segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Saudar Dilma com atenção ao que se vai passando em Portugal

A vitória de Dilma nas eleições presidenciais do Brasil vai deixar muita gente insatisfeita deste lado do Atlântico, mas só pode justificar motivos de regozijo em quem crê nas virtudes da democracia na sua interpretação mais progressista.
Nas últimas semanas os telejornais dos diversos canais fizeram uma cobertura indecorosa do que ali se passava como se Dilma fosse uma corrupta merecedora da derrota e Marina, primeiro, e Aécio depois, dois anjos imaculados destinados a regenerar todo o Brasil do bando de criminosos que o tinham tomado de assalto nos últimos doze anos.
À direita portuguesa, como à brasileira, ainda faz demasiada comichão que um antigo operário metalúrgico como Lula da Silva ainda conserve um tão grande capital de simpatia no seu país. Nos nossos “jornalistas,” outrora tão entusiasmados na alimentação à campanha contínua de detração de José Sócrates, o facto de ele ter-se deslocado a Lisboa para saudar a tese de mestrado do antigo-primeiro ministro também terá contribuído para o transformar num inimigo de estimação. Mas nada que se assemelhe á vergonhosa campanha de alguma imprensa brasileira muito influente, como ocorre com a revista «Veja», pertencente a uma das famílias mais enquistadas na História do último século brasileiro, nomeadamente durante a sua ditadura militar.
Se ao longo dos últimos doze anos a «Veja» tudo tem feito para denunciar os casos de corrupção relacionados com o PT, assumiu um silêncio eloquente sobre os numerosíssimos exemplos de crimes semelhantes ligados a quem se opõe  a Lula e a Dilma.
Os donos da «Veja» e os que adotam a mesma linha editorial detestam o legado do PT ao longo deste período: as políticas sociais, que retiraram milhões de brasileiros da pobreza e lhes deram motivos para confiarem numa significaria melhoria dos seus padrões de vida.
Por trás de Aécio estão muitos dos principais herdeiros dos que fizeram do Brasil um dos países onde a desigualdade entre ricos e pobres assume contrastes mais obscenos. E era isso mesmo que estava em causa nesta eleição: ou se travava uma dinâmica corretora desse abismo de rendimentos entre os que tudo têm e os que lutam arduamente por sobreviverem, ou regressava-se ao passado sob a forma de privatizações, que têm por único objetivo a transferência de rendimentos do Estado para os bolsos dos interesses particulares. É por isso que a vitória de Dilma nos deve alegrar.
Não é que esteja tudo bem com a sua governação! É claro que a corrupção deve ser combatida, mas trata-se de uma guerra dura e demorada contra um fenómeno endémico desde há muitas décadas de norte a sul do Brasil.
É claro que os investimentos em instalações desportivas para o Mundial de Futebol ou para os Jogos Olímpicos são discutíveis tendo em conta as necessidades com a Educação ou com a Saúde. Mas quem é suficientemente ingénuo para acreditar que as gigantescas manifestações de algumas semanas atrás surgiram espontaneamente de um desagrado popular? Não se duvidando que ele existe, houve quem o estimulasse oportunisticamente e o manipulasse de forma a evitar o resultado eleitoral agora verificado.
O que se passou no Brasil foi mais uma demonstração daquilo que há muito sabemos: perante uma esquerda, que aposta nos valores para se conseguir afirmar, surge uma direita sem escrúpulos, capaz de utilizar a mentira e a difamação como estratégia para manter as sociedades nas condições de injustiça em que as conhecemos.
E isso mesmo tem-se verificado com a expectativa da vitória socialista nas próximas legislativas: ora temos um pires de lima a emitir falsidades grosseiras contra os governos de Sócrates a pretexto da PT, ora deparamos com alinhamentos de notícias na SIC para fazer coincidir notícias inócuas sobre António Costa com outras em que ele é culpado de tudo, até o de ter sido abraçado por um apoiante, que provavelmente nem conhecia, na noite da vitória das Primárias.
É mais que certo que, aproveitando o protelamento para tão tarde quanto possível da data das eleições, passos e portas contam com quem na sombra já está a preparar estratégias tão sujas quanto as que agora quase puseram em causa a reeleição da presidente brasileira… e que estarão condenadas a falhar! 

