quinta-feira, 4 de abril de 2013

SÉRIE TV: «Real Humans» de Harald Hamrell


É um mundo onde os robôs humanoides - os hubots - ajudam os humanos nas suas tarefas domésticas. São comprados, utilizados, arrumados. Mas alguns personagens da série entram em comunicação mais íntima chegando às relações amorosas e à utilização daqueles híbridos como objetos sexuais. O que significa a progressiva perturbação dos frágeis equilíbrios da sociedade humana. Depressa começa a haver a noção de quanto esses hubots podem ajudar, mas também destruir as vidas dos seus proprietários. Razão para surgirem grupos que os rejeitam, os odeiam, os querem eliminar.
A ideia principal do autor da série, o sueco Lars Lundstrom, é a de que a humanidade ao inventar algo, nunca poderá fazer marcha atrás. Resta-lhe adaptar-se à mudança, assumindo as suas responsabilidades.
«Real Humans» fala da nossa humanidade em concreto e é por isso que os androides têm uma aparência tão humana. Para poder falar de racismo: a maneira como alguns dos personagens da série se comportam com os hubots é muito semelhante à que muitos dos nossos concidadãos revelam perante os imigrantes ou os ciganos.
No primeiro episódio estamos numa Suécia quase perfeita em que uma nova geração de robots tende a responder a todas as necessidades da sociedade: assistência às pessoas idosas, tarefas domésticas, etc.
Servis, esses empregados modelo nunca dormem. Mas a sua estranha presença suscita emoções contraditórias nos humanos. Do agrado de uns, de hostilidade crescente noutros, a fronteira entre seres vivos e robôs começa a esbater-se, quando o amor se mistura, ao mesmo tempo que estes últimos começam a almejar por uma maior independência.
A rebelião já começou, encetada por um grupo clandestino, os «filhos de David»...

LIVRO: «Fear itself: the New Deal and the origins of our time» de Ira Katzenelson


Uma das conceções mais relacionadas com a política do New Deal de Franklin Roosevelt - que se tornou no 32º presidente dos EUA em Março de 1933 - sempre foi o seu carácter progressista, devendo-se às preocupações sociais do novo líder a resolução de muitos dos dramas humanos causados pela Grande Depressão de 1929.
O recente livro de Ira Katznelson vem relativizar esse lugar comum, ao lembrar o ambiente de medo instalado aquando dessa tomada de posse, já que aos efeitos da crise económica somavam-se os medos quanto ao fascismo, ao comunismo, à rebeldia iminente dos negros americanos, à bomba nuclear (de cuja exequibilidade se começava a falar!) ou do secreto inimigo interno.
Assim se explica que, para levar por diante o seu programa, Roosevelt contasse como aliados os democratas sulistas profundamente racistas, e andasse de namoro com o regime de Mussolini. A tal ponto que, quando o aviador italiano Italo Balbo atravessa o Atlântico, é recebido com todas as honras na Casa Branca e são-lhe organizadas apoteóticas receções em Nova Iorque e noutras cidades norte-americanas.
Mais uma confirmação de como não nos deveremos nunca precipitar a ver a História a preto e branco.

LIVRO: «Fractured Times: Culture and Society in the 20th Century» de Eric Hobsbawm


A minha devoção a Eric Hobsbawm foi sempre tanta que quando se tratou de criar o meu primeiro blogue dei-lhe como nome o título da sua autobiografia: “Tempos Interessantes”. É que o historiador marxista inglês, durante muitos anos pertencente ao Partido Comunista britânico, justifica plenamente a opinião do seu homólogo norte-americano David Landes, quando este dizia sair-se de um dos seus livros como se tivéssemos acabado uma partida de squash: exaustos, mas revigorados.
«The Age of Revolution», «The Age of Extremes e outros títulos por si assinados são sempre entusiasmantes não só pela riqueza da erudição neles contida, mas, sobretudo, pela forma como nos transmitiu os resultados do porfiado estudo da Europa desde a Revolução Francesa de 1789 até à queda do Muro de Berlim dois séculos depois. São dele conceitos que depois se generalizaram: a “revolução dupla” (em que juntou a Francesa com a Industrial enquanto eventos fundadores dos tempos modernos), a “invenção da tradição”, “os rebeldes primitivos”, o “banditismo social”, o “longo século XIX” (porque o considerava entre 1789 e 1914) e o “curto século XX” (porque durara apenas entre 1914 e 1989).
Outras teses muito suas , que surgem no livro póstumo de ensaios acabado de publicar em Inglaterra: “as culturas não se limitam a ser supermercados aonde nos possamos ir abastecer de acordo com os nossos gostos pessoais” ou “a democratização das políticas tornou o poder num espetáculo teatral”.
Um dos aspetos curiosos a constatar nestes textos acabados de divulgar é a transição do otimismo típico de um arreigado marxista para um pessimismo cada vez mais interiorizado, nomeadamente quando julga a música clássica, e as artes em geral, condenadas pelos mecanismos das forças do mercado e o quanto isso poderá traduzir numa espécie de desintegração da experiência cultural. O que nos poderá levar a crer, que o autor terá passado de um extremo para outro, igualmente desproporcionado.
Como sempre em Hobsbawm, a leitura agora prometida parecer-nos-á decerto estimulante e motivadora de reflexões consistentes quanto à interpretação dos tempos interessantes, em que vivemos.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

