sábado, 23 de março de 2013

DOCUMENTÁRIO: «Le monde après Fukushima» de Kenichi Watanabe

Documentarista e realizador de origem japonesa, Kenichi Watanabe explora, desde 2009, a história secreta do Japão do pós-guerra em excelentes filmes militantes e muito documentados.
Depois de «O Japão, o Imperador e o Exército» e «A Face Escondida de Hiroshima» (2011), em que abordava os segredos e as mentiras relacionadas com a irradiação das populações de Hiroshima e de Nagasaki, compreende-se porque aborda, com «O Mundo Após Fukushima», as consequências da catástrofe ocorrida há dois anos no Norte do Japão.
Watanabe estava a preparar o seu documentário sobre Hiroshima, com filmagens marcadas para 15 de março, quando ocorreu a explosão da central de Fukushima a 11 desse mesmo mês. O que motivou uma mudança de planos: em vez de ir para a cidade bombardeada pelos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, a equipa de rodagem ficou retida em Tóquio durante uma semana em que parecia ali imperar o caos e a desorientação.
Foi preciso esperar pela segunda-feira, 14 de março, para se ter uma espécie de posição oficial sobre o que se estava a passar. Os transportes públicos estavam parados, incluindo os comboios, os supermercados não estavam a ser reabastecidos.
Às 11 horas da manhã desse dia o segundo reator da central explodiu. Tinha marcado uma entrevista na televisão pública NHK ao meio-dia para discutir o conteúdo do filme sobre Hiroshima e aí, também ninguém me conseguia dizer o que quer que fosse sobre o que se estava a passar. Agora sabe-se que a administração estatal estava completamente à deriva.
A ideia original do documentário «O Mundo depois de Fukushima» - produzido pelo canal ARTE - era a de testemunhar esses momentos para gerar uma reflexão subjetiva sobre a civilização, o Estado moderno, o sistema industrial e a energia nuclear.
Quando fiz as filmagens concluí que as vozes das testemunhas eram muito mais incisivas do que a minha subjetividade pessoal. Eram elas que deveríamos escutar. Por isso alterei a orientação geral, muito embora me convencesse de não bastar um filme para dar o assunto por tratado. Existirão muitas outras perspetivas a explorar. Desde o 11 de março de 2011, não consigo deixar de pensar em Fukushima.
Fukushima é uma questão, que abarca a totalidade da nossa civilização. Se é necessário  denunciar o mundo nuclear, também devemos reconhecer os aspetos positivos trazidos pelo átomo à nossa civilização, às nossas vidas. Por exemplo, o computador desenvolveu-se porque os investigadores e os fabricantes do nuclear necessitavam de muitos cálculos matemáticos.
Mas devemos reconhecer que o mundo de Fukushima prima pelo absurdo. Existem tantas mentiras sobre o ocorrido, que chega a parecer surrealista.
Podemo-nos irritar, mas a cólera cansa e será preferível transformá-la num fator transformador. A destruição nuclear começa por ser a da natureza e da alimentação, que estão na base da nossa cultura. É essa a verdadeira tragédia e para que a sintamos temos de mostrá-la como ela é magnífica. Daí que tenhamos consagrado muito tempo à luz, à forma como filmávamos as sequências, justamente porque abaixo dessa superfície magnífica tudo estava destruído.
Quando mostro os pescadores a pesarem os peixes contaminados pelas radiações para se fazerem indemnizar pela Tepco, e atirá-los depois para o mar, espero que  se sinta a crueldade subjacente. Daí que também tenha querido reduzir as  explicações narrativas de forma a deixar ao espectador um tempo de reflexão.
A vertente política é importante, mas a poética não o é menos. E é o que faz falta no movimento antinuclear.  É importante alargar a perspetiva. Os filósofos e os escritores devem falar, os músicos e os pintores devem criar, em torno desse mesmo questionamento sobre a civilização.
Fui três vezes a Fukushima. A primeira, para identificação da região, no inverno de 2012, quando viajei sozinho num carro de aluguer. O que me permitiu descobrir a costa, reunir com associações de pescadores, com pessoas das coletividades locais. Toda essa costa está devastada, as pessoas foram evacuadas e vivem em contentores. Já passaram dois anos e a situação não muda, porque tudo está bloqueado pela radioatividade, cuja erradicação desconhece-se como conseguir.
