos europeus e mantém o apoio aos líderes medievais do Médio Oriente, responsáveis pelo financiamento aos grupos islamofascistas, pelos quais desapareceram todos os vestígios de laicidade em países onde ela era assegurada pelo Estado (Iraque, Líbia, Síria, Egito).
Enquanto persistir o desrespeito pelas aspirações das nações europeias em manterem alguns direitos mais do que legítimos (por exemplo não terem os seus Orçamentos sujeitos a vistos prévios e as correspondentes execuções objeto de «acompanhamento») e em tenderem para uma convergência de rendimentos e de direitos, a União Europeia é um projeto destinado a fracassar a muito curto prazo. E já é tempo de infletir significativamente nas políticas geoestratégicas do Ocidente, tratando os fascismos atuais - seja na Hungria, na Polónia, no Qatar ou na Arábia Saudita - como eles foram combatidos há setenta e cinco anos. Impondo a regra de que só tem direito a ser parceiro de uma Europa civilizada, herdeira do Espírito das Luzes, quem fizer das liberdades fundamentais a sua cartilha de conduta e de quem separa sem qualquer sombra de dúvida o que tem a ver com os homens do que diz apenas e exclusivamente respeito aos deuses.

As inquietantes e pantanosas unidades

Com alguns dias de atraso só agora li a entrevista que o escritor inglês Howard Jakobson deu a Luís Miguel Queirós («Público», 17/6/2016) ao passar por um festival literário na Póvoa do Varzim e em que diz esta frase com que concordo em absoluto: “Quando as pessoas começam a concordar umas com as outras, fico com medo”.
É esse o motivo maior para assumir uma progressiva misantropia na militância política: estou farto de ver o debate conduzido e dominado por quem gosta sobretudo de se ouvir a si mesmo e tenta calar o mais possível os pontos de vista alheios. Ou, em alternativa, quando ele nem sequer é proposto de modo a evitar as divergências, que desmentiriam um cenário de pacificação interna exibido como definitivo.
Apoiando indefetivelmente a forma como António Costa tem conduzido o governo e o projeto por ele vislumbrado como o mais apropriado para o futuro dos portugueses, exprimo as minhas sérias dúvidas sobre a bondade de criar uma ilusória unidade interna, subsequente ao recente Congresso, cativando para os órgãos dirigentes quem, ainda meses atrás, dizia da solução governativa o que Maomé não se atrevia a dizer do chouriço.
Talvez haja no meu sangue algo de origem judaica, por me identificar com a célebre anedota segundo a qual dois hebreus a discutir debatem sempre três pontos de vista opostos entre si.
No debate político eu gosto das coisas bem claras, tipo “pão, pão, queijo, queijo”. Por isso discordo frontalmente dos que me dizem para silenciar o meu desagrado com os pseudo-socialistas, que enchem páginas de prestimosos jornais a fazer campanha contra o que o Partido anda a fazer, como se essa tal ilusão de unidade fosse mais importante do que definir as linhas vermelhas com as quais não é possível tergiversar.
No estado em que as coisas andam na Europa - e as eleições municipais em Itália só confirmaram o descalabro, que significa ver socialistas e sociais-democratas a praticarem as políticas, que os seus opositores de direita não enjeitariam - rejeito a ideia de que ser de esquerda equivale a aceitar as políticas europeístas dimanadas do senhor Schäuble. Ou que, como ainda vejo defendido por alguns desses recém-promovidos dirigentes do PS, aceitar a ideia de que a falta de competitividade dos trabalhadores portugueses se deve a ainda não se terem flexibilizado suficientemente as leis laborais.
É por essa inquietante e pantanosa unidade interna, que receio ver o Partido Socialista incapaz de se mostrar à altura da responsabilidade, que se lhe coloca no atual momento histórico. Uma vez por todas, o PS deveria liderar a mudança na Internacional Socialista no sentido de a tornar numa organização com uma palavra decisiva em tudo quanto se vai passando hoje no mundo. Nomeadamente conseguindo federar em seu torno todas as forças políticas de esquerda dispostas a conquistar democraticamente a liderança das respetivas nações...

