terça-feira, 23 de setembro de 2014

Teoria da conspiração … ou talvez não!

Os últimos dias voltaram a ser férteis relativamente à dualidade de critérios da imprensa escrita e televisiva para tratar de notícias relacionadas com José Sócrates e o atual governo.
O primeiro exemplo aconteceu nas televisões, que foram lestas a comparar os pedidos de desculpas de crato e de teixeira da cruz com os de José Sócrates, quando fumara um cigarro num voo para a Venezuela ou de Manuel Pinho quando mimou cornos para a bancada do PCP.
No «Expresso» Daniel Oliveira é esclarecedor quanto às razões porque pôr os casos dos primeiros ao nível dos protagonizados pelos segundos não faz qualquer sentido: “É uma comparação absurda. Os erros dos dois [Sócrates e Pinho] foram pessoais e sem qualquer conteúdo político ou técnico. E perante erros pessoais, sem qualquer ligação com as suas funções políticas que não seja a obrigação de cumprir as regras legais e de civilidade em vigor para todos os cidadãos, é natural e recomendável um pedido de desculpas público.
Perante erros técnicos e políticos, faz-se uma de duas coisas: ou eles não são graves e corrigem-se rapidamente, vivendo com os efeitos políticos da falha, ou eles são graves, os detentores de cargos públicos assumem essa gravidade e demitem-se..”´
É claro que perante a confissão de um dos secretários de estado de crato em como continua sem saber como corrigir o erro dos professores incorretamente afastados das colocações da semana transata ou com a continuação da paralisação da Justiça, não faz sentido que passos coelho fuja à obrigação de substituir quem revelou tanta incompetência.
O segundo exemplo tem a ver com o desmentido da notícia da revista «Sábado» a respeito do vínculo de exclusividade de passos coelho na Assembleia da República enquanto recebia verbas da Tecnoforma.
Já estranháramos que uma mentira a respeito de José Sócrates, prontamente desmentida no mesmo dia, tivesse merecido foto de capa da «Sábado» ainda há escassas semanas, enquanto este caso com passos coelho não ia além da dimensão de uma pequena caixa na revista desta semana.
Mas o pronto desmentido da notícia deve merecer uma interpretação do sucedido com o antigo primeiro-ministro: enquanto com este o grupo Cofina continua, por intermédio dos seus jornais e revistas, a manter uma permanente campanha de desgaste destinada a dificultar-lhe um regresso efetivo à política, com passos coelho a ideia será a de vitimizá-lo numa lógica de ele ser tão “honesto, tão honesto”, que não o conseguem apanhar numa ilegalidade.
Aonde parece existir alguma semelhança de estratégia, poderemos estar perante objetivos completamente contrários. Que de passagem até poderá pôr os mais ingénuos a duvidar se luís filipe meneses terá cometido os crimes por que está a ser investigado pelo Ministério Público.
Demonstra-se, pois, que a grande máquina de propaganda responsável pela campanha organizada desde o início do milénio para decapitar as direções socialistas - à exceção da de António José Seguro, que por ser tão inoperante, é tão acarinhado por ela! - continua em marcha.
António Costa bem o está a sentir nas últimas semanas sendo fácil detetar nas redes sociais os perfis fantasmas, que se multiplicam em calúnias, insultos e mentiras, e oriundas das agências de comunicação responsáveis por tal campanha.
E nem as maiores evidências de incompetências e de negócios obscuros em torno das privatizações conseguem sobrepor-se à sucessão de elogios delas imanados à ação governativa como se, qual Pangloss, estivéssemos a viver no melhor dos mundos possíveis...

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Um tem obra, o outro não!

