domingo, 27 de janeiro de 2013

POLÍTICA: A coligação contranatura de criptofascistas com gente bem intencionada!


A blogosfera e as redes sociais continuam a servir de plataforma de propaganda aos que insistem na caracterização da política como espaço de afirmação de uns quantos ambiciosos, apostados em se assenhorarem do «tacho» ou do «pote» e enriquecerem ilicitamente no mais curto prazo possível.
A recente demissão de um secretário de estado, acusado do favorecimento de um familiar para emprego na câmara que dirigira, vem demonstrar como a sociedade portuguesa se tem progressivamente dotado de mecanismos de regulação e controle capazes de identificar, dificultar, e até bloquear, as aspirações de quem insiste nesse tipo de arrivismo.
Instituições como o Banco de Portugal, a CMVM, o Tribunal de Contas e os Tribunais Administrativos surgem, com influência crescente, a desmascarar e a punir os infratores por muito que eles se mostrem tão renitentes em aceitar essa nova realidade. Os macários, que prevaricam como se se mantivesse a lei do faroeste, vão descobrindo a impossibilidade de serem bem sucedidos, restando-lhes a saudade dos tempos em que os loureiros (dias ou valentins), os costas, os isaltinos, os limas e outros lídimos representantes do olimpo cavaquista iam-se valendo das falhas da nossa organização política e judicial para enriquecimentos, que são um ultraje às obscenas dificuldades em que o país foi mergulhado.
A esse titulo o jardim da madeira só pode ser visto como mera aberração do tipo de curiosidade de feira de monstros em vias de extinção, ao mesmo tempo que miguel relvas vai descobrindo à sua custa, quer na TAP, quer na RTP como a conjuntura virou, frustrando-lhes as jogas de chico espertismo em que se foi enleando.
É por isso mesmo que, voltando ao princípio, impressiona como tantos dos que defendem a viragem progressista ao rumo do país, ainda dão ouvidos e se fazem megafone das insidiosas campanhas do «correio da manhã» ou das execráveis cabalas de medina carreira com que, ideologicamente, se deveriam à partida incompatibilizar.
A História ensina-nos que a implantação de regimes autoritários, como os fascismos dos anos 20 e 30, do atual regime húngaro ou dos sucessivos Estados norte-americanos governados pelo tea party, fundamentou-se na suposta necessidade de regeneração de sociedades minadas pelos corruptos e pelos degenerados. Nesse sentido a atual sanha de Putin contra os homossexuais constitui um exemplo tradicional da manipulação dos preconceitos e dos instintos primários das camadas mais retrógradas das sociedades para levar por diante as legislações mais restritivas das liberdades públicas.
É a ilustração daquele conhecido texto atribuído a Brecht em que se começam por levar os comunistas, depois os socialistas, depois os ciganos, por fim os judeus, acabando-se por aprisionar os que ficaram impávidos e serenos a assistir à progressiva castração dos direitos das sucessivas minorias.
É por isso mesmo que, quando se atiçam umas almas inquietas em torno do suposto escândalo da reforma antecipada da Presidente da Câmara de Palmela, invocando o facto de se tratar de uma comunista - e que útil se revela denunciar a falsa moral dos comunistas, mesmo que por exemplo no caso de Sócrates, eles tenham primado por liderarem muitas das campanhas de assassinato de carácter contra ele instigadas! - a reação pública deveria ser de indignação por uma razão completamente oposta: como é possível que, ao fim de vinte anos de atividade a servir os cidadãos enquanto edil, uma pessoa cesse o mandato e fique sem sequer o recurso ao subsídio de desemprego?
Por um lado exige-se (e bem!), que seja irrepreensível no desempenho das suas funções, e por outro impede-se a sua sobrevivência quando as cessam.
É por isso mesmo que sempre defendi, e continuarei a defender, a justa remuneração dos cargos públicos, como forma de a eles atrair os mais competentes e os mais avessos a promiscuirem os bens coletivos com os privados em exclusivo proveito destes.
Razão, enfim, para insistir na denúncia das campanhas justiceiras, que recorrem frequentemente à calúnia e à difamação mais abjeta, como forma de preparem o terreno aos «impolutos» salvadores, depressa revelados enquanto horríveis Hydes saídos da casca dos atraentes paulos morais, desculpem Jekylls!!!
O papel da esquerda no regresso à condução dos destinos do país só poderá ser  a do contínuo reforço dos meios de regulamentação das atividades económicas e financeiras e essa, sabemo-lo bem!, constitui uma linha fundamental de fratura com as perspetivas da direita por agora dominante!