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O que a realidade atirou às malvas

O Livre é um partido que me mereceu simpatia ao ser fundado por responder àquilo que, como militante socialista, não me andava a satisfazer: a persistência de um sectarismo anticomunista ainda radicado na violência de alguns confrontos verificados no verão de 75. A proposta de uma convergência das esquerdas num mesmo projeto era, e continua a ser, a resposta a uma radicalização da direita em modelos de governação, que já demonstraram na sua plenitude os efeitos devastadores em termos de justiça social.
Passada a certificação de óbito ao «arco da governação» e confirmada a sustentabilidade da «geringonça» não faria muito sentido prosseguir com esse projeto político, como aliás decidiram os promotores do Congresso das Alternativas, entretanto mobilizados para alinharem os seus contributos nos dos partidos da atual maioria governamental.
Não entende assim Rui Tavares e quem o continua  a acompanhar nesse projeto, que procura manter-se à tona com uma identidade assumidamente europeísta.
Ora, numa altura em que é o próprio ministro Augusto Santos Silva quem denuncia a vida negra quotidianamente criada ao governo pelos burocratas de Bruxelas e em que, ganhe ou não o sim ao Brexit, se esboroa a ideia de uma União Europeia fiel aos seus princípios fundadores, é esse europeísmo militante, que mais torna obsoleta tal formação política. Porque muito embora a vertente eurocética da atual coligação esteja já representada pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, são muitos os militantes de base e os simpatizantes socialistas, que só toleram a insistência no projeto europeu porque a mobilidade de quem procura emprego e se pode deslocar livremente naquele espaço  ainda vai persistindo graças ao acordo de Schengen. Até por estar por provar a tese de António Costa em como a social-democracia e o socialismo só são exequíveis dentro da União Europeia. Essas ideias políticas são bem mais consistentes do que pressupõe o seu enquadramento dentro de um formato organizativo continental, que só tem tido por objetivo esmaga-las.

domingo, 19 de junho de 2016

Os números falseados de uma grande manifestação

Porque estive na manifestação de ontem à tarde e depois fui para o Nimas ver a epopeia de Kontachalovsky sobre a História soviética vista da perspetiva de uma aldeia siberiana, não me pude aperceber do tipo de cobertura noticiosa feito a propósito da iniciativa dos defensores da Escola Pública.
Sendo dia de futebol já imaginava que as reportagens sempre iguais, com que as televisões preenchem os seus tempos de antena antes, durante e depois dos jogos - ainda mais empolados nos dias em que joga Portugal - servissem de alibi para que quase silenciassem a iniciativa. E, de facto, quer no Marquês do Pombal, quer na Avenida da Liberdade, não vi sinais das câmaras de outros tempos, nomeadamente quando o governo era liderado por José Sócrates e as televisões mostravam-se particularmente zelosas na demonstração da existência de insatisfeitos. Afinal o mesmo zelo demonstrado semanas atrás, quando quiseram fazer acreditar que a titubeante epidemia de camisolas amarelas, convocadas para Lisboa, ia muito além do exíguo espaço em frente à Assembleia.
Ora, agora, conseguiram ir mais longe ao afirmarem sem pingo de pudor, que a multidão em torno da estátua do Marquês se reduzia a um número muito inferior aos dos defensores da subsidiarização da Escola privada em São Bento. Como dizia alguém com muita graça, quando o Benfica é campeão, o Marquês de Pombal comporta 500 mil pessoas, mas se se enche com os defensores da Escola Pública não leva mais do que duas mil.
Está a revelar-se um problema sério o desta comunicação social tão militantemente a opor-se ao governo de António Costa como a brasileira andou a agir contra Dilma até a conseguir derrubar. Porventura acreditam nisso mesmo: repetindo mil vezes as suas mentiras, conseguirão levar a sua avante. Por isso só falam da Caixa Geral de Depósitos  numa altura em que deveriam acautelá-la de danos de imagem para não prejudicar as negociações com Bruxelas e escondem os Panama Papers por, provavelmente, terem destapado novidades, que quererão a todo o custo esconder.
Está-nos a fazer falta um tipo de informação consonante com os valores e ideais dos que deram os votos suficientes para tornar possível o governo de maioria parlamentar. É que, hoje, olham-se ou ouvem-se os jornais, as rádios e as televisões e só se constatam notícias tendenciosas destinadas a apoiar a agenda da direita.