BANDA SONORA: «Four Serious Songs» de Joahnnes Brahms por Kathleen Ferrier


Há precisamente 116 anos Johannes Brahms morreu de cancro, meses depois de assistir ao funeral de Clara Schuman por quem estivera deveras apaixonado. 
Foi para ela, em jeito de homenagem, que criou as Quatro Canções Sérias, das quais fica aqui reproduzida a terceira pela interpretação da soberba Kathleen Ferrier, também ela uma soprano precocemente desaparecida depois de vitimada pela mesma terrível doença.



POLÍTICA: Passada a moção de censura, sair ou não sair do euro?


Face ao desastre em que o país vai sendo mergulhado por este (des)governo acabado de sair aparentemente incólume de uma moção de censura, justifica-se a questão de se saber das vantagens ou dos inconvenientes de se sair do euro enquanto solução para sair da crise.
Para alguns economistas, mormente para João Ferreira do Amaral, já há muito deveríamos ter recuperado a nossa plena soberania nessa matéria como forma de, a exemplo da Islândia antes ,ou do Japão atualmente, conseguirmos uma desvalorização suficiente da moeda para tornar atrativas as nossas potenciais exportações.
Para outros a questão tem outra resposta e, nesse aspeto, o artigo publicado por Pedro Nuno Santos no jornal «i» revela-se bastante elucidativo e vai ao encontro daqueles que pensam na inocuidade da outra alternativa já que o tecido económico nacional foi totalmente destruído pela estratégia de passos coelho e de vítor gaspar nestes dois anos para que a capacidade de multiplicação das exportações pudesse crescer com a tendência exponencial, que se revelaria essencial.  Mas atenhamo-nos no texto em causa:
O argumento mais forte que é invocado pelos defensores do abandono do euro é o de que possibilitaria a desvalorização da nossa moeda. Essa desvalorização tornaria os nossos produtos mais baratos no exterior e daí decorreria um forte incentivo para aumentarmos as nossas exportações.
Isto seria verdade se tudo o resto se mantivesse constante. No entanto, a economia não funciona como um sistema fechado. Se é verdade que a desvalorização da moeda tornaria os nossos produtos mais baratos no exterior, também é verdade que tornaria os produtos importados mais caros cá dentro.
Pensemos, por exemplo, no preço dos combustíveis. Numa economia em que os sectores exportadores incorporam um elevado nível de importações, o efeito final no preço do bem exportado seria muito menor do que o que muitos esperariam. Mesmo que alguns desses produtos importados viessem a prazo a ser substituídos por produção nacional, o efeito nos custos da indústria exportadora seria igualmente negativo.
Mas esta não é a única variável que teríamos de acrescentar à nossa análise. A desvalorização da nossa moeda para ter o efeito desejado implicaria que os nossos parceiros comerciais não fizessem o mesmo.
Mas como pode passar pela cabeça de alguém que os únicos a sair do euro e a desvalorizar seríamos nós? O risco de um desmantelamento da zona euro conduzir a uma guerra cambial e ao aprofundamento da guerra comercial já em curso anularia qualquer potencial ganho com a saída do euro. Ficaríamos, assim, reduzidos às duras consequências negativas.’
Parece óbvia a convicção de que o crescimento tão urgente da economia nacional terá de começar pelo do consumo interno e por isso se mostra fundamental o aumento do salário mínimo, a redução do IVA na restauração e outras medidas de apoio à contratação de desempregados, que voltasse a aumentar as contribuições fiscais e para a Segurança Social. Sem esquecer a continuidade na aposta nas energias renováveis, que nestes últimos dias têm alimentado eletricamente o país sem necessidade dos dispendiosos e importados recursos fósseis.
Como dizia Francisco Assis esta tarde na Assembleia, as soluções passam decerto pela política europeia. Mas o papel de um Governo não é o de ficar à espera, que ela  mude no sentido do interesse dos seus cidadãos. Alguém terá de se bater por essa mudança e daí a razão porque a aparente vitória do psd e do cds contra a moção de censura tem o valor da de Pirro. Sem soluções esses partidos só tenderão a  desmascarar-se cada vez mais enquanto integrantes de um governo da confiança da senhora merckel.
Os portugueses esperam dos seus governantes outra condição: a de serem aqueles em quem confiam com a certeza de estarem a pugnar pelos seus direitos e interesses...


