sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Cresce a dívida e a desfaçatez da ministra das finanças!

1. A dívida pública já atingiu os 131,6% do Produto Interno Bruto no final de Setembro, prosseguindo o seu imparável agravamento. Nesta altura ela ascende a mais de 230 mil milhões de euros, já há muito tendo sido ultrapassado o prazo sensato para a conseguir renegociar com os principais credores.
Mas, depois de ter empobrecido o país sem ter reduzido a curva desse endividamento, já se percebeu que passos coelho deixará esse desafio para que o próximo governo o vença…
Iremos ter mais um exemplo histórico de termos uns a atearem o fogo e a deixá-lo descontrolar-se e caber a outos o duro labor de o apagar.
2. A ministra das Finanças continua a ter uma grande incompatibilidade com a desejável coerência das suas explicações sempre que é ouvida na Comissão Parlamentar. Anteontem revelou-o em diversas ocasiões quando afirmou:
- só ter tido conhecimento da decisão do Banco Portugal sobre a solução do BES, quando ela já estava tomada, mas engasgou-se quando lhe perguntaram porque fez aprovar na véspera pelo Conselho de Ministros uma lei precisamente destinada a viabilizar essa solução.
- nunca ter havido uma ponderação quanto à possibilidade de recapitalização pública do BES e, depois, admitir ter criado anteriormente um grupo de trabalho destinado a estudar essa hipótese;
- ainda sobre essa matéria, não ter recebido qualquer pedido para essa recapitalização, mas reconheceu depois ter abordado essa possibilidade com Vítor Bento;
- ter proferido afirmações apaziguadoras sobre a situação no BES, porque recebera garantias do governador do Banco de Portugal em como não havia riscos para a sua estabilidade financeira e depois lhe reitera a confiança.
Esta (des)governante corresponde na perfeição ao estereotipo de pessoa, que nunca reconhece os erros próprios e, mesmo sem ser levada a sério, consegue arranjar uma desculpa muito esfarrapada para tapar as provas do seu rotundo fracasso!


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Uma abominação, que tarda em desaparecer!

Uma das estratégias da direita para desvalorizar a candidatura de António Costa a primeiro-ministro consiste em criticar-lhe a falta de ideias concretas para resolver alguns dos problemas de curto prazo, que se colocam à economia portuguesa: como continuaremos a pagar a dívida? Como vamos financiar o nosso crescimento? Como continuaremos a garantir acesso ao financiamento do BCE e de outros investidores internacionais se não cumprirmos escrupulosamente o Tratado Orçamental?
Recorrendo a uma «paciência evangélica» (seja lá o que isso for!) António Costa compromete-se, como secretário-geral do PS, em cumprir um calendário, que fixa a apresentação de um programa de governo para meados da primavera.
Compreende-se que assim seja: por um lado nenhum dos partidos concorrentes às próximas legislativas já apresentou as suas propostas concretas; por outro lado ninguém estará em condições de o fazer tendo em conta que a realidade muda com tanta rapidez, que ninguém no seu juízo perfeito poderá adivinhar como estarão os indicadores económicos e sociais nessa altura, só se podendo prever com relativa certeza, que serão muito mais gravosos do que atualmente, tendo em conta o orçamento de Estado para 2015. Mas, sobretudo, António Costa sabe muito bem o tipo de reação, que qualquer medida concreta agora apresentada, provocaria nesses mesmos comentadores da direita: tratariam de tal forma de lhes deformar o sentido, que toda a sua bondade seria transformada numa plêiade de potenciais malfeitorias. Veja-se o exemplo da entrevista de António Costa à RTP, em que não se comprometeu com a eliminação total dos cortes nos vencimentos dos funcionários públicos, embora a tenha considerado concretizável no mais curto prazo possível.
O que vimos nos dias subsequentes? A “convicção” de muitos desses comentadores em como, tão-só chegado ao governo, António Costa limitar-se-á a imitar as medidas seguidas por passos coelho nestes últimos três anos!
Podemo-nos indignar com a falta de escrúpulos a quem envereda por essa linha de desinformação, que é a mesma pela qual colam António Costa à falseada herança de José Sócrates, ou lhe verberam as taxas sobre os turistas, tão normais noutras cidades europeias e cujo valor é irrisório em comparação com as que lhes são impostas pelo governo.
Ainda assim a situação dos últimos dias a respeito da corrupção em torno dos vistos gold voltou a abanar o castelo de cartas, que metaforiza o executivo de passos coelho. E houve quem colocasse a questão: se novo escândalo capaz de derrubar de vez o governo, impuser a cavaco silva a convocação de eleições que ele já afirmou não desejar, como reagir ao novo e previsível argumentário desses mesmos comentadores de direita? A de que só estando em condições de ter pronto um programa de governo para a primavera, o Partido Socialista não seria confiável por “não estar preparado”!
Pode-se minimizar este perigo com a tese de que, a acontecer esse tipo de situação, a direita ainda mais veria reduzido o seu potencial apoio eleitoral. Mas, os seus comentadores tratariam de provocar a minimização do sucesso de António Costa, mesmo que em proveito de uma qualquer alternativa populista tipo marinho pinto! Porque ela daria tempo a essa mesma direita para renascer qual fénix protagonizada por rui rio!
É claro que ninguém duvida que António Costa já demonstrou noutras ocasiões estar mais do que preparado para liderar de imediato um novo Governo capaz de começar o trabalho de remoção das ruínas deixado por este de muito má memória e iniciar a construção de um futuro bem mais esperançoso para a maioria dos portugueses.
Que não queira divulgar de imediato essas medidas, será mais do que lógico e as razões até já foram atrás enunciadas - a falta de correspondência temporal entre a sua formulação e a possibilidade de serem imediatamente implementadas; a sua fácil deturpação por mero preconceito ideológico - mas há outra, de maior tomo a ser levada em conta: a de que nunca serviriam para sugerir ao executivo atual algo capaz de melhorar a sua ação, porque de tal forma contrário à sua perspetiva de governação, que seria estultícia pensar que pudessem ser levadas em conta.
Para já é fundamental que o Partido Socialista consiga passar para a opinião pública o que de concreto já propôs para alterar o atual orçamento com o objetivo de socorrer às situações de maior emergência social, nomeadamente no que diz respeito à pobreza infantil e ao apoio aos desempregados de longa duração. Só essas e outras medidas, que praticamente ainda não vimos divulgadas na comunicação social chegam para calar os que se alistaram como simpatizantes para, através das Primárias, ajudarem à mobilização para a mudança e agora se impacientam por ela não vir tão cedo quanto desejam. É que, para quem está à beira de perder o emprego ou vê os rendimentos cortados relativamente ao compromisso assumido pelo Estado, quando procedeu aos descontos para a reforma, cada dia a mais com este governo é uma verdadeira abominação. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Desinformação e empobrecimento

