segunda-feira, 11 de março de 2013

POLÍTICA: Como poderíamos imaginar os efeitos do bullying sobre os betinhos?


Eu pecador me confesso: quando era miúdo fazia parte do gangue do Carlos Alberto, que adorava perseguir o Jorge Eduardo à saída da escola, sujeitando-o a bullying (ainda não sabíamos que se chamava assim!) por causa de tudo nele personificar um beto de primeira.
Na época adorávamos passar os dias a correr pelas ruas da aldeia, aonde só raramente passavam os carros ou as camionetas da carreira. E, pelo contrário, o Jorge Eduardo era obrigado pela mãe a ficar fechado em casa, sem qualquer convivência com os miúdos de rua, que éramos nós todos. Era a lógica dos meninos bem comportados, que não se deveriam dar com os corrécios malcriados da vizinhança.
Embora estivéssemos nos anos 60 reproduzíamos as brincadeiras e o espírito dos personagens do Aniki-Bobó, rodado duas décadas antes. Mas era assim o salazarismo: os anos passavam e tudo parecia ficar perfeitamente na mesma.
Voltam-me, amiúde, essas memórias, quando vejo o ministro das finanças na televisão. Desconheço como terá sido a sua escolaridade, mas imagino-a facilmente em sítio aonde era fácil ser detestado por querer mostrar-se sempre tão certinho, tão conforme com as orientações da mãezinha, que tanto se incomodaria acaso ele tivesse a irreverência de lhe aparecer em casa com os calções sujos.
O problema é que esta gente traumatizada pela marginalização dos colegas de escola torna-se tão despeitada que os temos de aturar depois neste tipo de conjuntura. Em que lhes importa continuar reverenciosos perante os poderes supostamente adultos (aqui personificados na figura obesa de uma Merckel, que lhes evocará essa tal mãezinha!). E sempre dispostos a receber-lhes os comiserados afagos, mesmo que lixando os parceiros irlandeses, quando ambos  tinham previamente combinado estratégia comum.
Um comportamento mesquinho, que Pedro Silva Pereira muito bem escalpeliza na sua crónica no «Diário Económico»: o Governo sempre gostou de desempenhar o papel subalterno do "bom aluno" obediente, que não faz perguntas, não tem posição própria e não ousa falar alto nem mesmo para defender os interesses nacionais. Para quem perfilha esta atitude subserviente e passiva, o que dá jeito é que sejam os outros a reivindicar, para depois, sem fazer ondas, aparecer a recolher os frutos do trabalho alheio. Foi assim há um ano, quando a redução de juros, pedida pela Grécia, foi atribuída também a Portugal ao abrigo do princípio da "igualdade de tratamento" e será assim agora quando, depois das novas condições concedidas à Grécia, se souber o resultado da "posição negocial" da Irlanda e da longa luta do Governo irlandês - bem anterior à formalização do pedido em simultâneo com Portugal.


domingo, 10 de março de 2013

POLÍTICA: O vazio mora no outro lado da barricada


É verdade que na manifestação de 2 de março sentia-se uma enorme tristeza a perpassar pelos rostos de todos quantos desciam a avenida da Liberdade a caminho do Terreiro do Povo.
Mas tendo em conta a presença de tantos desempregados sem subsídios, de tantos precários sem garantia de continuarem com rendimentos de sobrevivência nas próximas semanas ou de tantos reformados com pensões cada vez mais reduzidas para as suas despesas e, quiçá, para as dos filhos e netos a quem procuram ajudar, será de espantar esse ambiente algo fúnebre?
O silêncio cinzento parecia ser o espelho exato do sentimento político da manifestação - comentou Pedro Adão e Silva no «Expresso», avançando a possibilidade de ele refletir o primado do vazio político.
Será um facto esse vazio, quando sabemos bem como ele é (quase) uma impossibilidade da física.? O vazio tende a ser preenchido por muito que, lentamente, flua para ele uma qualquer manifestação de energia.
Daí que não desespere pela aparente ausência de um qualquer amanhã que cante. De dentro ou de fora as surpresas acabam por surgir quando menos se esperam. Quem diria, por exemplo, que os suíços referendariam a limitação dos obscenos salários dos administradores das empresas e que se preparam para, igualmente, dar provimento à proposta socialista de redução das disparidades salariais dentro dessas mesmas empresas?
Quem parece toldado pelo vazio de ideias e de argumentos é passos coelho, que já não encontra melhor forma de se defender em debates parlamentares do que invocar a estafada pesada herança do governo anterior! Constata Pedro Marques Lopes no «Público»: o slogan do "vamos atingir os 4,5% de défice custe o que custar" morreu e a bravata do "nem mais tempo nem mais dinheiro" soçobrou à realidade. Já não há metas nem luzes ao fundo do túnel para apontar. Não há reforma digna desse nome, não há dado que não grite o falhanço absoluto do Governo e do plano europeu, que era, como foi repetido, o seu próprio. Nada bateu certo, tudo ficou muito pior. Com o desaparecimento das narrativas o discurso, que já não era propriamente fluente nem bem estruturado, tornou-se errático, sem sentido. Atiram-se simplesmente uns assuntos para o ar.’
O vazio mora afinal no outro lado da barricada: o daqueles contra quem desfilaram os indignados do 2 de março!