Entramos na última semana de campanha para as Primárias e a principal crítica feita a António Costa por António José Seguro e  uma certa comunicação social que o apoia é a de que não apresenta alternativas concretas para a forma de fazer política pela desacreditada coligação entre o PSD e o CDS, nomeadamente como responderá à premente questão da dívida pública.
Terão razão ou, pelo contrário, não será a prudência de António Costa a atitude mais asizada perante uma realidade em permanente mutação e que não saberemos como se configurará daqui a um ano, quando provavelmente decorrerão as próximas eleições legislativas?
Que Europa encontrará o próximo governo, quando entrar em funções? Ainda perdurará a lógica austeritária dos fundamentalistas, que têm dominado as orientações do Ecofin, ou a deflação instalada já terá convencido os governos da justeza das posições cada vez mais audíveis dos que pugnam pelas virtudes do investimento público? Manter-se-á a leitura fundamentalista do Tratado Orçamental ou será ele flexibilizado na sua aplicação? Ninguém o saberá dizer!
Isto significa que tudo quanto qualquer político disser sobre o que fará a tal respeito daqui a um ano é totalmente falacioso e assim se explica que, apenas para subvalorizar António Costa, se lhe exija uma definição que mais ninguém se atreve a fazer. Que irão passos coelho ou paulo portas propor? Que fariam Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, João Semedo ou Rui Tavares se fossem para o governo? Que fará António José Seguro? Ninguém o diz e, porém, é a António Costa que é exigida frequentemente uma resposta!
Mas sabemos algo que mais importa: em situação concreta de constrangimentos orçamentais, António Costa tem transformado Lisboa ao longo destes seis últimos anos explicando-se o sucesso turístico deste ano como fruto do seu trabalho, que nunca é demais elogiar! As elogiosas referências internacionais sobre Lisboa como destino na moda muito devem ao seu labor!
Quem apoia António Costa olha-lhe para o currículo e encontra exemplos eloquentes da sua capacidade para estabelecer os objetivos mais adequados aos interesses coletivos, criar equipas de colaboradores competentes para os programar e coordená-las de forma a torna-los possíveis.
Não se tratará de um cheque em branco, porque já se lhe conhece obra bastante para merecer a confiança, que nele depositamos.
Ora, quanto a António José Seguro o que sabemos? O que é que ele fez de concreto para além de cuidar das suas ambições pessoais na sexta fila da Assembleia da República? Que obra palpável podemos atribuir-lhe a não ser a demonstração contínua do que de pior pode configurar um político, porque baseado num inaudito populismo?
Se a esquerda europeia tem promovido às suas lideranças, quem tem desmerecido da sua História - desde o PASOK grego a François Hollande - é urgente que ela volte a encontrar líderes para quem continuará a fazer sentido uma demarcação clara das estratégias relativamente à Direita e à extrema-direita, que nada de bom têm a propor a quem apenas anseia por viver com a melhor qualidade de vida possível numa sociedade onde a justiça e a igualdade voltem a ser valores fundamentais!

Com um amigo destes, Seguro nem precisa de inimigos!