Voltei lá em abril e julho de 2012 com um diretor de fotografia e um engenheiro de som. Trabalhámos na zona contaminada. Sobretudo com mulheres, que são quem melhor sentem a ameaça, o perigo relativamente aos filhos. Acredito que elas estão mais politizadas do que os homens, possuem uma consciência mais  aprofundada.
No filme o sociólogo Ulrich Beck situa assim o problema: a maioria das vítimas de Fukushima são vítimas potenciais, ou seja, todas as patologias relacionadas com as radiações  ainda não se desenvolveram e que uma parte significativa dos que vão sofrer ainda nem sequer nasceram.
Constata Kenichi Watanabe: já se detetaram cancros da tiroide em dez crianças nestes dois anos em 38 mil examinadas num país aonde se costuma verificar um ou dois casos num milhão. O pior é que os médicos tenham negado essa ligação com as radiações sob o argumento de existirem investigações em torno do caso de Tchernobyl em como os cancros na tiroide em crianças só aparecem ao fim de quatro anos. Ora, como em Fukushima, esses casos apareceram ao fim de dois anos, o discurso oficial não reconhece que esses casos estejamrelacionados com as radiações. Ora sabe-se hoje que, na Ucrânia, seis meses depois de Tchernobyl, já existiam uns vinte casos de cancros da tiroide em crianças, uns trinta ao terceiro ano e que o número de casos tinha duplicado ao fim de quatro anos.
A nossa geração nascida logo após a segunda guerra mundial participou em enormes manifestações e revoltas sociais nos anos 60, que em nada se assemelham com as de hoje. Para a geração mais velha, é estranha a atual forma de manifestar: todas as sextas-feiras ao fim da tarde, desde o primeiro aniversário da catástrofe de Fukushima, existem pessoas reunidas em frente da residência oficial do primeiro-ministro. São trabalhadores precários, os «freeters», que começaram essas ações   em 2004, e englobaram depois as reivindicações antinucleares.
Numa certa altura falou-se da «revolução das hortenses. Chegaram a ser 200 mil pessoas, são agora menos, mas prosseguem em defesa do seu objetivo. É um movimento social durável.  Acontece sempre no mesmo sítio, com as mesmas pessoas, sem personalidades políticas, nem sindicatos. Querem sair do antigo regime, até mesmo nas formas  de se manifestarem. Para tal chegaram a um compromisso com a polícia: mantém-se no passeio sem chegarem a ocupar a rua.
Com tal nível de obediência, os militantes da nossa geração desconfiam, classificam-no de pueril, que acabará depressa… mas não, não podemos desqualificar esta resistência. O que importa é que perdure. E todas as sextas-feiras à noite há novas pessoas a associarem-se às que costumam lá ir. É um movimento aberto, utilizam preferencialmente o twitter ou o facebook em vez de panfletos.
É que até em Tóquio as pessoas sentem-se envolvidas. Mais para ocidente, para Osaka, Kyushu, Okinawa, pode-se pensar que se trata de um outro país. Quanto mais afastados de Fukushima, maior  é essa tendência. E é precisamente por isso que não basta situarmo-nos apenas no terreno político, que temos necessidade de outras expressões, de um alargamento da frente de luta. O cinema, o audiovisual, são ferramentas muito poderosas, sem esquecer também a literatura, as belas artes…
Para essas formas de expressão é preciso dar tempo ao tempo, mas elas não deixarão de surgir!
No filme o ex-prefeito de Fukushima diz que se nada for feito, a central, quotidianamente sujeita a sismos, poderá pôr Tóquio em risco. Penso que, enquanto não for resolvido o problema da central (o que irá levar entre trinta e quarenta anos), enquanto não tivermos consciência da ameaça que ela faz pender sobre nós, enquanto não pudermos fechar os olhos a essa realidade, o Japão manter-se-á moralmente são.
No que a mim me diz respeito, enquanto Fukushima existir enquanto problema, não poderei viver sem o ter latente no pensamento, enquanto origem moral para decidir como viver de outra forma.