sábado, 9 de março de 2013

FILME: «Monsieur M, 1968» de Isabelle Berteletti e Laurent Cibien


Em 1975, quando um homem solitário morre num bairro periférico de Paris, descobre-se em sua casa um labirinto de papéis guardados metodicamente em caixas, reveladores da sua estranha personalidade: cartógrafo de profissão, ele costumava anotar todos os acontecimentos diários em agendas, mesmo tratando-se de ocorrências perfeitamente rotineiras como ir às compras com a mãe ou deslocar-se a pé, ou de transportes públicos, entre casa e o emprego.
Os realizadores escolheram pegar na agenda de 1968 para acompanharem a leitura em off do que ele anotara, com imagens de arquivo ou atuais, a preto-e-branco e a cores, sobre os espaços em que ele se movia por essa altura. E a escolha não é inocente: sendo o senhor M parisiense, claro que não lhe passaria ao lado a intensa conflitualidade ocorrida na capital francesa nos meses de maio de junho desse ano.
Por exemplo a 10 de fevereiro ele regista ter tomado o segundo banho do ano e regressado a casa na companhia, quase até à porta, da sua colega Joelle. Dias depois conta detalhadamente a compra de um frigorífico para substituição do anterior, já com quinze anos de utilização, acrescentando minuciosamente os respetivos modelos e custos.
Em maio, enquanto Paris está a arder M «adoece» convenientemente para se escusar à greve no IGN e assiste na Tv a um elucidativo  filme de Dreyer («A Paixão de Joana d’Arc»). Por esses dias, enquanto as praias se revelavam por baixo das pedras da calçada, ele regista em que nádega vai levando as injeções destinadas a curar-se da crise de fígado.
Num filme dotado de um conceito bastante interessante e esteticamente bastante belo, o ritmo das estações e das suas pequenas rotinas pontuarão as sucessivas cenas, não escapando a M a invasão de Praga pelos tanques soviéticos...

POLÍTICA: continua-se a desenterrar o morto!


Houve uma altura em que a direita alimentou a esperança de conseguir provar a culpabilidade da esquerda na morte de Sá Carneiro e de Amaro da Costa.
Apesar de nada pressupor a possibilidade de atentado o PSD e o CDS forçaram a encenação de sucessivas comissões parlamentares destinadas a dar como comprovadas as suas teorias da conspiração até conseguirem aprovar por maioria - quando contavam com essa realidade na Assembleia da República - essa tese, que passou a ter assim uma pretensa credibilidade oficial.
É claro que o despudor dessa estratégia teve de dispensar, por manifesta impossibilidade de forjar provas credíveis nesse sentido, a inculpação de comunistas ou socialistas. Passou-se, então, à lógica da responsabilidade de alguns militares. E é para fazer validar essa tese, que aí está mais uma comissão absurda, condenada a nada de novo provar. Mas, como o interesse será sempre o de mitificar um político cuja morte precoce nos poupou a comprovar os tiques ditatoriais, que nele eram indisfarçáveis, a direita não se poupará a esforços para perenizar essa estratégia.
Daí que seja útil o livro acabado de lançar por Barata Feio: «Camarate, o Grande Embuste - Factos e Conveniências». Aonde se pode ler: a verdade é que não há uma única prova documental científica incontroversa - uma única - de que o avião tenha sido alvo de sabotagem. Em contrapartida, há inúmeros indícios de que a tese do atentado se tornou um dogma político avesso à lógica e ao bom senso.
Um dogma, que importa denunciar como uma fraude com custos injustificados para o contribuinte!