Confesso culpas no cartório: o meu pragmatismo não chega ao ponto de gastar tempo e dinheiro com o semanário do arquiteto saraiva. Em definitivo considero uma inaceitável balela aquela ideia propalada por certos espíritos politicamente corretos em como temos de ler o que todos dizem para consubstanciar uma opinião mais fundamentada sobre aquilo que quereremos opinar. Até porque se algo há a merecer atenção nalguns dos pasquins da nossa praça surge sempre um amigo bloguista ou do facebook a filtrar o que ali terá sido publicado. Foi o que sucedeu com a entrevista dada por João Proença, ex-líder da UGT, na qualidade de coordenador da campanha de António José Seguro, e que Miguel Abrantes, da «Câmara Corporativa» nos deu a conhecer os aspetos mais importantes.
Sinteticamente, pudemos confirmar por tão douta “autoridade do mundo sindical” o muito que já déramos como certo na assustadora personalidade do ainda secretário-geral do PS e de muitos dos que integram a sua corte. Porque:
· o mesmo Seguro que tanto associa o descrédito da classe política à confusão entre política e negócios, escolheu precisamente como organizador da sua campanha aquele que, tão só saído da UGT, logo foi nomeado por passos coelho para a cúpula da AICEP, o organismo estatal cujo objetivo é precisamente … promover negócios;
· é o entrevistado do «Sol» quem corrobora a constatação em como “não tendo estado ligado ao governo de Sócrates”, Seguro passou, de facto, seis longos anos a vegetar na sexta fila do Parlamento;
· numa negação de uma realidade que não escapa à maioria dos simpatizantes e militantes socialistas, os seguristas querem esquecer a «abstenção violenta» ao Orçamento de 2012, que ia muito além do negociado no memorando da troika;
· também procuram ignorar a abstenção imposta pela direção parlamentar à  inacreditável revisão do Código do Trabalho, que reduziu os direitos e garantias de quem trabalha a uma mera caricatura e fora vergonhosamente subscrita pela UGT;
· mentindo sem escrúpulo, Proença assegura um corte de 49 deputados sem reduzir a representação da província e ao mesmo tempo observar o sistema proporcional;
· reconhecendo a forte probabilidade de assistir a uma derrota no dia 28, Proença explica as posições populistas das últimas semanas como “uma reação de quem se sente numa situação de dificuldade”.
Mas a entrevista ainda tem mais que se lhe diga, porquanto João Proença usa a argumentação da direita para propor o fim do espaço de opinião de José Sócrates na RTP e não refere uma vez que seja um conjunto de questões, que deveriam merecer a prioridade de qualquer socialista na denúncia do estado de coisas, que urge infletir: os desempregados sem apoios sociais, a precariedade no emprego, a degradação do acesso à Saúde, o caos na Justiça e na colocação de professores, etc.
A grande preocupação de Proença, e por certo de muitos que rodeiam António José Seguro, é o que lhes sucederá depois do dia 28 e por isso ele é explicito num desejo: “espera que o vencedor das primárias, seja qual for, dê lugares no partido a quem ficar na oposição interna”.
Durante esta semana irá haver muita gente a ter sérias insónias sobre o futuro que os espera, quando se anunciarem os resultados destas Primárias. É que se a grande maioria dos apoiantes de António Costa têm outra vida para além da política, não é o caso dos da candidatura contrária onde impera quem julgou chegado o momento de ver premiados anos de assumido arrivismo e lhe surge sempre o pesadelo de uma mão vazia e outra sem coisa nenhuma!


domingo, 21 de setembro de 2014

A Tempestade Perfeita

Ângela Silva é uma jornalista do «Expresso», normalmente conotada com as posições da direita. E, no entanto, na edição desta semana ela consegue fazer a melhor síntese dos factos por que passou entretanto o governo:
“A demissão de Vítor Bento do Novo Banco, o crash no sistema informático da Justiça, os erros na colocação de professores, os pedidos de desculpa públicas dos respetivos ministros, a confirmação pela PJ e pelo Ministério Público de que estão a investigar contratos de milhões de altos responsáveis do PSD na Câmara de Gaia e de que receberam uma denúncia de ilegalidade cometida pelo próprio passos formaram a tempestade perfeita”.
Perante todos estes acontecimentos poderíamos fazer esta pergunta:  se, em vez de prolongar este processo de definição da liderança do PS por quatro longos meses, António José Seguro tivesse imitado o PSOE espanhol e tivesse resolvido o caso em apenas um mês, assegurando uma nova direção logo no início de julho ainda teríamos esta sensação pantanosa de impunidade perante a corrupção e a incompetência de quem está sentado nas cadeiras do poder?
Na semana transata foi possível detetar uma subida do PS no trabalho publicado pela Eurosondagem, desmentindo a tese segurista segundo a qual o desafio de António Costa iria enfraquecer o partido. Pelo contrário até pressupunha como a expectativa da vitória deste último já começa a produzir o efeito contrário: o de alavancar o resultado potencial do PS nas próximas legislativas.
Imaginemos agora como é que a nova direção liderada por António Costa poderia estar agora a confrontar passos coelho com os sinais de fim de ciclo, que se vão multiplicando no dia-a-dia e a afirmar-se mais assertivamente como alternativa inadiável a esta direita esgotada!
Neste momento o passivo dos danos causados ao PS por António José Seguro na forma como conduziu o partido nestes últimos meses vai atingindo uma dimensão, que não poderá ser esquecida depois do dia 28!