sábado, 25 de outubro de 2014

Querer nata sem ter leite

Acabou uma semana em que muito se falou do orçamento para 2015, aquilo a que Rui Duarte Morais, líder da comissão da reforma do IRS nomeada por este (des)governo, não hesitou em classificar de «salganhada» tão só iam sendo conhecidas as sucessivas alterações motivadas pelas reações públicas de desfavor para com um documento sobre o qual Pedro Santos Guerreiro perguntava: “faz sentido beneficiar as famílias que ganham mais e as empresas que lucram no mesmo orçamento em que se corta metade dos apoios aos pobres?”.
Ora um estudo apresentado pelo Observatório da Família relativo a dados de 2013 já mostrava que, em 2013, a verba gasta com o Rendimento Social de Inserção baixara de 40%. Apesar de terem aumentado exponencialmente os que dele careceriam...
Até mesmo os que habitualmente costumam apoiar acriticamente as políticas da Direita não puderam agora silenciar as suas críticas, como foi o caso de Martim Silva: “ao fim de quatro anos temos a maior carga fiscal de sempre, a despesa do Estado não foi cortada como prometido e os ganhos conseguidos estão longe de se poderem considerar estruturais”.
Aquela que será a herança a enfrentar pelo próximo governo anuncia-se problemática, como postula Pedro Adão e Silva: “o lastro de destruição nas políticas públicas que este governo deixará como legado estará agora acompanhado por um buraco orçamental a corrigir pelo próximo governo”. Porque, baseando-se em premissas macroeconómicas impossíveis de se verificarem, quando chegarmos a outubro de 2015 e assistirmos à tomada de posse de quem sucederá a passos coelho, sabemo-lo confrontado com umas finanças públicas tão deficitárias, que a agenda para dez anos terá de ser adiada em prol das medidas de emergência, a que o plano de recuperação da economia obrigará.
Mas a capacidade de causar danos por este governo - tão largamente demonstrada com o caos na justiça e na educação das últimas semanas, teve mais um episódio lamentável quando surgiu uma vez mais o ministro dos negócios estrangeiros a abrir a boca e, como de costume, a sair asneira.
Afirmar que há jihadistas portugueses arrependidos da sua opção e interessados em regressarem a casa, é tão grave e demonstrativo da completa falta de sensatez do governante, que bem se podem temer as retaliações aplicadas àqueles compatriotas, cujas intenções só ganhariam em continuarem secretas. Pelo menos até regressarem sãos e salvos…
Existirá, igualmente, quem, no governo, aproveite todas as oportunidades para disparar farpas contra António Costa ao confirmarem-se as expectativas geradas nos eleitores, que o querem ver como primeiro-ministro e já quase chegam a um em cada dois portugueses. O ainda habitante do edifício da Rua da Horta Seca atirou-se a ele com as ganas de um raivoso pitbull, temeroso das dificuldades com que contará quando vir a direita justamente castigada nas próximas eleições. Apesar de ter bons motivos para se inquietar seria de esperar de pires de lima uma melhor compostura…
Mas talvez a melhor forma como este (des)governo atua tenha sido a descrita pelo novo presidente do Conselho de Reitores, que denunciou os esforços da tutela em acabar com a Ciência em Portugal: “O discurso do Governo é errado: acham que é possível conseguir excelência na ciência a partir do nada, Mas a excelência só se atinge a partir de uma certa massificação da produção científica. Quando nós queremos ter a chamada ‘nata’ temos de ter leite. O Governo quer que haja nata sem haver leite”.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Os bons negócios que alguns fizeram nos Correios e na Saúde

