quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

DOCUMENTÁRIO: «Não me Esqueças!» de David Sieveking



O que é que acontece quando, de súbito, todas as recordações do passado ficam apagadas?
«Vergiss mein nicht», o documentário de David Sieveking, que se estreou há uma semana nas salas alemãs, conta a história de Gretel, a mãe do realizador, a quem a demência senil transformou.
Mediante cenas emotivas, temos um processo de consciencialização, que mistura tristeza e alívio. Porque, muitas vezes, também significa, deixar partir.
Foi para dar algum descanso ao pai, que David Sieveking se mudou para a casa deles. Mas bastam-lhe alguns dias para se sentir completamente esgotado. A mãem que sempre fora tão independente, ficou encerrada no casulo do esquecimento. As recordações são uma espécie de ilhas apenas pressentidas no meio do nevoeiro. Ela perdeu não só a história de todo o seu passado, mas também quem são os que a rodeiam. Confunde o filho com o marido, este com um estranho, e muitas vezes nem sequer sabe quem são um e o outro.
David Sieveking investiga, então, o passado da mãe: descobre assim a história de uma rebelde envolvida nos movimentos revolucionários de 1968, vigiada pelos serviços secretos, e também o seu papel de apresentadora num programa de televisão.
A presença da equipa de rodagem do filme em sua casa tem um efeito revigorante na paciente. Subitamente ganha iniciativa  e recupera uma certa alegria em viver. A demência abana a família ao mesmo tempo que a reconfigura de uma forma diferente. As relações perdem os enquadramentos anteriores, mas ganham em inocência e em doçura.
Acaba por constituir uma história comovedora e estimulante sobre a família, o esquecimento e as despedidas àquela que foi mãe, sogra, avó e esposa.

POLÍTICA: Liderança, Marxismo e Dimensão do Estado


Da viagem diária pelas redes sociais, pela blogosfera e pelos jornais que se vão publicando, assinalarei aqui três textos particularmente interessantes pelo conteúdo e por quanto refletem uma perspetiva acutilante sobre estes tempos atuais.
O tema da liderança do Partido Socialista foi abordado por José Vítor Malheiros no «Público» de uma forma, que não subscrevo na totalidade, mas de que em grande parte me reconheço. Sobretudo na falta de carisma de António José Seguro e na maior consistência de António Costa:
Nos últimos anos, fomo-nos habituando à ideia de que António Costa seria o melhor a que podíamos aspirar como primeiro-ministro, se considerássemos os políticos à esquerda do centro.
Não sendo concebível uma maioria eleitoral de esquerda sem o PS, o primeiro-ministro a sair de uma eventual maioria de esquerda teria de vir daquele partido e Costa parecia ser o mais potável.
Tem uma carreira de governante prestigiado, tem sido um presidente de câmara aceitável e capaz de gerir alianças, parece determinado mas sensato, tem a suficiente agressividade política mas não parece ser comandado pelos seus ódios pessoais, demonstra preocupação social, consegue construir um discurso alternativo ao do Governo ainda que na variável português suave, tem à-vontade e a suficiente capacidade de expressão e argumentação (…) e, o que é essencial num líder político, não põe as sobrancelhas em acento circunflexo para se dar ares de estadista.
Porque acredito que ainda vamos a meio da História, e não no seu fim, perspetivo ver o Partido Socialista em consonância com os seus eleitores em vez de se cingir ao exclusivo querer dos seus militantes.
Outro tema do dia foi a da presença de Fernando Ulrich numa das Comissões Parlamentares e a sua resposta sobranceira à solicitação de João Galamba para que pedisse desculpa a quantos portugueses se têm sentido insultados com as suas palavras. Reage Sérgio Lavos no «Arrastão»:
O que esperar de alguém que nasceu e viveu sempre de forma privilegiada, que descende de famílias que vivem do trabalho dos outros há décadas?
Alguém que vive completamente alheado da realidade de 99% dos seus concidadãos?
Alguém que não percebe como é ofensivo comparar-se a pessoas que já nascem a perder em relação a ele e aos da sua classe?
E ainda há quem ache que a luta de classes é coisa ultrapassada... em tempos de transferência de recursos dos mais pobres para os mais ricos (basta olhar para os prejuízos do BPI que se transformaram em lucros no pior ano de sempre para a economia portuguesa, o ano em que milhares ficaram desempregados e milhões muito mais pobres), nunca a ideia de Marx foi tão actual.
A exemplo de Sérgio Lavos, também acredito na inquestionável pertinência do marxismo nos dias que correm.
E Daniel Oliveira escreve no «Expresso» um texto muito lúcido sobre a corrupção e a qualidade dos políticos, batendo-se pela necessidade de um Estado mais forte:
Os políticos não são mais corruptos do que eram. São apenas mais fracos, porque se limitam a gerir um Estado mais fraco numa sociedade atomizada que não pode ser representada através de narrativas coerentes.
Quem pensa que a melhor forma de combater a corrupção é retirar ainda mais o Estado da vida social e económica, reduzir o papel dos partidos políticos e dissolver as grandes clivagens ideológicas não compreende as razões profundas desta fraqueza.
A falta de qualidade da classe dirigente não é a causa, é a consequência da fragilidade do Estado. Porque não se pode esperar que os melhores escolham ser dirigentes que pouco ou nada dirigem.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