POLÍTICA: pressa, muita pressa...


Faria bem a umas quantas pessoas com responsabilidades políticas no maior partido da oposição volverem à Dialética de Hegel para não se sentirem tão assustadas com a vaga de fundo, que começa a contestar a atual direção. Da tese e da sua antítese, nasce invariavelmente uma síntese bastante mais forte e vencedora.
Por muito que António José Seguro persista em fazer o estafado número do «isto prova que o PS tinha razão» a verdade é que o seu discurso não cola, mostrando-se incapaz de gerar a definitiva rejeição do eleitorado pelas malfeitorias de passos e companhia. Nesse sentido a atual direção do PS tem sido o melhor abono de família com que a coligação de direita tem contado para manter-se, mesmo que periclitante, nas rédeas do poder.
Bastou ver a pungente participação do secretário-geral no «Opinião Pública» da Sic Notícias para constatar que os portugueses gostariam que ele se esclarecesse em relação ao legado deixado pelo Governo de José Sócrates. Mas, por natureza tíbio, Seguro preferiu mudar sempre se assunto, como se lhe escaldasse nas mãos.
Enquanto socialista continuo confiante, a exemplo de muitos outros portugueses, em como a História virá a fazer justiça ao legado do Governo de Sócrates, sobretudo na primeira das suas legislaturas. Quanta a saudade de um país, que apostava nas energias renováveis, na investigação científica, no inglês e nos computadores (os Magalhães, que até servem agora para a polícia inglesa e eram parodiados pela direita estúpida, que já então predominava!) para todos os níveis escolares, na qualificação das escolas públicas, na criação de novos hospitais, no lançamento de grandes obras públicas geradoras de empregos a montante e a jusante de todas elas, etc, etc, muitos etc.
Sócrates foi derrubado pela conjunção de dois fatores essenciais: a crise o subprime, que retirou fluxos monetários aos mercados financeiros de um dia para o outro, e o papel de idiotas úteis de uma extrema-esquerda bloquista e comunista em favor de uma direita em quem viam, enquanto alternativa, o cumprimento da lógica do quanto pior melhor.
O que se seguiu foi a tomada de assalto do partido por uma direção em completa dissonância com o que a esquerda ocidental tende a ser, se se cumprirem as expectativas dos seus mais argutos líderes. Que tenderão a dar mais importância à voz dos eleitores do que à dos seus cada vez mais míopes militantes.
Ora se os eleitores rejeitam os discursos mentirosos de quem lhes promete alhos e lhes dá bugalhos - e em termos de Pinóquio o nariz de passos coelho ganhou uma hiperdimensão comparada com a de Sócrates, apesar dos enxovalhos a que este se prestava nas manifestações da tal coligação bloquista-comunista! - não aceitam a rejeição do sonho tal qual lhes promete Seguro. Um líder que pretende ganhar votos a dizer, que só prometerá o quanto se souber capaz de concretizar, diminui-se logo à partida e dá provas de frouxidão, porque no âmago de qualquer eleitor existe sempre a expectativa de que o façam sonhar.
Ora se um líder, além de não se revelar suficientemente visionário para pressentir as dinâmicas do curto e do médio prazo e as não souber canalizar em função dos interesses do seu povo, não merece ser eleito.
Por muito que tenha visto muitas das suas promessas frustradas, Sócrates tinha esse carácter, quando se dizia apostado em puxar pelas energias mais positivas dos portugueses, motivando-os para se excederem e queimarem as etapas que os aproximassem dos mais avançados povos europeus.
Que tinha uma forte coligação a travá-lo foi-se constatando nas sucessivas campanhas de assassinato de carácter de que foi alvo e na forma como os ulrich, os ricciardi, os salgados e os jardins gonçalves lhe foram fazendo a cama até ao xeque mate lançado com a lamentável cumplicidade de teixeira dos santos.
Infelizmente António José Seguro não mostrou até agora uma pálida aproximação á sua grandeza, justificando os receios de quem o teme capaz replicar a mediocridade de Venizelos que, na Grécia, conduziu o outrora poderoso PASOK à condição de grupúsculo irrelevante.
Não é isso que quero para o partido em que milito há 27 anos. Por isso sou dos que tenho pressa, muita pressa em ver mudado o presente estado das coisas...