sexta-feira, 22 de março de 2013

ÓPERA: «Emilie» de Kaija Saariaho

A compositora Kaija Saariaho conta que a ideia para um monodrama para solo de piano já a ocupava desde 2001, embora não pudesse ainda perspetivar qual seria a história e a duração da obra.
À partida queria tratar do tema de uma mulher à espera de um veredicto médico durante uma longa noite até ao romper da madrugada. Ora, lera sobre a vida de Émilie du Chatelet num livro de Elisabeth Badinter, que a fascinara ao ponto de levar a sugeri-la enquanto protagonista a Amin Maalouf, a quem contactara para escrever o libreto.
O formato do monodrama permitiu-me experimentar uma nova configuração para a ópera. As dificuldades e os desafios são bastante diferentes dos de uma ópera com muitos protagonistas na qual as interações humanas podem criar diferentes eventos e tensões dramáticas gerando, naturalmente, contrastes numa partitura musical. Com uma só personagem, no entanto, têm que ser encontradas outras soluções dramáticas e musicais. Assim, neste monodrama, eu trabalhei um retrato, tentando fazê-lo tão rico e vivo quanto possível para que os contrastes emanassem deste ser único.

POLÍTICA: e quem fará cair passos coelho?


Um dos momentos surpreendentes do debate desta manhã foi quando passos coelho foi confrontado com o acordo entre parceiros sociais - patrões e sindicatos - para a revisão do salário mínimo e recusou qualquer alteração nesse sentido.
Um (des) governante, que está tão alheio ao que a sociedade institui como consenso generalizado, transforma-se num anacronismo, que tem de ser urgentemente resolvido. Importa agora saber como acontecerá!
Desde junho de 2011, que ando a prever aqui no blog a queda do governo em setembro deste ano como consequência dos desastrosos resultados eleitorais, que o PSD previsivelmente sofreria nas autárquicas e nas europeias. Situação inaceitável para um partido que sempre apostara na criação de uma solução prática para a empregabilidade dos seus «boys» nos quadros de recursos humanos dos municípios. A dois anos de distância previa uma espécie de «noite das facas longas» em que passos e seus cúmplices seriam imolados.
Mas dois fatores intervieram, que me levaram a rever a esse momento no sentido da antecipação: os péssimos resultados da aplicação da receita de austeridade a que tão empenhadamente se dedicaram e a previsível inconstitucionalidade do orçamento para este ano.
Nesta altura esse PSD profundo andará mesclado entre uma fidelidade cada vez mais difícil para com o seu governo e a possibilidade de salvar alguns anéis com a entrada em cena de um novo governo para quem transferir tanto quanto possível o ónus de uma situação social insuportável. E será esse desejo de sobrevivência dos seus companheiros de partido, que irá fazer cair passos coelho.

PORTUGAL: sofrerá passos coelho de um síndroma patológico?


Esta manhã o debate parlamentar voltou a ser confrangedor para o governo, com passos coelho a recolher escasso entusiasmo das bancadas do PSD e do CDS, sobretudo quando passou a responder às intervenções dos líderes dos partidos da oposição. A incapacidade em ter outra visão da realidade, que não extravase as baias nele colocadas pelos credores representados na troika, chega a uma dimensão capaz de fazer emergir uma suspeita: será que, em vez de fanatismo ideológico, passos sofrerá de um qualquer síndroma, que o cega perante realidades tão tangíveis para a maioria dos portugueses como o são o desemprego, a precariedade ou o empobrecimento.
Foi, particularmente, caricata a sua reação a perguntas concretas de Catarina Martins, quando ela pretendeu respostas concretas e quantificadas sobre o número de funcionários públicos a enviar para o desemprego. Por três vezes sucessivas virou-se para a presidente da Assembleia da República a informá-la da indisponibilidade para responder à deputada bloquista.
Mas, não contente com esse alheamento das regras instituídas no Parlamento veio lançar a debate a questão do agendamento da moção de censura do Partido Socialista como se esse tipo de temas não tivessem sido sempre tratadas nas conferências de líderes parlamentares.
Por estes pequenos exemplos, passos coelho demonstrou como está de cabeça completamente desfasa da realidade e a cometer erros de uma infantilidade, que seriam impensáveis até para os menos críticos dos expectadores.

quinta-feira, 21 de março de 2013

CIÊNCIA: os medicamentos contra o colesterol só servem para o negócio da indústria farmacêutica?


O ensaio «La Vérité sur le Cholestérol», acabado de publicar em França, pretende demonstrar a falsidade de muitos dos conceitos vigentes sobre o colesterol no corpo humano e de como constitui uma autêntica fraude a utilização das estatinas para o diminuir.
Para Philippe Even, o que entope os vasos sanguíneos são os coágulos, uma trombose, que origina um enfarte ou um AVC. Mas esse coágulo não cai do céu aos trambolhões: ele forma-se na forma de uma placa de ateroma fissurada, focalizada no local aonde o sangue é turbulento, nas bifurcações e nas curvas. A causa inicial reside, pois, nessas placas.
É uma doença que começa entre os 12 os 15 anos e agrava-se inexoravelmente ao longo da vida. Menor em muitas pessoas, mais grave noutras por razões genéticas desconhecidas.
E o que é uma placa? À partida é uma pequena cicatriz  devida aos golpes de ariete da pressão arterial. O organismo cicatriza-a uma vez, dez vezes, cem vezes até se converter numa cicatriz inflamatória, espessa, fibrosa com umas quantas gorduras no centro. Mas pouco colesterol. E essas gorduras - ácidos gordos - oxidam-se e tornam-se irritantes, aumentando a inflamação cicatricial e fazendo, provavelmente, aumentar o tamanho da placa. O colesterol não interfere em nada nesse processo. É apenas testemunha, um marcador.
Os três perigos são a genética (continuando a desconhecer-se porque é que alguns formam ateromas e outros não), os golpes de ariete da circulação sanguínea e a oxidação dos ácidos gordos. O que não sucede com o colesterol, que é inoxidável.
Nunca se conseguiu, em laboratório, criar ateromas fornecendo gorduras a diversas espécies animais.
Acumulamos gorduras por todo o lado, no fígado, em todos os tecidos, nas veias e nas artérias, mas sem criarem placas como no ateroma. Daí a hipótese genética.