POLÍTICA: a S&P e o salário mínimo


Ontem, no Jornal de Negócios, Fernando Sobral escrevia que para Passos Coelho o salário mínimo é o espelho do seu pensamento mínimo. Que é o de pensar na possibilidade de transformar Portugal num país vocacionado para exportações manufacturadas por uma mão-de-obra pouco qualificada e a ganhar salários de miséria, como se, por artes mágicas, viesse a transformar-se a médio prazo numa espécie de Singapura cujo modelo travestido configura a sua medíocre personalidade.
Mas passos vai mais longe: julga que o salário mínimo não baixa, apesar de ele julgar ser essa a melhor alternativa para multiplicar empregos para o milhão de desempregados já contabilizáveis por força das suas opções (des)governativas. A verdade é que, nestes dois anos,  a coligação PSD/CDS já conseguiu reduzir em 18 euros  o valor em causa. Só por não acompanhar a evolução da inflação durante este período.
É, por isso mesmo que a atemorizada Standard & Poor’s decidiu ajudar com uma notação destinada a servir os objetivos de propaganda para iludir incautos, não sem alertar no mesmo documento para a evidência: apesar da esperada suavização das metas orçamentais, consideramos que os riscos  ao contrato social continuam a ser  significativos, à medida que o Governo continua a aplicar o seu  programa de cortes da despesa pública entre 2013 e 2014.
Porque os portugueses mostram-se mais do que fartos com  ele o governo e a maioria que o suporta agarram-se ao poder, invocando um voto passado, tão distante como as promessas entretanto feitas, conclui o artista plástico Leonel Moura no mesmo matutino económico.

sexta-feira, 8 de março de 2013

LIVRO: «The Winter Journal» de Paul Auster


Foi apresentado como a segunda autobiografia do autor, mas Paul Auster rejeita essa classificação: para ele «Winter Journal» é literatura baseada em alguns segmentos autobiográficos. Que evocam as duas mulheres mais importantes da sua vida: a mãe e Siri Hustved, que conheceu a 23 de fevereiro de 1981 e que se tornaria na companheira destes mais recentes trinta anos. Ou ainda a prostituta francesa, que recitava de cor alguns dos poemas de Baudelaire.
Tratando-se por tu, Auster escreve para si próprio, contando como é difícil viver dentro de um corpo, sobretudo quando ele está a envelhecer a olhos vistos. O que explica que, rejeitando o protagonismo narcísico da generalidade dos autores das autobiografias, ele não esconde episódios do seu passado em que o seu desempenho terá sido comprometedor.
Embora os romances mais recentes de Auster me tenham dececionado pela falta de novidades, este ainda continuará a valer a oportunidade de uma leitura. Porque ele não deixa de ser um intelectual empenhado em participar nas lutas do seu tempo, sobretudo quando do outro lado da trincheira estão os jihadistas republicanos...

POLÍTICA: A contestação segue dentro de momentos


É conhecido o papel mais do que suspeito, que as agências de rating desempenham no mundo da finança. Empresas privadas, que definem a classificação de países soberanos e de empresas de acordo com os interesses dos seus acionistas - também eles atores nos jogos especulativos dos mercados financeiros - elas vêm sendo insuficientemente denunciadas pelo seu papel de baluartes de um capitalismo decadente decidido a buscar a sobrevivência na sua versão mais gangsterizada.
Mas, como a manifestação de 2 de março apertou um pouco mais o garrote social, que se aperta em torno deste mais que isolado (des)governo, qualquer apoio momentâneo é por ele apresentado como forma de legitimar os benefícios das suas políticas. Daí a festiva abertura dos telejornais com a revisão da classificação de lixo da dívida portuguesa pela Standard and Poor’s como se se tratasse da salvação da Pátria. De entre esses noticiários televisivos realce-se o servilismo do da RTP pela voz de José Rodrigues dos Santos. Após a tomada de assalto pelos cúmplices de relvas, o canal público excede-se na manipulação das notícias de modo a fazê-las favorecer o provisório dono das suas acomodadas vozes.
Por outro lado pressente-se que, no outro lado do Atlântico, os senhores do capital estão atentos à evolução dos seus negócios, não lhes passando despercebidas as marés de descontentes, que de norte a sul do país, sem esquecer as Regiões Autónomas, ameaçaram a continuidade das suas marionetes locais. E terão pensado que a forma de evitar-lhes a merecida sorte dada a quem não tem escrúpulos em lesar os seus concidadãos desde que salvaguarde os sacrossantos «direitos» dos credores, seria dar-lhes o aconchego de uma benesse inconsequente para que servisse de ilusório cartaz de propaganda com que se procure enganar os incautos.
Não espantará que os mais ingénuos ainda vão-se deixando embalar pela história dos sacrifícios recompensados! Mas, como os desempregados continuarão sem emprego, os precários sentirão a espada de Dâmocles diariamente apontada ao seu peito e os reformados e pensionistas terão cada vez maiores dificuldades para satisfazer as despesas com a alimentação e a saúde, esta mistificação durará uns meros dias. A contestação segue dentro de momentos...

quarta-feira, 6 de março de 2013

POLÍTICA:O dia em que houve quem achasse justificável o absurdo


Este é o dia em que passos coelho cometeu o atrevimento de considerar justificável diminuir o valor do salário mínimo enquanto forma de resolver o problema do desemprego. Muito oportunamente houve quem, nas redes sociais, previsse para breve o apanágio da escravatura.
O absurdo é a melhor demonstração como  este governo está acossado perante a avalanche de repúdio social, que o condena a mais ou menos curto prazo. E pondo assim um termo a uma tentativa de retrocesso civilizacional à escala europeia de uma cultura de bem estar e de uma distribuição relativamente equitativa da riqueza de cada país.

