domingo, 24 de fevereiro de 2013

TEATRO: «Monstranum'S» de Leila Toubel


Em Tunis a Primavera Árabe arrisca-se a cair num rigoroso inverno para as mulheres, que tinham usufruído anteriormente de condições de igualdade quase ímpares no Magreb. Por estes dias é a própria democracia, que está ameaçada pelo fascismo islâmico, que tanto tem ascendido na região graças ao apoio de uma maioria de líderes europeus convertidos em idiotas úteis incapazes de dissociarem os seus «princípios» dos efeitos perversos, que comportam quando levados ao absurdo. E que insistem em repetir, quando condenam Assad na Síria e não vêem que os opositores a tal regime são tanto ou mais sanguinários do que ele.
No fundo, a nível interno é a mesma idiotice que têm revelado Francisco Assis, Augusto Santos Silva ou António Costa, quando condenam as legítimas contestações que os relvas vêm merecendo.
Todos os combates pela liberdade sem quaisquer confusões com o seu aproveitamento por quem não a respeita nem merece (os relvas aqui, os salafistas e os irmãos muçulmanos nos países do Norte de África), merecem ser realçados e é por isso que,aqui referenciamos a luta diária da dramaturga e encenadora Leila Toubel. Ela e os seus atores e técnicos desenvolvem um árduo esforço quotidiano com arte militante destinada a impedir que a Revolução seja pervertida em favor de quem a quer converter numa nova ditadura ainda mais obscurantista, que a de Ben Ali.
«Monstranum'S» é a peça em cena no teatro de Tunis e vê-la constitui para os seus espectadores um verdadeiro ato de cidadania.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

POLÍTICA: Cobre-te canalha na mortalha


A semana acaba com muitos comentadores a serem obrigados a posicionarem-se em relação aos protestos a que os ministros deste (des)governo têm sido sujeitos em diversas ocasiões e sempre com a «Grândola, Vila Morena» como mote sonoro.
Lamentavelmente - pelo menos para mim, que sou socialista - alguns dos mais conceituados dirigentes do PS têm convergido para um discurso “politicamente correto”, que tende a condenar os protestos e a anuir com o discurso de vitimização de relvas e seus cúmplices.
Para Augusto Santos Silva, António Costa ou Francisco Assis parecem estar em causa princípios democráticos essenciais, a começar pelo da liberdade de expressão. Mas basta ouvir a rua e as redes sociais para que se detete um total desfasamento entre essas posições e as do eleitorado tradicionalmente socialista.
O que defendem esses aparentes aliados de relvas teria cabimento se vivêssemos numa democracia normal, que não se achasse subvertida nos seus princípios fundamentais (o direito ao pão, ao trabalho, à habitação, à saúde e à educação). Ora toda a ação deste (des)governo tem sido orientada para o cerceamento dessas liberdades democráticas. O que impõe a questão: se os cidadãos ficam privados de todos esses direitos fundamentais, resta-lhes uma única alternativa, a da palavra.
Nos queda la palabra, como cantavam os Aguaviva!
E ela tem de se expressar exatamente da forma inversamente proporcional à da eliminação dos outros direitos. O que justifica a sua progressiva dimensão ensurdecedora, como se verificará, por certo, a 2 de março, quando, por muito que se cubram nas suas mortalhas, os canalhas sentirão quão nu vai o rei!
Como escreve Miguel Vale Almeida no seu blogue, em texto que, com a devida vénia, reproduzimos a seguir, estamos perante um processo revolucionário invertido. E em tempo de revoluções, seja das nossas, seja das dos nossos inimigos de classe, não se limpam armas. E os nossos escrúpulos deverão ser temperados pela necessidade de pôr fim a uma dinâmica, que nos irá infligir maiores sofrimentos.