sábado, 20 de setembro de 2014

Populismos e aproximação dos eleitores aos eleitos

Na deriva populista, que lhe conhecemos nos últimos meses, António José Seguro empreendeu uma campanha demagógica em prol da necessidade de uma maior aproximação dos eleitores com os seus eleitos. Por isso apostou na inqualificável decisão autocrática de propor à Assembleia da República a redução do número de deputados - que facilitará a nomeação dos que provierem do PSD e do PS e reduzirá a eleição dos propostos pelos pequenos partidos e dos que seriam oriundos do tal interior abandonado por ele tão mimoseado! - e a imposição de um tipo de exclusividade destinada a não facilitar a mistura da política com os negócios.
Foi preciso o Partido Socialista chegar a mais de quatro décadas de existência para contar com um efémero líder mais apostado em apelar aos preconceitos mais primários dos eleitores do que à sua inteligência.
Ora, se por desespero não optasse por tão serôdia estratégia, António José Seguro teria tido fartos exemplos durante esta semana das razões porque os portugueses estão distanciados da política. Concluiria assim que isso acontece, porque tem políticos que:
· são capazes de pedir desculpa pelo caos que semeiam nos setores que tutelam e não retiram as devidas consequências das responsabilidades políticas que lhes cabem. Que só poderiam ser a demissão. Comentava Fernando Madrinha no “Expresso” que ”por muito menos, tanto no caso da Educação como no da Justiça, há quem o faça em países que gostamos de tomar como modelos.” E, no mesmo semanário, acrescentava Pedro Adão e Silva que “por mais sofreguidão legislativa sobre pedofilia que revele, teixeira da cruz não será capaz de disfarçar a sua incompetência para governar a justiça em Portugal”;
· alegarão prescrição das suas ilegalidades para fazerem como se elas nunca tivessem existido. Tem isto a ver com a denúncia da verba atribuída mensalmente a passos coelho quando ele era deputado com exclusividade de funções entre 1997 e 1999 e que não consta na declaração para o fisco nem para o Tribunal Constitucional, e sobretudo nunca poderia ser-lhe remunerada face ao estatuto em que se colocara. Por muito que criminalmente possa ser ilibado de qualquer dessas ilegalidades, moralmente passos coelho fica sem legitimidade para merecer as funções que exerce.
· endividaram obscenamente a sua autarquia à conta de contratos ruinosos - vide o processo em averiguações a luís filipe de meneses a respeito do lixo renegociado com uma das empresas do grupo Mota Engil - com fortes suspeitas de terem assim angariado verbas para andarem a oferecer patuscadas nas posteriores campanhas eleitorais;
· tentam disfarçar o indisfarçável ou seja ilibarem-se das efetivas responsabilidades, que têm relativamente à forma como está a ser “resolvido” o caso BES, apenas motivados por cálculos eleitoralistas, como são enunciados por Pedro Santos Guerreiro ainda no mesmo semanário. “Este caso foi desde o início político, que está feito para não contaminar as eleições e que vai ter custos maiores do que disseram ao princípio. O modelo de resolução face ao da capitalização há de ser cada vez mais criticado. Porque o resultado desta experiência está a ser o de uma destruição”.
Já contasse o Partido Socialista com uma Direção verdadeiramente à altura da sua História e teríamos a firme exigência da demissão de nuno crato e de paula teixeira da cruz, do pedido de explicações a passos coelho quanto à forma como está a gerir a falência do grupo Espírito Santo e da exigência de célere esclarecimento sobre o que agora se soube a respeito da Tecnoforma e dos contratos de lixo em Vila Nova de Gaia.
Com tal firmeza o Partido Socialista estaria a firmar-se junto dos portugueses como aquele que exige uma conduta irrepreensível dos seus políticos, assegurando-se que a culpa não volte a poder morrer solteira. Ademais poria à prova a própria Justiça dos tribunais, assegurando-se que, não sendo cega, ela não se revele propriamente zarolha como andou a parecer nas semanas mais recentes.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