ARTE: Max Ernst no Museu Albertina de Viena



Florestas imbricadas, fortificações desabitadas, criaturas fabulosas (frequentemente pássaros) - os universos do pintor surrealista Max Ernst (1891-1976) nada perderam do seu potencial de fascínio. Um dia ele disse: um pintor está perdido quando se encontra.
Nenhuma outra citação poderia resumir melhor esse pintor visionário nascido na Alemanha: na sua obra a contradição é uma constante, nunca deixando de experimentar, sempre à procura de novos meios de expressão artística.
Com técnicas como a de transferir uma imagem em relevo marcando uma tela colocada por cima dela, ou a raspagem do pigmento na tela, ele revolucionou a arte. Ernst que nunca pós os pés numa escola de arte e estudou filosofia e história da arte, influenciou várias gerações de pintores. Mas, para além das pinturas e das suas estranhas esculturas, devem-se-lhe igualmente os célebres romances-colagens com histórias fantásticas.
Na sua vida pessoal ele era um hiperativo ávido de liberdade. Em 1922, incompreendido e revoltado, deixa Colónia e vai para Paris aonde convive com os surrealistas, que rodeavam André Breton e Alberto Giacometti. Considerado um «estrangeiro inimigo», chega a ser preso por duas vezes até sair de França na direção dos EUA aonde se exila em 1941.
O Museu Albertina de Viena consagra-lhe atualmente uma grande retrospetiva com cento e cinquenta quadros, colagens, esculturas e livros ilustrados, englobando todos os períodos, invenções e técnicas do artista do século XX.

DANÇA: «Futur 6» da Companhia Gauthier Dance



Bailarinos a movimentarem-se ao ritmo dos tambores japoneses - os taiko - ao mesmo tempo que os tocam. É um dos momentos fortes da Gauthier Dance no seu novo espetáculo Future 6.
A conhecida companhia de Estugarda prova, uma vez mais, a sua diferença, rejeitando a presunção enfatuada em proveito da ligeireza, do refinamento e da surpresa ao estilo do seu diretor, Éric Gauthier.
Há cinco anos o canadiano, antiga estrela do Bailado de Estugarda, fundou o Gauthier Dance com um único objetivo: desempoeirar o ballet dos últimos 150 anos e reinventá-lo para um público jovem
Esta nova companhia tornou-se tão reputada que outros grandes coreógrafos passaram a criar obras especificamente para ela. É o caso do novo espetáculo, Future 6, que se estreou há quinze dias.
Tudo está no título: Eric Gauthier está convencido em como as suas coreografias já anunciam a dança de amanhã.
Foi o próprio Gauthier a imaginar a coreografia de Takuto, que obrigou os seus bailarinos a ter cursos de percussão.
As outras peças foram imaginadas por Jirí Bubenícek, Itzik Galili, Cayetano Soto, Stephan Thoss e Marco Goecke. Com este último a criar uma coreografia para um só bailarino: o próprio Eric Gauthier!

MÚSICA: Joseph Calleja, um novo Pavarotti?



Na transmissão que ontem foi possível ver no Grande Auditório da Gulbenkian da «Lucia de Lammermoor» de Donizetti, a partir do Met de Nova Iorque, Joseph Calleja desempenhou o papel de Edgardo, dando réplica à Natalie Dessay.
Se o espetáculo serviu para a soprano francesa regressar a um dos seus mais emblemáticos papéis em que já triunfara na mesma sala na abertura da época de 2007/2008, também confirmou Calleja como um dos principais tenores da atualidade. Levando alguns dos seus mais entusiásticos apreciadores a considera-lo um novo Pavarotti.
E, no entanto, ele foi em tempos um assumido fã do heavy metal, chegando a cantar num grupo de rock, que praticava esse tipo de música. Mas cantar tinha sido um (bom) hábito seu desde criança, porque participara antes no coro da escola e no da igreja. Razão para ouvir frequentemente a ordem: «pára lá de cantar!».
Um dia descobriu na televisão o filme em que Mário Lanza protagonizava o papel de Caruso. E foi a rendição definitiva a essa nova viragem no seu percurso. Aos 19 anos já assinava o seu primeiro contrato com uma editora discográfica. Dezasseis anos depois ele é um dos cantores de ópera mais requisitados pelos grandes palcos de ambos os lados do Atlântico. E lança o álbum Be My Love - A Tribute To Mario Lanza, em homenagem ao ídolo da sua adolescência.  Que constitui também um espetáculo em tournée europeia em que assume um único objetivo: divertir o seu público.
Mas não teremos a possibilidade de o ver passar por Lisboa. Se o (des)governo de passos coelho reduziu em mais de 70% o orçamento do São Carlos, transformando a nova temporada numa quase anedota de mau gosto, a ópera transformou-se num tipo de espetáculo para ver apenas quando viajamos para as grandes cidades europeias…

sábado, 26 de janeiro de 2013

DOCUMENTÁRIO: «O Regresso dos Extremistas à Europa» de Laurent Delhomme e de Alexandre Spalaikovitch