LITERATURA: Ciclo Lawrence Durrell, 2 - «O Caderno Negro» (livro 1)


O terceiro romance de Lawrence Durrell foi publicado em Paris em 1938, quando a amizade com Henry Miller implicou alguma influência do «Trópico de Câncer», que este publicara quatro anos antes. E a opção pela edição francesa, apesar dos enfáticos elogios de T.S. Eliott e Cyril Connoly ao manuscrito, teve a ver com a necessidade de evitar o puritanismo censório prevalecente em Inglaterra, já que tinha por personagens, alguns seres aterrorizados pela sua sexualidade e por isso a utilizavam enquanto instrumento de terror. Eles sofrem tal anorexia espiritual, que se impedem de se ligarem a outrem, condenando-se a uma solidão dentro do universo boémio londrino, apresentado como desmoralizado, niilista, sujo, angustiado e interessado num esoterismo livresco típico do puritano mais devasso.
Durrell pretende demonstrar que a sexualidade aterroriza por ser intrinsecamente humana e inevitável onde quer que seja.
Surgem assim dois narradores: Laurence Lucifer, que vive em Corfu e conta as suas experiências passadas quando era professor e vivia no Regina, hotel decadente de Londres. E há Herbert Gregory, autor de um diário íntimo - o tal «Black Book» - que Lucifer encontrara no quarto do hotel.
Num processo estilístico, que utilizará amiúde no futuro, Durrell põe Lucifer a falar de Gregory e o narrador a comentar as opiniões daquele. Existem, pois, dois narradores a recorrerem ao mesmo material em duas épocas distintas, o que gera uma aparente confusão particularmente bem resolvida pelo autor.
No Livro I Lucifer apresenta os personagens (Tarquin, Chamberlain, a prostituta Grace, Gregory, etc), projeta-os no espaço e fora do tempo (Vivo unicamente na minha imaginação a-temporal). A solidão está omnipresente, assim como a sexualidade. Os narradores, que nunca se chegam a encontrar, são outros tantos personagens.
Quanto a Gregory, temos a sua dimensão temporal no diário, mas ao tê-lo utilizado por Lucifer, torna-se - mais do que uma cronologia - uma espécie de projeção unidimensional.
O hotel povoa-se assim de sombras que, em vez de irem do passado ao presente, ficam retidos em «motivos».
Na confusão de uma intriga quase surrealista aonde artistas e prostitutas se cruzam, a sexualidade acaba por triunfar e dá o seu tom ao livro.




BANDA SONORA: Noturno da Suite nº 2 da Carmen de Bizet



No ciclo agora iniciado sobre os espetáculos apresentados na Folle Journée de Nantes do transato fim-de-semana voltamos às Suites compostas por Bizet para interligar as árias da sua derradeira ópera. Aí foi a Sinfonia de Varsovia, que interpretou as Suites para Carmen de Bizet, sob a direção de Jean Jacques Kantorow.
O Nocturne é um andante molto para servir a ária de Michaela no 3º ato, que começa pelo solo da trompa e continua no violino solo.