PORTUGAL: Sou dos que querem ouvir os comentários de Sócrates


A notícia já era esperada, mas daria sempre azo a este tipo de reação exagerada entre quem é a favor e quem é contra: Sócrates está de volta para cumprir o seu imperativo de  participação na vida nacional, desta feita através do comentário político na RTP.
Até acredito que, na origem de tal convite, esteja a expetativa dos «boys» do PSD em criarem dificuldades a António José Seguro. Na sua visão deformada da realidade, julgarão ganhar algum desafogo no acosso a que se veem continuamente sujeitos  pelo descontentamento dos portugueses. Mas não tenho qualquer dúvida em como o tiro lhes sairá pela culatra. Até porque o antigo primeiro-ministro nunca se deixou guiar por ódios de estimação para com camaradas de partido e, mesmo para com um António José Seguro, que nem sempre deu então mostras do mesmo tipo de lealdade.
No jogo de forças entre petições a favor ou contra a presença de José Sócrates na RTP, defendo obviamente a primeira daquelas posições. Porque admiro no primeiro-ministro dos governos socialistas a permanente determinação em criar um Portugal apostado em cidadãos com cada vez maiores competências (Novas Oportunidades, requalificação das escolas públicas), com energias renováveis, com investigação científica e com uma presença destemida e assertiva nas instituições europeias.
Para que os seis anos de governação fossem ainda mais memoráveis no bom sentido teria sido necessário, que José Sócrates não incorresse em dois erros fatais: o primeiro foi pensar que deveria trabalhar para um Portugal mais justo e igualitário desde que assegurasse a complacência das elites dominantes que, nas últimas semanas, têm demonstrado o tipo de valores em que apostam (Revoltados “Indignados”, a limpeza das matas segundo salgueiro, belmiro e a mão-de-obra barata, ulrich e o aguenta dos sem abrigo, etc).
Sócrates teve uma perspetiva errada das relações de força na sociedade portuguesa, quando evitou as pontes à esquerda e as quis multiplicar à direita que, desde o início, e numa campanha vergonhosa, que utilizou argumentos sem ponta de escrúpulo, o quis denegrir, difamar, eliminar.
E o segundo erro foi o de não entender - como nenhum outro líder europeu entendeu! - os efeitos da falência da Lehman Brothers na evolução política e económica dos anos seguintes. Quando se pensava na forte probabilidade das oligarquias financeiras ficarem na defensiva face ao terramoto, que provocaram, constatou-se o contrário. Cientes de que a melhor defesa é o ataque, elas avançaram para a forma mais selvagem de capitalismo e impuseram uma agenda neoliberal em que a austeridade está a servir para a mais rápida transferência de riqueza das classes desfavorecidas da Europa e da América do Norte para os gananciosos acionistas de bancos e de grandes empresas dos setores da energia.
Após este retiro sabático é provável que José Sócrates tenha refletido sobre tudo isto. E eu estou bastante curioso quanto ao resultado da evolução do seu pensamento. Para nosso proveito e para contributo da transformação da sociedade portuguesa na via do progresso e do seu desenvolvimento igualitário.

DIA MUNDIAL DA POESIA: a arte poética de Hélia Correia

Em Dia Mundial da Poesia evoco aqui como um dos poemas da minha vida o que Hélia Correia criou antes do 25 de abril e então cantado por José Jorge Letria. Porque a poesia deve ter ossos e vísceras para passar de mão em mão. E servir o objetivo de ser ferramenta de transformação dos nossos destinos coletivos:



Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.
Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.
Hélia Correia

BANDA SONORA: Glenn Gould a interpretar J.S.Bach

Em dia de aniversário de Johann Sebastian Bach poderia escolher muitas das suas composições para o evocar, mas esta, interpretada pelo genial Glenn Gould, será decerto uma das mais interessantes.