O que a manifestação de 2 de março anuncia é a vontade coletiva de infletir um presente em que a maioria empobrece e os soares dos santos, os belmiros ou os amorins vão enriquecendo.
Como escreveu João Pinto e Castro no «Jornal de Negócios» tornou-se (…) que, na crise das dívidas soberanas desencadeada em 2010, o pretexto foi económico-financeiro, mas o intuito é político. O que a justifica é o desejo de aproveitar um momento de fragilidade dos povos e dos estados nacionais para desencadear um muito ansiado ajuste de contas, pondo em causa tanto o contrato social laboriosamente edificado ao longo de décadas como os delicados equilíbrios sobre os quais ele assenta. A austeridade fiscal foi imposta a coberto de um pânico irracional fabricado pelo BCE com pretextos espúrios. Apesar do evidente descalabro, tanto a UE como o BCE insistem em políticas de extorsão fiscal que prolongam indefinidamente a estagnação e o desemprego de longa duração, assim condenando, nas palavras de Martin Wolf, "dezenas de milhões a um sofrimento desnecessário".
É evidente que os cidadãos podem iludir-se com palhaços, que lhes prometem mundos e fundos, mas só querem acautelar os seus negócios (Berlusconi) ou reciclarem-se da atividade burlesca aonde a  graça há muito se perdeu (Grillo). Como  escreve Miguel Cabrita no «Diário Económico» há quem pense que o impasse italiano é bom porque aumenta, de novo, a pressão para mudanças na Europa, aliás reforçadas pela instabilidade financeira que imediatamente se sucedeu aos resultados eleitorais. Provavelmente, não; é só mais uma face de uma Europa que, a pouco e pouco, é cada vez mais um espectro do que foi e do que ambicionou ser.
E que por isso tem de ser reorientada para as melhores expetativas, que gerou nos habitantes da enorme extensão entre o Atlântico e os Urais.

BANDA SONORA: A ária «Vous soupirez, Madame?» de Berlioz


Berlioz compôs a ópera «Béatrice et Benedict» baseando-se na peça «Much Ado for Nothing» de Shakespeare.
Esta área, interpretada por Ileana Cotrubas e Nadine Deniz, integra o 1º acto de tal ópera, aqui numa versão dirigida por Daniel Barenboim.

POLÍTICA: sobre o discurso antideputados


Faz sucesso nas redes sociais um tipo de discurso anti partidos e anti deputados, que tem uma das suas múltiplas expressões no tipo de imagem abaixo.
Numa altura em que o populismo na sua versão italiana revela os perigos desse tipo de aparente não-ideologia (que, sabemo-lo bem, conduzir a formas mais ou menos encapotadas de totalitarismo!) é necessário denunciá-la  porque, nesta época de crise do capitalismo exige-se mais política em vez da sua forçada ausência.
O Parlamento , nomeadamente através das suas Comissões, terá sempre um importante papel a desempenhar na auditoria permanente aos atos governativos e na criação negociada de pacotes legislativos adaptados às novas circunstâncias em que avançamos pelo século XXI adentro.
Por isso sugerir menos deputados é exigir MENOS democracia. E, como comentei numa página de facebook aonde se dava apoio a tal proposta não concordo com a redução do número de deputados porque, sendo o sistema eleitoral distorcido pelo método de Hondt, as forças políticas minoritárias seriam reduzidas na sua expressão parlamentar. Ora, apesar de socialista, considero fundamental intervenção política do CDS, da CDU ou do BE na vida política legislativa... Ademais os custos dos deputados são bastante inferiores aos dos muitos assessores com que o (des)governo premeia os seus boys com vencimentos escandalosos para a sua escassa experiência profissional.
Em alternativa deveremos ser exigentes sobre a qualidade do trabalho dos deputados e, nesse sentido, fará todo o sentido criar mecanismos de avaliação ao seu desempenho só merecendo exercer tal função quem participa, efetivamente, no trabalho parlamentar sem se limitar a levantar o braço ou a ficar sentado de acordo com as instruções do respetivo líder do seu grupo. A participação ativa nos trabalhos das comissões ou em produzir propostas capazes de trazerem melhorias para a vida dos cidadãos deverá ser  a condição sine qua non para um deputado merecer o seu lugar. Independentemente de ser de esquerda ou de direita...