Na sempre excelente edição portuguesa do «Le Monde Diplomatique», Serge Halimi espanta-se com a acrimónia com que, por toda a Europa, foi  anunciada a vitória de Evo Morales nas eleições presidenciais da Bolívia.
De facto quantos de nós puderam ouvir nas nossas televisões, ou ler nos nossos jornais, que  presidente boliviano foi reeleito para um terceiro mandato com 61% dos votos contabilizados?
Quantos ficaram a saber que a explicação para tal sucesso terá a ver com a redução da pobreza em 25%, o aumento do salário mínimo em 87%, a redução da idade da reforma e um crescimento do PIB superior a 5% ao ano desde 2006?
Para uma imprensa que, ainda recentemente torceu pela derrota de Dilma no Brasil ou se apressa a dar notícias alarmistas sobre a criminalidade na Venezuela eximindo-se de as referir relativamente ao México, está na sua “cultura” a tentação para calar todas as informações positivas sobre as experiências governativas mais à esquerda em curso na América Latina.
Quem ainda tem dúvidas sobre a (falta de) objetividade de todos os canais informativos, que nos são servidos, supostamente com a intenção de nos manter atualizados sobre o mundo onde vivemos?
No mesmo jornal a diretora, Sandra Monteiro, debruça-se sobre o Orçamento para 2015, não tendo dúvidas quanto ao que ele preconiza: “austeridade sobre austeridade, empobrecimento sobre empobrecimento, desespero sobre desespero”.
Se os dados mais recentes do Eurostat apontavam para 2,88 milhões de portugueses em risco de pobreza ou de exclusão social em 2013, o novo Orçamento só tenderá a agravar a situação com os cortes previstos nas prestações sociais destinadas aos que menos já tinham para procurar sobreviver.
Sandra Monteiro indigna-se, pois, com uma realidade, que exige a renegociação da dívida e o virar de página a esta fase neoliberal. È que “não podemos tolerar a pobreza, ainda para mais absolutamente evitável, a que estão a ser sujeitos milhões de seres humanos, nesta e nas gerações futuras.” 

O fotógrafo estava lá!

A fotografia de capa do «Público» de ontem - da autoria de Miguel Manso - é daquelas que dão razão a quem pensa que uma imagem vale bem por mil palavras. Aquela sombra de miguel macedo a projetar-se na porta da sala onde iria anunciar a sua demissão pode ser vista simbolicamente de muitas maneiras, mas nenhuma delas favorável ao governo de passos coelho.
Ela pode lembrar outros ministros, que deveriam seguir-lhe o exemplo demonstrando ter ainda alguma réstia de dignidade. Evocará porventura as muitas sombras de razões comprometedoras também em vias de saltarem para a sala do outro lado da porta, correspondente à do espaço público.  Ou ainda lembrará a passos coelho que, descomprometido da sua equipa, miguel macedo - se não sair chamuscado do caso dos vistos gold - poderá perfilar-se como um seu eventual opositor interno.
Saúde-se o sentido de oportunidade do fotojornalista!