POLÍTICA: Um processo revolucionário invertido


Parece-me bastante desviado o “debate” sobre a liberdade de expressão ou a adequação dos modos de manifestação, debate esse que se seguiu aos protestos durante as últimas aparições públicas de Miguel Relvas. A assimetria de poder, o facto de a democracia não se resumir ao voto, e a situação em que nos encontramos devia obrigar os “debatedores” a não colocarem as coisas no plano da aparente normalidade. A “normalização” da situação política é, aliás, a estratégia central do poder instalado. Ora, a situação que vivemos é profundamente anormal. Em primeiro lugar, vivemos sob intervenção externa, o que resulta numa limitação da soberania ainda maior do que a que já tínhamos – redundando numa limitação da democracia, portanto. Em segundo lugar, o governo que temos não só não cumpriu o que prometeu, como resolveu ir mais longe do que as exigências da troika. Em terceiro lugar, a oposição de esquerda encontra-se inoperante e cristalizada, justamente quando mais seria necessária a sua intervenção, e a figura do presidente da república simplesmente desapareceu. Em quarto lugar, a recessão e o desemprego atingiram níveis que estão perto do catastrófico, isto é, da insustentabilidade das condições fundamentais para uma democracia a sério. Em quinto lugar, o que está em curso é um processo revolucionário de destruição – e não de racionalização, como querem fazer crer – do sistema social em que temos vivido. Como ele é constitutivo das próprias condições da democracia, esta está claramente a ser destruída. Já alguém chamou à atual situação a ditadura da austeridade. Como não é uma ditadura clássica, as formas de a ela reagir tão-pouco serão clássicas. Se são as certas ou não, essa é outra discussão. Válida. E importante, e remetendo para questões de princípio. Mas, a meu ver, ela não pode ser começada, nem feita, sem se considerar primeiro o contexto em que vivemos. Note-se: ele nunca deve servir de justificação para impulsos antidemocráticos. Mas deve servir para pensarmos se o que nos vendem a partir do poder, da sua propaganda da normalidade e da sua atitude de virgens ofendidas, não será exatamente a ilusão de democracia. Quem me dera que pudéssemos estar a discutir o contrato social básico sobre o bom e o mau comportamento nas relações entre governantes e governados. Seria sinal de democracia a funcionar.
Este texto não serve para subscrever as posições de fulanos ou sicranos, para dizer se concordo ou não com os estudantes do ISCTE ou a minha opinião sobre a ética ou falta dela de Relvas. Serve para dizer simplesmente isto: vivemos um processo revolucionário invertido, de cima para baixo, uma mudança de regime à socapa, e uma situação análoga às guerras. Esse é o verdadeiro perigo. Ou o “mais verdadeiro”. Não fomos nós, eleitores, governados e contribuintes que suspendemos a normalidade do sistema democrático, a começar pela sua base, a democracia social.
Miguel Vale Almeida

BANDA SONORA: «Una Furtiva lagrima» pelo Rolando Villazon


No dia do seu aniversário aqui fica um registo do Rolando Villazon, quando liderava o pelotão dianteiro dos grandes tenores do nosso tempo. Agora a voz já não é a que era, mas continua a merecer a nossa atenção, mesmo que já sem os memoráveis duetos com a Netrebko.

POLÍTICA: O que iremos penar por causa dos erros do Gaspar


Para Pedro Silva Pereira a notícia da semana não foi a aparente mudança de política do Governo - que está longe de estar confirmada - mas sim o reconhecimento pelo ministro das Finanças do fracasso orçamental e económico da sua política de austeridade "além da troika".
Na sua crónica semanal no «Diário Económico» o antigo ministro socialista constata que, ao fim de vinte meses, o ministro fala, realmente, devagar. Infelizmente, estatelou-se depressa.
Depois dos sucessivos fracassos nas execuções orçamentais de 2012, as consequências são devastadoras para os portugueses: o erro de Vítor Gaspar pôs a economia em recessão profunda e atirou 250 mil portugueses para o desemprego em apenas dezoito meses.
A herança desta passagem da direita pelo poder será extremamente pesada para quem vier a seguir.

LITERATURA: Ciclo Lawrence Durrell (8) - «O Quarteto de Alexandria»