BANDA SONORA: Patricia Petitpon numa das mais famosas árias do «Rapto do Serralho» de Mozart

POLÍTICA: na morte de Hugo Chavez


A já esperada morte de Hugo Chavez desencadeou uma torrente de reações nas redes sociais, que maioritariamente se colocaram em posições extremas: de veneração milhentas, de ódio quase outras tantas. O que demonstra a primeira grande qualidade do defunto: não deixava ninguém indiferente, seja pela idolatria quanto às suas políticas assumidamente anti-capitalistas, seja pela sua raivosa condenação.
Pessoalmente pendo naturalmente para o campo dos chavistas por três razões, que importa clarificar sem azo a quaisquer tibiezas.
Em primeiro lugar, Chavez sempre se bateu pela aplicação dos dinheiros do petróleo para promover programas sociais de apoio aos mais desfavorecidos, que viram nele o garante de minimizarem as suas dificuldades suscitadas por uma sociedade extremamente desigual. Quando a revolução bolivariana se iniciou o fosso entre os muito ricos e os muito pobres era obscena e tendeu para se estreitar doravante ao longo dos anos de presidência chavista.
Em segundo lugar, e apesar de sempre denegrido pela direita troglodita da Europa e da América do Norte, Chavez exerceu o poder legitimado em eleições, que sempre ganhou apesar da intensa propaganda contra ele veiculada pelos jornais e televisões a soldo das oligarquias do seu país e das contínuas pressões dos governantes e dos espiões norte-americanos.
E, finalmente, ao contrário do que dizia Augusto Santos Silva no seu comentário semanal na TVI24, existe uma diferença abissal entre os populismos de direita e os de esquerda. Numa época em que as classes operárias dos países desindustrializados se viram para a extrema-direita (como sucede em França com a Frente Nacional ou em Itália com Berlusconi e com Beppe Grillo), existe um desafio importante a ser vencido pela esquerda: perante a inevitabilidade de ver os estratos atirados para as margens da sobrevivência serem seduzidos por discursos quiméricos por causa do seu desajustamento com os requisitos de uma sociedade de informação, até acaba por ser positivo o surgimento deste tipo de políticos, que encarnem com credibilidade os desejos coletivos por uma maior justiça e igualdade.
Não existe qualquer similitude entre o comportamento político de Chavez na Venezuela, de Morales na Bolívia ou de Correa no Equador por um lado, e o de quem assume discursos mentirosos só para arregimentar as massas de eleitores para projetos destinados a prejudica-los.
Que maior populismo se revelou nos últimos anos que o de passos coelho, quando prometeu não aumentar impostos, nem cortar subsídios, enganando assim gente justa ou injustamente zangada com as políticas do governo anterior?
Como pode um Ricardo Costa, enquanto diretor do Expresso, denegrir sucessivamente o presidente venezuelano, reduzindo-o a um mero fenómeno folclórico de raiz sul-americana e mostrar, ao mesmo tempo, condescendência com um governo, que prometeu mundos e fundos para comprar os votos dos incautos eleitores e, tão só chegado à posse do pote, se pôs a fazer tudo quanto negara vir a fazer?
Neste 5 de março temos, pois, a constatar a morte de um homem determinado, que decerto errou muitas vezes ao pretender impor uma revolução socialista no seu país, mas que nunca abdicou de derrotar, mesmo quando o cancro já o minava, todas as tentativas de fazer o tempo voltar para trás, para esse passado em que a corrupção imperava sempre em benefício dos mesmos clãs dominantes...

terça-feira, 5 de março de 2013

LITERATURA: Ciclo Lawrence Durrell (9) - «Justine»