A CPI ao caso BES poderá ser bem mais útil do que alguns prognosticam!

Por muito que a maioria dos comentadores dos jornais diários andem a dar como potencialmente fracassada à partida, a Comissão Parlamentar de Inquérito do caso BES teve logo no primeiro dia um sinal evidente do que poderá vir a comprovar: que a solução encontrada no início de agosto só foi aquela porque o governo não quis. Em vez de sacudir a água do capote como sempre quis fazer crer, o governo quis mesmo evitar uma nacionalização do banco, que poderia ser bem mais eficaz se, ao contrário do ocorrido com o BPN, a decisão fosse para dele fazer uma recomposição total do sistema bancário em Portugal.
Bem podem maria luís albuquerque  e passos coelho prometer a ausência de custos para os contribuintes, que já ninguém - nem mesmo os mais ingénuos! - estarão disponíveis para comprar essa ilusão.
A atuação do governo e do governador do Banco de Portugal, - que foi mero executor dela!, - teve por único móbil o preconceito ideológico, que os leva a quererem reduzir a intervenção do Estado ao mínimo em todos os setores de atividade, mesmo sendo eles estratégicos para a afirmação soberana do país.
Numa altura em que o capitalismo vai dando sinais de merecer violenta contestação um pouco por todo o lado, podemos estar a viver o crepúsculo da vocação privatizadora dos governos. Talvez não tarde uma nova fase histórica em que algumas renacionalizações devam fazer todo o sentido. Quanto mais não seja para que  o sistema reencontre algum suplemento de alma no forte freio à tendência gananciosa de uns quantos oligarcas!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O discurso da culpa está quase esgotado!

A crónica «Nós por Cá», que Pedro Adão e Silva publicou esta semana no «Expresso» é brilhante na forma como, recorrendo ao livro de memórias de Timothy Geithner, justifica a necessidade de derrubar de uma vez por todas a narrativa da Direita para explicar a crise sob cuja influência os portugueses lhe deram o ensejo de chegar ao poder.
O antigo Secretário do Tesouro de Barack Obama confessou-se perplexo perante a estratégia gizada nas reuniões do Ecofin em 2011 para responder à crise sistémica, que estava então a causar efeitos devastadores nas economias dos países do sul. Para Merkel e Sarkozy o importante era encontrar bodes expiatórios nos governos eleitos e substitui-los por tecnocratas ou lideranças disponíveis para convencer os respetivos cidadãos do que designa como discurso da culpa”.
Como poderemos esquecer os muitos discursos em que os portugueses eram dados como inveterados despesistas, sempre apostados em viverem acima das suas possibilidades? Ainda não há muito tempo na fila para ser atendido numa repartição das Finanças pude ouvir um pobre diabo, que parecia não ter onde cair morto, a elogiar este governo e a criticar os anteriores, precisamente em nome dessa suposta culpa!
Parecia tão convicto nas idiotices ditas em alta voz, que seria estultícia procurar convencê-lo do contrário! Por isso não havia quem lhe desse troco, nem sequer o confortasse com um olhar de comiseração!
Para Pedro Adão e Silva “o que provoca inquietação é que, passados estes anos, se continue a procurar ocultar o falhanço das políticas para responder a uma crise sistémica com uma leitura moral das suas raízes”. E, sobretudo, que se insista num suposto responsável por tudo isso: José Sócrates! 
Quanto faltará para se começar a valorizar devidamente o seu esforço para evitar ao país este transe sofrido durante os últimos três anos?

domingo, 16 de novembro de 2014

A Esfera de Antenora é onde passos coelho acabará!