quarta-feira, 20 de março de 2013

ÓPERA: Emilie, Kaija Saariaho

No início deste ano, Vasco Araújo e André Teodósio criaram cenicamente a versão da ópera Émilie» da compositora Kaija Saariaho, com libreto de Amin Maalouf.
No clip do youtube aqui colocado temos a grande soprano Karita Mattila a interpretá-la, mas na versão da Gulbenkian tivemos direito a Barbara Hannigan.
O tema é o de sermos relembrados quanto ao facto de se ter mantido mais ou menos sempre na mesma a nossa condição de estar e ser sujeito, materializando-se ele, segundo o respetivo programa de sala, “na contingência do amor, no conhecimento, na construção cultural e nos desejos placebo que só sabem mudar de forma”.
Ou seja: “ Entre mais folhos ou menos, mais pó de arroz ou menos, mais sol ou menos, vamos permanecendo os mesmos”.

DOCUMENTÁRIO: «Journey to Europa» de Mark Mannucci (2011)


A princípio este documentário da National Geographic começa por nos deixar incrédulos. Afinal, o que levará o cientista Bill Stone a incrementar os requisitos do seu robot «Endurance» com o propósito de enviar um dos seus sucedâneos ao satélite Europa do planeta Júpiter lá para meados de 2050? Para que se estarão a consumir tantos recursos, quer em dinheiro, quer em tempo de trabalho de toda uma equipa de cientistas, deslocados ao Antártico para testar as capacidades de tal equipamento em condições extremas de temperatura?
Mas, a pouco e pouco, o seu testemunho e o de muitos outros cientistas, darão sentido a tal esforço: é que sabe-se há já várias décadas que Europa tem um oceano líquido por baixo da extensa camada de gelo com 100 kms de espessura média à superfície! E que, a maior profundidade existem possibilidades de fumarolas vulcânicas, capazes de aí replicarem ambientes marinhos já descobertos na Terra a grandes profundidades, em que uma imensa diversidade de vida se congrega em torno desse tipo de ecossistema.
Uma expedição capaz de chegar ao planeta em causa, de cavar acesso até esse oceano e aí encontrar formas de vida, demonstrará em definitivo o quanto não estamos sozinhos no universo e esclarecerá se, pela respetiva composição, elas provirão ou não de uma mesma origem da desenvolvida na Terra!
Se puséssemos o camilo lourenço a perorar sobre a justificação deste tipo de investimento por certo que o conhecido economista diria tratar-se de algo perfeitamente dispensável.
Afinal, que interesse terá para os banqueiros e os financeiros tão do seu agrado, se existe vida em Europa e se ela se poderá ou não interligar com a criada na Terra?
Mas, porque o conhecimento acumulado pela Humanidade tem sido proveniente da acumulação de dados aparentemente tão inócuos e afinal tão relevantes, podemos considerar louvável e plenamente justificável o esforço de Bill Stone e dos seus colaboradores...

terça-feira, 19 de março de 2013

POLÍTICA: os sinais que vêm de Nicósia


As notícias de hoje foram férteis em sinais positivos sobre a evolução dos acontecimentos num sentido favorável ao dos interesses da maioria dos cidadãos europeus em geral e dos portugueses em particular.
A mais importante foi, decerto, a da reprovação pelo parlamento cipriota das condições de resgate anteriormente decididas pelo Eurogrupo durante o fim-de-semana. E, como a História tantas vezes demonstra, não é do epicentro das crises políticas e económicas, que vêm os fatores de mudança, que inflitam uma dinâmica contrária aos interesses da maioria. Agora são os cipriotas que, da sua minúscula periferia, dão o exemplo de cidadania, e acusam de insensata, senão mesmo de criminosa (porque de roubo se tratava!)  a orientação política das cúpulas europeias.
Para que as luminárias do Eurogrupo (com vítor gaspar como uma das suas estrelas!) tenham chegado a esta proposta só se entende se os virmos quão desfasados estão da realidade política, económica e social de que são efémeros protagonistas e das aspirações dos seus  cidadãos. E, sem o compreenderem, estão condenados a saírem da ribalta e a deixarem o lugar a quem tem um sentido bem distinto dos caminhos para onde se deve encaminhar a História.
Será por eleições? Claro que sim! Mas, paulatinamente, os defensores da austeridade a qualquer preço, terão de ser afastados para que os povos europeus possam recuperar o sonho dos fundadores da sua União. A de um continente desenvolvido e dinamizador do bem estar e dos valores civilizacionais mais avançados.
Mas os sinais de estertor dessa clique, cada vez mais isolada, vão surgindo de outros atores políticos. Por exemplo dos patrões com assento na Concertação Social que convergem com os sindicatos quanto à urgência do aumento do salário mínimo como forma de dinamizar a economia mediante o crescimento do consumo interno. Ou do desespero dos últimos defensores da fortaleza arruinada e cercada do (des)governo, seja com o mesmo gaspar a utilizar como argumento derradeiro do seu total fracasso o memorando tal qual foi assinado há dois anos, seja através das afirmações de belmiro de azevedo no clube dos supostos pensadores, que só revela a sua frustração perante a anunciada impossibilidade de fazer transitar a mão-de-obra do estatuto de explorados à de escravizados...

segunda-feira, 18 de março de 2013

POLÍTICA: A crise política? Mas não está cá já?