POLÍTICA: A terceira fase das Revoluções Árabes


Nunca fui um entusiasta das Primaveras Árabes nem da «libertação» do Iraque pelas tropas de George W. Bush. Muito embora não pretenda considerar que existam povos mais ou menos preparados para a democracia - longe vá o agoiro, que essa era a tese dos marcelistas para não lhe facilitarem o advento! - existem situações em que vale bem a pena considerar os prós e os contras antes de levar por diante uma estratégia militar.
Hoje é fácil constatar terem morrido milhares de iraquianos que, mesmo oprimidos por Saddam Hussein, estariam vivos e com uma qualidade de vida relativamente aceitável, assim como a generalidade das mulheres tunisinas, egípcias ou  líbias perderam muitos dos direitos, que possuíam nos tempos respetivamente de Ben Ali, Moubarak ou Kadhafi.
Vem isto a propósito de um livro de Gilles Kepel, há pouco publicado em França no qual o autor aproveita o ensejo de uma viagem por diversos países árabes entre 2011 e 2013 para analisar mais aprofundadamente essa tumultuosa mutação neles ocorrida durante esse período.
«Passion Arabe», surgido na Gallimard, defende a necessidade de nem lançar foguetes por causa dessas supostas revoluções libertadoras, nem nos intimidarmos com a ascensão salafista. O autor explica isso mesmo numa interessante entrevista com Sara Daniel para o «Nouvel Observateur»:
Marc Bloch dizia que a História, a exemplo do ogre da fábula, tem fome de carne humana. E este livro é feito de carne. Com essa imensa perturbação, que se verificava no mundo árabe, pareceu-me imperativo mergulhar no coração da sua ressaca como forma de questionar as minhas certezas. Ainda é demasiado cedo para retirar conclusões sobre tais revoluções que, se revelam, no mínimo, contraditórias.
Alguns historiadores mais apressados começaram por celebrá-las como o advento de uma democracia insuflada pela geração do Twitter e do Facebook, para desesperarem depois com a sua apropriação pelo salafismo jihadista.
Em ambos os casos assumem-se conceitos grosseiros em vez de se ir investigar a realidade ao terreno concreto. Ora, para a compreendermos deveremos conhecer as contradições dessas sociedades em vias de se modernizarem, que vivem ao ritmo das televisões transmitidas por satélites como a Al-Jazeera e recebem petrodólares do Golfo, essa influência satânica, que destrói as sociedades árabes e tenta desviar as aspirações originais dessas revoluções.
Depois de uma longa explicação do que sucede em cada um dos casos particulares por onde viajou (Tunísia, Iémen, Qatar, Egipto, Bahrein e Líbia), Kepel conclui: parece-me que a dialética das revoluções foi a seguinte:
Primeiro movimento: queda das ditaduras e dinâmica democrática.
Segundo movimento: a tomada do poder pelos islamistas facilitada pelo apoio financeiro das petromonarquias e calvário da Síria.
Pressinto que chegamos a um terceiro movimento com o regresso à tomada do poder pelas sociedades civis, sobretudo no Egipto e na Tunísia, para contrariar a influência salafista.
A crítica dos islamistas, as cisões dentro dos Irmãos Muçulmanos, a queda abrupta da sua popularidade.
Daí as manifestações em Port Said contra o regime autocrático de Morsi, o «Harlem Shake» com a dança viral na net para satirizar os barbudos.
As revoluções árabes ainda não chegaram ao seu fim e é por isso que convirá estarmos atentos a elas.

BANDA SONORA: "Via Crucis, Maria" - Barbara Furtuna & L'Arpeggiata

Uma das grandes aberturas de temporada nos saudosos tempos do António Mega Ferreira foi com este grupo L'Arpeggiata da Cristina Pluhar. Desde então sempre que me surge pela frente nunca deixo de ouvir as propostas dele provenientes.

terça-feira, 2 de abril de 2013

LEITURAS: Aquilino Ribeiro, «Um Escritor Confessa-se» (2)

Nos primeiros anos do século XX Aquilino era um adolescente a quem os pais pressionavam para que viesse a ser padre. Pouco convencido, mas ciente dos efeitos de lhe ter sido cortada a habitual mesada, ele lá se dispõe a preparar-se para a imprescindível cadeira de Filosofia, sem a qual tal objetivo seria inviável. Vai então para Viseu para receber explicações de professor, que da matéria parece saber tanto quanto ele e hospeda-se na casa de uma senhora já madura, mas conhecida pelas liberalidades com inquilinos em tempos idos.
Desta feita em vez de colher as doces atenções tão elogiadas pelo amigo que lhe recomendara a casa, Aquilino vê-se obrigado a dela escapulir-se, quando deu duas estaladas no filho da megera, que o pisara de propósito. Como o rapaz já era padre, começa aqui um contencioso de Aquilino com os profissionais da vocação, que se prepara para renegar.
Mas da cidade beirã fica um retrato simpático, elucidativo quanto à sua quietude:
Viseu era uma cidade um pouco menos dormente que Lamego, mas airosa e desenxovalhada. A população foi sempre afável por temperamento e prazenteira. E continua a sê-lo. De modo geral, não há ali ninguém que responda a um recado ou deprecada com duas pedras na mão ou de cenho franzido. Vê-se que um otimismo salutar é de regra na sua vida das relações. Porventura os problemas que se pousam á família portuguesa oprimem ali as pessoas e obrigam-nas a iguais inquietudes e sobressaltos. Mas o transe decorre entre as quatro paredes na azenha interior ou familiar. (pg. 43, Livraria Bertrand, 1974)

