quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

POLÍTICA: sobre a qualidade intelectual dos jovens laranjas

Ontem à noite acabei de ver a sempre excelente contribuição televisiva do prof. Augusto Santos Silva para nos habilitar a uma melhor interpretação do tempo que passa, e preparava-me para desligar o aparelho, quando surgiu a proposta de um debate com os deputados Isabel Moreira e hugo soares sobre a posição de cavaco silva a respeito do referendo sobre a co adoção.
Porque tinha mais que fazer senti-me tentado a manter o primeiro impulso, mas a consideração pela deputada em causa justificou a inflexão. Até porque seria uma oportunidade para comprovar a dimensão da mentecaptice  do seu oponente.
Não fiquei desiludido. O jovem laranja conseguiu até ultrapassar as expectativas com a tese de tudo, em democracia, ser referendável. Dando razão à Joana Manuel que, hoje no facebook, anunciava a possibilidade de um referendo para saber se tal espécime poderá continuara  respirar.
Eu sei que é pedir muito, mas será que não se pode lançar um plano nacional, tipo Novas Oportunidades, para pôr as juventudes partidárias da direita a dotar-se de maior cultura e, sobretudo, de uma ampliação do leque de valores humanísticos, de que se revelam gritantemente carecidos?
É certo que eles ganharam por matriz o troca-tintismo do relvas, que quis ganhar títulos académicos sem sequer ter tempo para espreitar as praxes da sua tão querida Lusófona. Ou um recém-colaborador da Goldman Sachs cujo brilhantismo intelectual levava os colegas da escola a apelidarem-no de «Asnô» em vez do seu verdadeiro apelido. Mas, convenhamos, que para o pessoal político, que nos irá governar, justifica-se uma bitola qualitativa bem mais elevada. Por exemplo a demonstrada pelos mais jovens deputados socialistas (Galamba, Pedro Nuno Soares, Pedro Delgado Alves, Isabel Moreira, entre outros) que demonstram ser a inépcia mental um atributo apenas reservado às bancadas à sua direita...


BANDA SONORA: Pete Seeger: «Guantanamera»

Ainda eu era um miúdo - nos distantes anos 60 - quando ouvi pela primeira vez este tema de Pete Seeger. Embora só lá para o fim da década tenha percebido que a canção era mais do que um desses temas latinos então muito em voga. Que as palavras tinham ali significado muito para além do que as outras costumavam apresentar.
Na morte do cantor, que sempre admirei pela sua determinação e coerência, eis um bom início de homenagem neste blogue que o tem amiúde recordado... 

FILMES EM 31 PARTES: «Daredevils of the Red Circle» de William Witney e John English (1939)

Quando, há quase quarenta anos, iniciei a vida de oficial da Marinha Mercante, encontrei gente excecional então à beira de meter os papéis para a reforma.
Das longas viagens entre a Europa e o golfo Pérsico, pela rota do Cabo recordo as conversas a fio com esses homens, que carregavam consigo as memórias riquíssimas de experiências de vida. Um deles era um enfermeiro chamado Duarte Ferreira, que tinha uma cultura geral acima da média e era um entusiástico leitor da «História Universal» de H.G. Welles.
Foi por ele que ouvi, pela primeira vez falar dos «filmes em trinta e uma partes», que tinham animado a sua juventude  entre os anos 30 e os anos 50.
Na Lisboa de então ganhara a rotina de ir ao sábado ver o episódio do filme, que estava a acompanhar com  grande entusiasmo e interrompido em momento particularmente palpitante na semana anterior. Na escola ou no local de trabalho, ele e os amigos punham-se a conjeturar como é que o «Mascarilha» ou o «Mandrake» se tinham libertado dos apertos em que haviam ficado.
Curiosamente ao googlar em busca dessa expressão são raríssimas as referências a ela: os brasileiros falam de “seriados”, os franceses ou os ingleses de “serials”.
Vale a pena, ainda assim, regressar momentaneamente a esse tempo de grande ingenuidade, quando histórias maniqueístas eram seguidas com o mesmo entusiasmo, muitos anos depois suscitado pela televisão, quando séries desde «O Fugitivo» dos anos sessenta à atual «Guerra dos Tronos» mais não fazem do que reproduzir a  mesma lógica de prender a atenção do espectador, fidelizando-o e tornando-o dependente da continuidade da história.
Nesse distante passado o mundo parecia tão simples! Era a época em que os três diabos vermelhos (“Daredevils”) perseguiam um patife, que fugira da prisão e prometia destruir todas as fábricas do milionário Granville.
Tim Tyler avançava na savana africana à procura do pai desaparecido no País dos Gorilas, quando estava à procura do mítico cemitério dos Elefantes.
Flash Gordon combatia o Imperador Ming, que usurpara o trono do planeta Mongo.
O Oeste era teatro de numerosas lutas com Tom Mix montado no seu fiel Tony em busca do tenebroso Zaroff, que pretendia apossar-se do explosivo X-94 existente no subsolo de uma reserva índia. Ou o Mascarilha e o seu inseparável Tonto ajudavam os Justiceiros do Faroeste a vencerem o melífluo Jeffries e os seus acólitos.
Zorro reaparecia como herói solitário para enfrentar El Lobo e o seu bando, que a soldo do banqueiro Marsden, queria apossar-se das ações da companhia ferroviária Califórnia-Iucatão… ou a desmascarar o inquietante Don Del Oro, o Ídolo do Ouro Iaqui ressuscitado para incentivar as tribos índias à conquista do México.
Mas já surgia a ameaça amarela: Sir Nayland Smith lançava-se na pista di diabólico doutor Fu Manchu, em busca do cetro de Gengiscão, que lhe permitiria lançar a rebelião asiática contra o poder dos brancos.
Na América Rex e os seus polícias combatiam Haruchi, o homem com o cérebro mais maldoso de todo o Japão, chegado do país do sol nascente para organizar um conjunto de sabotagens como jamais se conhecera em terras do tio Sam.
Para começar esta evocação dos filmes em trinta e uma partes teremos «Daredevils of the Red Circle» realizado em 1939 e … com apenas doze partes! Atenção especial a Charles Middleton no papel do vilão, já que nenhum outro ator se lhe comparou no número de vezes e na convicção com que assumia a personagem mais odiosa...