Ontem, na sua coluna semanal no «Diário de Notícias», Pedro Marques Lopes refletia sobre os receios de muitos quanto à probabilidade de uma crise política a curto prazo. E dizia o óbvio: não é a crise política, que vem aí, já que ela há muito que está cá!
Mas, atenhamo-nos ao texto do conhecido e ex-votante neste PSD: ‘ai meu Deus, uma crise política. Mas há maior crise política do que manter em funções um Governo que pelas suas próprias decisões políticas nos trouxe até aqui? Há maior crise política do que manter um Governo que ainda pensa que este caminho é o certo? Manter tudo como está, essa, sim, será uma colossal crise política.’
E, em consonância com esta mesma posição ouvimos hoje Arménio Carlos exigir eleições antecipadas, porque o  país não aguenta mais três meses desta política, exigindo-se do presidente da república um comportamento à altura do que se espera da sua função, por muito que a ela se venha eximindo.
Porque, quer vitor gaspar na conferência de sexta-feira, quer passos coelho na sua acossada alocução desta manhã para uma sala às moscas, mostraram, até pela postura corporal, o quanto já se sentem derrotados e incapazes de contrariarem a rápida precipitação no abismo deste país, cuja economia defenestraram em nome dos seus atavismos ideológicos.
Bem pode frasquilho ou o anão da trofa virem invocar as responsabilidades de Sócrates no memorando inicial, que já a poucos enganam: como lembrou Miguel Sousa Tavares no Jornal da Noite da SIC, não só o anterior primeiro-ministro resistiu até mais não poder a que viesse a troika, como se viu sujeito a pôr a assinatura num acordo negociado entre teixeira dos santos e catroga e ao qual passos coelho criticava ainda a pouca ambição nas medidas e objetivos a cumprir. Como dizia o então candidato a primeiro-ministro, não só o memorando da troika integrava o programa do PSD, como este se propunha a ir ainda mais além do que nele se acordava.
Não é, pois, com tão despudorada argumentação, que o PSD e os seus cúmplices na coligação se livrarão das consequências da trágica herança, que legam ao próximo governo. Ao qual cabe lançar as bases para o crescimento, para a criação do emprego e para o reequilíbrio das relações sociais tão escandalosamente colocadas a favor dos soares dos santos, dos belmiros ou dos espíritos santos.