Lawrence Durrell começara a falar a Arthur Miller do seu novo projeto literário - que redundaria no famoso «Quarteto de Alexandria»! - em 1953. Mas, mesmo já o tendo planeado totalmente na cabeça, levaria três anos a escrever «Justine», o primeiro dos quatro romances da tetralogia, que surgiria em 1957 e lhe começou a garantir o seu definitivo sucesso internacional.
O segundo romance, «Cléa» surgirá em 1959, logo seguido de «Balthazar» e de «Mountolive».
Estas obras constituem uma experiência ambiciosa e única quer na forma, quer no conteúdo, já que elas convergem para um tema comum.
«Justine» é o único a utilizar modelo narrativo clássico, já que os outros três não respeitam qualquer progressão cronológica por serem no dizer do autor as «três dimensões do espaço».
As três primeiras partes (…) não devem ser implantadas espacialmente e não se interligam em episódios. Sobrepõem-se, cruzam-se numa relação puramente espacial. O Tempo pára. Só a quarta parte é que representará o Tempo e constituirá um seguimento da história. «Balthazar» não é a continuação de «Justine», mas seu irmão gémeo. (…) O romance tenta escapar à conceção bergsoniana do Tempo (…) e da durabilidade através da noção de Espaço-Tempo, escreveu Durrell num texto de apoio a «Balthazar».
Durrell não escapa a uma certa grandiloquência e hermetismo, que fundamentarão críticas futuras. A intenção é clara: temos de identificar o velho mundo. É o que quis fazer com esta série de romances… quebrar a personalidade e mostrar-lhe as cdiferentes facetas. Uma personalidade integrada é coisa que não existe. Os meus personagens não existem na realidade, são inventados. Tratam-se de marionetas que vou virando de acordo com ângulos diferentes e sempre sob um mesmo cenário de fundo.
O solipsismo e o narcisismo estão omnipresentes nesta opção antirrealista em jogo de espelhos  capaz de multiplicar os pontos de vista, mas também segregando-a de um mundo exterior.
Esta estratégia estará na origem da composição de uma obra caleidoscópica: subentendo o tema da intersubjetividade, da interligação, da relatividade enquanto o artista Darley, simbolicamente isolado numa ilha no momento em que escreve os três romances, garante uma perspetiva suplementar.
A  intriga do «Quarteto de Alexandria» congrega diversos temas já presentes nos livros anteriores para, depois, criar uma representação da unidade na desintegração.
Cada um dos volumes constitui um todo, que se reduz à condição de fragmento quando é justaposto a outro fragmento. Assim se impõe a coexistência de verdades diferentes, senão mesmo contraditórias.
Não é que, relativamente ao «Caderno Negro» a inovação seja significativa: mas em vez de teorizar o seu estilo, Durrell concretiza-o...

FILME: «Le Nouveau Protocole» de Thomas Vincent (2008)




Quando surgem notícias de novos vírus a espalharem-se em surtos epidémicos, que começam numa área restrita e, depois, se espalham a nível global, fico logo desconfiado. A primeira pergunta, que faço é: qual o laboratório farmacêutico, que criou essa estirpe para a qual já tem preparada a cura, logo comercializada sob a forma de uma nova vacina ou outro tipo de medicamento.
Só para não ir mais longe, como poderemos esquecer a histeria, que se apossou do país há uns quatro ou cinco anos atrás, quando, a pretexto de uma gripe de efeitos terríveis, o governo Sócrates foi obrigado a investir uma fortuna nas vacinas, que depois acabaram em grande parte inutilizadas por excederem o prazo de validade. Sem contar que os líquidos desinfetantes, as máscaras e outros apetrechos, com que se visava evitar possíveis contágios.
É verdade que os laboratórios farmacêuticos internacionais gastam fortunas em investigação, que carece ser reembolsada através dos medicamentos posteriormente comercializados, mas não podemos esquecer a lógica capitalista em que assenta o seu negócio com a previsível pressão dos acionistas para verem maximizados os dividendos dos seus investimentos. Temos então meio caminho andado para se limarem os escrúpulos com que os gestores dos grandes laboratórios possam ter iniciado a sua atividade no ramo.
O filme de Thomas Vincent parte desses pressupostos e insere-se na mesma filiação em que se conta, igualmente, «O Fiel Jardineiro» de Fernando Meirelles, baseado no romance de John le Carré.
Temos, assim, um pequeno madeireiro da região francesa dos Vosges, cujo filho morre num acidente de viação. Mas terá sido efetivamente o efeito de uma condução desastrada ou o resultado dos efeitos secundários de um medicamento, que tomava contra as enxaquecas e ainda em fase de experimentação?
Essa é a dúvida nele inculcada por uma ativista  apostada em denunciar os negócios obscuros da indústria farmacêutica, que já terão estado na origem da morte do seu defunto esposo.
Embora passe grande parte do filme a ponderar se ela é credível ou uma mitómana, Raoul acaba por levar até ao desiderato previsível a sua investigação, que tende a confirmar o comportamento criminoso dos líderes dessa indústria. E que melhor local senão Davos, durante a realização da sua cimeira, para matar a tiro aquela que identifica como a responsável pela morte do filho.
Poder-se-á torcer o nariz a demasiadas cenas de ação e a algumas soluções pouco verosímeis no argumento, mas «O Novo Protocolo» não deixa de ser um entretenimento razoavelmente carpinteirado e com abordagem de um tema a que convém dedicar a nossa atenção. Porque se existe campo para uma gangsterização da indústria em causa, será improvável, que ela não se tenha já traduzido em estratégias já há muito implementadas...