DOCUMENTÁRIO: «Os Mestres do Aço: Duelo no Ruhr» de Birgit Tanner e Mira Thiel


A invenção do aço suscitou uma verdadeira revolução industrial e social. Alfred Krupp, que irá criar a sua dinastia, encontrará um rival determinado na pessoa de Jacob Mayer até conseguir liderar a indústria siderúrgica alemã.
1812. Na Alemanha a economia baseia-se em pequenas empresas artesanais, já que a Revolução Industrial ainda é ditada pelos ingleses com a sua imponente marinha de comércio a vapor.
Jacob Mayer, filho de camponeses, interessa-se pelo aço já então muito utilizado pelos ingleses em forjas cada vez mais aperfeiçoadas e capazes de criarem produtos  para um leque mais diversificado de aplicação. Observando o tio nas experiências com esse material, ele entusiasma-se com a ideia de conseguir a aceleração desse processo de melhoria do novo material. Sem saber que um compatriota, Alfred Krupp, assume a liderança da empresa do pai acabado de morrer e também decidido a enveredar pelo mesmo percurso de investigação.
Um e outro não se conhecem ainda, mas não tardarão a protagonizar uma rivalidade brutal em que os escrúpulos são frequentemente postos de lado. Porque ambos sabem como do sucesso e monopolização das patentes correspondentes às ligas cada vez mais resistentes, que buscam, depende o acesso a meios de fortuna cada vez mais volumosos.
Em Bochum, Jacob Mayer procura criar uma cuba em argila aonde possa fundir os materiais necessários á produção do aço pretendido, e é da mistura dessa mesma argila com o ferro, que consegue criar um novo tipo de material.
Por seu lado, em Essen, Krupp acelera a produção das fábricas herdadas do pai, correspondendo à procura acelerada de objetos metálicos pelo mercado alemão. Ele queria ser o maior produtor de aço do mundo e a estratégia política da Prússia em investir em canhões capazes de se tornarem determinantes nas guerras, que se avizinham no horizonte, vem em boa altura para que esse desejo se cumpra. Mas Mayer, com menos meios disponíveis, também se intromete no negócio e aposta em conseguir canhões mais baratos do que os rivais.
O seu aço muito resistente é o argumento para que o Ministério da Defesa lhe entregue a encomenda. E o método - material em fusão escorrido para um molde - é tão singular, que Krupp tenta convencer os responsáveis pela encomenda da sua charlatanice. Krupp acaba por ser bem sucedido conseguindo o contrato ao conseguir que os canhões em causa sejam em aço forjado em vez de aço fundido.
Vencido, Meyer desiste da corrida e casa com a mulher por quem se apaixonara e que o viria a fazer extremamente feliz. Na sua fábrica passa a criar sinos para igrejas, buscando sempre a inovação. Como sempre era um empreendedor seduzido pelo risco.
Mas Krupp faz tudo para convencer os investidores de que, ao apostarem no novo projeto de Mayer, irão deitar dinheiro pela janela. Mas, desta vez, os seus argumentos não bastam para que o dinheiro falte a Mayer para levar até ao fim a sua nova ideia. A especialização, que então é conseguida está na origem de uma siderurgia alemã hoje conhecida pelo aço de altíssima qualidade utilizado em turbinas e outros equipamentos aonde não se adequam os aços produzidos de forma mais industrial.
Os sinos de Jacob Mayer fazem enorme sucesso na Exposição Universal de Paris de 1855, mas suscitam a inveja despeitada de Krupp, que vê a Medalha de Ouro de Napoleão III ser-lhe atribuída.