TEATRO: « A Visita da velha Senhora» de Friedrich Dürrenmatt, no Teatro S. Luiz


1.
Vão longe os dias de prosperidade da cidade de Güllen. À beira da penúria, os habitantes só têm como derradeira esperança a breve visita de uma antiga filha da terra, entretanto enriquecida e decidida a aí concretizar a cerimónia do seu oitavo casamento.
No início da peça temos, então, toda a cidade a esperar Clara Zahanassian na estação ferroviária, esperançada em dela receber uns milhões tão necessários a revitalizar a sua falida economia.
Mas, embora não enjeite essa possibilidade, Clara volta à cidade movida por uma vingança cruel: ela atribuirá mil milhões à cidade, metade para a sua falida municipalidade, a outra metade para ser dividida por todos os seus habitantes, se se lhe fizer justiça. Pelo menos na forma como ela vê a formula: quarenta e cinco anos atrás ela saíra dali escorraçada, depois de um juiz lhe negar a paternidade da filha, ainda no ventre, como sendo da responsabilidade de Alfred Ill que, para o efeito, conseguira de dois amigos o perjúrio de também a terem possuído. Daí ter saído dali destroçada, para o inevitável trajeto pela prostituição em Berlim e pela perda dessa filha. Não tivesse um milionário ficado seduzido pelos seus cabelos ruivos ao ponto de a querer desposar e triste teria sido o seu desenlace.
Agora coloca como condição para a atribuição da generosa oferta que a cidade execute o traidor.
A primeira reação dos habitantes de  Güllen é a da recusa escandalizada dessa oferta em nome dos valores civilizacionais, que os guiam. Mas, logo no dia seguinte, Alfred vê os vizinhos a flexibilizarem-se, pouco a pouco, perante a proposta de Clara, já que não só lhe solicitam gratuitamente bens da sua mercearia, mas também começam a endividar-se rapidamente com novas roupas e calçado.
Nos dias seguintes, Alfred irá apoquentar-se cada vez mais com as alterações detetadas nos seus antigos amigos, que não hesitam agora em censurar-lhe o comportamento celerado de outrora. Se até a mulher e os filhos parecem ansiosos pelo cumprimento do negócio!
Por isso chega a pensar fugir mas, debalde, não consegue ter a coragem de entrar no comboio, que o poderá levar dali.
O único habitante com dúvidas é o reitor da escola, que ainda procura demover Clara do seu propósito, mas esta revela-se inflexível. E mais: confessa ter sido ela a comprar todas as fábricas e outras empresas da região para as fechar e levar os habitantes à penúria!
Nesse clima de tensão e de hipocrisia, resta ao isolado Alfred o refúgio do seu quarto, eliminadas as possibilidades de se ver apoiado pelo chefe da polícia e pelo presidente da câmara - visivelmente corrompidos pela milionária.
A cidade é então invadida pelos jornalistas atraídos pelo novo casamento de Clara. E é perante eles, que decorre a assembleia municipal aonde toda a cidade aprova os termos do negócio em causa. Seguindo-se, quase de imediato o seu cumprimento sob a forma do frio assassinato de Alfred, cuja morte será explicada oficialmente como tratando-se de um ataque cardíaco.
Na manhã seguinte a velha senhora parte de Güllen, depois de ter passado o cheque prometido.
2.
No muito que já se escreveu sobre a peça, existem muitas referências à similitude entre o destino vivido pelos habitantes de Güllen e os portugueses de hoje. Uns e outros falidos e desesperançados perante um ambiente dominado pelo desemprego e pela falta de projetos para o futuro. Assim como também houve quem visse em Clara Zahanassian a personificação da Europa, por deter os milhões necessários para alimentar a miragem redentora.
Embora admissível, essa leitura comporta uma perspetiva assaz perigosa sobre a realidade presente por caucionar duas linhas de argumentação igualmente reacionárias: a primeira tenderá a identificar os cidadãos da pequena cidade com aquela tenebrosa tese de terem vivido acima das suas possibilidades, endividando-se ao ponto de prescindirem de quaisquer escrúpulos perante o ultimato da sua credora.
Quem ainda acredita na suposta bancarrota do Estado português por conta dos desvarios despesistas dos governos socialistas ou age de má fé ou denota a idiotice crassa de quem não consegue interpretar a realidade recente com um mínimo de argúcia.
Mas, numa segunda linha de interpretação, também se poderá deixar pressupor a inevitabilidade da vitória dos credores face à expressão dos piores instintos de sobrevivência de quem lhes fica sujeito à chantagem.
Existe, pois, um desconforto no final, quando a peça se conclui e os espectadores dificilmente chegam à terceira salva de palmas. Porque, independentemente da valia do texto escrito por Durrenmatt em 1956, da irregularidade das interpretações (entre as boas de alguns atores e as confrangedoras mediocridades de alguns dos secundários) e das soluções de encenação muitas vezes demasiado ilustrativas do que pretendem significar, o que mais limita a aprovação deste trabalho é precisamente a razão de ser da sua escolha por Nuno Cardoso.
É que, se queria optar por um texto dramatúrgico capaz de interrogar com sagacidade a realidade dos nossos dias, esta não seria, nem por sombras, uma primeira escolha. Sobretudo por se prestar a servir os interesses ideológicos de quem mais responsabilidades tem pelo clima de desespero em que se veem os habitantes desta grande Güllen, que é Portugal!

domingo, 17 de março de 2013

DOCUMENTÁRIO: «Gangster of Love» de Nebojsa Slijepcevic


Numa cidadezinha do sul da Croácia, a agência matrimonial «Esperança» não tem sossego. É o que se depreende deste saboroso documentário sobre as andanças do esforçado Nedjeljko Babic por uma região marcada pelo êxodo rural e pela emigração.
Já há vinte e cinco anos, que ele lançou esse negócio, desde que arranjou casamento entre uma antiga namorada e um amigo pouco dotado para as artes da sedução amorosa. Agora conta como clientes muitos homens entre os 40 e os 50 anos, que fazem alguma fortuna na construção civil alemã e voltam para a região desejosos de encontrarem uma esposa recatada.
Tarefa difícil já que as mulheres sentem-se pouco tentadas a uma vida de reclusão no campo. Exceto se forem como a búlgara Maya, saída de uma relação traumática marcada pela violência doméstica, com um filho de três ou quatro anos e aspeto pouco convincente para os potenciais interessados. Sobretudo, porque eles ostentam valores extremamente conservadores, confirmados nos combates de bovinos em que se entretêm.
E esta é apenas a superfície de um estudo minucioso e impressionante não só sobre os homens das zonas rurais dos Balcãs, mas também da natureza das relações e expetativas no mundo de hoje. O facto de o filme adotar um tom de comédia em vez de drama psicológico é uma enorme vantagem para a eficácia do seu discurso.