Não é bonito bater em mortos, mas também sabemos que toda a regra tem exceção. E, de facto, António Borges, foi-o de facto. Tão “excecional”, tão “excecional”, que muito do que de pior aconteceu aos portugueses nos últimos anos, teve a sua participação ativa enquanto consultor contratado pela Parpública para acompanhar os processos de privatização de que foi um dos principais ideólogos.
No seu livro «Os Facilitadores», Gustavo Sampaio traz-nos de novo à memória que, mediante o pagamento de 25 mil euros mensais, fora as despesas para viagens e outras documentadas por fatura, Borges e o seu sócio, Diogo Lucena, trataram de passar algumas das joias do setor empresarial do Estado para a mão de interesses com que tinham particulares afinidades.
Será coincidência que o governo se tenha esquecido de inserir no Portal Base, onde deveria listar todos os contratos públicos, o que firmou com Borges e Lucena, julgando assim fazê-lo passar despercebido?
Recorde-se que o economista falecido em Agosto de 2013, estivera na Goldman Sachs entre 2000 e 2008, antes de seguir para o FMI entre 2000 e 2001. E entre 2001 e 2010 fora administrador não executivo da Jerónimo Martins para onde voltou ao sair do FMI. Ora não só, pouco antes de morrer, Borges tratou da privatização dos CTT, na qual a Goldman comprou uma participação de 5%, como cuidou da venda dos ativos do grupo da CGD nas áreas da saúde (Grupo HPP) e dos seguros (Fidelidade, Multicare, Cares), que concorria diretamente com o novo negócio de clínicas médicas lançado entretanto pela Jerónimo Martins - a Walk’in Clinics.
Coincidências a mais ou toda a atividade de António Borges teve por objetivo privatizar o mais que pudesse e, se possível, para benefício dos seus amigos e conhecidos?
Mas vamos a outra curiosidade relacionada com os negócios da saúde: o sócio de António Borges, o já referido Diogo Lucena, saiu da Gulbenkian onde fora administrador entre 1999 e 2013, para presidir á agora muito mediática Espírito Santo Saúde que, segundo o Jornal de Negócios, recolhia 53,8% das suas receitas no Estado.
Quer a privatização do grupo HPP, depois crismado de Lusíadas Saúde, quer dos CTT, tiveram a participação da Abreu Advogados, que, no primeiro caso, interveio em representação de quem comprou (o grupo Amil) e, no segundo, em quem vendeu (o Estado). Foi durante o contestado processo de venda dos CTT que o comentador televisivo Marques Mendes - que, em texto anterior, já víramos ter sido recrutado por aquela sociedade de advogados - o elogiou, considerando-o fundamental para “ajudar Portugal a melhorar a sua imagem junto dos investidores internacionais”.
A história não se fica, porém, por aí: viremo-la e reviremo-la e não faltam coelhos a saírem da cartola. Assim, quem é que passos coelho nomeara para liderar os CT antes de iniciar esse processo de privatização? O presidente Francisco Lacerda viera da banca, nomeadamente do BCP onde fora um dos principais apoiantes de Paulo Teixeira Pinto no conselho de administração. Ora, tal como Marques Mendes, Paulo Teixeira Pinto também é consultor da Abreu Advogados!| E, para vice-presidente, foi buscar Manuel Castelo Branco que, desde 2007, pertence à Comissão Política do CDS-PP.
Temos, pois, evidências bastantes para suspeitar que o principal objetivo de passos coelho e de paulo portas no governo não terá sido o de governarem o melhor possível para benefício dos eleitores, mas para garantirem excelentes negócios a quem os promoveu como suas marionetas no principal centro de decisão política do país.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Crimes de Estado e privados

