Nunca me entusiasmaram as teorias de Gilles Lipovetsky, que andaram na moda há já alguns anos, quando publicou «A Era do Vazio».
O que andou para aí de entusiasmo entre alguns dos nossos intelectuais perante umas quantas banalidades sobre as pressões e angústias a que somos sujeitos por uma sociedade focalizada na competitividade e no empreendedorismo?
Compreende-se, pois, que a Fundação do dono do Pingo Doce tenha convidado Lipovetsky para um encontro sobre a Liberdade. Afinal, mecenas e mecenado merecem-se entre si. E o que é que ele veio dizer, segundo o relato da Lusa?
“Toda a gente tem medo, somos sociedades de medo. A Europa em particular. Somos obrigados à mobilidade, enfrentamos a perda de competitividade e é necessário favorecer a iniciativa, o que é difícil no atual contexto. A civilização do indivíduo é a civilização da liberdade, mas também da pressão e da angústia”, explicou.
Em suma Lipovetsky repete sempre a mesma fórmula sem dela se desviar um milímetro: “O individualismo é hoje em dia obrigatório. Temos liberdade, mas querem que sejamos eficazes, criativos e, se não formos, vamos fora”, e “não é positivo opor os indivíduos às grandes empresas”, porque o emprego, a proteção social, a saúde e a educação dependem de uma economia competitiva”.
Nas demais banalidades, que veio debitar, deu para confirmar a sua concordância com o discurso denunciador do “despesismo” e com a lógica capitalista causadora de todos os principais desajustamentos das nossas sociedades.
Daria jeito aos soares dos santos e aos seus filósofos de estimação, que este momentâneo vazio ideológico prosseguisse. Seria ele o seguro de vida para quantos precisam, que tudo continue como está.
O azar deles é existir esta dinâmica que com tudo está a mexer. E a pôr em causa as certezas dos que julgavam possíveis os impérios para mil anos!
Víamo-nos pela forma como os dias iam correndo sem se vislumbrarem motivos de esperança, quando um acontecimento maior - a vitória de António Costa nas Primárias do PS - e outros menores - o regresso em força dos casos Tecnoforma e dos submarinos e os sinais vindos do resto da Europa sobre manter ou não a austeridade - fizeram com que tudo mudasse.
De súbito não são só os militantes e simpatizantes do PS a terem razões para um brilhozinho nos olhos: é a generalidade de quantos sofreram nestes três anos os cortes nos rendimentos e nos seus demais direitos, a reencontrarem motivos para acreditarem já lá vir outro carreiro...
No «Público» Pedro Adão e Silva considera que “com uma vitória esmagadora, António Costa ganha uma autonomia que não tinha. Ganha autonomia em relação aos próprios apoiantes, tem afirmação externa e o capital acrescido de 170 mil votantes nas primárias.”
E acrescenta João Cravinho: “A Itália e a França dizem que não podem aguentar-se política e economicamente com os critérios de cumprimento do défice e com o respeito pelo Tratado Orçamental. E Mario Draghi tem defendido um novo papel para o BCE. Estas questões serão um teste a Jean-Claude Juncker.”
Conjugadas essas realidades com a imagem de um passos coelho notoriamente associado à promiscuidade entre os negócios e a política, é um tempo novo que, definitivamente, se anuncia!
1. No regresso ao espaço de comentário na RTP, José Sócrates voltou a merecer os tratos de polé do costume com grande parte da intervenção a ter por fundo o som proveniente de outro estúdio. Muito embora tenha direito a um pico de audiência por efeito dos que apenas frequentam a estação pública para assistir a este momento, a RTP continua a dar a ideia de tudo fazer para silenciar de vez quem com ela colabora gratuitamente.
Não estivéssemos à beira do fim de um ciclo político, com o próximo já a divisar-se, e seria crível que os responsáveis pela televisão pública ainda aproveitassem algum incidente para alcançarem o seu aparente objetivo.