Se tomássemos o lugar de Éolo no panteão dos deuses gregos e recebêssemos de Zeus a incumbência de virar a atenção para o governo de passos coelho, soprando tão forte quanto o possível para o fazermos abanar, bem poderíamos descansar o pai dos deuses quanto á sua legítima preocupação com o sofrido dia-a-dia dos portugueses: os episódios de degenerescência na desgovernação do ainda primeiro-ministro vão-se sucedendo a tal ritmo, que bem pode o Olimpo descansar e dedicar-se às suas orgíacas diversões. É o próprio (des)governo quem se encarrega de conjugar em si um olho de ciclone capaz de o abanar furiosamente.
Não há muitos dias havia quem lembrasse santana lopes e comparasse o caos do seu governo com o do atual. Concluía-se que o executivo liderado pelo efémero sucessor de barroso era coisa de «meninos»! De facto, e tomando apenas como exemplo o acervo de casos dos últimos meses, temos tudo quanto sucedeu na Educação e na Justiça, tudo quanto não se fez no Grupo Espírito Santo e não se quer fazer com a venda da PT, tudo quanto se deixou de fazer quanto ao surto da legionella, tudo quanto se disse e desdisse a respeito do Orçamento Geral do Estado para 2015 e, cereja em cima do bolo!, temos agora o clímax com a corrupção em torno dos vistos gold de paulo portas que, para já resultaram na prisão de altos funcionários tutelados por vários ministérios e na demissão de miguel macedo.
Compreende-se que passos coelho tenha resistido tanto quanto possível à saída do seu ministro da Administração Interna, mas poderia ser de outro modo? O que muitos se espantam é com o facto de nuno crato e paula teixeira da cruz ainda teimarem em ficar semseguirem o exemplo de dignidade oferecido pelo seu ex-colega!
Mas, a menos de um ano de ser corrido pelos eleitores, compreende-se que passos coelho teime em manter esta equipa de ministros até ao fim, porque dificilmente haverá quem esteja disposto a cumprir o frete nestas circunstâncias, à exceção de luís montenegro que, imitando dias loureiro, verá nisso o culminar de uma ambição muito pessoal! (Vamos lá a ver se esta aposta à Zandinga sai certa!)
A saída de um ministro equivale a um valente sopro de Éolo! Por isso mesmo o deus grego achará mais asizado manter-se ocupado com o herói da «Odisseia» que, esse pelo menos, garante-lhe fama eterna nos dicionários de personagens da literatura mundial!
Mesmo que o castelo de cartas ainda consiga dar sinais de se querer reequilibrar, continuará a mostrar-se tão instável nas próximas semanas que, a jogarmos no totoloto a aposta seria para uma tripla quanto à questão de cair a curto, a médio ou a longo prazo, equivalendo esta última hipótese a chegar à data prevista para as próximas legislativas.
A exemplo do anterior secretário-geral do PS, que escolhera para as Primárias a conotação de António Costa com José Sócrates e marcá-las para data tão distante quanto possível, o futuro primeiro-ministro de Portugal já deve ter todo o Olimpo a torcer por ele pelo facto de a Direita repetir a mesma tática sem olhar para no que ela redundou! É que as situações, que vão fulminando passos coelho já não parecem coisa de homens, mas de verdadeiros castigos divinos.
Não será difícil adivinhar já estar reservado um lugar de eleição para o ainda primeiro-ministro e todo o seu executivo na Esfera de Antenora, aquela que no Nono Círculo do Inferno de Dante, cabe aos que traíram a confiança dos seus concidadãos. Para quem lhes prometeu uma terra de leite e mel e lhes proporcionou tanto sofrimento, é castigo bem merecido!