DOCUMENTÁRIO: «Les mamas de Bahamas» de Joanna Michna


Cat Island nada tem a ver com o glamour de Nassau, a capital das Bahamas, que transmite do arquipélago uma imagem idílica e falsa das Caraíbas. O desemprego é uma realidade e a população reduz-se, sobretudo na sua componente masculina, por falta de perspetivas. Os poucos homens, que ficam, cedem à prostração, ao álcool e à sedução das raparigas que, frequentemente cedem com demasiadas ilusões aos seus propósitos e se vêem grávidas ainda adolescentes. E a somar a toda esta situação social de catástrofe somam-se os estragos acumulados pelos sucessivos furacões, que passam anualmente pela zona.
Os tempos áureos de Cat Island ocorreram no século XVIII, quando aí existiam quarenta plantações de algodão, cuja rentabilidade se explicava pelo recurso ao trabalho escravo. Ora, quando a escravatura se tornou ilegal, estavam criadas as condições para a decadência inexorável. Até porque o governo central subsidia o turismo sustentável noutras ilhas e esquece esta que conta, no entanto, com idênticas, senão melhores, condições para esse tipo de projeto.
As mulheres da ilha encontram paliativo na religião. A Igreja Batista dá a ilusão de uma fuga ás dificuldades do dia-a-dia até pela oportunidade de cantarem e dançarem ao som da música gospel. O pastor é o primeiro a reconhecer a falta de sentido de responsabilidade dos homens da ilha, que não trabalham e caem frequentemente na delinquência. O resultado é muitas mães a cuidarem sozinhas dos seus filhos, com recursos financeiros mais do que precários.
Daisy May, uma das mais inconformadas habitantes de Cat Island, vai à ilha vizinha de Long Island para perceber como, em condições semelhantes de decadência, foi possível virar a tendência e recuperar a esperança de dias melhores. Para isso vai visitar o lago aonde mergulhadores de todo o mundo vêm treinar o mergulho em apneia e a grande profundidade. Quando regressa a casa ela sabe que deve pensar num tipo de produto capaz de atrair à ilha nichos de turistas, que ali criem emprego sob a forma de estruturas hoteleiras e de apoio a essas atividades.

POLÍTICA: Dois conceitos de patriotismo


Confesso que nunca me senti particularmente nacionalista. O que significa, que não aprecio particularmente a nossa bandeira recheada de simbologias do passado nem um hino ainda mais desfasado no tempo com as suas apologias caricaturalmente guerreiras. Razão para nunca ter seguido a moda lançada por Scolari, quando a salvação da pátria parecia depender do comportamento de uns quantos jogadores num campo de futebol, nem fiquei particularmente emocionado quando as vitórias da Rosa Mota ou do Carlos Lopes implicavam as cerimónias protocolares do costume.
Mas, pelo contrário, já me senti bastante patriota, quando houve que fazer coro com quantos exigiam a libertação de Timor Leste do jugo indonésio ou quando, um dia, na cidade japonesa de Miike, fomos visitados a bordo do navio «Fernando Pessoa» por autoridades locais encantadas pela presença de marinheiros lusos num local aonde eles tinham sido determinantes para o salto civilizacional da região em pleno século XVI, como o testemunhavam muitos dos documentos e objetos expostos no museu local.
Vem tudo isto a propósito de existir em mim a noção de dois comportamentos distintos perante o conceito de Pátria: aquele acéfalo e preconceituoso herdado do salazarismo, que implicava a cristalização das mentes num conjunto de «verdades» mais do que relativas, e um outro de quem dirige os destinos do país e tudo tenta fazer para defender os interesses dos seus cidadãos, mesmo quando ameaçados pela violência  de outras nações.  Sobretudo quando se tem em conta que a Economia é mesmo a Guerra conduzida com outros meios.
Os dados históricos que vão sendo apurados demonstram à saciedade que este segundo conceito de patriotismo, tem de sobra Sócrates o que falta a passos coelho na sua postura de aluno obediente em tudo quanto merckel, lagarde, draghi ou barroso lhe mandam fazer.
Nesse sentido o artigo de Teresa de Sousa no «Público» alinha o comportamento de passos com o das elites lusas que, em momentos determinantes da nossa independência - quer no século XIV, quando Aljubarrota a preservou, quer no século XVII, quando a Restauração a recuperou, se colocaram sempre do lado errado da História.
Escreve a jornalista referida: ‘Como dizia um amigo meu, é preciso nunca nos esquecermos que a elite portuguesa estava do lado de Castela na batalha de Aljubarrota. A elite actual, às vezes, não parece ser muito melhor. Quando José Sócrates fazia (mesmo que mal) todos os esforços que um primeiro-ministro deve fazer para evitar a intervenção externa da União Europeia e do FMI, a intelectualidade bem pensante babava-se com a perspectiva da vinda do FMI. Sócrates tinha uma pequena abertura que quis forçar, e que esteve quase a forçar, com a ajuda de Barroso e do BCE. Toda a gente que acompanhou os meses anteriores ao resgate sabe que foi assim.
(…)Em contrapartida, o resgate era a maneira mais rápida para o PSD de Passos Coelho chegar ao poder e a maneira mais fácil de pôr em prática um programa económico e social que, de outra maneira, seria inaceitável. O programa da troika era o seu programa. Foi essa a aposta de Passos. (…)’
Não sobram dúvidas quanto ao lugar que caberá a passos coelho na História portuguesa, se é que conseguirá alguma referência em breve nota de rodapé. A consegui-lo será decerto para lembrar que os miguéis de vasconcelos não se finaram todos com o despejo pela varanda em 1640: ficaram lamentáveis seguidores para cumprirem o mesmo papel que constitui uma das características da arte de ser português, a de puxar para trás, quando todo o país anseia por ir para diante!