António Costa e os exemplos da Antiga Grécia

Só daqui a quase um mês poderemos ver em Lisboa a nova peça da Cornucópia, que acaba de ser estreada no Teatro de São João, no Porto. Mas «Pílades» de Pier Paolo Pasolini promete ser um espetáculo tão exigente nas suas três horas e meia de duração, quanto oportuno para este Portugal entroikado. Porque, se ganhar as Primárias do Partido Socialista, como esperamos que venha a suceder entretanto, António Costa irá ver-se nas mesmas dificuldades do personagem principal da peça, Orestes, decidido a implementar a democracia no seu reino, mesmo contando com a oposição dos defensores das tradições anteriores, e de quem o julga demasiado comedido para com esses representantes de um passado por ultrapassar.
A situação não é nova e esteve particularmente presente no pós-25 de abril: entre os que pretendiam uma democracia consolidada e os outros partidos ou movimentos da esquerda apostados em chegar mais depressa a formas mais “puras” de socialismo, o embate foi muitas vezes complicado com o PS a aliar-se frequentemente à direita para contrariar as tentações insurrecionais do PCP ou de outras forças mais radicais.
Na altura viu-se o resultado: quem ganhou com essa impossibilidade de concertação de objetivos entre toda a esquerda foi a direita que, através de sá carneiro, conseguiu a primeira maioria absoluta capaz de pôr em causa muitos dos avanços sociais conquistados anteriormente.
Basta ver a prática dessa mesma extrema-esquerda em relação aos governos de José Sócrates ou o que vai adiantando relativamente às propostas de António Costa para temer que nada tenham, entretanto, aprendido.
Por isso mesmo a peça de Pasolini representada pelo elenco da Cornucópia não poderia vir em melhor altura: porque, qual Orestes, António Costa tem a tarefa gigantesca de romper com a tradição austeritária destes três anos e acertar acordos à  esquerda, que torne viável esse objetivo!


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Novas perguntas do operário letrado

Agora que a administração recém-empossada do Novo Banco anda a listar o seu stock de cunhas para ver a quem possa vender depressa e mal os salvados nele contidos, torna-se pertinente fazer o papel do operário letrado de Brecht e colocar algumas perguntas pertinentes a que o futuro dará decerto resposta:
· se politicamente a solução decidida pelo Banco de Portugal, com o acordo implícito do ministério das Finanças, terá sido uma opção legítima, também correspondeu à que melhor se ajustaria tecnicamente?
· alguma vez serão esclarecidas as responsabilidades de quem deveria ter cumprido escrupulosamente o papel de regulador e não o fez?
· alguma vez ficaremos a saber como é que esses suprassumos da excelência, que eram os senhores da troika, nunca deram por quanto se escondia por trás da imponente fachada do grupo GES?
· será que o deputado nuno melo, que tanto se fez ouvir durante o caso BPN, sairá do seu silêncio para fazer o papel do arauto dos indignados com os malefícios da Banca?
Há cada vez mais vozes a interrogarem-se sobre se não teria sido mais lógica uma decisão de nacionalização do «banco bom» se tal opção não pusesse as mentes de muita gente da direita a deitar fumo, temerosas do súbito regresso a 1975.
É que, se virmos bem o exemplo do BPN o problema não terá residido na nacionalização decidida por Teixeira dos Santos e José Sócrates, mas em como o governo de passos coelho se encarregou de desvalorizá-lo como forma de o entregar por tuta e meia aos amigos angolanos de mira amaral. Algo que tenderá a repetir-se agora com o Novo Banco e cujos efeitos nos deverão assustar, enquanto destinatários finais a quem a fatura final acabará por ser enviada para pagamento irrevogável.