Um mundo cheio de campos

Vivemos num mundo em que abundam os campos de refugiados, de deslocados e de emigrantes. António Guterres, à frente da Organização das Nações Unidas incumbida de prestar apoio aos que são tidos como «oficiais» lá vai fazendo o que pode, mas o problema tem-se avolumado sem que se vislumbrem condições para o resolver.
Recentemente um coletivo de diversos investigadores de tal temática publicou uma abordagem aprofundada - «Un Monde de Camps», La Découverte - de que vale a pena sintetizar os fundamentos e conclusões a que chegaram:
No seu preambulo, o coordenador do estudo, Michel Agier, considera urgente que se dê a conhecer essa realidade, que ainda é praticamente desconhecida da maioria dos europeus. Por exemplo, em 1992, foi criado o campo Dadaad no leste do Quénia, que conta com 450 mil habitantes, maioritariamente somalis.
Pela sua dimensão, tal campo rivaliza em população com muitas cidades africanas. Mas, singularmente, procure-se num mapa a respetiva localização e não se a encontrará.
Para Agier os campos constituem uma realidade ulterior à guerra fria, muito embora o facto de manterem fechadas pessoas, que não cometeram qualquer delito, mas têm limitados os seus mais básicos direitos humanos, remeta para os campos de concentração, criados no final do século XIX na África do Sul e que tomaram as proporções dos campos de extermínio durante a 2ª Guerra Mundial.
Hoje a cartografia dos campos distribui-se de acordo com a geopolítica mundial: no sul surgem os campos de refugiados e de deslocados; no norte os centros de detenção onde se prendem os sem-papéis;  e entre os dois os acampamentos semiclandestinos dos que tentam a passagem entre os países subdesenvolvidos do sul e a ilusória prosperidade dos situados no hemisfério norte. Há ainda a realidade dos países emergentes, que abrem campos de trabalhadores aos que conseguem atrair para os seus grandes estaleiros de construção.
Podem ser considerados cinco tipos de campos:
Os «campos oficiais», que acolhem os que fugiram do seu país de origem e são administrados pelas agências internacionais como o Alto Comissariado para os Refugiados. No período entre 2010 e 2013 eram 450 e incluíam seis milhões de pessoas. Hoje, com o êxodo dos sírios para a Turquia e para o Líbano esse número já terá ultrapassado os sete milhões. Entre os mais antigos estão os dos palestinianos, já existentes há mais de sessenta anos, e que contam com milhão e meio de pessoas.
Os «campos de deslocados», que saíram das suas casas e regiões, mas continuam dentro dos seus próprios países. É o caso dos quatrocentos mil haitianos afetados pelo terramoto de 2010, da população do Darfur, de iraquianos, afegãos, sírios, birmaneses, congoleses, etc. que atingem um total de seis milhões de pessoas.
Os «acampamentos semiclandestinos» dos que agrupam emigrantes à procura de alcançarem os países ricos. São acampamentos efémeros, autogeridos e sem qualquer controle das administrações locais. Existem no norte de Marrocos, na Grécia, na fronteira entre o México e os EUA. São milhares, mas sem que se possa calcular o total de quantas pessoas abrangem.
Os «centros de detenção administrativa», para onde são encaminhados os clandestinos apanhados nos tais países vistos como «paraísos» para os africanos, asiáticos e latino-americanos, e que os expulsam tão rapidamente quanto possível. Existe um milhar deste tipo de estabelecimentos no mundo, dos quais quatrocentos ficam na Europa. O de maior dimensão fica na Ilha Christmas na Austrália e é uma autêntica prisão ao ar livre.
Os «campos de trabalhadores emigrantes», cujo número e dimensão também permanece incalculável. Situam-se no sul da China, na Amazónia, na África do Sul, nas zonas agrícolas de Espanha e Itália, para alojar mão-de-obra, que se pretende manter afastada dos centros urbanos. Por exemplo os “labour camps” do Qatar contêm um milhão de trabalhadores nepaleses, filipinos e de outras origens, que vivem completamente isolados do mundo exterior. Sem qualquer direito, têm o passaporte nas mãos do empregador pelo que não podem arriscar-se a visitar o souk ou os centros comerciais de Doha. Durante quatro anos conformam-se em viver exclusivamente entre o sítio onde dormem e aquele onde trabalham. 
Recentemente António Guterres declarava «odiar os campos». É que, como constatou o filósofo italiano Giorgio Agamben em 1997 o campo vive num autêntico «estado de exceção» com o indivíduo à mercê de um poder absoluto, inclusivamente quanto a deixá-lo viver ou morrer! Para ele a globalização significava a regressão dos direitos humanos com a proliferação de situações correspondentes a esse mesmo «estado de exceção». 
Michel Agier confessa a influência do italiano na sua investigação, que se socorre também das teses de Hanna Arendt sobre os «apátridas» ou os «sem Nação», que  estavam colocados à margem dos países e dos seus povos e, por isso mesmo, se tornavam indesejáveis condenados a serem atirados para dentro de campos circundados por arame farpado ou para barracas. 
Mas, mesmo na sua precariedade, esses campos não inibem quem ali vive das suas aspirações a um futuro diferente. Por isso mesmo apropriam-se desses espaços e procuram gerar dentro deles as condições para se sentirem de alguma forma estabilizados. É o que se sucede em Chatila, no Líbano, que começou por ser um campo palestiniano e hoje integra também sírios, sudaneses, iraquianos e até libaneses pobres. 
Michel Agier constata com surpresa que alguns habitantes passaram a gostar de viver nesses campos já que não se sentem pertencentes a qualquer outro lugar. Explica-se assim que os refugiados togoleses do campo de Agamé, situado no Benim, tenham recusado voltar para casa ou que os filhos dos vietnamitas repatriados para França em 1954 continuem a passar férias no sítio onde se localizava o campo onde tinham sido provisoriamente instalados, quando eram crianças, havendo até quem faça projetos para ali se instalar quando chegar a hora da reforma...

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Bem prega frei tomás!

