Sétimo tema do alinhamento do espetáculo de domingo passado na Gulbenkian com a Mísia a interpretar um fado tradicional.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
POLÍTICA: Em Kiev os amanhãs tendem a desencantar
Não foi ainda a reação esperada, mas de Moscovo já vão sendo emitidos sinais eloquentes de aviso para o que se passa em Kiev.
Passados os jogos de Sochi, o Kremlin estará decerto a preparar a resposta ao golpe de estado, que expulsou Ianukovich da Presidência. Até porque, apesar do esforço dos media ocidentais em darem uma imagem positiva dos «revolucionários» da praça Maidan, a realidade acaba por ser muito menos cor-de-rosa. Basta pegarmos na reportagem ontem assinada por Paulo Moura no «Público» para constatarmos três exemplos de situações, que fazem prever muita confusão a curto prazo. Assim informa-nos o jornalista que:
· no processo de tomada de decisões há uma luta feroz entre os radicais de direita, que conduziram a revolução, e a oposição moderada, que muitos veem como oligarcas corruptos. E entre uns e outros segue-se o segundo round de uma luta pelo poder.
· o parlamento extinguiu o estatuto de língua oficial para o russo em regiões de população maioritariamente russófona. Se nas outras regiões do Leste o russo é falado pela maioria da população, na Crimeia é a língua mãe de mais de 90% dos habitantes. Um passo importante para a possibilidade de uma secessão com todas as condições para se revelar sangrenta. Tanto mais que em Kharkov, Donetsk e sobretudo na Crimeia, a população ameaça não reconhecer as novas autoridades.
· cada partido só quer libertar os presos da sua cor política. Aos outros, considera-os criminosos de delito comum.
Será bastante interessante vislumbrar como é que Angela Merkel, depois de ter encorajado o derrube de Ianukovich vai disponibilizar biliões de euros para socorrer a falida Ucrânia, quando os recusou aos parceiros europeus em dificuldades.
E, por seu lado, o FMI, se acaso vier a tornar-se parte ativa nesse apoio financeiro, que contrapartidas exigirá aos ucranianos?
Não é difícil conjeturar na inviabilidade dos amanhãs que cantem para quem os imaginou ao virar da esquina!
BANDA SONORA: "Amor de mel, amor de fel", Mísia com os L'Arpeggiata
Quinto tema do espetáculo dos L'Arpeggiata dedicado ao Mediterrâneo foi este fado de Carlos Gonçalves cantado pela Mísia, que suscitou vibrantes aplausos no Grande Auditório da Gulbenkian. Ouça-se, nomeadamente, o acompanhamento de Daron Sherwin no corneto...
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
POLÍTICA: Porque a ganância não se dilui, o mundo continua a girar!
Num fim-de-semana em que do Coliseu de Lisboa às ruas de Estarreja se andou a brincar ao Carnaval e em que prevaleceu a lógica do golpe de Estado na Ucrânia, não nos faz mal nenhum pormos os olhos no outro lado do mundo e verificar como anda por lá a luta de classes.
Em tempos os cambojanos suscitaram-nos solidariedade enquanto vítimas da agressão norte-americana na Indochina e, depois, devido à esquizofrenia de um bando de alucinados que quiseram criar uma utopia comunista com base no assassinato sistemático dos opositores. Hoje que quase todos os khmers vermelhos já morreram, poderíamos supor bem melhor o estado das coisas. Mas é ignorar que o país é liderado há vinte e oito anos pelo mesmo primeiro-ministro, Hun Sen, capaz de entretanto ter passado de comunista convicto a ultraliberal não menos fanático. Por isso o cenário político é caracterizado por expropriações no centro da capital em benefício dos especuladores imobiliários, marchas pacíficas de protesto violentamente reprimidas pela polícia e exploração intensiva das operárias das empresas têxteis.
A revolta destas últimas, reprimida a ferro e fogo no início do ano - com o registo oficial de cinco mortos às balas da polícia - só agravou uma situação já extremamente tensa. É que a luta pelo aumento dos salários não dá sinais de abrandar. O que leva muitos a tecer conjeturas sobre como evoluirão os acontecimentos, dada a divisão do país entre a elite corrupta próxima do poder e a maioria dos cambojanos, já exasperados com a ganância dos promotores imobiliários (que os expulsam das suas casas e terras) e dos donos das empresas, que exportam roupa para as grandes marcas europeias e pagam 3 dólares diários às suas operárias.