TEATRO: «L’Homme qui se hait» no Thêatre Nacional de Chaillot


Está este mês na Salle Gémier do Théâtre National de Chaillot uma das peças mais interessantes de quantas se representam atualmente nas salas parisienses, resultante da parceria estabelecida com Denis Podalydès.
A nova peça, «O Homem que se Odeia» foi criada por ele e por Emmanuel Bourdieu, dupla já testada com sucesso na criação de «O Caso Jekyll», representada no mesmo teatro na primavera de 2011.
Temos então um protagonista, que teria podido ensinar filosofia num liceu ou numa universidade. E talvez até o tenha feito!
Mas mais vale acreditar que existe no pensamento do professor Peter Winch uma dimensão que resiste a tal possibilidade. Uma qualquer forma de inadequação fundamental, devida decerto a essa sua incapacidade em nunca falar para nada.
Falar é para esse homem refletido o que há de mais sério no mundo. Quando ele se exprime é, pois, para tocar a verdade, ir ao fundo das coisas. Nada menos do que isso.
Trata-se, pois, de uma espécie de Dom Quixote, que pode suscitar graça, ternura ou ironia.
Para difundir a sua retórica, o professor Winch fundou a Universidade Filosófica Ambulante, que lhe permite deslocar-se enquanto filósofo itinerante, acompanhado da sua amada esposa, Madame Winch, e do seu fiel assistente, Monsieur Bakhamouche. Mas nunca houve quem verdadeiramente reconhecesse essa instituição.
Percorrem, assim, as estradas para chegarem às salas municipais e aos teatros de província, dormindo em pensões baratas. Um trajeto errante entre desentendimentos e incompreensões, com a progressiva demonstração da completa desadaptação desse suposto mestre a um mundo em que não consegue encontrar verdadeiramente lugar.


POLÍTICA: Dos despedimentos bolsistas e dos índios da praia inteira


O aumento do desemprego em Portugal tem muito a ver com a destruição sistemática da economia, promovida por este (des)governo apaixonado pelas exigências da austeridade a qualquer preço.
Mas, porque convirá olharmos para a realidade muito para além do que ela se deixa entrever a curta distância, convirá estar atento às lutas sociais, que se desenham nos países mais desenvolvidos na Europa, reveladoras das tendências para que evoluem as práticas do capitalismo e as formas de as combater.
Em França, o governo Ayrault julgou conquistar a paz social mediante o acordo obtido na concertação social a 11 de janeiro entre o grande patronato e algumas das confederações sindicais (embora sem nelas se contar a influente CGT), mas a realidade está a sobrepor-se a essa expetativa já que as greves e manifestações contra os despedimentos em grandes empresas (Peugeot, Goodyear, Virgin, etc.) ganham progressiva expressão e dão novo significado às esperanças alimentadas com a vitória presidencial de François Hollande.
Essas lutas ganham ainda maior legitimidade, quanto é um facto comprovar-se, em muitos casos, de se tratarem de «despedimentos bolsistas». E o que significa esta expressão? São despedimentos a ocorrerem em empresas aonde os balanços contabilísticos comprovam lucros de muitos milhões de euros nos anos recentes, mas que deslocalizam ou fecham fábricas, porque os tais endeusados mercados reagem sempre da mesma maneira às notícias de possíveis despedimentos: subidas espetaculares em Bolsa, que acrescentam dígitos às fortunas deslocalizadas dos seus acionistas.
Existe, assim, uma guerra evidente entre os gordon gekkos do capital financeiro e quem só pode sobreviver mediante uma economia sustentável no objetivo de criar riqueza e emprego.
Quando o único objetivo se limita a ser o de aumentar o mais obscenamente possível os lucros dos acionistas, ainda que à custa de muito sofrimento infligido a quem apenas acreditou na possibilidade de ganhar honradamente o bastante para alimentar a família, deixou de existir qualquer possibilidade de racionalidade na organização social e económica. E algo de tumultuoso se prefigura para um futuro não muito distante.
É por isso que o debate atualmente em curso dentro da Esquerda portuguesa, seja através do Congresso das Alternativas, seja dentro do Partido Socialista, ganha particular expressão. Porque os tempos anunciam-se turbulentos e convirá saber-lhes cavalgar as tendências.
É que, quem julgar que todos quantos têm sido prejudicados com a guerra declarada do Capital contra quem trabalha, aceitam reduzir-se ao suposto conformismo de sobrevivência dos sem abrigo, engana-se redondamente. Decididamente poucos estarão dispostos a «aguentar»!
E assim, serão esses mesmos gekkos (que aqui se chamam ulrichs, salgados, amorins, belmiros ou santos) a arriscarem-se a deixar o escalpe nas batalhas em que os índios inverteram o curso dos acontecimentos e revelam-se mais prometedoramente fortes do que os cowboys apostados em transformar o mundo num faroeste sem lei! É que, além de mais numerosos começam a dominar o verdadeiro armamento com que se ganham as guerras do futuro: as redes sociais!!! E que estarão na génese dos novos quinze de setembros!!!