A UGT enquanto muleta dos patrões

De entre as muitas percentagens que estiveram nas notícias de ontem, escolhamos duas por integrarem o caleidoscópio de sinais que espelham a tragédia social em que este governo mergulhou o país. Assim ficou-se a saber que:
· no ano passado 2,2 % dos  menores de 15 anos pertenciam a famílias que não lhes garantiam pelo menos uma refeição diária de carne ou peixe e 1,4% não comiam fruta e legumes uma vez por dia;
· no primeiro semestre de 2014, as queixas de violência doméstica registadas pela PSP e GNR aumentaram 2,3% face a igual período do ano passado.
Mas, ontem foi igualmente o dia em que o líder da UGT se bateu na Concertação Social por um salário mínimo de 505 euros e a vigorar até ao final de 2015, não acompanhando a proposta da CGTP para chegar aos 515 euros e muito menos a de António Costa, que já considerou 522 o valor justificável face ao fi do memorando assinado com a troika e aos compromissos anteriormente estabelecidos entre patrões e sindicatos para vigorarem a partir de 2011.
Carlos Silva, apoiante de António José Seguro, só se preocupa com os patrões, merecendo-lhe o maior dos desprezos a questão de saber se os 17 euros em causa significam ou não uma melhoria, ainda que mínima, na condição de pobreza de quem trabalha por tão exíguo valor.
Constitui uma vergonha para o movimento sindical português, que um dos seus emblemáticos representantes já nem tente disfarçar o que o move nas suas funções: em vez da defesa intransigente dos seus representados, importa-lhe o prato de lentilhas a que vai tendo direito ao garantir ao patronato o argumento de uma divergência significativa entre quem o deveria combater em uníssono. Forma de deixar tudo na mesma!
A UGT vai, pois, confirmando a sua razão de ser: a de servir de muleta aos patrões para reduzirem os direitos e os rendimentos de quem trabalha!


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Populismo até ao vómito!

As reações hoje ouvidas a quem comentou a «proposta» de revisão da lei eleitoral pela candidatura de António José Seguro foram mais ou menos consensuais: sem grandes argumentos para contrariar a solidez e a dinâmica da campanha de António Costa resta ao ainda secretário-geral levar o seu larvar «populismo» até à dimensão do vómito, ultrapassando as diatribes de marinho pinto ou de santana lopes em 2003.
O que foi apresentado por Alberto Martins (e que lamentável mancha este anda a inserir num currículo que, desde a época em que estudava em Coimbra, merecia aplauso!) foi algo que envergonha o Partido Socialista, porque se resume a uma folha com algumas linhas com propostas contraditórias entre si e com um objetivo político paradoxal: o de ainda mais diminuir o prestígio, os poderes e a influência da Assembleia da República.
Se António Costa tem acentuado a importância de, a partir do dia 29, todos os socialistas se unirem e mobilizarem para o seu projeto transformador da sociedade portuguesa, será de temer o que os seguristas irão fazer. Porque a rutura com a história e os princípios socialistas tem sido por eles tão notória, que se justifica questionar que tipo de contributo estarão em condições de facultar?

O leite como subproduto da biomassa?

É um drama vivido no silêncio dos campos franceses e o derradeiro tabu camponês: anualmente dez mil animais são arrestados pela justiça, em grande parte vacas leiteiras. Esses animais são retirados a pequenos agricultores que baixaram definitivamente os braços e acabam quase sempre por serem condenados por «abandono de gado».
O que significa essa sórdida tendência? Quem luta contra tais abandonos e com que meios? Será que a exploração leiteira ainda tem algum futuro em França ou nos demais países europeus?
A verdade é que deixar morrer os animais a que se consagrou toda a vida é um fenómeno revelador do mal estar vivido entre os criadores de gado.
Desde que se viveu a crise o do leite de 2009, desaparecem dez mil explorações por ano. O modelo familiar da criação de gado parece ter conhecido o seu fim. Noutros países europeus, as soluções alternativas vão mostrando algum sucesso: a Alemanha transformou-se no primeiro produtor de leite da União Europeia, mas o segredo foi o da utilização massiva das «quintas fábricas» quase totalmente automatizadas.
Nelas as vacas leiteiras vivem cerca de oito anos, sem jamais saírem dos pequenos espaços onde estão confinadas e nunca conhecerão um prado verdadeiramente digno desse nome.
Estas estruturas gigantescas são capazes de acolher milhares de vacas ao mesmo tempo, todas a defecarem para metanizadores, que transformam o estrume em biomassa. A venda dessa energia torna rentáveis as explorações leiteiras.
Em França também há quem aposte na imitação desses modelos, mas enfrenta forte oposição. Laurent Pinatel, porta-voz da Confederação Camponesa e adversário determinado das quintas com mais de mil vacas afirma que, nelas, o leite tende a ser um subproduto da «merda».
No fundo o que está em causa é o debate sobre o futuro da sociedade e até que ponto terá nela cabimento o modelo tradicional da agricultura. Algo que os portugueses não podem ignorar, porque também lhes diz respeito!