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

BANDA SONORA: o Artea Quartet a interpretar o 2º Andamento do Quarteto nº 14 de Schubert


Nestes tempos difíceis em que vemos tanta miséria e sofrimento espelhados à nossa volta - basta estarmos atentos às ruas das nossas cidades! - a música do tão infeliz Schubert serve perfeitamente de acompanhamento musical. Para comprovar que o sofrimento é compatível com a mais nostálgica beleza.

POLÍTICA: justifica-se a contestação á contestação?


As redes sociais, que tanta importância assumirão no previsível sucesso da grande manifestação de 2 de março (salvo se choverem picaretas!), vêm reagindo com desagrado às reações de alguns antigos dirigentes do Partido Socialista à contestação a que os ministros deste (des)governo têm enfrentado em cerimónias públicas.
Para alguns a surpresa virá do facto de tais posições provirem de gente teoricamente alinhada com António Costa, quando, pelo contrário os colaboradores mais próximos de António José Seguro, como foi o caso de Carlos Zorrinho, mostraram-se muito mais comedidos na condenação a tais iniciativas de agitação política.
É verdade que os dirigentes em causa (Augusto Santos Silva, Francisco Assis) ainda terão presentes os episódios igualmente complicados em que se viram envolvidos em circunstâncias políticas diferentes, quando representavam o poder sujeito a contestação. Talvez esse trauma lhes obnubile a mente em nome dos grandes princípios, que norteiam a democracia. Mas, na realidade, não existe similitude entre esse passado em que protagonizaram esse papel de vítimas de contestação e este presente em que os relvas, os passos coelhos ou os macedos, vão sentindo os efeitos das suas políticas. O nível de contestação e a sua dimensão não são comparáveis. Porque, aonde no passado, podiam-se identificar organizações corporativas por trás dos manifestantes, assiste-se neste momento a evidências de desagrado em formatos quase inorgânicos.
No dia seguinte a esses episódios recentes, a maioria das pessoas ouvidas na rua ou nos transportes manifestava grande compreensão por quem desafiara os ministros. O que significa um risco de isolamento para quem, na oposição ao (des)governo, se coloca formalmente ao lado deste último em questões de aparente liberdade de expressão. Porque ninguém é ingénuo hoje em dia ao ponto de ignorar o desajustamento de meios na emissão de mensagens políticas entre o poder e quem o contesta. O poder continua a contar com o domínio das instituições políticas e de comunicação social, enquanto o contrapoder só consegue expressar-se quando impõe a sua voz em todas as ocasiões passíveis de lhe garantirem a visibilidade nesses mesmos espaços. Daí a reação autista de tais dirigentes, que ficariam muito melhor no retrato se se limitassem a recordar como o PSD e o CDS provam agora do veneno, que tanto gostaram de ministrar quando eram oposição e se dinamizavam em todas as ações destinadas a pôr em causa o Governo de José Sócrates.
Como lembrava o Pedro Marques Lopes numa crónica recente no «Diário de Notícias»: Qualquer dia, os partidos têm a máquina mas não têm os eleitores. (…) A máquina, por definição, não é problema - nós precisamos delas para viver -, o problema é quando a máquina/partido se afasta das populações, que é exatamente o que está a acontecer.
E quando isso se tornar ainda mais evidente o contrapoder dispensará facilmente quem não tiver mostrado suficientemente determinação para denunciar a ilegitimidade democrática destes testas de ferro das oligarquias bancárias e dos fundos de investimentos especulativos… o que implicará o crepúsculo dos velhos partidos e a emergência de novas organizações mais adaptadas à dinâmica transformadora da História.



BANDA SONORA:Ibrahim Ferrer Live Jazz à Juan


Prova em como os mágicos Ibrahims não se limitam a ser os da Rua Bleu, que ainda vão sendo revividos no Poço Bispo, no Teatro Meridional, temos aqui a evocação do Mestre Ferrer por ocasião do 84º aniversário do seu nascimento. Pena que ele já cá não esteja para os comemorar...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

POLÍTICA: A banalidade de um discurso tão presunçoso quanto oco!