LIVRO: « Superman est arabe : De Dieu, du mariage, des machos et autres désastreuses inventions » de Joumana Haddad (Actes Sud)


Nunca me entusiasmei com as quedas sucessivas de Saddam Hussein, Bem Ali, Moubarak, Kadhafi ou, futuramente, de Assad. Por muito ignóbeis ditadores, que eles tenham sido ou ainda sejam, pedem meças a outros com quem o Ocidente parece conviver sem qualquer escrúpulo como é o caso da família real saudita, do emir do Qatar ou do xeque do Bahrain. Serão estes últimos menos autocráticos do que os demais? Ou distinguem-se apenas porque impõem regimes, direta ou indiretamente, teocráticos e restringem liminarmente quaisquer direitos, liberdades e garantias às suas cidadãs femininas?
Quando o Ocidente apoiou as guerras ou revoluções no Médio Oriente foi sempre para derrubar regimes laicos e em que a mulher conquistara, mesmo que mais formalmente do que na realidade, alguma igualdade perante os homens face à lei.
Por isso subscrevo plenamente a opinião da escritora libanesa Joumana Haddad para quem as ilusórias Primaveras Árabes poderão redundar em autênticos Outonos para as mulheres.
E, no entanto, elas também desfilaram aos milhares em Tunes e no Cairo, em Trípoli ou em Sanaa, desejosas de se fazerem ouvir e de verem reconhecidos os seus direitos, mormente os de derrubarem os estereótipos de opressão e de passividade, que lhes envenenam os dias.
Esse combate pela democracia, pela liberdade e pela dignidade humana - que lhes pareceu possível enquanto as revoluções estavam na rua - vai cedendo espaço à desilusão e á conformada aceitação de continuarem adiadas as suas mais legítimas aspirações.
Joumana Haddad assume que «Superman est un Arabe» é bem mais do que um manifesto feminista, redigido enquanto ia esperando aviões em diversos aeroportos. Trata-se de um grito de revolta contra o sexismo, o machismo, o patriarcado e a prevalência da religião nas cabeças dos povos do Próximo Oriente.
Nesse sentido, Joumana Haddad inscreve-se na linhagem da terceira vaga dos feminismos, ao lado de Naomi Wolf ou Élisabeth Badinter, e dissocia-se da suposta dialética eterna entre os dois sexos (da representação uniforme da mulher enquanto vítima impotente e do homem enquanto tirano impiedoso) em proveito de uma igualdade sem identificação ou indiferenciação dos sexos.
De entre muitos aspetos admiráveis na prosa da autora existe a identificação plena com o ateísmo, não se eximindo de listar todas as razões, e mais algumas, para não acreditar em deus, seja ele qual for, dentro ou fora dos três monoteísmos. Porque basta descrer dele, na sua expressão crua e falsamente agradecida: Obrigado meu deus pelos bebés a morrerem de fome em África ou pelos bebés a morrerem de ódio na Palestina».
Dentro do mesmo registo ela coloca a questão de ser sequer exequível sentir-se judeu, cristão ou muçulmano e questionar o intrínseco patriarcado de todas as religiões, sendo a resposta obviamente negativa.
De facto, TODAS AS RELIGIÕES OPRIMEM A MULHER COM O MESMO FERVOR MISÓGINO!
Jubilatóriamente blasfemas e escandalosas, as teses de Joumana Haddad espelham a sua coragem e o anseio pela simultânea libertação da Mulher e do Homem árabes.
O livro permite uma leitura muito liberta de regras, podendo-se começar e prosseguir por onde se quiser, porque os temas vão-se sucedendo: o casamento, a guerra dos sexos, o pecado original ou o envelhecimento!
Existem poemas memoráveis como o dessa «Receita para uma insaciável», que ilustra o tema da «Desastrosa invenção da castidade», e é uma pequena joia dedicada ao amor canibal, onde se suga, se mastiga, se morde, de bebe, se abre o peito, se rasgam as costas, se cortam as veias, e enfim se devora quem se ama. O corpo torna-se no espaço absoluto do desejo, que a mulher celebra, mas também aniquila com o seu infinito apetite.
Igualmente curiosas as repetições obsessivas, que se desejariam gritar. Como essa hilariante carta dirigida aos homens para lhes facultar vinte e nove conselhos sobre a boa utilização do seu pénis e de entre os quais, ao acaso, se escolhe este: O amor requer um campo de batalha em vez de uma sala de operações esterilizada!
Na vertente mais descritiva, Joumana Haddad multiplica reminiscências, evocações e testemunhos, que se acumularam desde que, em criança, se escondia debaixo dos lençóis para ler às escondidas os livros mais ou menos licenciosos da cultura árabe. Depoimentos elucidativos como o da koweitiana Buthayna L.: aprendi inglês para poder pronunciar a palavra sexo sem ter de baixar os olhos. Ou da libanesa Nada K: fui violada por esse mesmo tio, que não perdia nenhuma das missas de domingo. Ou ainda o do empresário libanês Samir H.: Sinto-me quase sempre ameaçado. Barbas compridas por todo o lado. O número de mulheres veladas a aumentar exponencialmente.
A autora, que já publicara «J’ai tué Shéhérazade» alguns anos atrás, confirma ser, nos dias de hoje, uma das vozes mais interessantes, quando se trata de saber quem contribui para mudar as mentalidades nos países árabes.   