2. Deixando a forma e partindo para o conteúdo do comentário de José Sócrates voltámos a ter cavaco silva de orelhas a arder pela crítica contundente daquele que foi para ele um inimigo de estimação. De facto, a propósito do discurso das comemorações da implantação da República, foi muito mais significativo o que cavaco calou do que quanto disse.
Comprometido a garantir o normal funcionamento das instituições republicanas, ele teve oportunidade de ouro para se pronunciar sobre o caos nos sistemas da justiça e da educação, que paula teixeira da cruz e nuno crato transformaram num lamentável caos. E a tal respeito nada disse!
De facto como se comportaria cavaco silva se acaso uma situação desse tipo tivesse ocorrido durante o governo de Sócrates? Desde sempre decidido a ser apenas o presidente da sua fação ideológica, cavaco perdurará na nossa História durante muito tempo, apenas pelas más razões: medíocre como economista, conseguiu ser o exemplo do que o magistrado supremo da Nação não deve ser. E os longos meses em que ainda o teremos de aturar serão uma provação difícil de suportar…
3. Mas não foi apenas pelo que não disse, que se justifica a merecida crítica de Sócrates a cavaco.
Como é possível que se ache com legitimidade para propor compromissos entre quem ainda governa e quem se prepara para o vir a fazer, quando ele próprio foi o exemplo lapidar de quem sempre desconheceu o sentido dessa palavra?
Não se alcandorou à liderança do PSD para derrubar o governo de Bloco Central então existente? Não governou dois mandatos em maioria absoluta e crismou de forças de bloqueio quem se atreveu a contrariá-lo? Não tratou de, a partir de Belém, criar o terreno propício para derrubar o legítimo governo de Sócrates?
O discurso de cavaco silva neste 5 de outubro acabou por valer o mesmo que todos os outros, que tem pronunciado ao longo dos longos anos de presidência: um nítido nulo.
4. Sócrates ainda pôde saudar a vitória de António Costa no domingo passado por ter trazido um novo clima político ao país. À Direita são nítidos os sobressaltos por que passam os dois partidos da coligação que, entre submarinos e tecnoformas, sem esquecer a redução ou não do IRC, andam a esforçar-se por minimizar a dimensão da derrota adivinhada. E, à esquerda, é o que se vê, com Jerónimo de Sousa notoriamente enervado e o Bloco a esfrangalhar-se à medida do sectarismo de quem ainda nele milita.
Resta marinho pinto, que lançou agora o seu novo partido, mas ciente de encontrar menos desesperançados, que se deixem aliciar pelo seu populismo bacoco. É que, se com a direção anterior, o Partido Socialista não capitalizava a necessidade dos eleitores em encontrar uma alternativa consistente - e por isso se deixava iludir pela sua demagogia - a partir desta semana passou a contar com um rosto, uma estratégia e, proximamente, um programa de governo, que promete mudar Portugal nos próximos dez anos, devolvendo-lhe o crescimento e a modernização, que solucionarão muitos dos impasses criados nestes três anos...
Agora que o verão já acabou estará porventura quase a regressar aos nossos ecrãs o clássico anuncio do Ambrosio e da sua Madame. Mas quem vê essa publicidade, e consome o que nela se promove, desconhece uma outra realidade, cuja revelação anda a causar sérios engulhos ao grupo italiano: o recurso ao trabalho infantil para garantir as avelãs utilizadas nos seus chocolates.
Essas avelãs são colhidas maioritariamente na Turquia por famílias curdas, que vagueiam de terra em terra para conseguirem os únicos recursos de que dispõem para poderem sobreviver. As crianças e adolescentes, que acompanham os progenitores em jornadas de trabalho de doze horas - quase sempre curvadas para apanharem do chão os frutos para ali sacudidos ou sujeitas a cargas pesadíssimas de sacas entre os pomares de avelaneiras e os caminhos aonde se podem arriscar as camionetas, que as transportam - recebem um salário de um euro por hora...