Na medida do possível vou evitando dizer mal do partido para o qual pago as quotas, mas há coisas, que, verdadeiramente, me tiram do sério. E uma delas é esse conselheiro acácio, que acompanha regularmente o secretário-geral nas suas peregrinações e capaz de escrever nacos de prosa como este, que passo a transcrever a partir do «i», depois de alertado pelo blog do Paulo Pedroso: (o futuro do socialismo democrático está em) uma nova agenda de modernidade que, sem abandonar políticas abrangentes e colectivas de emancipação para largas franjas da população ainda em necessidade, abraça uma realidade de serviço público multidimensional, mais flexível aos interesses criticamente apreendidos por uma nova geração de cidadãos autónomos (produto do Estado Social), sem comprometer a igualdade de oportunidades, a solidariedade inclusiva e uma efectiva redistribuição de riqueza.
João Assunção Ribeiro - o autor dessa pérola! - distingue-se, de facto, por nunca dizer nada mais do que banalidades, disfarçando-as com um vocabulário rebuscado mas completamente oco de sentido.
Quando nos exasperamos com a verbosidade de um gaspar, que entra em morosas verborreias para nada dizer, podemos estar cientes de virmos a encontrar, um «artista» semelhante num governo liderado por seguro. Com a desvantagem de parecer menos convincente e bastante menos inteligente!


POLÍTICA: Neoliberalismo, não é isto? (bis)


Dentro da mesma linha do post anterior está um outro texto da autoria do Nuno Serra no mesmo blog («Ladrões de Bicicletas»): O governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas está assim a colocar um número crescente de famílias e cidadãos no vazio, no limbo do total abandono. Mas não se pense que este é apenas o dano colateral do fracassado processo de ajustamento orçamental. Este é o mundo sinistro que Gaspar e Santos Pereira conceberam desde o início para «sair da crise»: quanto maior o desamparo, quanto mais desregulamentada a legislação laboral, quanto mais espicaçado o simples instinto de sobrevivência, tanto melhores as condições para competir através de baixos salários e assim reverter a balança comercial. O consumo interno, a economia doméstica, valem tanto como as pessoas que a constituem: nada. 
E quase é desnecessária a pergunta: se o neoliberalismo não é isto, o que será?

POLÍTICA: Neoliberalismo, não é isto?


Uma das discussões, que tem agitado os meios académicos, quando se aborda o salazarismo, é saber se ele foi ou não fascista.
A escola Rui Ramos bem se esforça por reduzir o regime a uma mera classificação de regime autoritário, aliás na mesma linha com que a direita chilena tenta, hoje em dia, igualmente, minimizar os custos da herança histórica colhida de Pinochet.
Num paralelismo singular com esse exemplo, que continua a representar a velha disputa entre os defensores do velho e do novo, há quem conteste a designação de «neoliberal» associada ás políticas do atual (des)governo.
Há cerca de uma semana o Alexandre Abreu punha os pontos nos is num post publicado no blog «Ladrões de Bicicletas»: Quando apodamos de "neoliberais" políticas como as deste governo, volta e meia lá surge quem invoque a etimologia da coisa para argumentar que medidas como o aumento da carga fiscal ou as sui generis nacionalizações da banca em que o Estado rói o osso e deixa a carne têm pouco ou nada de liberais e muito de intervencionistas, pelo que o epíteto "neoliberal" seria automaticamente descabido.
Entendamo-nos de uma vez, portanto: independentemente da etimologia, o laissez-faire económico é, quando muito, uma característica apenas secundária e amiúde dispensável do neoliberalismo. O que é absolutamente central é a predação do capital sobre o trabalho e a natureza, a expansão do privado à custa do comum, a prioridade ao lucro relativamente às necessidades humanas. O Estado e as suas possibilidades coercivas constituem, não um alvo a abater, mas um instrumento indispensável a mobilizar. Com extraordinário sucesso nas últimas décadas, acrescente-se.

POLÍTICA: Por onde andarão os ecologistas?