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

DOCUMENTÁRIO: «A contas com a mafia da Internet» de Dorina Herbst (2013)


Quando procurava emprego na Internet, Ursula M., uma calma reformada de Leipzig, estava longe de imaginar que não tardaria a pertencer a uma rede de branqueamento de capitais. Ela passou a pertencer aos 70% de alemães, que confessam ter sido vítimas de vigarices na rede.
Evoluindo muito rapidamente a cibercriminalidade inclui quer a simples impostura até aos esquemas complexos capazes de chegarem a desestabilizar um país ao beneficiarem de legislações diferentes entre os diversos países.
Lauri Altman era secretário de Estado da Defesa em 2007, quando o seu país se viu sujeito ao maior ataque informático da História e que implicou a paralisia dos sites governamentais, dos bancos, das telecomunicações e de todos os motins e pilhagens que vieram a seguir.
A realizadora Dorina Herbst investigou este assunto durante dois anos entrevistando quem se viu ludibriado por estas novas mafias, mas também os investigadores apostados em desmascara-las.
Através da colaboração estabelecida com os colegas do FBI, os policias alemães Mirko Manske e Stefan Methien disfarçaram-se de compradores de programas contaminados, computadores desviados ou criptogramas de cartões de crédito roubados.
Do primeiro contacto por email e falsos portais comerciais ou fóruns ilegais até às prisões e processos judiciais, o documentário ilustra os novos rostos da nova delinquência e dos que a combatem.

FILME: «Vingança» de Johnnie To (2009)



Temos Johnnie Hallyday na pele de Costello, um homem completamente perdido na violência de Hong Kong, aonde viera vingar a filha, o genro e os netos, assassinados por uma tríade. Mas uma bala alojada no cérebro leva-o a perder, pouco a pouco, todas as suas referências.

FILME: «Ligações Perigosas» de Stephen Frears (1988)



Na França do século XVIII a marquesa de Merteuil (Close) propõe ao seu antigo amante visconde de Valmont (Malkovitch), que desflore a jovem Cécile de Volanges  (Uma Thurman), acabada sair do convento para se casar com outro dos habituais frequentadores do seu leito.
Interessado em recuperar os favores da influente marquesa, Valmont empenha-se na tarefa sem qualquer dificuldade de a bem executar, investindo bem mais esforço na conquista da recatada madame de Tourvel (Pfeiffer), que está hospedada em casa da sua tia…
Comparando com esta versão, a de Milos Forman, sua contemporânea é bem mais ligeira e libertina. Frears prefere o lado maquiavélico e perverso das personagens, com Glenn Close e John Malkovich jubilatórios na sua crueldade, trocando diálogos cínicos e pérfidos. Pfeiffer é, por seu lado, magnífica na casta Mme Tourvel, incapaz de resistir ao fogo da paixão.
A par deste trio, destacam-se dois jovens atores de talento como o são Keanu Reeves no papel do cavaleiro Danceny e Uma Thurman (então com 18 anos!) no de Cécile Volanges.