1. Provável crime de guerra é como o que a Human Rights Watch está a  classificar o ataque a Donetsk das forças ucranianas ligadas ao regime de Kiev. Porque envolveu bombas de fragmentação, que a legislação internacional proíbe em áreas povoadas, por ter um alcance indiscriminado.
Mas será surpreendente o comportamento criminoso de um exército constituído por muitos dos que se apresentavam despudoradamente como simpatizantes nazis, quando as manifestações da praça Maidan puseram em fuga o presidente legitimo do país?
Se quem antes governava em Kiev era notoriamente corrupto, quem lhe tomou o lugar não dá mostras de ser melhor… E a Europa metida num saco de gatos, onde as perdas são bem mais garantidas do que os eventuais ganhos dali provenientes...
2. Às vezes pode-se acreditar em algo, que tantas vezes tem sido desmentido: que a Justiça tarda, mas acaba por chegar. Que o diga cristián labbé, um dos colaboradores mais próximos de Pinochet, agora acusado de homicídio, rapto, tortura e associação ilícita num processo que investiga o assassinato de treze presos políticos durante o período da ditadura militar.
Na América Latina os que lideraram e colaboraram nos crimes praticados à conta da sinistra Operação Condor não podem estar particularmente descansados.
3. Em muitos países a natalidade está a constituir um problema tão sério, que leva os governos a estudarem e a proporem soluções para o superarem. Vide a campanha recentemente lançada por passos coelho. Mas querendo ignorar o óbvio: cada vez mais a selvagem exploração capitalista, que se tem traduzido na precarização dos empregos e na redução dos direitos fundamentais de quem trabalha (a suposta “flexibilização”) está na origem do problema. Como se comprova com a nova-iorquina de 39 anos, a contas com uma gravidez de alto risco, e despedida da fábrica onde trabalhava por não conseguir fazer horas extraordinárias.
Só devido à má publicidade que enfrentou quando a imprensa denunciou o caso, é que o empregador voltou atrás na sua decisão e readmitiu a operária. Por quanto tempo? Provavelmente só enquanto a atenção da opinião pública mantiver o caso sob observação coletiva!
A desumanidade revelada por este sistema económico demonstra a urgência de lhe apressar o óbito.
4. Dos Estados Unidos chega igualmente um estudo eloquente sobre a questão da facilidade com que os cidadãos podem comprar uma arma apesar de casos mediáticos de grandes chacinas causadas por atiradores sem nenhum conhecimento direto com as suas vítimas. Assim, desde setembro de 2011 os casos de «mass shootings» triplicaram passando de um em cada 200 dias, para um ritmo de 1/64.
Barack Obama bem terá tentado contrariar aquilo que  a influente National Rifle Association considera um direito legítimo e constitucional. Ora, tendo em conta que, eleitoralmente, rende votos apostar na defesa do status quo atual, bem podemos concluir que muitos massacres ainda deverão ocorrer até a opinião pública norte-americana se convencer da necessidade de travar um fenómeno em progressivo agravamento.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Não havia nexexidade!

1. São muitas as provas do fracasso do governo de passos coelho e de paulo portas ao longo destes três anos. O país ficou mais pobre, mais endividado, menos qualificado e com um futuro previsivelmente mais complicado. Mas maria luís albuquerque acrescentou mais um dado eloquente quando, hoje, esteve na Comissão Parlamentar da Economia: a redução de 8,5 pontos percentuais no défice entre 2010 e 2015 apenas contará com um contributo de 21% na despesa. Ora, junto da troika o governo comprometera-se a garantir que chegaria a 2/3.
Nem sequer para concretizar a sua ortodoxia ideológica esta direita consegue ser suficientemente competente. A menos que, como suspeitamos, a ideologia apenas lhe sirva de alibi para concretizar o seu verdadeiro programa: reduzir o Estado à sua mínima expressão como forma de não lhe permitir encontrar futuramente os meios necessários para cumprir os seus compromissos sociais.
2. Um dos mais memoráveis personagens interpretados pelo Herman José foi o Diácono Remédios, que costumava sintetizar a sua desaprovação do que comentava com o lapidar “Oh meus amigos, eze, não havia nexexidade!”
Foi precisamente isso que me veio hoje à memória quando soube de mais um comportamento estranho de Francisco Assis no Parlamento Europeu: ser o único socialista a levantar-se e a bater palmas ao último discurso de durão barroso na Comissão Europeia.
Ora durão foi precisamente o pior político que alguma vez esteve nessas funções. Por muito que a austeridade a qualquer preço tenha tido outros ideólogos, ele, qual camaleão, de bom grado a tomou como proposta sua e contribuiu para a crise recessiva em que deixa a Europa comunitária.
Ademais, depois de ter sido o mordomo de serviço para a mais estúpida e criminosa das iniciativas imperialistas da História do último meio século - a invasão do Iraque - nunca enjeitou a função de marionete da Casa Branca sempre que se tratou de fazer colar a Europa aos projetos da Casa Branca e do Pentágono. O estado em que deixa a juncker as relações com a Rússia - mostra bem como não só foi incapaz de exercer o papel de mediador entre os EUA e o país de Putin, como desempenhou papel significativo no apoio ao golpe de estado em Kiev.
Terá de ser o luxemburguês a resolver o imbróglio de, com o general inverno à vista, resolver a quadratura do círculo de não haver dinheiro para apoiar os atuais dirigentes da Ucrânia Ocidental, nomeadamente para lhes manter o acesso ao imprescindível gás para aquecimento e a economia minimamente funcional, e para infletir os efeitos recessivos na economia alemã ou finlandesa suscitados pelas contrassanções de Moscovo.
Argumentará Assis que terá saudado barroso por um compatriota, mas esse será o argumento mais risível, porque ele ter-se-á comprometido com Jorge Sampaio e com os portugueses em como os iria defender à frente da Comissão Europeia e por isso passava o cargo de primeiro-ministro a santana lopes. Ora, os portugueses só vieram a ser prejudicados pela sua ação.
Por tudo isso pode-se suspirar de alívio por, finalmente, têrmo-lo visto passar o testemunho a outro político, porque de algo podemos estar certo: juncker, por muito que tente, nunca conseguirá ser pior do que o seu antecessor.