Se tenho preocupações genuínas com o futuro do planeta e com a necessidade de preservarmos os ecossistemas um pouco por todo o mundo, raramente sinto grande respeito pelos ecologistas. Nomeadamente os da Quercus, que sempre se manifestaram muito ativamente, quando o partido socialista estava no governo e, agora, se revelam tão silenciosos.
Se ninguém se deixa iludir pela ligação de Heloísa Apolónia e dos seus «verdes» ao PCP, também deveria ser evidente a conotação entre os outros ecologistas com a direita desde que esta arvorou o pimenta como estrela ascendente. Faz por isso todo o sentido o post colocado por Augusto Santos Silva na sua página pessoal do Facebook em que se interroga por onde andarão eles: Dantes tão pressurosos em denunciar poluições, lixos, desrespeitos pela natureza, violações das Diretivas, atrasos nos PROTs, violações da REN, da RAN e já não sei que mais - e agora tão calados, tão mortiços, tão invisíveis?(…) Terão hibernado? Então, porque não acordam, agora que se já sente um cheirinho de primavera?
Ou nos enganamos muito ou cá estaremos a ouvi-los, quando este ciclo político acabar e o psd e o cds voltarem para a oposição!

BANDA SONORA: Luigi Boccherini / Luciano Berio: Ritirata notturna di Madrid (1975)


Boccherini teria feito hoje 270 anos se fosse vivo!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

BANDA SONORA: El amor brujo - Manuel de Falla


O lindíssimo tema do Manuel de Falla concebido sob a influência da cultura cigana e em que o objetivo é uma dança de esconjuro ao defunto para que não se intrometa no amor entre os amantes...

LITERATURA: Amos Oz e o conflito israelo-palestiniano



Amos Oz nasceu em Jerusalém em 1939 numa família de gente letrada e de professores, alguns dos quais militavam nas correntes sionistas de direita, que tinham emigrado para Israel nos anos 30, vindos da Rússia e da Polónia.
Em 1954, quando ainda só tem 15 anos, Amos Oz revolta-se contra a autoridade paterna e vai viver e trabalhar para o kibutz Houlda, onde conclui o ensino secundário. Depois de cumprir o serviço militar volta para os campos de algodão da cooperativa, mas começa a publicar os primeiros textos na influente revista Keshet. O que motiva a assembleia do Kibutz a enviá-lo para a Universidade Hebraica de Jerusalém para que aí estude filosofia e literatura. Licenciado, ele regressa a Houlda para combinar a escrita com os trabalhos agrícolas e o ensino.
Em 1967, enquanto reservista numa unidade de tanques, Amos Oz combate na frente do Sinai durante a Guerra dos Seis Dias, repetindo a experiência seis anos depois nos montes Golã durante a Guerra do Kippur.
Começando a ser convidado para dar aulas em Oxford e nos EUA, Amos Oz toma a difícil decisão de deixar o kibutz em 1986, instalando-se em Arad, aonde o clima seco do deserto é particularmente indicado para a qualidade do seu filho asmático.
Doravante ele concilia a atividade de escritor e de professor com a de militante ativo nos movimentos pela paz, em defesa de um compromisso israelo-palestiniano baseado no mútuo reconhecimento de dois Estados soberanos.
Colocado perante a possibilidade de um único Estado laico aonde os dois povos coexistam pacificamente, ele descrê completamente da sua viabilidade.

POLÍTICA: Triste sina a de ter nascido cigano nos Balcãs!


A Sérvia conta atualmente com 250 a 500 mil ciganos. Muitos deles fugiram do Kosovo, durante a guerra de 1998-1999. Sem emprego nem futuro, sobrevivem graças às exíguas ajudas sociais nos acampamentos instalados em terrenos situados nas periferias das cidades.
Em 2005 a União Europeia impôs como seu objetivo, para os dez anos seguintes, a integração dos ciganos de toda a Europa. Ora, para os que vivem na Sérvia, nada mudou. Salvo o desejo de escapar à precariedade, deixando o país em busca de melhor vida para a família.
Passaram-se, entretanto, catorze anos desde o fim do conflito e estes refugiados, doravante considerados como sérvios, estão coartados na liberdade de viajarem. Os pedidos de asilo na Alemanha aumentaram significativamente, mas mantém-se aí a falta de oportunidades já que, quem ali conseguiu entrar, não conta com dinheiro nem com competências suficientes para encontrar a estabilidade de um emprego.
Agora, pressionada pelo aumento desses pedidos de asilo, a União Europeia e alguns dos seus estados membros, confrontam a Sérvia com a necessidade de fecharem as fronteiras a tais populações, sob pena de adiamento ad eternum da pretendida adesão ao seu espaço comum. Reforçaram-se por isso mesmo os controles na fronteira, o que só serviu para melhorar o negócio dos passadores clandestinos.
Apátridas, estigmatizados num país aonde o desemprego atinge 30% da população, os ciganos sentem-se abandonados pela Europa.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