É por isso que o Camboja parece ter chegado a uma encruzilhada, de pouco valendo a Hun Sen a proibição de qualquer manifestação. É que os protestos, cada vez mais intensos, não desmobilizam sem a garantia de um salário mínimo mensal de 120 dólares...
Alguns milhares de quilómetros a nordeste, os esquecidos do milagre económico japonês do pós-guerra não se revelam menos infelizes. Depois de terem participado na construção do Japão moderno, os operários de Kamagasaki, nos arredores de Osaka há muito viram acabada a época do pleno emprego.
Se nos anos 80 a cidade era o maior centro de mão-de-obra operária do país, com dez mil empregos disponíveis todas as manhãs, agora quase não há quem consiga trabalho. As ruas transformaram-se num cenário de sombras em movimento: os sem abrigo. Hoje, Kama é uma face do Japão que ninguém quer ver...
Atravessando o Pacífico para o continente norte-americano encontramos uma nova corrida ao ouro nas terras do Yukon. E, porque o governo canadiano é extremamente facilitador de quem queira fazer prospeção de minerais no subsolo, não atende a quem possa ser proprietário das terras em causa - até os índios supostamente «protegidos» nas suas reservas! - autorizando concessões sem qualquer escrúpulo. Mesmo que as empresas mineiras em causa desfigurem a paisagem, poluam as terras, os rios e os lagos e depois declarem falência para não se responsabilizarem pela recuperação do ecossistema!
A luta entre os gananciosos garimpeiros de um lado e os índios e os ecologistas pelo outro, ganha proporções cada vez mais violentas.
Trata-se de mais um exemplo de como o capitalismo selvagem pode ser uma arma de destruição maciça…
POLÍTICA: Aquilo não foi propriamente um Congresso
Uma das piadas mais conhecidas de Juca Chaves era a que tinha a ver com o espantoso caso do riso das hienas. Perguntava-se o humorista brasileiro: a hiena é um animal que come fezes dos outros animais, só tem relações sexuais uma vez por ano e ri… mas ri de quê?
Das escassas vezes, que o Congresso do psd me apanhou pela televisão, antes do higiénico exercício do zapping, deu para perceber que o (ainda) primeiro-ministro andou muito divertido pelo Coliseu. Até chegar à gargalhada mais desbragada.
Mas, ao constatar tão obscena imagem, e ao pensar em quantos milhares de portugueses empobreceram violentamente nestes dois anos, quantos perderam o emprego ou tiveram de emigrar, era lícita a pergunta: passos coelho ria de quê?
Ainda assim, e por obrigação de conhecer o que acontece no campo ideológico contrário ao meu, fui ler o que se passou nesses três dias e o resumo não pode ser mais confrangedor para o que é a pobreza intelectual e cívica da direita, que somos obrigados a suportar.
Tivemos então:
· os heterónimos do PSD que fingem ser oposição - marcelo rebelo de sousa, marques mendes - foram todos situacionistas no dizer do insuspeito José Adelino Maltez
· o baldo de água fria no sábado quando os aplausos dos congressistas se refrearam subitamente, ao ouvirem passos coelho anunciar-lhes quem designara como número um do Conselho Nacional: miguel relvas.
· o líder da juventude psd, hugo soares, a coroar uma panóplia de insultos de outros compinchas seus ao líder da oposição, afirmando: “O pisca-pisca de António José Seguro faz dele a Rute Marlene da política portuguesa”.
· Como única novidade programática tivemos o anúncio de um grupo de trabalho para estudar o candente problema da natalidade, como se ela não decorresse das malfeitorias aplicadas pela coligação de direita aos casais em idade de pensarem em ter filhos.
Desvirtuando um célebre quadro de Magritte, poderemos considerar que, embora o tenha parecido, aquilo não foi propriamente um Congresso.
BANDA SONORA: "Tarantella Napoletana", L'Arpeggiata
O quarto tema no alinhamento do espectáculo de ontem na Gulbenkian foi esta Tarantella composta no século XVII por Athanasius Kircher. Pena não ter havido desta feita o enfoque nas castanholas, que aqui se sente no clip rodado dois anos atrás...
domingo, 23 de fevereiro de 2014
BANDA SONORA: «Pizzicarella Mia», L' Arpeggiata
Terceiro tema no concerto dos l' Arpeggiata nesta noite, o desta dança interpretada pela bailarina Anna Drego.