Tudo questionar, tudo problematizar

Prosseguindo a leitura do livro de Gonçalo M. Tavares sobre Marius, o clandestino que anda a ajudar uma menina autista a procurar o pai, cheguei à parte em que ele encontra Vitrius, um antiquário apostado em prosseguir a tarefa iniciada pelo avô e prosseguida pelo pai: ir anotando em cadernos a lista dos números pares.
Se há muitos anos o avô começara com 2, 4, 6, 8, etc., passados tantos anos Vitrius já alcançara a dimensão em que cada número já extravasa a largura de uma página.
Aquele que é considerado um dos melhores escritores portugueses da atualidade não se limita a criar histórias apelativas para o leitor: convida-o a repensar os fundamentos da nossa sociedade, quiçá a questioná-los na sua racionalidade.
Marius pensa que o esforço de Vitrius constitui um sinal de loucura, e o interlocutor adivinha-lhe o pensamento, mas ele reflete muito mais do que isso. Porque trata-se de metaforizar o desejo do Homem pela ordem, pela segurança e previsibilidade do que cria. E que melhor representação desse desejo do que os números alinhados, e desconhecidos, mas sempre dotados de uma lógica irrefutável?
Na construção milenar das nossas civilizações temos assumido o papel desse Vitrius: herdámos essa ordem como natural e prosseguimo-la sem a contestar. Pelo menos é essa a postura maioritária dos cidadãos, que tomam os contestatários, os que propõem alternativas, como gente de quem mais valerá desconfiar.
Não deixa de ser paradoxal que os gregos já nos tenham ensinado os sofismas como exaltante proposta de pensamento. Tudo questionar, nada dar como facto adquirido, tem sido, porém, a tentação de muito poucos. Que, porém, revelam vir a ser os fautores de cada pulo em diante, que a Humanidade tem dado.
É por isso que, chegados a este tempo, caracterizado pelo primado do mercado, da exploração da maioria por uma cada vez mais exígua minoria, vale sempre a pena considerar ser possível outra ordem das coisas. E não nos podemos sentir confortados por ver a atual ordem vir a morrer de morte natural, como espera o próprio Vitrius, cujo consolo implícito reside na forte probabilidade de, sendo velho e não tendo filhos, aquela lista acabar com ele. Todos os dias vale a pena pôr em causa os lugares comuns e os valores em que se baseiam as injustiças do presente.

sábado, 18 de junho de 2016

Sentimentos xenófobos

Quando, com seis anos, cheguei à escola oficial, os professores tinham duas preocupações fundamentais: convencer-nos de que vivíamos num Império muito vasto, estendido por todos os continentes (e o professor Artur, da 3ª classe, até se avermelhava de indignação por os indianos terem acabado de invadir a «nossa Índia»!) e de que tínhamos nos espanhóis os nossos piores inimigos. A época da Ocupação filipina era sentida quase como um opróbrio e os heróis da Restauração eram, com a padeira de Aljubarrota, que enfiara espanhóis no forno quase três séculos antes, os nossos principais ídolos, quase da dimensão dos grandes navegadores do tempo das Descobertas.
Isso fez com que ficasse na minha geração uma indisfarçável desconfiança por tudo quanto vinha de Espanha, muito para além dos maus ventos e casamentos.
Quando, no final da adolescência, comecei a ir passar as férias anuais a França, a passagem de carro pela Espanha era cumprida com a rapidez possível de ainda não existirem autoestradas. Às vezes até escolhíamos partir ao fim da tarde para chegarmos à fronteira de Irún ao raiar da manhã. Até porque Franco ainda andava a garrotear oposicionistas e os polícias espanhóis, com os seus ridículos chapéus, personificavam esse horror.
Só, com o passar dos anos, esse sentimento antiespanhol se foi diluindo, substituindo-se pelo deslumbramento com algumas das suas cidades mais sedutoras. Passar um San Izidro em Sevilha nos finais dos anos 80 contribuiu muito para essa regeneração da imagem dos nossos vizinhos. E poderia dizer o mesmo da descoberta de Barcelona, com os seus edifícios criados por Gaudi e as obras de Miró na sua Fundação em Montjuich, mas convenhamos que não é preciso exagerar nessa revisão de valores, porque continuo a defender o facto da Catalunha não ser Espanha (e já agora nem o País Basco, nem a Galiza) por constituir algo de totalmente distinto de Castela. Ainda assim até a consideração pelos polícias se alterou quando, uma vez, em Aranjuez, nos perdemos nos seus labirintos e um carro de polícia, a quem solicitei ajuda, veio prestimosamente servir de batedor até à saída da cidade.
Vem tudo isto a propósito do artigo de Ian Thomson na mais recente edição do The Times Literary Suplement sobre a mais recente tradução da obra completa de Primo Levi em língua inglesa. E embora focalizando-se no irrepreensível trabalho de quem esteve afanosamente a verter os textos do escritor de italiano para inglês - e se ele era muito exigente com quem se propunha fazer esse tratamento dos seus escritos! - o artigo é particularmente interessante ao relatar algo de que desconhecia sobre a vida dele no imediato pós-guerra. De facto, na primeira metade dos anos 50, a profissão de engenheiro químico levou Levi a visitar muitas vezes a Alemanha e ele não se coibia de intimidar os interlocutores com quem ia negociar, suscitando-lhes sempre que possível o sentimento de vergonha pelo que lhe tinham feito os compatriotas. Bastava perguntarem-lhe a razão porque sabia desencivilhar-se tão bem em alemão ou questionarem-no a propósito do número tatuado no braço, quando com eles comia em mangas de camisa, para Levi lhes contar abruptamente ser um judeu, que sobrevivera a Auschwitz. O silêncio comprometido de quem se atrevera a questioná-lo comprazia-o e não o levava a sossega-los com algumas considerações de circunstância, como por exemplo de os saber muito diferentes dos que o tinham forçado à experiência concentracionária.
Esse antigermanismo quase epidérmico só se terá sossegado, quando conheceu Hans Reidt, o tradutor de «Se Isto é um Homem?» para língua alemã, que passara grande parte da guerra na Resistência e tivera comportamento ativo na luta interna contra os nazis.
Mas quem sabe se a mitigação desse ódio larvar não terá contribuído para acentuar em Levi o complexo de culpa de ter sobrevivido ao horror e tenha contribuído para o terrível suicídio a que se entregou em 1987.
Os sentimentos xenófobos, que nomeadamente, levaram esta semana ao assassinato de Jo Cox são muitas vezes mais complexos do que, à partida, podemos crer.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O trágico efeito dos pasquins