LITERATURA: Ciclo Lawrence Durrell (7) - «Panic Spring»


Em 1937 Lawrence Durrell publica «Panic Spring» sob o pseudónimo de Charles Norden, recorrendo uma vez mais a muitos detalhes da sua própria autobiografia.  A começar pela ilha de Corfu, aonde então vivia, e que serve de modelo para Mavrodaphne, supostamente o espaço onde tudo se desenrolará. É aí que chega Marlowe, depois de se ver retido em Brindisi por causa da guerra civil na Grécia. E, mesmo assim, o acesso à ilha jónica só é possível graças ao barqueiro Cristos, que trabalha normalmente para o proprietário da ilha, o rico Rumanades.
Numa interligação com o romance anterior («Pied Piper of Lovers»), Marlowe encontra aí dois dos seus personagens, Gordon e Walsh, com quem conversa longamente durante o primeiro capítulo ao som do gramofone.
Nos capítulos seguintes, Durrell ensaia diversas opções estilísticas consoante aborda a personalidade dos diversos personagens. Por exemplo, no terceiro, é o referido Rumanades, quem merece a sua atenção, ao ser descrito como alguém capaz de enriquecer, mas de falhar estrondosamente no seu casamento. A febre, que contrai ao deixar-se ficar à intempérie enquanto divagava sobre a esposa perdida, ser-lhe-á fatal. E existe a ameaça latente de um nazismo em ascensão.
Trata-se, pois, de um romance experimental, que Durrell quis deixar esquecido como algo de descartável. Mas merecedor de atenção por quanto elucida sobre as inquietações do autor nesses anos de procura de uma identidade literária e pessoal, enquanto se ia colocando, com pertinência crescente, a possibilidade de uma nova guerra mundial.


DOCUMENTÁRIO: «Désert d'Atacama – La vie sans eau» de Carolin Reiter (2012)


O deserto de Atacama no extremo norte do Chile possui imensas matérias-primas no seu subsolo. A indústria mineira explora o deserto mais árido  do planeta, deixando atrás de si um espetáculo desolador.
Durante milénios, os habitantes conseguiram cultivar nessa terra difícil, mas sem água, que as minas captam para satisfazer as suas necessidades colossais, essa atividade parece condenada à extinção a mais ou menos curto prazo.
O documentário de Carolin Reiter mostra as inquietações dos incas dessas aldeias andinas, que se recusam a baixar os braços perante essa ameaça. Vemo-los, por exemplo, num domingo na missa do Padre Pato, cuja igreja constitui ponto de peregrinação dos habitantes da região.
Patrício Cortez é o verdadeiro nome do padre de Ayquina, cuja santa padroeira é a Virgem de Guadalupe, que é venerada em toda a região. Mesmo os que vivem na cidade, a uma hora de distância, deslocam-se de propósito para garantirem a bênção para a respetiva família.
Se essas camponeses abandonaram as suas aldeias no altiplano chileno foi porque se viram privados de água. De facto, já há cerca de vinte anos, que as nascentes  foram  privatizadas em proveito das poderosas minas da região. Os ribeiros florescentes do passado tornaram-se em modestíssimos fluxos de água. Daí que o Padre Pato não saiba como alimentar a esperança dos seus crentes, limitando-se a incitá-los a lutarem por reverem os contratos em que se sentem enredados e que lhes faculta uma parcela mínima da água de que necessitam.
A água é imprescindível para que a mãe- natureza, Pacha Mama, lhes seja pródiga. Mas agora ela é pertença das poderosas multinacionais. Daí que os camponeses apenas consigam cultivar modestas courelas e alimentar uns quantos lamas.
Os cientistas estão bem conscientes dos perigos latentes para os ecossistemas da região. Por isso mesmo procuram solução na dessalinização da água do oceano ali mesmo ao lado. Mas para os camponeses de Ayquina qualquer solução daí obtida já virá demasiado tarde.