E, no entanto, não se demitem...

Durante os governos liderados por José Sócrates, dois dos atuais ministros de passos coelho distinguiram-se nas críticas e nos pedidos de demissão aos que então os antecediam nas pastas, que viriam a ocupar depois de 2011. É claro que estamos a falar de nuno crato e de paula teixeira da cruz.
O então crítico do «eduquês» andou a enganar muito crédulo, que acreditava piamente nas suas críticas ao meritório trabalho levado a efeito por Maria de Lurdes Rodrigues e por Isabel Alçada e julgou, enfim, chegado um tempo radioso para a Educação pública através de uma governação à medida de tanto maldizer.
Afinal o tiro está-lhe a sair pela culatra, já que começa a ser consensual a nomeação de crato para o título de pior ministro da Educação desde a Revolução de Abril. Porque os danos causados por ele e pela sua equipa no setor que tutela, levarão muitos anos a serem recuperados para regressar aos indicadores anteriores. Aquele que ainda vai valendo o reconhecimento internacional por medidas entretanto abandonadas na lógica de terra queimada.
O início deste ano escolar está a ser mau de mais para ser possível qualquer complacência. Se a impunidade pelos erros crassos não fosse uma cultura instituída com passos coelho, crato já há muito teria sido varrido das instalações da Avenida 5 de outubro.
As televisões vão-nos mostrando uma realidade feita de casos de:
· professores informados na passada sexta-feira das escolas onde se deveriam apresentar na segunda-feira, muitas delas a centenas de quilómetros da sua residência;
· escolas abertas apenas com auxiliares e sem professores para elas designados;
· professores nomeados para um mesmo horário ou para um mesmo lugar;
· professores do quadro sem colocação;
Sucedem-se assim, de norte a sul, os boicotes e os protestos, que levam o Observatório de Políticas de Educação e Formação a considerar que “este ano, o quarto do mandato do atual Governo, abre em guerra com os professores, com o descontentamento de muitos pais, autarcas, funcionários e outros profissionais”. Para a mesma organização “é mais um ano em que se aliam políticas de retrocesso educativo com incapacidade de gestão e um enorme desrespeito por todos os cidadãos”.
Mas se na Educação impera o caos, ele nada se compara com o terramoto criado pela imposição do novo Mapa Judiciário pela Ministra da Justiça, associado à utilização da plataforma informática Citius. Desde há duas semanas paula teixeira da cruz mergulhou na clandestinidade depois de deixar os tribunais completamente paralisados. Os julgamentos vão sendo adiados, a confusão entre os novos processos e os que já estavam informatizados não se consegue desenlear e é a própria bastonária da Ordem dos  Advogados a lembrar que, por muito menos, a então vice-presidente do PSD exigia a cabeça de Alberto Costa.
Que António José Seguro queira julgar que o descrédito dos portugueses na política tenha a ver com o número de deputados ou a forma como podem ser eleitos, é uma originalidade só explicada pelo populismo a que se agarra como forma desesperada de evitar a sua derrota iminente. Porque, na realidade, a razão desse descrédito assenta no facto de os máximos responsáveis por políticas, que prejudicam gravemente os cidadãos e o país, não retirem daí qualquer consequência e ainda tenham a falta de escrúpulos para quererem convencer de que continuamos a viver no melhor dos mundos possíveis…