PORTUGAL: as remodelações que desejamos!


E eis que a semana começa com as trombetas a prepararem-se para tocarem o dobre de finados deste governo à conta de um muito ansiado acórdão do Tribunal Constitucional. Como se dá de barato, que as inconstitucionalidades serão uma evidência, a que os doutos juízes não se escusarão, fica a dúvida: atirará passos a toalha ao chão e voltará para os braços acolhedores de ângelo correia ou de um dos novos amigos entretanto arranjados pelo azougado relvas, sempre pronto para pensar na vidinha dos dois comparsas? Ou será que dá uma alegria a portas, que teme ver reduzido o seu escol de súbditos parlamentares à dimensão trivial do táxi?
Para a generalidade dos portugueses a resposta não deverá merecer grandes dúvidas: além dos habitualmente remodeláveis (o álvaro dos pastéis de nata e o inefável relvas), acrescentar-lhes-iam o gaspar, o aguiar, a cristas, o desaparecido mota soares (talhado para regressar á sua lambreta) e todos quantos se sentam à esquerda e à direita do mais remodelável deles todos: o próprio passos.
Mas, será mesmo o mais remodelável deles todos? É esquecermo-nos da tal mão escondida atrás dos arbustos, que de belém deverá estar ainda a interrogar-se como foi arrastado para esta confusão monumental capaz de lhe trazer de volta pelas traseiras, quem ele julgara correr pela porta da frente!



FOTO DO DIA: Um condenado á morte no Koweit fuma o último cigarro antes de ser executado


Não sei qual foi o crime por que foi este homem condenado à morte. Até pode ter sido o mais terrível deles - e não tenho imaginação para definir qual seria! -, mas nenhum continua a parecer-me merecedor da indignidade humana de uma execução por ordem de um qualquer tribunal. Encarceramento perpétuo, sim, considero aceitável pelo facto de a maldade constituir uma realidade banal para uns quantos casos particulares.
Mas o que a fotografia mostra - o carrasco a segurar o ombro do condenado antes de o assassinar! - continua a constituir uma forma de rejeição do que devem ser os valores de uma sociedade civilizada!



segunda-feira, 1 de abril de 2013

DOCUMENTÁRIO: «Género: Indefinido?» de Phoebe Hart (2012)


Uma jovem australiana hermafrodita decide desvendar um segredo de família muito bem guardado e assumir a sua diferença. Ela tem o síndroma de insensibilidade aos androgénios, uma das perturbações da diferenciação sexual. Nasceu com cromossomas masculinos e testículos, mas o corpo não produz testosterona.
Após uma «infância normal» enquanto rapariga, ela descobriu na puberdade, que nunca poderia ter filhos e deveria sujeitar-se à ablação dos testículos para evitar um cancro.
Agora, mesmo arriscando a incompreensão da mãe e a complacência não muito convicta do pai, ela decide procurar outras pessoas dotadas do mesmo síndroma a começar pelas duas irmãs.
Depressa o documentário ganha a condição de road movie pelas paisagens australianas ao sabor dos diversos encontros com outras pessoas, que com ela partilham essa estranha identidade intersexual.


DOCUMENTÁRIO: «Les chemins de la lecture» de Jean Pierre Gibrat (2012)

Como é que acontece o exercício de leitura no nosso cérebro? O documentário «Os Caminhos da Leitura» é uma exploração muito interessante sobre a mecânica neuronal de precisão guiada por um especialista na matéria.
Ler é um dos gestos mais característicos do comportamento do homem moderno: concentrado no papel ou no ecrã, com a cabeça quase imóvel, silenciosamente absorvido por uma atividade intelectual que parece decorrer na parte superior da cabeça.
O nosso cérebro de leitor adulto parece adaptado de forma notável a esse exercício, a tal forma que não temos a consciência da espantosa complexidade das operações em causa. E, no entanto, cada leitor esconde uma admirável mecânica neuronal de precisão e eficácia, que somos incapazes de reproduzir no computador, mas cuja organização começa a ser compreendida.


FILME: «Transiberiano» de Brad Anderson (2008)