Qualquer pessoa que ponha em causa uma instituição deve imediatamente apresentar o seu pedido de demissão ou de suspensão de funções”. A frase foi proferida por paula teixeira da cruz a propósito dos altos funcionários do Estado declarados como arguidos no culminar da investigação de corrupção com a atribuição dos vistos gold.
Poderíamos subscrever sem pestanejar a frase da ministra, pensando até no tipo de postura em tempos assumida por ministros socialistas quando, em condições muito diferentes, se demitiram dos seus cargos governamentais. Basta lembrarmo-nos de Jorge Coelho, de António Vitorino ou de Manuel Pinho. Nenhum deles cometera qualquer ação suscetível de qualquer indício criminal e, no entanto, perante o aproveitamento então feito pela oposição a seu respeito, não tiveram qualquer dúvida em libertarem os respetivos governos de qualquer risco de contaminação.
Infelizmente paula teixeira da cruz não possui essa mesma noção de ética política. Estando convicta de ter chegado ao topo do que a sua ambição política a poderia ter conduzido tentará adiar tanto quanto possível a inevitável queda abrupta no merecido anonimato.
A um ritmo diário somam-se demonstrações da sua total incompetência para o exercício de funções públicas: já não bastava ter lançado calúnias infundadas aos dois informáticos, que acusou de sabotagem do programa Citius, ou de ter suscitado linchamentos públicos de supostos pedófilos, não se eximiu agora de condenar imediatamente aqueles que o seu próprio governo tinha como diligentes e íntimos colaboradores, dando-os já como culpados, sem lhes dar o benefício da presunção de inocência.
A ainda ministra da justiça é daquelas figuras sinistras com quem nunca se desejaria partilhar um naufrágio: tão só alcandorada ao salva-vidas seria a primeira a dar com um remo na cabeça dos infelizes, que quisessem a ele aceder, só para não ter de partilhar a ração de água e de mantimentos ali existente!
Nas suas palavras confirma-se aquela reconhecida tese em como não há pior moralista do que aquele que se multiplica em fanáticas exortações.

marques mendes, o grande moralizador!

Nas privatizações em que a sociedade Abreu Advogados surge na primeira linha, lá está marques mendes a figurar como “consultor”. Fala-se do escândalo Tecnoforma e de como se andaram a utilizar dinheiros europeus para supostas ações de formação, que só terão aproveitado a quem as “organizou” e lá está marques mendes a fazer companhia a passos coelho. Vem à baila o escândalo relacionado com os vistos de gold de paulo portas e vai-se a ver e uma das principais arguidas tinha por sócia nos seus negócios o ministro miguel macedo e o inevitável marques mendes.
Tudo aponta para que marques mendes lembre a frase de António Vitorino quando, a propósito de razões bem mais honrosas, dizia que não havia festinha, nem festança, para que não fosse convidada dona Constança.
Em casos comprometedores relacionados com suspeitas de corrupção ao mais alto nível do Estado lá surge o nome do comentador semanal da SIC. O tal que terá dito há alguns dias que José Sócrates seria uma espécie de “ativo tóxico” de António Costa!
Uma coisa é certa: falta de vergonha é algo que se lhe tem de reconhecer. Pode-lhe faltar estatura, mas em descaramento poucos há que se lhe podem equiparar!

Cadaverosa realidade

Na época dos nossos iluministas, houve quem designasse Portugal como reino cadaveroso, tão dissociado o via esse Ribeiro Sanches dos países menos arcaicos de então.
Se já não vivemos felizmente em Monarquia, cadaveroso pode porém associar-se a este passismo-portismo onde até as notícias mais chocantes vão cheirando a requentado de tal forma confirmam o que já se sabia ou o que se adivinhava poder vir a acontecer.
Detenhamo-nos então nas grandes novidades deste 13 de novembro de 2014. Confirmámos que:
- o (des)governo quererá privatizar tudo o que lhe for possível até ao último dia de mandato, mesmo que tais decisões colidam com o interesse nacional - como é o caso da TAP - e garantam o acesso de potenciais lucros  a “investidores” amigos, privando o próximo governo de os utilizar na recuperação da depauperada qualidade de vida dos portugueses;
- o governador do Banco de Portugal já conhecia, pelo menos desde 24 de setembro de 2013, a situação calamitosa do Grupo Espírito Santo, porquanto terá recebido nesse dia a célebre carta confidencial de Pedro Queirós Pereira a denunciar o quanto de irregular ali se passava;