Os extremos que não se tocam

1. Até pelo facto de ir aumentando o número de países dispostos a pôr em causa a livre circulação de pessoas prevista pela legislação comunitária torna-se urgente mudar as políticas nacionais de modo a interromper o fluxo contínuo de portugueses para o estrangeiro. De facto três dos principais destinos dos nossos compatriotas obrigados a ir além-fronteiras buscar solução para a sua sobrevivência - Reino Unido, Suíça e Alemanha - já andam a estudar as formas de travarem a entrada de cidadãos estrangeiros, mesmo de países já integrados na União Europeia.
Razão de peso para eleger um novo governo, que seja capaz de promover a qualificação dos seus cidadãos e criar-lhes condições para se realizarem profissionalmente no nosso país. Contribuindo para o tal crescimento de que estamos tão carecidos.
2. Em Espanha decorreu agora a Assembleia constitutiva do novo partido Podemos, que surgiu qual cometa na política espanhola para dar resposta ao movimento dos Indignados, afetando seriamente a votação do PSOE nas recentes europeias.
O curioso é constatar que a extrema-esquerda não consegue superar muitas das doenças infantis, que a têm impedido de ser influente. O sectarismo, que facilmente costumam dividi-la em frações capazes de se odiarem mais do que à direita teoricamente considerada como o seu inimigo de estimação, voltou a revelar-se no Palácio da Vistalegre, de Madrid, demonstrando aquela que se evidencia como uma regra basilar dessa área política.
Ainda assim o líder do Podemos, Pablo Iglésias, citou Karl Marx de forma muito pertinente: “o céu não se toma por consenso, mas por assalto”.
E, de facto, quem possui o capital utiliza meios tão violentos para combater os que se limitam a vender a força do seu trabalho, que a agudização da luta de classes a nível global dá relevância a tal receita. Afinal, não foi assim que chegámos ao 25 de abril?

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

E passos coelho continua a julgar que as coisas continuarão a ser como ele julga que ainda são

Soube-se agora o que passos coelho andou a dizer aos presidentes das distritais do PSD na reunião da semana passada.  Na edição de ontem do «Expresso Diário» Ângela Silva, habitualmente bem informada sobre o que se passa dentro do partido laranja - até por ser-lhe próximo ideologicamente - resume-o em três tópicos principais: a decisão de dar luta ao PS para as eleições legislativas de 2015, a recusa em antecipa-las e o veto a marcelo e a marques mendes para as eleições presidenciais, que logo virão.
Comentando o facto de as legislativas só serem marcadas para daqui a um ano, Miguel Sousa Tavares constatou na SIC que, em vez dos quatro anos previstos na Constituição, o governo PSD/CDS durará mais quatro meses. Mas prevê, sobretudo, que passos coelho incorrerá num erro de cálculo semelhante ao de António José Seguro nas recentes primárias do PS: esperando o desgaste do apoio, que as sondagens agora prenunciam para António Costa, pode ter a surpresa de suceder o contrário. É que o orçamento agora conhecido é tão danoso para a maioria dos portugueses, que os efeitos da sua aplicação só acabarão por desgastar o próprio passos coelho.
Perante essa possibilidade as outras duas decisões anunciadas pecam pela sua improbabilidade: nem passos coelho se baterá de igual para igual com António Costa nem lhe caberá muito provavelmente definir qual será o candidato presidencial a ser apoiado pelo seu partido, já que nele se terá entretanto convertido num passado comprometedor.