Mas, nesse negócio não são apenas os que colhem os frutos quem sofre os apertos da feroz exploração a que os sujeitam o seu cliente europeu: o governo de Erdogan criou uma tal legislação contra quem trabalha e contra quem possui pequenas explorações agrícolas, que os donos destas últimas veem os preços de venda dos seus frutos cada vez mais reduzidos, forçando-os a viver de outras atividades que não as relacionadas com aquelas em que se julgavam estavelmente instalados.
Do seu escritório central os porta-vozes da Ferrero são verborreicos na forma como se gabam do seu sentido de responsabilidade social. Mais ainda, prometem impor aos seus fornecedores no Curdistão turco a proibição desse trabalho infantil. Mas não se comprometem com o que seria justo e lícito esperar desta denúncia: que passariam a pagar-lhes um preço mais adequado para os esforços impostos a quem começa por lhes propiciar a matéria-prima necessária aos produtos que lhes enchem os cofres...
Vemos as notícias dos telejornais e a espuma que delas se solta distrai-nos do que têm de mais profundo e humano. Vide por exemplo o que nos é revelado sobre a guerra em banho-maria, que se lavra no leste da Ucrânia.
Sabemos que de um lado estão os «bonzinhos» muito do agrado de merckel, cameron e barroso. Do outro figuram os «mauzões» apaparicados pelo tenebroso Putin. Pelo meio estão os refugiados, centenas de milhares, que tiveram de procurar abrigo do outro lado da fronteira.
Não são menos cidadãos do que os outros, que foram convencidos de quão amarela será a estrada de tijolos, que os conduzirá a Bruxelas e a Washington.
Só que eles não acreditam nessa história da carochinha e preferem outra: a de que se identificam muito mais com quem sempre tiveram laços políticos e culturais a leste de onde viviam. Onde ninguém lhes proíbe de falar a sua língua, nem de manter viva a memória dos que, há setenta anos, morriam para combater o fascismo. Essa ameaça, que os jornalistas ocidentais tanto quiseram esconder, mas se passeava impune por entre os que se manifestavam na praça Maidan.
O Canal Arte mostrou-nos duas famílias fugidas das suas casas e obrigadas a refugiarem-se na Rússia. Gratos por serem alimentados, vestidos e abrigados. Muito embora preferissem voltar à vida que tinham: no sítio onde tinham nascido, crescido e casado e onde cada qual tinha o seu emprego.
Os que fomentaram a guerra na Ucrânia para cortarem o acesso da marinha russa ao Mediterrâneo e para a cercarem ainda mais com as armas da NATO continuam a alimentar a propaganda contra Putin. Que também se vai pondo a jeito com as atitudes, que vai somando relativamente à extrema-direita ocidental e aos preconceitos homófobos. Mas quem tira a razão aqueles dois casais, subitamente expulsos da vida tranquila a que se julgavam com direito?
Esta semana passaram vinte e cinco anos sobre os chamados comboios da liberdade, um dos episódios marcantes dos que antecederam a queda do muro de Berlim.
De facto, no verão de 1989, milhares de alemães do leste acorreram a Praga para pedirem asilo na embaixada da República Federal e assim conseguirem salvo-condutos para se instalarem do outro lado da fronteira.
A primeira brecha dera-se na Hungria, a que se seguiram as verificadas em Varsóvia, Budapeste, Sofia e Praga. De repente, a juventude leste-alemã, que não se sentia nada atraída pelos discursos oficiais, ganhou uma autêntica psicose de fuga abarcando milhares de aspirantes à liberdade.
Em poucos dias a embaixada de Praga estava a abarrotar com mais de quatro mil pessoas, muitas das quais haviam-se feito acompanhar dos filhos ainda de colo.
Numa primeira fase os regimes pró-soviéticos não quiseram transigir com aquilo que se transformou rapidamente numa operação de propaganda potenciada pelos media ocidentais. Mas as negociações do então ministro Hans Dietrich Genscher com as autoridades berlinenses resultaram num compromisso: esses milhares de refugiados seriam conduzidos para a Baviera em comboios obrigados a atravessar o território de que haviam fugido.