A versão aqui é a que vimos há uns anos no CCB. No concerto desta noite a cantora aqui presente foi substituída por Vincenzo Capezzuto.
A versão aqui é a que vimos há uns anos no CCB. No concerto desta noite a cantora aqui presente foi substituída por Vincenzo Capezzuto.
BANDA SONORA: «Sem Saber» por Mísia
Depois de «Are mou Rindineddha» interpretado por Vincenzo Capezutto, o concerto desta noite na Gulbenkian teve a Mísia a interpretar este tema com música de Carlos Paredes. Foi o início de uma atuação memorável muito saudada pelo público, que encheu o Grande Auditório.
BANDA SONORA: "Are mou Rindinedha", L'Arpeggiata
Foi com esta belíssima ária greco-salentina, que se iniciou o concerto desta noite dos l'Arpeggiata na Gulbenkian. A cantá-la esteve desta vez só o Vincenzo Capezzuto, já que a cantora que com ele aqui contracena não constava do programa. Mas a interpretação esteve tão superlativa quanto neste clip.
POLÍTICA: O fator multidão
Tese assaz curiosa a de alguns investigadores da universidade escocesa de Saint Andrews, que aproveitaram uma das maiores cerimónias religiosas de todo o mundo, o Maha Kumbh Melá, para validar a tese do efeito benéfico das multidões para o bem estar coletivo.
No ano passado, por esta altura, 70 milhões de peregrinos concentraram-se na confluência dos rios Ganges, Jumaná e Saraswati para aí passarem semanas a mergulharem nas águas, a fazerem as suas orações e a viverem o mais espartanamente, que lhes é possível. Segundo as suas crenças, poderão assim lavar os pecados e tocarem algo parecido com a receita da imortalidade.
E, no entanto, essas águas são imundas, com um teor de bactérias fecais, que tenderiam a fulminar o mais assético dos ocidentais dispostos a testemunhar aquela forma de expressão da religiosidade.
Como se explica, que quem pratica esses rituais se venha a sentir de melhor saúde e com maior resiliência a doenças nos meses seguintes.
Para Stephen Reicher, líder da equipa científica, que andou a estudar essa realidade, a pertença a uma multidão irmanada da mesma crença tem um efeito semelhante, mas mais poderoso do que os fármacos antidepressivos. Razão para que quem a integra se sinta animicamente estimulado senão mesmo revigorado.
Esse efeito benéfico das multidões já fora evidente na primeira edição do festival de Woodstock quando o número efetivo de espectadores superou em muito o previsto pela organização e as condições meteorológicas chegaram a ser bastante agrestes potenciando a hipótese de uma catástrofe já possível pela falta de alimentos ou de condições de higiene. E, no entanto, porque viviam a empatia dos mesmos valores hippies, nada disso chegou a suceder.
Mas a tese da equipa de St. Andrews também conhece uma outra vertente: tal qual conseguem suscitar um efeito positivo, as multidões também conseguem potenciar o seu reverso. E não necessitaríamos de comprová-lo através das que, em comícios, vitoriaram Hitler e outros ditadores ao longo da História e deles partiram para uma sanha persecutória contra vítimas indefesas.
Ainda em 2013, a estação de Allahabad, que é a mais próxima das festas do Maha Kumbh Melá, conheceu um incidente com peregrinos desejosos de regressar às suas terras e se puseram a competir por um lugar disponível num comboio. Resultado: trinta e seis mortos.
Donde se pode inferir que, quando se geram fatores de discórdia e de concorrência dentro de uma multidão, ela pode tornar-se numa caótica disputa de um contra todos . Com efeitos devastadores.
MÚSICA: Christina Pluhar & L'Arpeggiata
Hoje às 19 horas, no renovado Grande Auditório da Gulbenkian, teremos o privilégio de regressarmos à música do agrupamento liderado por Christina Pluhar. O tema é a música do Mediterrâneo e contará com Mísia como convidada.