Se há uns anos costumava azucrinar a cabeça dos trabalhadores, que chegavam à empresa de que era diretor, com o «Correio da Manhã» debaixo do braço, não era só porque tinha a perversa satisfação de começar o dia a manifestar-lhes a relação hierárquica, que subjazia à nossa convivência.
Pelo contrário: embora não enjeitando essa realidade na vida da empresa, o que me indignava era o acederem com tal facilidade ao veneno neles instilado por um tipo de desinformação, que os tenderia a aceitar mais facilmente um estado de coisas, que já se adivinhava vir a ser o da perda de direitos e remunerações, que um outro quadro político prometia. E, no entanto, alguns deles até se diziam votantes no Partido Comunista.
Só que, por essa altura, já podia atirar-lhes com o exemplo francês em que muitos dos anteriores apoiantes do Partido de Maurice Thorez e Georges Marchais eram os mesmos que, chegados ao fim da carreira profissional, aderiam em massa às teses da família Le Pen.
Se continuo a ter uma antipatia extrema pelo pasquim matinal da Cofina não é apenas pela perseguição execrável, que assumiu para com José Sócrates, cuja condenação no imaginário coletivo dificilmente se apagará por muito que procuradores e juízes venham a reconhecer, que estavam «equivocados» e não tinham motivo algum para o porem na condição de arguido, quanto mais para o prenderem durante quase um ano.
O que o «Correio da Manhã», e já agora os programas televisivos dos canais generalistas apresentados de manhã e depois do almoço mais fomentam, é essa cultura de analisar os acontecimentos e as realidades de cada momento de uma forma manifestamente primária e preconceituosa. O recente episódio de uma taróloga a aconselhar uma espectadora a reagir às agressões do marido com mimo, mais não constituiu do que uma caricatura aproximada de uma normalidade discursiva, que se replica em muitos outros exemplos.
Tudo isto tem a ver com o cobarde assassinato, que vitimou a deputada trabalhista Jo Cox e resultou da campanha de ódio perpetrada diariamente pelos «Correios da Manhã» ingleses. Mesmo com provas evidentes de que ficarão mais pobres, e provavelmente mais sozinhos - já que a Escócia não tardará a dissociar-se do Reino Desunido para manter as vantagens de integrar a União Europeia - os ingleses acolherão muito provavelmente as teses do UKIP e de Boris Johnson, votando maioritariamente pela saída. Esses jornalecos poderão congratular-se com o sucesso da sua persistente tarefa de alienação, mas não se livrarão de serem moralmente cúmplices do crime que matou uma mãe de duas crianças, cujo «crime» seria, a ser ver, o de apoiar os refugiados a quem muitos dos seus manipulados leitores não enjeitariam aplicar uma reedição da «Solução Final».
Porque importa evitar que esse horror atinja idêntica dimensão no nosso país deveremos manter um ataque cerrado ao tipo de imprensa, que visa impor uma agenda ideológica de caracter fascizante. Às vezes podemos pensar, que dar muita importância a tais pasquins, só os ajuda a sentirem-se mais fortes na influência que criam, mas esse é um falso argumento: já que a Entidade Reguladora da Comunicação Social não cumpre a tarefa de castigar os permanentes atentados ao código deontológico, que esses insultos em forma de papel constituem, denunciá-los é tarefa quotidiana. Para que não se repitam crimes como o que marcou ontem a campanha eleitoral para o referendo da próxima semana.