Os primeiros comboios partem para a cidade bávara de Hof com os passageiros temerosos de que estivessem a cair numa armadilha. Durante nove horas estiveram na expectativa de um assalto das forças ao serviço de Honecker, que lhes cortasse cerce o sonho.
Quer em Fort Langley, onde muito do que então se passou, se preparara nos anos anteriores, quer na Casa Branca, ocupada pelo pai Bush, começou-se a prever a queda iminente da primeira carta do baralho em que Gorbatchov convertera o bloco leste europeu.
O documentário «1989 - Os comboios da Liberdade» da autoria de Sebastian Dehnhardt e de Matthias Schmidt, com duração de hora e meia, e agora estreado para comemorar a efeméride, entrevista os fugitivos e quem tinha por missão dificultar-lhes os anseios. Tem, por isso, o interesse de mostrar-nos a História através dos que nela serviram de figurantes.
Mas não procura ir além da regra da descrição dos acontecimentos pela ótica dos vencedores. Nesse sentido ficam por desvendar todas as circunstâncias, que terão justificado a rápida implosão de tantos regimes nesse final de 1989 e nos meses que se seguiriam. Nomeadamente todo o papel da corrida aos armamentos lançado pela «guerra das estrelas» de Reagan, assustador papão que devorou recursos financeiros e complicou o acesso dos cidadãos do Leste Europeu a bens de consumo, que adivinhavam facilmente acessíveis no Ocidente.
E também não seria má ideia interrogar algumas das testemunhas sobre as diferenças entre as maravilhas, que julgavam vislumbrar no seu futuro, e as dificuldades que encontrariam depois da poeira assentar e as realidades quotidianas do capitalismo terem limitado os seus anseios hedonistas.
Nestes vinte e cinco anos, a História do que então se passou sempre nos foi apresentada de forma muito maniqueísta, com os intervenientes de um lado a ostentarem um brando imaculado face à cinzentude carregada dos do lado contrário.
Precisaríamos, por isso, de testemunhos policromáticos, que nos expusessem as verdadeiras circunstâncias em que estes episódios conduziram à realidade dos nossos dias: aquela em que a Democracia está continuamente ameaçada pelos decisores clandestinos de um capital financeiro apostado em reduzir os direitos e garantias da maioria dos que trabalham para aumentar tão exponencialmente quanto puder os já lautos lucros que vai escondendo em paraísos fiscais...
Nas últimas semanas vivi grandes alegrias políticas, como de há muito me desabituara de as ter.
Primeiro foi Ana Catarina Mendes a ganhar a Federação Distrital de Setúbal, quando tantos previam a sua derrota face á candidatura de Madalena Alves Pereira, tida como a favorita do tão glosado aparelho.
Depois, há menos de uma semana, foi a vitória de António Costa nas Primárias do PS a confirmar a esperança de ainda ser possível ansiar por futuros mais risonhos contra os que só veem muros e abismos à nossa frente.
De muros e abismos por derrubar é precisamente o que fala «Quarentena», a peça com que O Bando está a comemorar o seu 40º aniversário. E, não parecendo ter nada a ver com aquelas duas vitórias, acaba afinal por ter tudo.
E por isso mesmo saí do Vale dos Barris com os olhos ainda devaneadores de quem, perseguindo sempre o sonho, tem a esperança de o acabar por alcançar. Se não hoje, pelo menos amanhã!
Porque as emoções suscitadas por essa experiência de espectador ainda estão muito vivas - acabei de sair da peça e apenas um curto trajeto por autoestrada me distanciou do computador onde escrevo! - não encontro as palavras mais acertadas para exprimir o deslumbramento em que fiquei.
E, mais uma vez, aí sobra outra linha de interseção entre a peça e aquelas duas vitórias políticas: é que o corolário das três experiências de vida acabaram por resultar no mesmo assombro e fascinação.
É que, se na militância política persigo o sonho de ver o espaço em que vivemos coincidir com a merecida utopia, a peça remete para essa procura feita de superação dos muros e dos abismos.