«Justine»  começa suavemente com  um narrador anónimo a viver nas ilhas Cíclades e a classificar documentos evocativos de reminiscências turbulentas. O passado atualiza-se (saber-se-á, depois, que ele chama-se Darley) , professor primário anglo-irlandês em mudança de idade, que se assume ao mesmo tempo como personagem e processo literário (Durrell aproveita-se dele para contar a história).
Limitado nas suas faculdades de observação e de análise, ele mostra-se disponível para alterar as suas impressões à medida que o tempo e os factos se sucedem. Evoca a Alexandria de antes da guerra e o seu crescente amor por Justine, apesar de ainda viver uma relação tépida com  Melissa, a sua amante-prostituta.
Melissa, agora desaparecida, é (no momento em que renasce nas recordações de Darley), bailarina de clube noturno. Doce, leal, ela cultiva a amizade com os principais personagens do romance. A exemplo de Melissa, Justine será omnipresente nos quatro volumes do «Quarteto».
Existe também Alexandrina: genuína, bela, complexa, pianista talentosa, também possui diversos rostos, que nem sempre coincidem: lésbica, ninfomaníaca, sonâmbula, etc. Os detalhes sobre a sua vida estão fechados nos arabescos da técnica romanesca, e mergulhados na espessa obscuridade da cidade. O seu primeiro marido, Arnauti, foi o autor de «Moeurs», o romance utilizado por Darley para completar o retrato de Justine e a pintura de Alexandria que, pouco a pouco, se irá revelar como uma verdadeira personagem dramática.
Darley estuda a cidade em todos os seus detalhes e com todos os seus habitantes: Pombal, o francês; Capodistria, o cabalista; Scobie, o político homossexual; e, sobretudo Balthazar, herói epónimo do segundo volume e que segundo Darley constitui uma das chaves para a compreensão da cidade.
Darley ama Justine com uma paixão romântica, que a mistifica. Daí que aniquile a Justine-mulher-de-Nessim, incompatível com o seu sentido de posse numa relação baseada na personalidade, mais do que na sexualidade.
Aqui as relações humanas substituem o amor. O espírito predomina, sobrepondo-se à anarquia dos sentidos.  A importância das conversas de Darley com Justine tem menos a ver com o conteúdo do que com a forma.
Alexandria exprime-se nas relações entre os seus habitantes, nomeadamente entre quatro seres (Darley, Justine, Nessim, Mélissa) ligados pelo amor e, simultaneamente, pelo espirito de Alexandria, um espaço que afeta e configura as personagens.
Esboça-se assim a ideia do «It», o de Alexandria, o da personagem que com ela se identifica (Nessim) ou que crê na verdade (Cléa) e na natureza.
Resta dizer que é pueril qualquer tentativa de resumir «Justine», já que constitui a abertura do romance, aquela em que se esboçam as ligações entre as diversas personagens e a cidade no universo multidimensional criado por Durrell.
No final deste primeiro volume subsistem inúmeros enigmas. Darley apenas conhece Alexandria muito pela rama, já que será Balthazar quem lhe propiciará revelações fundamentais para conferir à obra uma dimensão misteriosa. O primeiro título, desta história três vezes repetida, termina suavemente com todas as paixões apaziguadas.

MEDICINA: É o colesterol um inimigo imaginário?


A pergunta é feita há três edições atrás da revista «Nouvel Observateur» aonde Anne Crignon coordenou um dossier bastante interessante sobre o assunto.
Aqui ficam algumas das interessantes informações aí inseridas.
O colesterol  não seria um inimigo do organismo? Não seria o responsável pelas crises cardíacas e pelos acidentes vasculares cerebrais, pelo que força-lo a baixar não faria afinal mal à saúde?
O colesterol bloqueia as artérias - era o que todos diziam. Com a aproximação dos 50 anos, seria necessário comer cada vez menos gorduras animais para proteger o coração e avançar para um tratamento preventivo se o seu valor se tornasse demasiado elevado. Chamava-se a isso um consenso…
Mas para Philippe Even, que acaba de publicar  «La Vérité sur le Cholestérol», as estatinas, esses poderosos redutores de colesterol só beneficiam as indústrias farmacêuticas, já que significam anualmente um volume de negócios de 25 mil milhões de dólares.
O texto do antigo reitor da Faculdade de Medicina Necker vem reiterar as suspeitas já emitidas em 2002 pelo sueco Uffe Ravnskov com o seu «Mythes du cholestérol», que já denunciava o facto de nada na literatura científica provar a existência de uma interligação entre o nível de colesterol e a aterosclerose.  O diabólico colesterol , bloqueador de artérias seria de facto um mito.
Even e Ravnkov defendem não existir qualquer benefício para a saúde  pelo facto de se baixar o nível de colesterol, exceto se enfrentarmos alguns casos genéticos de hipercolesterolomia.
Ravnskov vai mais longe: estamos perante o maior erro de diagnóstico da História da Medicina. E outro cardiologista, Michel de Lorgeril, do CNRS de Grenoble, acrescenta que uma manipulação dos médicos e da opinião, conduzida pela falsificação maciça numa imprensa médica vergonhosamente pró-laboratórios farmacêuticos é destinada a potenciar o crescimento do mercado dos medicamentos e, colateralmente, o dos produtos magros do setor agroalimentar.
Por exemplo o estudo Jupiter publicado em 2008, dedicado á mais recente das estatinas  - o Crestor da AstraZeneca (7,3 mil milhões de dólares de volume de negócios) mostra que nos dois grupos de pacientes,  quer nos sujeitos ao tratamento com o medicamento, quer no dos levados a ingerir um placebo, o número de óbitos é … o mesmo! Ou seja, os pacientes com estatina viam baixar significativamente a sua taxa de colesterol, mas não morriam menos por isso.
Até então convencidos  em como as empresas do medicamento atuam para o bem comum, os pacientes começam a olhá-las como aquilo que são: multinacionais como as outras, com acionistas mais exigentes quanto às curvas de vendas do que quantos aos reais benefícios dos mistérios da química molecular.