LITERATURA: Ciclo Lawrence Durrell, 1 - Durrell antes de Alexandria


Dediquemo-nos, pois, a Durrell, excelente escritor inglês do século transato, de que a Dom Quixote publicou recentemente uma nova edição do seu «Quarteto de Alexandria».
No ano passado cumpriu-se o centenário do seu nascimento, já que ele nasceu a 27 de fevereiro de 1912 na zona de Jalanda, situada no sopé dos Himalaias.
O pai dirigia então a Tate Iron and Steel Company, grande empresa metalomecânica responsável pelo fornecimento de materiais para as grandes infraestruturas britânicas na sua joia da coroa, nomeadamente para os seus caminhos-de-ferro.
Foi na região aonde se produz o célebre chá darjeeling que o jovem Larry iniciou os estudos, depois prosseguidos em Inglaterra a partir de 1924, primeiro em Southwark, e depois na St. Edmond’s School de Canterbury.
A morte do pai corta-lhe o percurso académico e obriga-o a encontrar forma de ganhar a vida: no célebre bairro de Bloomsbury, conhecido pela sua intensa vida cultural, arranja diversos empregos de recurso, entre os quais o de pianista no Blue Peter Night Club.
Aos 23 anos demonstrava determinação inquebrantável e total autoconfiança no seu talento literário. Daí profissionalizar-se, enquanto escritor, ao mesmo tempo que desposa a talentosa pianista Nancy Myers.
Nesse mesmo ano de 1935 surge o primeiro romance: Pied Piper of Lovers, embora date de quatro anos antes o primeiro livro de poesia: Quaint Fragments.
É também por essa altura, que vira costas aos friorentos invernos britânicos e se instala com a família em Corfu, aonde enceta a escrita de The Black Book, romance com influências do Trópico de Câncer de Henry Miller, que conhecera em Paris e de quem se tornara grande amigo.
Como tem de pagar as contas, assina um segundo romance de fácil leitura e escassa ambição - Panic Springs - e colabora com Miller e Parlès na direção do jornal Booster, pertencente ao American Country Club de Paris, que revolucionam nos sete números seguintes, publicados até 1939, e já com o novo título de Delta.
Esses anos entre 1935 e 1939 serão intensos com as frequentes viagens entre Corfu, Londres e Paris, novas e influentes amizades (a de T.S. Elliott por exemplo) e torrencial produção literária, quer em prosa, quer em poesia.
Ciente da impossibilidade de contornar a censura nos países de expressão inglesa, publica The Black Book em Paris, em 1938, sob o título de Carnet Noir.
Mas a Guerra altera por completo o ambiente em que vivia, e em 1941, Durrell e a família instalam-se primeiro em Creta, e depois no Egipto, aonde é nomeado diretor do serviço de imprensa estrangeira no Cairo e em Alexandria.
Trata-se de época de grandes tensões, inclusive no seu casamento com Nancy com quem acaba por romper...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

BANDA SONORA: «Suite nº 1 de Carmen»


Em 2013 as Folles Journées de Nantes foram dedicadas à música espanhola e francesa, pelo que o universo da «Carmen» de Bizet teria de se fazer presente. Interpretou-a a Orquestra Sinfonia Varsovia dirigida pelo maestro Jean Jacques Kantorow. 
Como não temos aqui disponível esse concerto aqui fica uma alternativa no youtube.
Recordemos que «Carmen» é a última e mais famosa ópera de Bizet, tendo por pano de fundo a região de Sevilha.
Bizet escreveu duas suites que se encadeiam a partir dos temas da ópera e que foram transcritas por Ernest Guiraud, um colaborador do compositor.
A 1ª Suite começa com um Prelúdio em Allegro moderato, que se interliga com a Aragonaise, uma animada dança espanhola com que se iria iniciar o 4º ato da ópera.
O Intermezzo é um noturno, que se inicia com a flauta e com a harpa, para passar depois para as demais secções da orquestra, com as cordas particularmente afirmativas.
A Seguidilla é a da canção sedutora de Carmen para impressionar Don Jose na taberna de Lilas Pastia.
«Os Dragões de Alcala» volta a ser um allegro moderato que constitui uma pequena marcha encetada pelos fagotes, mas depois acompanhada por todos os instrumentos de sopro.
E, enfim, temos «Os Toreadores», com que a ópera inicia, marcha festiva que acompanha a comitiva dos toureiros a caminho da praça aonde irão lidar.







POLÍTICA: Questões de ética (ou de falta dela!)


Diferenças de ética: anteontem no «Expresso da Meia-Noite», o Ricardo Costa não participou como moderador num programa em que se discutia a situação interna do PS e em que existiria um evidente conflito de interesses relativamente ao facto de se falar abundantemente do irmão. Hoje nas manipulações de Marcelo, a Judite de Sousa, apesar de consorte de Seara, não viu nenhum problema em se fazer presente e ajudar o «professor» na sua ladainha semanal anti-PS, sobretudo quando se tratava de «enterrar» António Costa.
Em questões de ética estamos, pois, conversados. Mas será surpreendente que a apresentadora em causa tenha tanta falta de escrúpulos? Pessoalmente só confirmei opinião já com barbas...

sábado, 2 de fevereiro de 2013

DANÇA: Marie Claude Pietragalla em La tentation d'Eve»


Um convite a 3 minutos de pura beleza a cargo da coreógrafa e bailarina Maria Claude Pietragalla. Tanto mais justificado quanto hoje é dia do seu aniversário...