sábado, 16 de março de 2013

DOCUMENTÁRIO: «Coma e Consciência» de Davina Weitowitz e Tilman Jens


Uma equipa de urgências parisiense é convocada para socorrer um octogenário acometido de um AVC. Apesar dos esforços médicos, o paciente morre sem conseguir sair do coma.
Está lançado o tema deste documentário alemão, que recorre a dois exemplos bastante diferentes para responder a duas questões: como podemos sair do coma? Como podemos retomar a vida consciente?
Tamara Grübel passou vários meses em coma depois de um acidente de carro em 2004, quando regressava a casa após diversas semanas de prospeções arqueológicas na Borgonha. Ao regressar à consciência está cega e perdeu uma parte significativa das suas funções cerebrais. Embora se recorde de ter tentado comunicar com os pais ou com a irmã, quando estava supostamente inconsciente na sua cama de hospital. Sem o conseguir, claro!
Iniciam-se então anos de reaprendizagem para voltar a falar francês e inglês ou a tocar violoncelo, mas, sobretudo, para sentir-se capaz de uma vida autónoma na medida do possível.
Há também o caso de Trees, uma dona-de-casa holandesa de origem indiana, igualmente em coma depois de ser atropelada numa passadeira para peões e ter estado mais de cinquenta minutos sem oxigenação do cérebro. Em Liège é examinada por uma equipa médica  especializada num protocolo clínico de avaliação do nível de consciência dos pacientes em coma.
Durante uma semana os médicos examinam as reações do cérebro a diversos estímulos e experimentam novas soluções a nível de medicamentação. Para concluírem pela irrecuperabilidade do seu estado de inconsciência.
Trata-se, pois, de um interessante documentário sobre as fronteiras da medicina, da tecnologia e da filosofia, focalizadas no cérebro humano.

FILME: «The woman with a broken nose» de Srdan Koljevic (2010)


Pobre Gavrilo que não imaginava no que se iria meter quando pára o táxi para possibilitar a entrada de uma jovem mãe com o seu bebé de colo.
Mas, sempre mal disposto, recusa um lenço à passageira e até a incita a ter cuidado em não sujar os estofos do carro com o sangue, que lhe cai do nariz esmurrado.
É nesse momento que pára o carro num engarrafamento sobre uma das pontes sobre o Sava, altura em que Jasmina sai e se atira ao rio.
Surpreendido Gavrilo vai levar a bebé a Jadranca, uma amiga prostituta, que o poderá ajudar a cuidar dela, mesmo que, de permeio, tenha de ir fazer uns serviços aos hotéis da cidade ou levar flores ao túmulo de Tito cujo governo recorda com a saudade dos paraísos perdidos.
Mas outras personagens se vão associar à história, em percursos paralelos, que só aqui e acolá se tocam por mero acaso: Biljana, uma jovem farmacêutica, cujo noivo morrera de apendicite e se vê assediada pelo ex-cunhado, um pope cuja esposa está no fim da gravidez. Ou Anica, uma professora ainda enlutada pela morte do filho, que fora atropelado por um condutor embriagado. E vendo-se também ela assediada por um dos seus alunos, Marko, em quem reconhece o filho do causador do seu drama. O que lhe motiva uma relação ambígua de amor/ódio.
Num filme interessante por nunca evoluir de forma estereotipada, a mãe da criança acaba por aparecer no hospital, ainda em coma, o que dá a Gavrilo a esperança de se livrar da respetiva responsabilidade. Mas, quando o final feliz parece propiciar-se, eis que Jasmina volta a abandonar a filha para partir de mota com o amante ciumento ainda pouco convencido da sua paternidade.
Mas, otimista como hoje é raro, o filme encaminha-se para o equilíbrio satisfatório de quase todas aquelas histórias paralelas, até mesmo para esse taxista, que acaba na mesma cama de hospital depois de um acidente em cima da ponte do início, e tendo à espera uma Jasmina convencida de encontrar nele um pai mais adequado para a filha.
Conhecendo-se pouco do atual cinema sérvio, podemos considerar que, por esta amostra, é merecedor de a ele ficarmos atentos.