POLÍTICA: quando se faz inimigo quem de nós deveria estar mais próximo!

O espetáculo oferecido pelas organizações políticas à esquerda do Partido Socialista não tem sido bonito de se ver para quem anseia ver este hemisfério ideológico mostrar o mesmo pragmatismo e capacidade de entendimento, que o contrário.
Infelizmente para os portugueses a soma dos seus votos pende, quase invariavelmente para o esquerda, mas quem os tem (des)governado em períodos críticos da nossa democracia tem sido a direita, sempre apostada em destruir o mais possível tudo quanto de melhor nos trouxera a Revolução de Abril.
No rescaldo das autárquicas, o Partido Comunista demonstrou recentemente quanto se sente bem mais confortável a coligar-se com o PSD do que com os partidos  ideologicamente de si mais aparentados.
Depois tivemos Rui Tavares, a protagonizar um projeto estritamente pessoal, que deu início a uma dinâmica de segmentação do ainda incipiente eleitorado do Bloco de Esquerda. Junta-se-lhe agora à festa o movimento 3D, que pretende comprovar o sectarismo crescente do partido liderado por João Semedo e Catarina Martins.
Há, assim, uma extrema-esquerda igual a si mesma:  a distrair-se dos que deveriam ser os verdadeiros inimigos para se concentrar na diabolização dos seus ainda recentes parceiros.
Possa ter o Partido Socialista uma direção capaz de criar uma estratégia eficaz para alargar a sua influência mais à esquerda e a maioria absoluta será exequível nas próximas legislativas...


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

POLÍTICA: isto, de facto, anda tudo ligado!

A polémica em torno das praxes arrisca-se a distrair-nos de questões mais importantes como o são os cortes na Educação Pública e na investigação científica. Tanto mais que os principais interessados, os próprios praxadores e praxados constituem os principais adversários de uma conduta civilizada, que se esperaria de quem chegou ao estatuto de universitário.
Mas, independentemente de nuno crato andar a pretender aceder a uma imagem de “respeitabilidade”, que aligeire a sua presente imagem de coveiro dos setores, que tutela - demonstrando o seu interesse por um tema que se tornou mediático - não podemos refrear a associação do ritual da praxe a práticas fascistas, que só podem ser combatidas mediante a sua intensa censura pública. A prazo é necessário que haja cada vez maior número de estudantes a recusarem submeter-se a esses rituais, reduzindo os seus cultores a uma minoria cada vez mais grupuscular.
É que até um confesso defensor dos ideais da direita ideológica (joão miguel tavares) conclui o seu artigo de hoje no “Público” com uma evidência cada vez mais expandida no nosso tecido social por força da tragédia do Meco: “A irresponsabilidade do universitário que aprecia a praxe tem muitos anos e uma razão de ser: a perpetuação de um espírito de casta. Essa espécie de gente começa a praticar a humilhação ao próximo na universidade para depois poder continuar a praticá-la nas Goldman Sachs desta vida, onde a lei do mais forte invariavelmente impera, e é preciso aprender a baixar a cabeça para os que estão em cima e a pisar o pescoço dos que estão  em baixo. Porque isto, de facto, anda tudo ligado. Como é da tradição.”