FILME: «Soldier of Fortune» de Edward Dmytrik



Um dos piores crimes que me repugnam é o da delação. Haver gente, que comunga dos objetivos de uma luta libertadora e que, depois, perante a polícia, trai os companheiros, sempre me indignou. Daí a minha imensa admiração pela coragem de Nick Nolte e de Ed Harris quando, há alguns anos atrás, se recusaram a bater palmas a Elia Kazan, quando a Academia de Hollywood o resolveu homenagear durante uma das suas cerimónias anuais de entrega dos Óscares.
Essa rejeição do homem leva-me a desvalorizar, admito que de forma dogmática, as obras por ele assinadas, passíveis de adjetivação elogiosa por muitos que como é o caso de «Esplendor na Relva» ou «Há Lodo no Cais».
Mas se Kazan traiu logo que se sentiu apertado pelo cerco dos crápulas do senador McCarthy, sempre me deixou ainda mais siderado o exemplo de Edward Dmytrik, que chegou a estar preso juntamente com os demais elementos dos «Dez de Hollywood», se exilou na Europa e, em 1951, veio a abjurar tudo quanto defendera quatro anos antes, denunciando vinte seis dos seus antigos amigos como tratando-se de comunistas a execrar.
O prémio dessa traição traduziu-se na decisão dos produtores envolvidos em tal caça às bruxas em atribuir-lhe projetos de grande ambição de que este «Soldier of Fortune» é um bom exemplo.
Rodado em 1955, em Cinemascope, constituía o tipo de cinema de grande espetáculo, que visava contrariar a importância crescente da televisão. Por isso contava com um dos atores mais importantes da época, Clark gable, que, mesmo sentindo-se demasiado velho para este papel de galã, entrou entusiasticamente nele, porque satisfazia o seu ativismo anticomunista em que tinha Reagan como notório comparsa.
A história não pode ser mais linear: Susan Hayward vai procurar o marido a Hong Kong dado que ele teria desaparecido no outro lado da fronteira com a China três meses atrás, quando aí cuidava de fotografar bases militares, nunca mais dando sinal de si.
A determinação com que ela enfrenta o meio hostil em que aterra só é comparável com a “sorte” que a bafeja ao encontrar Gable na pele do mafioso que controla os negócios de contrabando na região.
Será ele quem, por amor fulminante, lhe irá resgatar o prisioneiro a Cantão, correndo risco de morte perante os terríveis comunistas, mas ficando com ela como prémio final, depois de garantir o regresso do fotógrafo a casa.
Garante-se o happy end e mais uma brilhante vitória da democracia em versão yankee!

BANDA SONORA: «Four Last Songs» de Richard Strauss, interpretadas por Margaret Price


Em 1948, quando compôs estes quatro lieder baseado em poemas de Hermann Hesse e Eichendorff, Richard Strauss era um octogenário que deixara a sua destruída Alemanha para viver com a mulher, a soprano Pauline de Ahna em Montreux.
Estava então a despedir-se de um género típicamente germânico de que fora o derradeiro cultor com um total de 174 temas, quarenta dos quais previstos para o acompanhamento orquestral. Mas o compositor já não assistiria à estreia destas obras, já que morreu alguns meses antes de, em 1950, a soprano Kirsten Flagstad as defender, acompanhada pela Philarmonia Orchestra então dirigida por Wilhem Furtwangler.
Neste pequeno filme temos a soprano Margaret Price a interpretar as quatro canções mas, no espectáculo de ontem, na Gulbenkian, foi Karita Mattila quem delas se encarregou.


POLÍTICA: O anticiclone


Compreendo o estado de espírito de Sérgio Lavos no blogue Arrastão, quando aborda as obscenas afirmações de Fernando Ulrich e a nomeação de um secretário de Estado com um passado mais que nebuloso nos negócios do BPN e os enquadra na conclusão de «eles estarem a ganhar» perante a nossa passividade:
a crise está a ser uma oportunidade irrepetível para testar a elasticidade moral do regime. Tudo se tenta: desde um Miguel Relvas perpetuando-se na sua cadeira para continuar a favorecer amigos em negócios, até ao primeiro-ministro mais demencialmente mitómano que já passou pelo Governo, tudo é, e será, possível. Este é um Governo que ostensivamente desrespeita e despreza a Constituição, a lei fundamental do país. Este é um Governo que fará tudo ao seu alcance, legal e ilegalmente, para derrotar o regime que conquistámos com o 25 de Abril. É um Governo de revanchistas, de reaccionários que pretendem o fim de todas as conquistas sociais que a democracia conseguiu. E nós estamos calmamente a assistir a tudo, como meros espectadores de uma tragédia. E agirmos apenas como espectadores, quando somos os principais prejudicados, ainda torna maior a tragédia.
Mas, na verdade, não estou assim tão pessimista perante este momento de aparente bonança.
Existe alguma dúvida quanto à formação de centros de altas pressões, cada vez mais intensos, que tenderão a deslocarem-se para este provisório marasmo? Seria descrer nas leis da Ciência. E estas costumam encontrar metafóricas similitudes, quando traduzem em acontecimentos sociais o que são os muito estudados fenómenos da Natureza!
É por isso que os ulrichs não tardarão a perceber que não aguentam não! E irão ser os únicos a sentir saudades deste tempo de pesadelo para a maioria dos portugueses...