Nas três horas de duração da experiência percorremos as ruas de Palmela, andamos num autocarro com as janelas tapadas - porque não é essa a nossa condição de viajantes de uma realidade onde nos escondem quase sempre por onde andamos e, sobretudo, para onde nos querem levar? - e desembocamos na ampla sala onde desaguam os vários rios, que buscam em conjunto a saída para o mar.
A peça não a inclui, mas quase dava para pressentir a proximidade do «FMI» do José Mário Branco (“a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de São Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou!”), porque aqui também se fala desses sonhos, que quase parecem à beira de se concretizar e nunca acabam por se fazerem realidade.
Ora, voltando às vitórias de Ana Catarina Mendes e de António Costa, os meus amigos, sobretudo os que militam ou simpatizam com o PCP ou com o Bloco, acharão fúteis as esperanças por quem consideram representar os interesses da tal burguesia com que nada querem ter a ver, mas quero crer estarem eles enganados. Porque tais vitórias deram-me a confiança de voltar a ver o meu Partido retomar o que de melhor teve nestes quarenta anos em que, para o mal e para o bem, moldou o modelo luso de Democracia.
E, numa fase em que o capitalismo vai dando sinais de rutura por todo o lado (quem admitiria como possível o estrondo com que acabaram os Espírito Santo?) haverá quem deseje chegar mais depressa (e pode-se engasgar) e quem acredite na sageza e determinação de quem anseia a mesma liberdade e igualdade, mas com a sustentabilidade de quem quer passar do sonho para a realidade como a progressão da personagem infantil de um filme do Mikhalkov, que sente o sol matinal a inundar-lhe de luz o rosto esperançoso e desperta para o novo dia com a confiança de nele encontrar a alegria dos desejos à beira de se converterem na superlatividade do prazer...
«Quarentena» acaba por ser o espetáculo ideal para dar a melhor ilustração de um ano em que, depois de tanto desencanto, somam-se motivos para crer que poderemos voltar a ser gente feliz com lágrimas...
É um clássico: depois da vitória de domingo nas Primárias, há quem apoie e quem execre o acordo estabelecido entre os vencedores e vencidos!
Uns reagem com a razão e veem na facilidade com que se substituiu a direção do grupo parlamentar e se acordou numa lista única para o Congresso a concretização do que António Costa prometera durante as ações da campanha: que, a partir do dia 29, as divergências diluir-se-iam e seria o partido no seu todo, que se iria empenhar com determinação na derrota da direita ainda no poder.
Mas há sempre quem argumente com a ditado de «quem não sente não é filho de boa gente!» e não esqueça as infames atitudes de uns quantos, que se apressaram a apodar de traidores quem apenas pretendia ver o Partido de um indispensável novo fôlego!.
Algo há de indubitável: a magnanimidade com que António Costa sempre prometeu atuar no dia seguinte às Primárias, não seria decerto a mesma se tivesse sido António José Seguro a ganhar. Tudo no seu discurso apontava para uma espécie de caça às bruxas como a concretizada pelos seus principais apoiantes em Coimbra!
Mas António Costa tem uma tarimba e uma sagacidade políticas, que justifica a confiança redobrada em como cumprirá com sucesso as várias fases do projeto que teve agora a primeira batalha. A escolha de Ferro Rodrigues para liderar os deputados socialistas na Assembleia confirmou essas qualidades: quando enfrentar quinzenalmente o ainda primeiro-ministro, os portugueses verão um tecnotitubeante adolescente retardado a medir-se com um respeitado senador da República. A degenerescência do governo acelerar-se-á em cada uma dessas ocasiões, com as circunstâncias a convergirem para um final de mandato a lembrar um navio a meter água por todos os lados.