DOCUMENTÁRIO: «Os Segredos da Espada Viking» de Peter Yost (2011)

No seu tempo os vikings foram temidos pela violência com que atacavam portos ribeirinhos e os saqueavam sem olharem a quem matavam ou estropiavam.
Alguns desses guerreiros vinham armados com uma espada temível, a Ulfberht, que possuía uma flexibilidade e uma dureza inigualáveis. Enquanto muitas das armas de então se mostravam falíveis, quebrando-se com facilidade, essas lâminas possuíam uma tal homogeneidade na mistura de ferro e de carvão, que suscitaram o debate sobre os métodos de metalurgia utilizados por essa civilização nórdica.
O documentário de Peter Yost realizado para a National Geographic mostra como um especialista em armas medievais irá vencer o desafio de chegar a uma espada idêntica recorrendo tão só aos conhecimentos e materiais disponíveis há mil anos. No entretanto são ouvidos diversos historiadores, que explicam muitas das práticas civilizacionais de então, dando sentido às reconstituições com atores e figurantes.
Concluir-se-á que o facto de só ter existido durante um curto período histórico - precisamente aquele em que terá funcionado a rota marítima pelo rio Volga, que levava os vikings até aos planaltos persas - demonstra a dependência do fabrico dessas armas dos materiais então importados do Médio Oriente.
Uma Revolução tecnológica e militar não foi consolidada por uma questão elementar de logística de transporte.





BANDA SONORA: Mísia e Melech Mechaya com o "Cha Cha Cha em Lisboa"

HISTÓRIA: As reminiscências da Grande Guerra

Nos últimos anos de vida, o meu avô João fez-me confidente privilegiado das suas vicissitudes Flandres, quando integrara o Corpo Expedicionário Português aos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.
Curiosamente - a cinquenta anos de distância! - o que mais me fica dessa reminiscência é o seu ódio profundo aos ingleses a quem culpava de terem abandonado os portugueses à sua sorte na batalha de La Lys.
A emoção ainda o tomava quando verbalizava o egoísmo desses «Aliados», que tinham pensado em si mesmos sem acudirem a quem, ali quase a seu lado, se vira subitamente transformado em fácil alvo dos atiradores alemães.
Entender-se-á por isso o seu envergonhado pendor germanófilo, quando a Segunda Guerra deflagrou, o que constituíra um paradoxo para quem ajudara os amotinados da revolta dos marinheiros de 1936 a esconderem-se na sua adega, quando alguns tinham nadado em busca de refúgio nas quintas da margem sul. Alguns desses oposicionistas ao regime ainda os conheci brevemente na época em que as vindimas acabavam e o meu avô mandava matar o porco, que engordara durante um ano para servir de repasto a tal ocasião.
Na soturnidade da adega, entre o bacalhau e as febras abundavam as histórias quer de quem com ele andara pelos campos belgas, quer dos que ali tinham encontrado o momentâneo porto de abrigo das fúrias da PVDE.
Mas a ambiguidade com que se situava ora à esquerda, ora à direita das situações políticas, onde era sobretudo observador, também o levara a lamentar a morte de Sidónio Pais por nele reconhecer o político, que estivera contra a arregimentação dos jovens portugueses do seu tempo para servirem de carne para canhão na guerra das trincheiras.
Nunca apurei se o estado de espírito com que, a posteriori, via a sua dificultosa incorporação no exército seria a mesma com que partira. Porque, como defende a historiadora bósnia Husnija Kamberovic, “as populações beligerantes não foram apenas vítimas da guerra. Foram também agentes da sua própria vitimização. Ao consentirem lutar, gastar dinheiro para suportar o esforço de guerra, permitiram que o conflito durasse tanto quanto durou. É fundamental que compreendamos por que consideraram esta guerra defensiva, necessária, com significado existencial.”
Não me custa acreditar que, ao partir de Lisboa, o meu avô João estivesse entusiasmado com a participação numa aventura para que o impeliam os seus vinte anos, com promessas de ver outras terras e outras gentes, e até acreditasse na importância de, assim, defender as colónias então seriamente ameaçadas pelo Império Alemão. Esses argumentos terão bastado para convencer os que a República recrutou para ganhar o direito ao quinhão dos vencedores, quando o silêncio se instalasse definitivamente nos campos de batalha.
Não esqueçamos que as principais potências europeias desse tempo tinham dado por adquirido, que dividiriam entre si as ricas colónias portuguesas.
Para o meu avô e para os que com ele conseguiram regressar vivos a mudança de opinião relativamente a Afonso Costa e aos demais líderes republicanos terá decorrido do tremendo morticínio registado na forma de imagens concretas e cheiros nauseabundos.
Neste ano do centenário do início dessa Guerra iremos ler e ouvir muitas histórias sobre o sucedido. Mas, para se ter a noção da dimensão efetiva desse acontecimento histórico basta pensar em duas estatísticas eloquentes:
· nos cinco dias que durou a batalha no rio Marne morreram mais de cento e cinquenta mil franceses e alemães. O triplo de quantos norte-americanos morreram nos  dez anos em que estiveram no Vietbname;
· foram mais numerosos os portugueses, que perderam a vida em luta contra os alemães nas colónias africanas do que os que, no mesmo período, morreram nos palcos europeus da Grande Guerra.
A realidade traduzida por estes dois indicadores mostra como ainda temos tanto a conhecer sobre um período, que marcou significativamente o mundo em que vivemos.