BANDA SONORA: Porque GRANDOLAR é preciso!

sábado, 2 de março de 2013

DOCUMENTÁRIO: «A South American Journey - Brasil»



No terceiro, e último, episódio da série da BBC protagonizada por Jonathan Dimbleby pelas terras da América do Sul, viajamos até ao Brasil, começando pela região amazónica, aonde se opõem duas grandes tendências a nível mundial: uma que pretende preservar esse verdadeiro pulmão da Humanidade e outra que anseia destrui-lo para aumentar a área de pastagens e exportar assim cada vez mais carne, cuja procura aumenta incessantemente nos mercados internacionais.
É, pois, uma vasta zona geográfica de grandes contrastes, a começar pela cidade de Manaus, que conheceu dias de glória nos tempos da produção intensiva da borracha - simbolizados no imponente edifício da Ópera local - e os de um declínio, que só começou a inverter-se alguns anos atrás. Agora que a cidade já está a rebentar pelas costuras, a ponte em construção para a outra margem do Amazonas é a resposta encontrada a nível federal. Que implicará a perda de mais uma imensa extensão de floreta virgem. Esse ecossistema aonde se encontram metade dos animais e plantas do planeta, muitas das quais com virtualidades medicinais ainda desconhecidas na farmacopeia ocidental.
A mesma voragem na exploração intensiva dos recursos naturais é visível em São Luís, aonde navios chineses chegam vazios e partem carregados de toneladas de ferro em bruto extraídas do riquíssimo solo da região. E justifica-se a apreensão: com a extração e consumo acelerado de tanto minério, o que será da sociedade atual, quando ele se esgotar?
Mamuna, um quilombo não muito longe dali, vive outro tipo de ameaça. Os habitantes, descendentes dos antigos escravos, que fugiam das roças para experimentarem formas de comunismo primitivo nesse tipo de explorações agrícolas, veem ameaçado o seu futuro, porque o Governo Federal, que deveria acautelar os seus direitos de cidadania, quer expulsá-los para implantar a base donde conta avançar para a exploração espacial. Uma luta difícil, mas que os mamunenses estão longe de dar por perdida.
E a viagem acaba no Rio de Janeiro aonde, depois de entrevistar a bela Heloísa, que levou Tom Jobim a criar em sua homenagem o inesquecível tema da Garota de Ipanema, Dimbleby acaba a sua viagem no Complexo do Alemão donde os traficantes de droga foram expulsos e aonde está a surgir um tipo de urbe mais conforme com os desejos de um país,  que se prepara para organizar o Mundial de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.
Para quem, como no meu caso, já não vai ao Brasil há uns bons quinze anos, o documentário da BBC dá para compreender como a sua transformação, então já percetível, se acelerou explicando-se que já esteja a ultrapassar a Inglaterra enquanto sexta potência económica do mundo.

VATICANO: e não habemus papam...


Numa reportagem a partir de Roma, aonde foi acompanhar o último dia de Ratzinger enquanto Papa, a repórter do «Público» Sofia Lorena escreve ter havido “católicos de coração apertado e sem poderem conter as lágrimas, invadidos por um vazio difícil de explicar”.
Foi curioso associar essas palavras às imagens de um documentário da BBC em que o jornalista Jonathan Dimbleby justificava o acelerado divórcio dos brasileiros com a Igreja Católica por causa do seu conservadorismo e da sobrestimada importância dada à solenidade da liturgia. O que seria uma notícia animadora se o resultado fosse um crescimento correspondente dos ateus e dos agnósticos  a essas desafeições, tornou-se num espanto ao constatarmos, segundo o mesmo filme, que a adesão passou a ser orientada para cultos evangélicos, capazes de organizarem violentos e pouco bíblicos combates de boxe para captarem novos fiéis. Durante uma parte das suas sessões de culto, dois musculados lutadores esmurram-se sem dó para darem depois lugar ao pregador, que logo põe os espectadores ainda carregados de adrenalina a entoarem hossanas à sua pervertida utilização dos textos bíblicos.
Para quem via de fora esse exemplo de proselitismo baseado no recurso aos instintos mais primários da população, a surpresa não impedia que se colocasse a questão do absurdo em abandonar uma crença baseada na grandiosidade do mistério divino pelo seu contraponto mais grotesco.
O que Sofia Lorena viu na Praça do Vaticano foi a expressão decadente de uma metafísica incompatível com os valores de um mundo moderno aonde Deus parece condenado na sua forma mais transcendente. Em seu lugar surge um Deus transformado no espantalho de um imenso número de pregadores vigaristas, que se aproveitam da ignorância e das frustrações dos estratos mais baixos das populações para ganharem influência naquilo que, no Brasil, se torna cada vez mais preocupante: a capacidade para influenciar as decisões políticas ao mais alto nível. Ou não dependa hoje Dilma Roussef do voto de um exagerado número de deputados influenciados por esses cultos. E não persista Marina Silva como uma das mais fortes candidatas às próximas presidenciais enquanto cabeça de cartaz desse tipo de superstições.
Mesmo para um ateu é com alguma pena que se antevê o vazio espiritual de um mundo aonde o génio dos antigos construtores de catedrais já não voltará a encontrar forma eficiente de expressão, porque substituído pelo folclore dos místicos de pacotilha.