Onde as Primárias deverão ter impacto mais contundente será a nível das secções e das concelhias, e aí sim será a altura para operar uma separação eficiente entre o trigo e o joio. Porque o segurismo, no que teve de pior, não aconteceu por acaso na vida do maior Partido português, decorreu de, durante anos a fio, terem passado a militar nele quem manifestava a maior indiferença pelos valores ideológicos de que deveria ser cultor e apenas tinha em vista propósitos indisfarçavelmente arrivistas. Foi à pala dessa “cultura” que se alteraram estatutos, se expulsaram militantes devotados e se tomou de assalto um aparelho, que se pretendia vocacionado para perenizar o triunfo definitivo da mediocridade.,
Se olharmos para quem integrou o exército dos seguristas a nível concelhio ou distrital - alguns dos quais provinham de candidaturas fracassadas nas últimas autárquicas! - encontramos uns quantos “doutores” sem emprego apostados em imitarem o seu líder nessa «capacidade» para outra coisa não fazerem na vida, que não fosse um qualquer lugar decorrente dessa ligação partidária.
Quer isto dizer que, se a hora é de união a nível do topo do Partido, deveremos ser exigentes nas secções onde militamos e eleger quem tem mais vida para além da política - capaz de, por isso mesmo, ter uma visão mais abrangente e qualificada das posições a tomar. Ou seja, que não veja nele a mera oportunidade para garantir um emprego.
Porque ser socialista nada tem a ver com a focalização nos umbigos: significa defender valores e não interesses!
Ora é a própria ciência dos fractais, que nos demonstra a reprodução dos bons exemplos se deles conseguirmos fazer padrão a partir de uma dimensão estrutural de base. É que, a par de uns quantos caciques locais inapelavelmente derrotados no domingo passado, o Partido também conta com toda uma geração de jovens militantes com talento e capacidade para tomarem o testemunho dos mais velhos - os que agora pugnaram pela defesa do património histórico do Partido - e estão em condições de o tornarem num verdadeiro caso de sucesso político para os anos vindouros! Para que os portugueses tenham direito a um futuro digno e carregado de esperança!
Na sua crónica de ontem no «Público», Rui Tavares consegue um belo achado com a transformação da sigla CPPC com que a Tecnoforma crismou o Conselho Português Para a Cooperação, a sua suposta Organização Não Governamental, para “Cooperar com o Pedro Passos Coelho”.
De facto, de tudo quanto se vai sabendo do envolvimento do ainda primeiro-ministro com a empresa em causa, pode-se não vir a comprovar aquilo que quase todos adivinham, mas dificilmente ele virá alguma vez a escapar da suspeição do seu comportamento indigno.
Mas dever-nos-emos admirar com aquele que sempre foi um dos melhores amigos de miguel relvas? É que, se ninguém pode ser julgado em função das companhias, que elas vão dar geralmente ao «diz-me com quem andas…» lá isso vão...
Portugal “low cost” é o título do texto hoje publicado por Daniel Oliveira na edição diária do «Expresso» e o tema é o candente “aumento” do Salário Mínimo Nacional agora aprovado com a cumplicidade de uma UGT, que comprova a condição de muleta do patronato em vez de cumprir a função de defender o interesse de quem diz representar.
Quer a UGT, quer a CGTP, teriam a obrigação de garantir a reaproximação desse Salário Mínimo aos 585 euros, valor equivalente ao do verificado em 1974, quando ele foi criado. E deveriam bater-se para que o bónus de 0,75 pontos percentuais na TSU oferecido aos patrões não significasse um encargo a ser imposto pelas nossas reformas.
Para o jornalista o desagrado de Bruxelas com o descongelamento desse valor representa a continuidade da aplicação em Portugal de um modelo económico apostado em explorar uma mão-de-obra paga abaixo do limiar da pobreza e em desrespeito das condições exigíveis de higiene e segurança. “Um exército a produzir mau e barato”.
Muito embora surjam sinais contraditórios de políticos europeus já convencidos de quanto será necessário infletir de vez as estratégias impostas experimentalmente nestes últimos anos aos países mais fragilizados pela crise despoletada em 2008, ainda sobram em Bruxelas e Estrasburgo muitos defensores das lógicas austeritárias.
Razão mais do que justificativa da urgência para correr definitivamente com este governo tecno(de)formado substituindo-o por quem está decidido a, cá dentro e lá fora, bater o pé a quem nos quer cingir ao modelo “low cost” de que fala o artigo de Daniel Oliveira.