POLÍTICA: Mais marés que marinheiros!


Há alguns dias atrás, no blogue, considerei uma coincidência feliz ter visto o «Ricardo II» do Shakespeare no mesmo dia em que se prefigurava a contestação ao secretário-geral do PS e à mudança de orientações políticas do partido.
Foi, por isso, com um sorriso cúmplice, que li a crónica de Fernanda Câncio no Diário de Notícias de ontem. Porque a forma como descreve o sucedido na noite de terça-feira foi, de facto, o de uma coisa shakespeariana: um rei fraco rodeado de lugares-tenentes aos gritos de deslealdade e conspiração ante o anúncio de uma pretensão ao trono, uma reunião à porta fechada e um final em que o monarca, depois de chamar e deixar chamar tudo a quem possa pô-lo em causa, abraça o concorrente que não chega a sê-lo e assume o compromisso de com ele trabalhar em prol da união do reino.
Em Shakespeare, como em geral, o pano nunca cai depois de uma cena destas. É só o princípio da intriga e de sangrentas congeminações que inevitavelmente nos revelam a natureza das personagens e da sua relação com o poder.
Porque a admiração pelo dramaturgo inglês só vai crescendo à medida da sua evidente atualidade, também subscrevo a expetativa da jornalista: é que, quase sempre, nas suas peças o poder fraco acaba mal, vergando-se às inevitáveis correntes históricas contra as quais procurou impor travão.
Como diz o ditado. Há mais marés que marinheiros!


POLÍTICA: ver sonhos nas realidades


É impressionante o unanimismo dos comentadores afetos ao (des)governo no alívio com que fazem do “sucesso” da ida aos mercados a pedra de toque da garantia de sobrevivência do governo até ao fim da legislatura. Independentemente de todas as demais razões para os crer demasiado apressados em tentarem passar os sonhos por realidades, a verdade é que a curva do desemprego será um dos principais fatores a mitigarem-lhes em breve as ilusões...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

DOCUMENTÁRIO: »Gerhard Richter Painting» de Corinna Belz (2011)



No âmbito do festival Kino, que está a decorrer em Lisboa, tivemos a oportunidade de ver o excelente documentário, que Corinna Belz rodou em 2009, enquanto Gerhard Richter preparava as telas destinadas a uma exposição aprazada para uma das mais importantes  galerias nova-iorquinas.
Estamos assim convidados para mais de hora e meia de testemunho do processo criativo de um artista, que se recusa a encarar a tela com perspetivas apriorísticas, já que pintar já é em si o próprio pensamento. Ele confessa, aliás, que julgara provável a aposta em cores claras, mas o resultado saldara-se por um conjunto de obras maioritariamente dominadas pelo cinzento, cor frequente na sua obra, primeiro porque a ela chegou através da fotografia a preto-e-branco, mas depois autonomizada dessa influência para valer por si. Richter reconhece que pintar é deixar-se conduzir pela própria tela, como se aceitasse dela as orientações, que comandam os seus braços.
É claro que o filme é pouco elucidativo sobre períodos mais recuados da obra de Richter, e nomeadamente pelas razões que o levaram a trocar, em 1961, a antiga Alemanha de Leste pelo vizinho ocidental, com a consequência incontornável de nunca mais se poder encontrar com a família deixada para trás. Mas não era intenção de Corinna Belz assegurar essa perspetiva global de um percurso de mais de sessenta anos de produção laboriosa e com vários ciclos criativos . O que esteve na génese do documentário foi a construção da obra nesta fase tardia da vida de Richter, com o abstracionismo a impor-se como método e distribuições quase aleatórias das cores e pinceladas e sua redistribuição com réguas de grandes dimensões. Sem esquecer as raspagens, que devolvem à superfície as tintas entretanto cobertas por outras camadas posteriores.
Muito embora se confesse constrangido pela invasão permanente das câmaras, Richter não deixa de concluir em jeito de síntese, que o ato criativo não deixa de ser extremamente divertido. Por muito que se revele exaustiva essa permanente sucessão de eventos sociais para que se torna obrigatória a sua presença.
Custos de ser um dos principais artistas do nosso tempo!