Embarcar no Transiberiano costuma ser tida como esplendida aventura pelo que comporta de exotismo, mas para Brad Anderson - que assina o argumento e a realização desta produção maioritariamente espanhola - pode revelar-se um pesadelo. Sobretudo, quando os protagonistas, Roy (Woody Harrelson) e Jessie (Emily Mortimer) são confrontados com os piores estereótipos daqueles russos outrora mostrados como capazes de comerem criancinhas e darem injeções atrás das orelhas dos velhinhos. Será o histriónico Ben Kingsley a personificar esse russo mau como as cobras, corrupto, tenaz e inteligente.
Ademais, e como em função dos dinheiros envolvidos, haveria que garantir a contratação de atores espanhóis, temos Eduardo Noriega a cumprir o papel de «mula» no transporte da droga escondida em matrioskas e responsável pela réplica da situação da «Intriga Internacional» do Hitchcock em que o casal protagonista se vê envolvido.
Mas se a história é mais do que equívoca no seu maniqueísmo primário e ideológico, o filme tem alguns argumentos a seu favor, mormente as paisagens quase totalmente cobertas pela alvura da neve, cor eficiente para a criação daquele sentimento de angústia, que se pretende transmitir ao espectador, subitamente a duvidar se está num thriller psicológico, se num filme de terror.
É claro que tudo termina em bem, com o casal regressado à segurança dos EUA, o mauzão em fuga e a namorada do espanhol, que mais sofrera no meio daquela confusão, a ficar com o avultado pecúlio do negócio com a droga, durante dias escondido num cadáver escondido pelo manto branco.
Veredicto para este filme de 2008: há preconceitos que persistem muito para além da queda de muros reais e ideológicos. E temos de compreender que Harrelson, Kingsley, Mortimer ou Kate Mara têm contas para pagar, pelo que se lhes perdoa esta passagem por algo tão inconsistente.


TEATRO: «Le Prix Martin» de Eugene Labiche, no Theatre de l´Odéon em Paris


Ferdinand Martin e Agenor Montgommier jogam calmamente às cartas, como de costume. Amigos inseparáveis eles entendem-se na perfeição apesar das suas diferenças: Martin não gosta do seu próprio nome e prefere o de Agenor. No fundo ele entedia-se com a sua vida burguesa, enquanto o amigo usufrui o prestígio do seu uniforme. E claro, ainda subsiste outra diferença de monta: um é casado e o outro não. E este último, mesmo que de má consciência, engana o outro! Ou, pelo menos, enganou-o! Porque, na realidade, Agenor já se livrou da Srª Martin, que era uma amante demasiado impetuosa para o seu gosto e que começava a esgotá-lo!
A história parece banal, mas Labiche, com duas surpresas e três comparsas, não tarda a fazer estoirar a pólvora, fazendo saltar os protagonistas do seu conforto dos salões parisienses para se verem numa luta de morte em plenos Alpes Suíços aonde a pecadora Loïsa aproveita para fugir a eles e apontar os seus fulgores passionais para as florestas do Novo Mundo.
Uma vez mais o génio singular de Labiche, inventor do teatro de vaudeville, consegue conciliar a crítica social e uma teatralidade feita de intrépida rapidez, que muito influenciará o ulterior teatro do absurdo.
Peter Stein é um dos grandes admiradores da obra do autor de quem  já adaptara uma peça enquanto estava na Alemanha.
Agora, aos 76 anos, Stein não consegue trabalhar no seu país, já que a crítica o ostraciza de uma forma assaz violenta. Parecem esquecidos os seus quinze anos à frente do Teatro de Schaubühne de Berlim ou os seis enquanto diretor do Festival de Salzburgo. Por isso exilou-se em San Pancrazio, nas imediações de Roma, aonde se dedica aos seus vinhedos e olivais.
Pouco sociável, Stein confessa apreciar muito mais os ensaios do que a representação da peça. Mas quer esta adaptação atualmente em cena no Odéon de Paris, quer a encenação para o «Don Carlo» de Verdi em Salzburgo no verão, estão a suscitar as expetativas de quem o considera um dos grandes nomes do teatro europeu do nosso tempo.

DOCUMENTÁRIO: «Les Cathédrales dévoilées» de Christine Le Goff e Gary Glassman (2010)


A arte gótica ainda não revelou todos os seus segredos. Este documentário acompanha o trabalho de uma nova geração de investigadores conduzindo-nos aos mais belos recantos das catedrais francesas.
Surgidas a meio do século XII as catedrais constituíram uma verdadeira revolução arquitetónica, que modificou a paisagem francesa e permitiu aos construtores darem vazão à sua permanente busca pela luz e pelo gigantismo. Resume-se-a frequentemente aos arcos quebrados, à abóbada de ogivas e ao arcobotante. Ora, descobertas recentes revelaram uma realidade mais complexa. Por exemplo que os arcobotantes de Noyon só foram posteriormente acrescentados, enquanto em Paris apareceram mais cedo do que se julgava.
Analisando a pedra, os vitrais e o ferro uma nova geração de investigadores está a reescrever assim a História das Catedrais. É que existem escassos testemunhos sobre esses admiráveis edifícios. Os especialistas, geólogos e arqueólogos têm, pois, muito que decifrar.
Recentemente foi possível reconstituir informaticamente esses edifícios em três dimensões, acedendo a dados muito mais precisos e que originaram singulares revelações: anomalias arquitetónicas, arcobotantes mal localizados.
Por outro lado, os trabalhos de restauração levados a cabo em Chartres conduziram a conclusões espantosas sobre os materiais e técnicas de construção.
Graças a entrevistas com especialistas e imagens de síntese, o documentário acaba por dar o ponto de situação sobre os mais avançados conhecimentos sobre os trabalhos dos artesãos, que ficaram demasiado tempo escondidos por trás dos méritos dos mestres e dos comanditários das obras.
Três revelações maiores devem aqui ser sublinhadas:
· a descoberta da origem das pedras utilizadas nas construções graças à análise dos microfósseis nelas contidas:
· a degradação dos vitrais a partir do interior dos próprios vidros devido à utilização de potássio proveniente das fogueiras dos estaleiros de construção em vez do mais adequado e dispendioso sal marinho.
· e a constatação de uma geometria sagrada, reprodutora das dimensões referidas na Bíblia para o Templo de Salomão (na Notre Dame de Paris) ou da Arca de Noé (Amiens).