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Um Midas ao contrário

Se nos pedissem três razões para não votar em António José Seguro nas Primárias do dia 28, o ainda secretário-geral já nos deu tantas, que torna-se difícil escolher quais delas mereceriam maior distinção. Mas, no seu artigo «Está péssimo, Seguro» ontem inserido no «Diário Económico», João Galamba alinha três com particular peso para libertar o Partido Socialista de uma tão confrangedora direção:
1. ele é “aquele que com grande sacrifício pessoal, pegou num partido que vinha de uma pesada derrota (28%) e, três anos depois, conseguiu a extraordinária proeza de o "tirar da lama" e chegar aos 31% numas eleições europeias”;
2. em vez de “contestar e apresentar uma alternativa à narrativa (falsa) de que foi o despesismo público, a insustentabilidade do Estado Social e a perda de competitividade (falta das famosas reformas estruturais) que nos trouxe até aqui” Seguro considera prioritária a reforma do sistema político e a regeneração ética da política como se fossem essas as grandes preocupações dos portugueses. Na sua perspetiva nos transportes, nos cafés ou nos locais de trabalho, os portugueses mostram-se mais preocupados quantos deputados irão eleger em breve e como o farão do que com os cortes ininterruptos, que vão conhecendo nos vencimentos e nos seus direitos sociais!
3. a razão para o populismo de Seguro é porque “não tem nada para dizer sobre a crise atual que seja significativamente diferente do que a direita já diz”. Sem estratégia resta a Seguro imitar Marinho Pinto ou dizer disparates como o  da promessa de demissão caso a carga fiscal aumentasse.
A exemplo do que sucedeu com o BES, que faliu no dia seguinte a mostrar-se mais descansado com o seu futuro depois de uma reunião com o governador do Banco de Portugal, Seguro lembra um rei Midas ao contrário: em tudo quanto toca é para estragar!
Por isso há razão para concordar com João Galamba: ele não está mau. Está péssimo!


O jogo viciado que devemos rejeitar

No seu artigo publicado hoje no «Expresso», João Galamba propõe que não se continue a aceitar o jogo viciado dos que têm imposto a estratégia assente na austeridade. E a mensagem tem um destinatário óbvio, que é António José Seguro, que ao longo destes três anos, por palavras e atos, tem aceite a narrativa da direita sobre a crise e a lógica austeritária ligada ao Tratado Orçamental de que quer ser fiel seguidor.
A austeridade falhou clamorosamente, conforme ele sintetiza lapidarmente no texto: “Os cortes na despesa pública (funções sociais do estado, salários e pensões, investimento) e aumento de impostos não permitem consolidar as finanças públicas e não garantem a sustentabilidade da dívida”.
Apesar do permanente bombardeio das “boas notícias” inseridas nos jornais económicos por conta dos marketeers do governo, não tivesse passos coelho contado com a complacência de Bruxelas para a revisão das metas orçamentais e não beneficiasse perversamente com as decisões do Tribunal Constitucional, e dificilmente conseguiria um guião coerente para ainda acreditar num sucesso eleitoral nas próximas legislativas.
É por isso que faz bem António Costa, quando começa logo por rejeitar a discussão da política orçamental nessa mesma lógica de austeridade, mesmo desconcertando as cabeças de alguns “comentadores”, que não conseguem pensar fora dessa formatação preconceituosa. “António Costa reconhece que os nossos problemas orçamentais são uma consequência da crise e nunca a sua causa” e por isso aposta na negociação de um plano de recuperação económica para relançar o investimento produtivo e criar empregos sustentáveis.
Algo difícil de entender por António José Seguro, já que quer ele, quer os seus “brilhantes” assessores não escapam à lógica dessa tal formatação, que ainda tantos danos causa à Europa dos 28, mas de que ela não tardará em livrar-se quando a sensatez de quem vê a teimosia esbarrar em sucessivos fracassos a forçar a reassumir as soluções neokeynesianas, que já tantos economistas consideram incontornáveis...
Embora ainda não pareça o tempo na Europa corre a favor da estratégia apresentada por António Costa!