A desfaçatez das mentiras e o desespero de quem teme reduzir-se à dimensão da lambreta!

1. Na semana passada ouvimos amiúde a ministra das finanças e o próprio passos coelho a autoelogiarem-se por prescindirem da meta de 2,5% de défice no Orçamento Geral do Estado negociada com a troika e optarem por 2,7%. Chegou a ser risível ouvir o ainda primeiro-ministro a criticar os que qualificou como fundamentalistas quanto a essa matéria.
Ora a experiência passada de já terem existido 12 orçamentos nestes últimos três anos demonstra que, uma vez mais, este agora apresentado também não será para cumprir. De facto como seria possível conciliar crescimento da economia, com diminuição das importações e com o crescimento do consumo privado? Seria como encontrar a quadratura do círculo!
Tem sido admirável a forma como este governo revela tanta desfaçatez para mentir descaradamente aos portugueses, tomando-os a todos por tolos!
Mas a melhor comparação de tudo isto foi a enunciada por Daniel Oliveira no «Eixo do Mal», quando comparou o autoelogio dos (des)governantes com aquele sujeito que, por correr atrás de um táxi, sem o conseguir apanhar, achava ter poupado mais dinheiro do que se perseguisse um elétrico…
2. As sondagens recentes estão a ter o condão de colocar os ainda ministros deste governo à beira de um ataque de nervos. Hoje foi a vez de pires de lima, que na Rua da Horta Seca tem sido tão inoperante quanto o seu antecessor. À saída de mais uma cerimónia de nula importância  desenvolveu uma diatribe destemperada contra António Costa apontando-lhe a culpa pelas consequências das condições climatéricas, por não tapar todos os buracos nas ruas da capital e, sobretudo, por pretender aplicar uma taxa a cada turista que dorme nos hotéis nacionais.
A experiência diz-me que tal taxa é comum noutras paragens europeias. Nomeadamente na Holanda, onde mais recentemente me tenho deslocado, é inevitável encontrar essa taxa diária na conta do hotel. Por isso mesmo qual será a admiração? Alguém no seu juízo normal concluirá que tal taxa dissuadirá os turistas de procurar as excelentes razões para nos visitarem? Será que a taxa, que tenho pago no referido país europeu o terá desertificado de turistas?
Daqui até às eleições António Costa será um autêntico bombo da festa que os partidos da direita procurarão organizar com a colaboração das agências de comunicação com quem o governo pretende gastar mais dinheiro durante o próximo ano como se comprova no orçamento!
Pudera! No caso de pires de lima as sondagens revelam que, acaso se atrevesse a concorrer autonomamente no PSD, o CDS ficaria reduzido às dimensão parlamentar do partido da lambreta!

Preconceitos, deslealdades e teimosias

(1) Os anos foram-me fazendo evoluir do agnosticismo da juventude para um inabalável ateísmo na idade adulta. O que não me impede de acompanhar com muito interesse as questões religiosas, muito particularmente as relacionadas com a Igreja Católica.
O Sínodo sobre a Família, agora concluído no Vaticano, prometia trazer algumas novidades relativamente às uniões de facto, aos divórcios e à homossexualidade, espelhando alguns sinais de modernidade deixados aqui e além pelo Papa Francisco.
Confirmou-se, porém, a dificuldade com que a Igreja Católica aceita as mudanças trazidas pelo conhecimento e pela evolução dos valores sociais. Por isso a maioria dos participantes optaram por votar pela preservação das posições mais tradicionais. Como criticou o Papa no seu discurso final há ainda quem aposte na leitura literal dos textos bíblicos em vez dos significados neles sugeridos por Deus. É essa a regra dos dogmáticos, que alimentam os intolerantes fundamentalismos.
Mas, como diria Galileu, a Igreja Católica demonstrou que se está a mover, mesmo quando aparenta estar parada…