POLÍTICA: os demónios europeus


Esta semana três artigos do «Expresso» e um do «Nouvel Observateur» dão bem conta do estado calamitoso a que chegou a Europa comandada maioritariamente por partidos vinculados ao  Partido Popular Europeu, nomeadamente pelos que comandam os destinos dos países mais apostados em transformar o sul do continente numa vasta extensão de gente empobrecida e sem esperança.
É o que Miguel Sousa Tavares constata quando escreve: A Europa deveria estar agora a discutir como se fortalecer para enfrentar um mundo globalizado e como conseguir competir, mantendo-se como vanguarda do pensamento da ciência, dos direitos humanos e da justiça social que fizeram dela o mais fascinante  projeto político de sempre. Em lugar disso, está a discutir como acaba, como se suicida, fazendo renascer do inferno os velhos demónios que se imaginavam sepultados para sempre. Não há perdão para os autores deste hara-kiri.
São esses demónios, que Laurent Joffrin evoca no semanário francês, quando demonstra bem a estupidez de um mentecapto camilo, quando invocou a completa perda de tempo, que significa o estudo da História.
E o que Joffrin faz é recordar o clima económico e social de há oitenta e cinco anos atrás: Uma falência desencadeia uma crise mundial; a recessão faz aumentar o desemprego a níveis explosivos; multiplicam-se os casos de corrupção; a legitimidade da democracia é posta em causa; a vida política adota um tom áspero, e violento; os partidos antissistema começam a ganhar eleições; as desigualdades na distribuição dos rendimentos suscitam a cólera popular; as elites querem comprimir os salários através da austeridade; a deflação agrava a crise e torna descontrolada a situação social. Estamos nos anos 30. A crise económica assume uma tremenda brutalidade, os povos são atirados para a miséria, a violência política cresce até ao paroxismo, as democracias europeias ficam esmagadas entre as suas fações totalitárias, o fascismo e o comunismo. O mecanismo fatal conduz à guerra.
A moral com que Joffrin termina o editorial é bem conhecida: quem esquecer o passado arrisca-se a revivê-lo de novo.
Obviamente que o texto do conhecido jornalista francês tem por fundamento toda a embrulhada criada pelo Eurogrupo em torno da situação cipriota. Mas que Fernando Madrinha aventa tratar-se de mais uma das estratégias de enriquecimento acelerado dos países do norte da Europa às custa dos do sul:  A fuga de capitais em larga escala, seja para os bancos alemães, e para os da sua órbita de influência, seja para fora da zona euro, mais reforça  o poder do centro da EU em relação á periferia, porque desarma os estados mais débeis e lhes retira os meios para poderem investir na recuperação das suas economias. Assim ficarão condenados à miséria enquanto outros continuarão a engordar. As consequências deste jogo sinistro  são por ora imprevisíveis. Mas uma Europa governada por incendiários só pode vir a transformar-se numa gigantesca fogueira.
Mas, ligando esse estado da Europa com a política interna, Pedro Adão e Silva põe o dedo na ferida, que mais nos pode fazer doer o brio luso: a lamentável figura de aluno obediente que cavaco silva há quase trinta anos, e agora passos coelho, encarnam face a gente que os despreza e deles se serve, sem escrúpulos para os seus objetivos. Explica o sociólogo e professor do ISCTE: Não admira que a Alemanha defenda os seus interesses, o que espanta é que os países da periferia interiorizem a culpa moral pela crise, que busquem expiá-la, aceitando sistematicamente o empobrecimento como solução, e que nas reuniões europeias ninguém se insurja contra o que é dito e feito. O que surpreende nas últimas semanas não são tanto as decisões tomadas, é a atitude colaboracionista de quem é objetivamente prejudicado. Não admira que Schäuble ou Dijsselbloem digam o que pensam. O que choca é que ministros do governo português presentes nestas reuniões não tenham a coragem patriótica para dizer: «Porque não te calas?»
Perante o regresso de José Sócrates justifica-se a questão: poderia ser diferente se ainda se mantivesse ele como primeiro-ministro? Como considerou Pedro Santos Guerreiro, diretor do «Negócios», até é possível, que estivéssemos a passar pelas mesmas aflições. Mas que os líderes europeus teriam que contar com um aluno muito menos obediente, lá disso ninguém tem dúvidas.