- como seria de prever, os tão elogiados vistos gold, não só facilitaram o branqueamento de capitais e o franquear de portas do país e da União Europeia a gente pouco respeitável, como criaram as condições para uma inaudita suspeita de corrupção em altos funcionários dependentes dos ministros da Justiça, do Ambiente e da Administração Interna, com quem alguns dos declarados arguidos tinham uma relação de grande proximidade;
- apesar de ver desmentida a sua inacreditável tese conspirativa sobre o disfuncionamento do Citius a ministra da Justiça continua sem ter pingo de vergonha e escusa-se a fazer o que eticamente lhe deveria ser exigido - a demissão. Pelo contrário apressou-se a apresentar como culpados os arguidos da investigação sobre os vistos gold, como se já não vigorasse no nosso país o pressuposto da presunção de inocência;
- de acordo com o relatório estatístico do Observatório da Emigração, saíram do país 110 mil cidadãos no ano transato, obrigados a buscarem sustento em países onde sentem cada vez maiores dificuldades em encontrarem-no;
- em Timor os tiques ditatoriais de xanana gusmão já levaram os juízes timorenses a manifestarem receios consistentes sobre a sua própria segurança, cientes que estão do envolvimento do primeiro-ministro em casos bem fundamentados de corrupção;
- nem a dimensão significativa da epidemia de legionella em Vila Franca de Xira levou passos coelho ou moreira da silva a reconhecerem o erro de terem legislado de forma a desobrigar os proprietários dos edifícios habitacionais e comerciais a contratarem auditorias externas e certificarem a qualidade do ar nas suas instalações de climatização, justificando-se até essa obrigatoriedade aos de vocação industrial.
Já chegados a um novo dia não será previsível que dele retenhamos grandes novidades. Esperam-se mais notícias requentadas, mormente as que deem o ensejo de passos e Cª continuarem a associar António Costa a tudo quanto de mau ainda julgam ter sido causado por José Sócrates!
Notícias frescas e esperançosas só quando passos e portas forem definitivamente afastados das funções onde nos possam continuar a fazer tanto mal!

Quarenta e cinco anos depois continuamos de nariz apontado para cima!

Uma das memórias mais vivas da minha juventude foi a da transmissão dos primeiros passos de Armstrong e de Aldrin na Lua. Fizera treze anos na semana anterior e acreditava piamente que, quase meio século depois, andaria com toda a «tranquilidade» a viajar entre Marte e Júpiter, porque era isso que previam muitos dos livros e artigos de revista lidos então.
Tinha sido um pequeno passo para o homem e esperava-se que significaria um enorme passo para a Humanidade. Como não acreditar nisso quando, um ano antes, nem sequer fora preciso que o ditador desse um passo para cair da abençoada cadeira?
Vivíamos nas ilusões da primavera marcelista, com as pedras da calçada de Paris a esconderem possíveis praias e, desmentindo Nizan, que ninguém nos quisesse convencer em como não estaríamos prestes a viver os mais belos anos das nossas vidas!
Havia o “pequeno” detalhe da Guerra Colonial, donde iam chegando notícias de mortos e de primos mais ou menos azamboados com quanto por lá tinham visto. Mas havia a esperança de vê-la acabada ainda antes de chegado o momento de para lá ser enviado. E, acaso isso não sucedesse, já eram por demais conhecidos as soluções para as evitar - a Marinha Mercante onde efetivamente fui parar ou o salto para as acolhedoras Suécia ou Holanda!
Muito embora um documentário engraçadíssimo do William Karel («Operação Lua», 2002) - quisesse brincar com a possibilidade de tudo se ter tratado de uma notável mistificação, vivi a experiência desse 20 de julho de 1969 como uma prodigiosa aventura científica, porventura a maior alguma vez vista em direto.
Lembrei-me de tudo isto a propósito da missão da sonda Rosetta, que deveria ter culminado com a aterragem do robot Philae num cometa a movimentar-se entre os dois planetas, que há quarenta e cinco anos, eu julgava já andar a visitar por esta altura.
Mesmo que os objetivos fundamentais da missão fiquem comprometidos pela impossibilidade da fixação do robot à superfície do cometa, já é um maravilhoso feito esta capacidade de existirem cientistas capazes de terem feito chegar  uma sonda tão pequena a tão longa distância e de conseguirem aterrar um dispositivo de captação de imagens e de dados científicos num cometa em deslocação a enorme velocidade e com uma gravidade cem mil vezes menor do que a nossa.
Se a Astronáutica não evoluiu tão rapidamente quanto o saudoso Eurico da Fonseca nos queria na altura fazer crer, ela não deixa de prognosticar a forte probabilidade de, num passado não muito distante, os nossos genes andarem a viajar nos corpos dos nossos descendentes por zonas do Universo, que ainda nos são tão inacessíveis.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Sigam por esse caminho, que vão bem!