(2) Interessante o texto assinado por Manuel Carvalho (MC) na edição de ontem do «Público» relativamente ao orçamento de estado, um documento que, em seu entender, corresponde a “um plano de dissimulação onde tudo se tenta, até a ideia de que nos salvamos de mais impostos.
Pondo em causa quem considera paulo portas o grande perdedor de toda a negociação verificada dentro do elenco ministerial, constata MC: “Ao contrário do que muitos observadores disseram, Portas não perdeu a batalha pela “moderação fiscal”. Porque se tinha posto num papel em que era impossível perder: colocara-se a correr na “pista de dentro”, como, citando-o, avisava o Expresso da semana passada e, fosse qual fosse o resultado, ganharia sempre.
Havendo diminuição do IRS, ele seria o autor; não havendo, a culpa era de Passos, esse inflexível.”
É inegável que portas continua a ser igual a si mesmo na forma como, malevolamente, se comporta na política. O seu problema será, porventura, o de não lhe ser já tão fácil enganar tantos papalvos como antes acontecia…

(3) De entre os políticos, que estão no poder em países europeus (mesmo que neste caso também asiático), o presidente turco Erdogan é dos mais detestáveis. Enquanto manteve a esperança em conseguir a entrada na União Europeia ainda ostentou uma máscara democrática, que há muito tem deixado cair. O seu regime, embora apoiado por uma elite, que tem beneficiado de uma conjuntura económica expansionista, e pelos setores culturalmente mais retrógrados das zonas rurais, tem prendido, agredido, quiçá assassinado quem mais ativamente o combate.
Eleição após eleição ele tem mantido inalterável o seu poder, demonstrando a lógica há muito constatável em como democracia não significa só existirem eleições relativamente livres.
No entanto, numa das questões, que mais o poderiam fortalecer, Erdogan estará a abrir uma caixa de Pandora, passível de o derrubar: a questão curda!
Contrariando Washington, que o pretenderia ver associado à coligação formada para combater os jihadistas da Síria e do Iraque, ele tem-se escusado porque intenta prevalecer a sua lógica de ter Bashar al Assad como inimigo figadal mais perigoso do que o autodesignado «Estado Islâmico», tanto mais que de permeio surge a possibilidade crescente do reconhecimento internacional de um Estado curdo.
Poderemos estar perante um daqueles exemplos em que um ditador aposta na sua visão estreita da realidade e acaba por nela se perder!

domingo, 19 de outubro de 2014

A regra é a de sempre: sacar, sacar … e sacar!