sexta-feira, 1 de março de 2013

BANDA SONORA: Savina Yannatou e o coletivo Primavera


A inserção deste concerto aqui tem um objetivo: compensar quem não esteve esta noite no CCB a ver o concerto de Savina Yannatou no CCB e a deva conhecer. 
Desde 1996, que a cantora grega baseia o seu reportório em canções de amor ou de trabalho nos cancioneiros tradicionais do Leste Europeu e da sua transição para a Ásia. Daí que o concerto de Lisboa previsse canções da Grécia, da Itália, da Bulgária, da Sérvia, da Arménia, do Cazaquistão e da cultura iidiche.

LIVRO: «Amigos Influentes» de Donna Leon, Editorial Presença


Quando Guido Brunetti é visitado por um jovem burocrata jovem, que vem verificar a conformidade do seu apartamento com as plantas existentes na Conservatória de Veneza, não imagina estar perante a vítima mortal do homicídio, que começará a investigar dias depois.
Temos, assim, a abordagem da Veneza dos agiotas, dos drogados e dos funcionários corruptos, com Donna Leon a orientar o seu protagonista para o convívio com os pequenos comerciantes, que lhe servem de interlocutores privilegiados para entender as origens do que vai ocorrendo.
Já o escrevi aqui que, apesar de muito incensada e premiada, Donna Leon está a milhas de distância de Patricia Highsmith. Mas tem por si uma vantagem não despicienda: situa toda a sua ação em Veneza! Ora a cidade dos doges é extremamente sugestiva para criar uma atmosfera aliciante, que nos prende enquanto leitores. Nomeadamente, quando a autora se abstrai do fio da intriga e escreve trechos assim:
Brunetti passou a hora seguinte a refletir sobre a cupidez, vício para o qual os venezianos sempre tiveram uma propensão natural. La Sereníssima foi, desde o começo, um empreendimento comercial, pelo que a aquisição de riqueza sempre estivera entre os objetivos mais nobres para que um veneziano era educado a aspirar. Ao contrário dos esbanjadores dos sulistas, romanos e florentinos, que ganhavam dinheiro para o deitarem fora, que se compraziam em atirar para os rios copos e pratos de ouro para exibirem publicamente a sua riqueza, os venezianos cedo aprendiam a adquirir e manter, conservar, acumular e amealhar; também aprendiam a manter escondida a sua riqueza. É certo que os grandes palazzi que bordejavam o Grande Canal não falavam de riqueza escondida; muito pelo contrário. Mas esses eram os Mocenigos, os Barbaros, famílias tão luxuriantemente abençoadas pelos deuses do lucro que qualquer tentativa de disfarçar a riqueza teria sido vã. A fama protegia-os do mal da cupidez.
Os seus sintomas manifestavam-se muito mais nas famílias medianas, os gordos mercadores que construíram os seus palazzi mais modestos junto dos canais secundários, edificando-os sobre os armazéns para poderem, como aves nidificadoras, viver em contacto próximo com a riqueza. Aí, podiam aquecer os traseiros no borralho das especiarias e panos trazidos do Oriente, aquecê-los em segredo, sem mostrarem aos vizinhos o que se escondia por detrás das barreiras gradeadas das portas de água.
Ao longo dos séculos, essa tendência para amealhar fora-se infiltrando e enraizando na população em geral. Chamavam-lhe muitas coisas — parcimónia, economia, prudência — e o próprio Brunetti fora educado para as valorizar, a todas.  (pág. 153)
Para além do interesse nesta forma de nos descrever as idiossincrasias de Veneza poderão apontar-se outras virtudes à narrativa de Donna Leon: o acompanhamento da vida doméstica de Brunetti, mormente o seu relacionamento sempre ambivalente com a mulher, a filha e os sogros, e a constrangida convivência com um vice-questor vaidoso e incompetente, seu superior hierárquico no emprego. Sem esquecer a denúncia de um ambiente propício à afirmação duvidosa dos amigos influentes de que fala o título...