1. Está na altura de pôr ponto final em comentários à disputa entre António José Seguro e António Costa para a liderança do PS, agora que tudo se definiu e a palavra de ordem é a de chamar a reunir as hostes contra o governo que nos desgoverna. No entanto, e porque o humor não deixa de constituir uma notável arma de arremesso político, vale a pena referenciar duas pequenas notícias do jornal satírico «Inimigo Público».
Numa delas sublinha-se o quanto existe de ironia no facto de ser aquele que costumava perguntar qual era a pressa a acelerar o mais possível para sair da sede do Largo do Rato, quando ainda nem sequer tinham sido divulgados oficialmente os primeiros resultados.
Noutra manchete - que diz bem do impacto da vitória de António Costa! - anunciava-se que Clooney e a sua nova cara metade tinham decidido prolongar a festa de casamento por mais dois dias só para comemorar a vitória do autarca de Lisboa. Se não aconteceu, poderia muito bem ter acontecido!
2. O fim-de-semana não foi apenas marcado pelas eleições primárias no PS. Mostrando quão pindérico consegue ser, o tecnofórmico passos coelho foi ao antigo Pavilhão Atlântico assistir à final europeia de ping-pong.
Sentado, a olhar para a esquerda e para a direita, sem mais nada fazer, ele foi a perfeita metáfora de quem já muito destruiu, mas agora, com eleições à vista, limita-se a ser passivo perante a realidade, que o rodeia.
Mais acomodado, cavaco mandou parabéns...
3. Grave a acusação de pinto da costa a passos coelho e a cavaco silva por quem se sentiu enganado.
É claro que podemos ter dúvidas se o presidente do Porto caiu mesmo na história do conto do vigário do aumento de capital do BES, se encontrou nela a matéria pitoresca para fazer mais um daqueles números muito do seu agrado.
De qualquer forma, verdadeira ou falsa, a entrevista a pinto da costa teve o condão de trazer novamente à colação a história dos pequenos acionistas, que iludidos pelos “méritos” do capitalismo cairam que nem tordos perante as jogadas de mestre dos que com ele sempre ganham.
4. O economista e professor universitário Pedro Lains acabou de publicar um novo livro de recolha das suas crónicas mais recentes - «O Economista Suave (Outra Vez)» - e que tem algo a ver com o caso de pinto da costa: desde que o muro de Berlim caiu já deveríamos ter aprendido a não fazer previsões e, portanto, a não cumprir planos pré-negociados como foi o memorando. Numa realidade dinâmica tudo deve ser decidido à medida do que vai acontecendo e recorrendo aos mais variados canais de recolha de informação.
Está aqui uma boa resposta a quem insiste em saber de António Costa o que irá fazer relativamente ao Tratado Orçamental ou à dívida soberana: à distância de um ano das próximas legislativas arriscar uma posição definitiva não só é fútil, como só poderia resultar numa tolice. Porque quem arriscará algum prognóstico sobre que posições serão assumidas nessa altura pela Comissão Europeia, pelo BCE ou por quantos decidem estratégias comuns no Eurogrupo?
Por agora só interessa que António Costa preserve duas das principais facetas da sua imagem: a credibilidade e a competência.
5. Hoje foi o dia em que carlos moedas viu aprovada a sua integração no novo emprego. O que nos deu o ensejo de, não só confirmarmos que um escorpião é-o sempre apesar da mudança de circunstâncias (e ele demonstrou-o quando, em vez de se comprometer a ter em conta as pessoas, se disse orientado exclusivamente para os resultados!), como mostrar uma insuspeitada faceta de bufão da corte: não é que, sem qualquer prurido, disse-se em discordância frequente com os técnicos da troika?
Como diria o palhaço interpretado por Jô Soares, «Eu quero aplaudir!». Porque não sendo palhaço é o que moedas quer que seja quem o ouviu!
O que se faz para se conseguir afiambrar a um bom emprego!