Uma oportuna gripe possibilitou que a Opinião de José Sócrates fosse coparticipada pelo bem mais assertivo João Adelino Faria (JAF) do que pela habitualmente intrusiva Cristina Esteves. Dessa forma o antigo primeiro-ministro teve a oportunidade para melhor desenvolver o seu discurso estruturado em evitando os cortes abruptos causados pelo excessivo intervencionismo da apresentadora.
Ainda assim faltou tempo para que Sócrates desenvolvesse com maior profundidade aquela que trazia como uma das novidades «escondidas» do orçamento para 2015: a previsão de um valor de mais de 5 mil milhões de euros para empréstimo ao Fundo de Resolução da banca, que tem tido a suposta incumbência de apoiar o Novo Banco.
Para que não subsistissem dúvidas Sócrates até referenciou a página do documento em que essa verba aparece inscrita. Pena que não tivesse margem para comparar esse valor com os 700 milhões previsivelmente cortados na Educação.
Outro momento interessante da rubrica aconteceu quando JAF quis forçar o entrevistado a definir com quem António Costa se deveria coligar depois das próximas legislativas ou que propostas alternativas deverá apresentar para a atual (des)governação.
Serão essas as duas estratégias previsivelmente escolhidas pela direita para, nos próximos meses, causar na candidatura socialista o desgaste bastante para lhe impedir a maioria absoluta. Agitar o papão comunista, que marco antónio já começou a ensaiar com a conotação de António Costa com a extrema-esquerda e repetir milhentas vezes a inexistência de propostas alternativas a ver se faz caminho no eleitorado, a exemplo do que sempre tem sido assumido pelos comentadores próximos da coligação ainda no poder.
Que essas estratégias estão condenadas ao fracasso parece óbvio: já nas Primárias tinham sido exploradas até à náusea pelos apoiantes de António José Seguro com o resultado conhecido.
Igualmente foi colocada a questão das supostas virtudes da Fiscalidade Verde, tão entusiasticamente acarinhada pelos que já suam as estopinhas à conta do que a viragem política do país lhes poderá tolher enquanto objetivos de vida.
José Sócrates rejeitou liminarmente, que se trate de legislação bem intencionada para alcançar os nobres objetivos de combater a poluição. Porque se trata única e exclusivamente de um móbil economicista: sacar dinheiro onde for possível. Como haverá quem acredite na correlação entre o aumento dos combustíveis e a promoção dos transportes públicos, quando se adivinham aumentos significativos nestes últimos tão só o governo cumpra o objetivo de privatiza-los na totalidade. De uma ou de outra forma isto significa retirar ainda mais dinheiro dos esvaziados bolsos de quem vive nos subúrbios das grandes cidades e para elas se tem deslocar diariamente devido à localização dos respetivos empregos.
Autêntico logro será também o quociente familiar no IRS, que prevê uma redução de 100 milhões de euros aos contribuintes depois de os ter espoliado em mais de 3 mil milhões.
No Orçamento José Sócrates só viu duas novidades positivas: a devolução de parte do corte imposto aos funcionários públicos e o fim da Contribuição de Solidariedade nas pensões dos reformados e pensionistas. Mas tais “benesses” surgem a contragosto do pretendido por passos coelho e maria luís albuquerque já que mais não resultam do que de imposições do Tribunal Constitucional.
Em síntese: José Sócrates chumba o orçamento em (quase) todo o seu conteúdo.

Citius, plágios e mentiras...

1. Quem deve gerir o Citius: os juízes ou o governo? A questão está na ordem do dia, levando uns a exigir que se cumpra efetivamente a separação de poderes entre o sistema judicial e o executivo, enquanto este último mostra pouca vontade em prescindir de um efetivo controlo do setor.
Em princípio as sucessivas «fugas de informação», que tanto prejudicaram o governo de José Sócrates devem-nos sugerir alguma prudência, pela suspeita de terem vindo dos tribunais (ou da judiciária) as «notícias», que o davam como potencial arguido de tudo e mais alguma coisa.
Deixar o poder judicial entregue a si mesmo está de acordo com o texto constitucional, mas envolve perigos óbvios: em Itália a atuação dos juízes conseguiu destruir os partidos tradicionais e abrir as portas do poder a Berlusconi durante muitos anos, por muito que este também viesse a ser tido como um alvo daqueles. Sem que, porém, tenham tido a arte de o condenar tão seriamente quanto mereceria.
Tal como a governamentalização da justiça é um perigo, também a justicialização da política não o é menos. E, se formos a ver o sucedido recentemente com as condenações de Armando Vara ou de Maria de Lurdes Rodrigues, é lícito questionarmo-nos se a segunda hipótese não estará efetivamente em marcha?
2. A demissão do secretário de Estado João Grancho representa mais uma demonstração de como o feitiço se pode virar contra o feiticeiro: é que a equipa que tomou conta do ministério da educação em 2011 apareceu com tanta prosápia a respeito da defesa do rigor e dos valores da exigência, que ter um dos seus mais proeminentes membros desmascarado como plagiador não deixa de ser caricato. Mas, sobretudo, revela a verdadeira face de quem o escolheu: o execrável crato!
3. A semana terminou com a notícia da intenção do Partido Socialista em denunciar durão barroso e paulo portas à Procuradoria Geral da República por suspeita de terem cometido o crime de perjúrio na Comissão de Inquérito Parlamentar sobre os  submarinos. É que tudo quanto disseram aos deputados está em contradição evidente com as declarações de Jurgen Adolff ao tribunal alemão que o condenou.
Alguém ficará surpreendido se se vier a comprovar a substância da matéria, que integra a denúncia socialista?