Parece que o governo anda muito entusiasmado com os sucessivos ataques, que vem fazendo a António Costa. Até há quem se vanglorie de se ter conseguido com isso diminuir as divergências entre o PSD e o CDS, já que ambos comungam a urgência de combaterem o próximo primeiro-ministro.
Mas já José Sócrates o referira: António Costa só pode sentir-se agradecido por dele darem notícias todos os dias. É que estes ministros e secretários de Estado cristalizaram tão grande repúdio na maioria dos portugueses que qualquer maledicência saída dos seus lábios funciona maioritariamente como elogios.
Depois, apesar de estarem no poder há mais de três anos, os que ainda ocupam as cadeiras do poder nada aprenderam com os seus erros e cálculos furados: em muitos aspetos continuam a revelar a imaturidade dos adolescentes tardios, que entre as piadas parvas por ninguém entendidas, como sucede nos discursos de passos coelho, e as de um inqualificável mau gosto, como as de pires de lima, dificilmente beliscam um político experiente e responsável, capaz de responder com tiros eficazes aos disparos atabalhoados, com que dezenas de maus atiradores o tentem atingir a partir dos gabinetes ministeriais.
Veja-se o caso das taxas aplicáveis aos turistas em Lisboa: para além das entrevistas dos telejornais aos visados não corresponderem ao que os (des)governantes gostariam de os ouvir dizer, o desafio para que as comparassem com as impostas pelo Governo nos aeroportos, nos hotéis e nos restaurantes, só funciona como ricochete certeiro em quem o julgava atingir.
Já nas Primárias do PS António Costa demonstrara uns nervos de aço (ou uma «paciência evangélica») contra com quem se lhe opunha.
Felizmente que a direita nada aprendeu com o sucedido e dispõe-se ela própria a imitar quem saiu inapelavelmente derrotado.
Façamos votos, que continuem assim: o resultado só pode ser aquele que todos os socialistas tanto desejam!

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Uns sacanas sem lei

As recentes eleições para o Senado e para a Câmara dos Representantes dos EUA significaram uma derrota significativa para Barack Obama, que se vê obrigado a concluir o mandato com toda a sua ação política tolhida pela oposição republicana. Aparentemente temos um avanço da extrema-direita norte-americana, com particular destaque para os filiados no sinistro Tea Party.
Mas será mesmo assim? Um exemplo interessante é o do que se passou no Kansas onde Sam Brownback, conseguiu renovar o seu mandato com apenas 3,9% de avanço sobre o seu competidor democrata, Paul Davis.
Ora, Brownback conseguira, em relação aos seus competidores democratas, mais 33% em 1998, 42% em 2004 e 31% em 2010.
O que levou a um tombo tal, que se chegou a pensar na possibilidade de ver os Democratas conquistarem um dos mais seguros feudos republicanos?
Aconteceu que, em 2010, Brownback foi também eleito governador do Kansas e decidiu aí concretizar aquilo que crismou como «Experiência Brownback», feita de descida de impostos, despedimento de funcionários públicos, redução drástica dos apoios sociais e privatização da educação pública.
Tratava-se do sonho dos republicanos: o próprio Mitch McDonnell, agora líder do Senado, dissera que se tratava das reformas idealizadas pelos Republicanos e ainda impossíveis de fazer aprovar em Washington.
O resultado foi afinal calamitoso: um Estado em que o orçamento contava com um balanço positivo entre receitas e despesas, quase faliu já chegando a um buraco de 333 milhões de dólares … que levaram Brownback a avançar com novos cortes na despesa.
A situação tornou-se tão grave, que centenas de republicanos apelaram ao voto em Paul Davies nesta eleição para o Senado, explicando-se assim essa quase viragem favorável aos democratas.
Mas o que foi a «Experiência Brownback», com as consequências agora constatadas, pode ser vista como mais uma das muitas ensaiadas pelos irmãos Koch para mudarem a América à luz da sua ideologia ultraconservadora.
Há quem diga que, comparada com essa ideologia, Ronald Reagan passaria, hoje, como um amável centrista.
Sendo dos empresários mais ricos dos EUA, os Koch acumularam fortuna nos setores petrolífero, químico e na celulose. E investem centenas de milhões de euros em políticos dispostos a implementarem a sua receita neoliberal. Além de Brownback eles têm apadrinhado políticas semelhantes no Maine ou as que Scott Walter tem empreendido no Wisconsin contra os sindicatos.
Mas esta visão ultramontana de Charles e de David Koch tem fundas raízes no passado: o pai dos dois irmãos, Fred Koch, foi fundador de um movimento racista dos inícios dos anos 60, que via em Eisenhower um agente da conspiração comunista. Foi desse controverso progenitor, que os Koch herdaram a ideia de um Estado reduzido à mínima expressão possível, que nunca se intrometa nos seus negócios. Por exemplo, que nunca venha limitar-lhes os lucros nos seus principais setores de atividade em nome de medidas contra o aquecimento global.  Ou que exija salários mínimos e coloque entraves à “mobilidade” no trabalho.
Os Koch representam, pois, uma América híper-reacionária onde o abismo entre os muito ricos e o resto da população só tende a agravar-se.
Os resultados da “Experiência Brownback” tendem a limitar-lhes a eficácia dos investimentos em políticos dispostos a protagonizarem os seus ditames. E a sua idade avançada também já prefigura um crepúsculo inglório para a sua visão do mundo.
Embora o momento seja de vitória, os republicanos dificilmente conseguirão repetir daqui a dois anos os seus atuais sucessos...