De canalhice em canalhice até ao descrédito final

Será um mero acaso a coincidência entre o xeque-mate, que significará a manifestação de amanhã em prol da Escola Pública sobre a sua anterior campanha contra o governo, que levou o PSD a avançar com a Comissão Parlamentar sobre a Caixa Geral de Depósitos?
Para a febre amarela, que deu nalguns contestatários não deve estar a significar um recobro muito agradável esta sensação de terem sido usados como carne para canhão na luta política da direita e agora se verem abandonados como imprestáveis.
O que Passos Coelho e Assunção Cristas mais anseiam é manterem-se referenciados pelos jornais e telejornais nossos de cada dia. Pouco importa que digam bem deles - como sucede ainda com a maioria dos opinadores selecionados pelos patrões da comunicação social - ou que os critiquem, como sucedeu com Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix ou o insuspeito David Dinis. Conquanto sejam falados, é isso que lhes importa.
Nada lhes diz, igualmente, o que melhor interessa ao país: como a sua costela colaboracionista com os que se julgam donos da Europa bem demonstrou nos quatro anos do poder, a conservação ou a tentativa de recuperação do mirifico pote justifica todas as canalhices. O patriotismo resume-se a envergar a bandeirinha na lapela e esquecê-la em tudo o que deveria significar honrá-la e dignifica-la.
Nesse sentido a nossa direita não mostra grande diferença em relação à brasileira, que conspirou para derrubar Dilma e agora se vai vendo acusada dos esquemas de corrupção de que só ela estava incólume. Temer também já está mais do que denunciado como corrupto, tendo lucrado com as luvas propiciadas pela Petrobrás.
A falta de escrúpulos não conhece limites, e se em Portugal ela vai ao ponto de querer destruir o que resta do nosso sistema bancário, no Brasil alcançou a dimensão de um golpe de Estado.
Não se pode ter contemplações com a direita dos nossos dias: é que ela já nem sequer disfarça ao que vem...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A proposta do PSD tem um nome: sabotagem!

É, de facto, surpreendente a forma como o PSD anda a considerar a defesa do interesse nacional: é precisamente numa altura em que as empresas de rating e a Comissão Europeia trazem a Caixa Geral de Depósitos debaixo de olho, num caso dificultando-lhe a capacidade em se financiar, no outro em se recapitalizar, que Montenegro anuncia aquilo que o seu governo nada fez por esclarecer nos quatro anos em que nos desgovernou.
Uma Comissão Parlamentar, nas condições em que ontem foi anunciada, constitui um prejuízo para a já problemática imagem do banco estatal, só podendo entender-se como uma forma de sabotagem ao projeto de o fortalecer e dele fazer o eixo agregador da recuperação do sistema bancário nacional.
É, pois, pela mais execrável politiquice, que o PSD pretende criar ruído em torno do que se passou num Banco por cuja nomeação dos Presidentes dos Conselhos de Administração se responsabilizou desde há muitos anos.
Quer isto dizer que devem passar impunes os atos de gestão causadores das imparidades justificativas de tão volumosa necessidade de recapitalização? Claro que não! Mas a prioridade manda olhar para o futuro, onde ainda é possível recuperar a instituição e torna-la motor de desenvolvimento do país. Colocar trancas na porta é mais urgente do que identificar quem e o que foi espoliado. Até porque esse não deve ser trabalho dos deputados, mas do ministério público que, muito provavelmente, se se dedicasse a casos com matéria criminal como os aqui provavelmente verificáveis, em vez de gastar recursos na inconsistente Operação Marquês, poderia alcançar uma maior taxa de sucesso. Sobretudo se viesse a identificar todos os créditos concedidos aos amigos para que ganhassem posições de influência noutros bancos privados.
Por muito que o pasquim matinal da Cofina queira afiançar o contrário, os portugueses estão bem mais interessados em olhar para a frente do que em deixarem-se atolar no passado onde os quiseram empobrecer e menorizar. Por isso a melhor frase de ontem no Parlamento foi a de António Costa, quando declarou aceitar o acordo de regime proposto pelo PSD: a direita trata da inconsequente arqueologia, que o governo da maioria parlamentar cuida do futuro dos portugueses.