Como aperitivo aqui fica um outro espectáculo dos Arpeggiata, em que o convidado foi Philippe Jaroussky.
Como aperitivo aqui fica um outro espectáculo dos Arpeggiata, em que o convidado foi Philippe Jaroussky.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
POLÍTICA: uivam as hienas em Kiev!
O que se está a passar na Ucrânia, por muito que a Casa Branca e Bruxelas tentem fazer crer o contrário, está longe de constituir uma revolução democrática. Houve muito povo a apoiar os golpistas, mas torna-se cada vez mais evidente o facto de nem sequer os líderes dos dois principais partidos da Oposição - que estabeleceram acordos com o Presidente Ianukovich - terem conseguido controlar a infiltração de extrema-direita responsável pelas sucessivas sabotagens lançadas às possibilidades de uma transição pacífica para algo de mais democrático.
O que triunfou em Kiev durante este fim-de-semana foi um golpe de Estado contra um Presidente e um Parlamento eleitos de acordo com as regras internacionalmente aceites como legítimas.
Tivesse a multidão do dia 15 de setembro de 2012 - que invadiu Lisboa para contestar a TSU do governo - invadido São Bento e obrigado passos coelho a fugir e não faltariam condenações internacionais contra uma clara violação das regras democráticas.
Agora, decerto que Barack Obama ou durão barroso não opinarão da mesma maneira sobre o sucedido na Ucrânia e que a liga ao período vergonhoso da sua História em que se aliou a Hitler para combater o Exército Vermelho soviético.
E, no entanto, já há estátuas de Lenine derrubadas, proibições ao Partido Comunista ou apelos de rabis a apelarem à fuga dos judeus para escaparem às fortes suspeitas de existirem progroms a caminho.
É claro que, nos próximos dias, Yulia Timoshenko tentará cavalgar o movimento, valendo-se da vitimização de ter estado presa nos últimos anos. E que os oligarcas, tão lestamente dissociados de Ianukovich como forma de preservarem as fortunas acumuladas com as golpadas perpetradas na sequência da independência e das privatizações das antigas empresas públicas, tudo farão para domarem as feras, que se soltaram nos últimos dias. Mas consegui-lo-ão?
Para nós que, à distância, somos observadores atentos do que se irá passar na outra ponta da Europa surgem expetativas quanto a um conjunto de questões a tornarem-se relevantes nos dias que se seguem:
(1) como reagirá a Ucrânia Oriental a este golpe de Estado, sabendo-se que se situam aí a maioria dos apoiantes do Partido de Ianukovich? Avançarão para uma secessão? E, caso isso ocorra, será de forma pacífica ou replicando o sucedido na antiga Jugoslávia?
(2) como reagirá a Rússia de Putin, sabendo-se quanto depende a Ucrânia do seu gás e combustível para se aquecer e fazer funcionar a sua indústria? E para que mercados alternativos poderão os ucranianos exportar os seus produtos industriais que eram até aqui encaminhados para a mesma Rússia?
(3) Na mesma lógica como é que a mesma Rússia poderá reagir ao perigo em que se encontra a base naval onde concentra a sua frota para o Mediterrâneo, dado ela se encontrar sedeada na Crimeia ucraniana?
(4) como reagirá a União Europeia depois de ter ajudado a atear o fogo e para quem os ucranianos se virarão a procurarem urgentemente os apoios financeiros, que a Rússia já suspendeu? Facilitará empréstimos a fundo perdido, que tem negado sistematicamente aos seus membros em dificuldades?
(5) como acabará o terrível confronto que se adivinha entre todas estas forças de oposição, que conjugaram forças para derrubar Ianukovich, mas com tantas contradições entre si, que se adivinhará algo parecido com um saco de gatos eriçados?
(6) E como reagirá o povo tão manipulado nestas semanas e depressa confrontado com a realidade de não poder contar com os paraísos sonhados já ao virar da esquina?
Para quem se interessa pela política, estamos perante um verdadeiro case study, com matéria suficiente para nos prender a atenção por muito tempo.
O que se pode temer é que - a exemplo do sucedido nos Balcãs e em toda a extensão da antiga União Soviética, depois do reboliço decorrente da queda do muro de Berlim - será presumível ainda estarmos no início de uma contagem de vítimas mortais, com tendência para se avolumarem nas próximas semanas.
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