A crise financeira, primeiro, e a económica, que se lhe associou, tem trazido a toda a Europa um lastro de desesperança perante o futuro imediato, que tem servido para movimentos de extrema-direita se afirmarem progressivamente com uma implantação como há muito se desconhecia.
A relevância dos neonazis do «Aurora Dourada» na Grécia é a melhor demonstração de como, apostando em políticas de austeridade e de cortes cegos nos direitos associados ao Estado Social, as instituições financeiras e comunitárias estão objetivamente a favorecer a ascensão de quem aproveita para pôr em causa esta forma de democracia em que nos julgávamos consolidados.
O documentário de Laurent Delhomme e de Alexandre Spalaikovitch inquieta pela convergência explicita de grupúsculos, que recorrem à internet e ao mais avançado marketing de comunicação para divulgar as suas retrógradas mensagens políticas. Que invariavelmente apostam no racismo, na vontade de expulsão do outro - seja o cigano na Hungria, o muçulmano em França ou o negro em Inglaterra - como forma de chamarem a si os elementos mais incultos da sociedade em que se inserem.
Não espanta que os Le Pen tenham conseguido chamar a si o antigo operariado, que dava outrora apoio ao Partido Comunista Francês e que, sem emprego e afastado das antigas vias de consciencialização pelos apelos de um consumismo alienante, não entendem agora como podem equiparar-se aos outrora tidos como miseráveis - os emigrantes!
Contactando diretamente com fascistas de diversos países, a dupla de realizadores demonstra, de forma eloquente, como existe sempre um discurso o mais primário possível, facilmente assimilável por quem só está à procura de bodes expiatórios para extravasar a raiva das suas frustrações.
Existem assim situações dramáticas, que justificariam intervenções mais explicitamente condenatórias do Parlamento e da Comissão Europeia. Porque existem ciganos sujeitos a progroms de autoproclamados Exércitos de Arruaceiros na Hungria ou habitantes de aldeias na antiga Alemanha de Leste, aonde neonazis se instalaram e os transformaram em carne para canhão das suas ofensas e agressões.
Ainda assim pode-se ver este documentário noutra vertente: a de que, em situações de crise como a atual, existe um extremar de tendências para os dois sentidos do espectro político. O que significa que esta gente inquietante não deixa de ter opositores à sua altura. Mas, como o demonstrou a realidade germânica dos anos 30, quando se trata de escolher aliados, a banca, os donos dos meios de comunicação e as igrejas optam invariavelmente pelo lado fascista.
Razão bastante para tentar esmagar o ovo que incubam, enquanto ainda está a incubar...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

POLÍTICA: quando o assunto é o relvas não consigo moderar o tom!


Congratulemo-nos com o facto de a RTP ter escapado por agora ao projeto dos relvas e dos borges. Nesse sentido, e apenas por esta vez, elogiemos a atitude coerente do ex-paulinho dos reformados e dos contribuintes.
Mas já é de temer os contornos da vingança ressabiada do distinto licenciado da lusófona, que perante o bajulador rodrigues dos santos, não conseguiu evitar a mesquinhez do que lhe vai na alma.
Para quem exige um serviço público de televisão com a qualidade de uma ARTE ou de uma PBS, as lutas a travar ainda vão no princípio. Porque depois de destruída a casa, muito complicado se revelará a reconstrução!

POLÍTICA: os posts no Facebook


Aproxima-se indubitavelmente o novo Congresso do meu Partido por muito que António José Seguro o queira evitar.
Será a oportunidade para uma nova Direção olhar para o futuro sem medo de assumir a herança dos excelentes caminhos abertos pelo governo de José Sócrates antes da crise do subprime e que abriu esperanças para uma efetiva aproximação aos melhores padrões europeus. 
Com uma conjuntura em que à França do Hollande se somarão a Itália dos Democratas e a Alemanha da coligação SPD/Verdes, a esquerda socialista portuguesa poderá avançar com determinação (e sem a tibieza do atual líder) para um projeto claramente vencedor. Por isso mesmo venha o Congresso e já!!!
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Convenhamos que os sinais de mudança iminente vão surgindo, mesmo quando a relação causa efeito não é assim tão evidente: é o caso do adiamento por tempo indeterminado da privatização da RTP ou da entrega do Pavilhão Atlântico ao genro do Cavaco!!!
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Breve  síntese em nobre intenção de elucidar os que ainda vão acreditando nas homilias dos amigos do gaspar:
1. o «regresso aos mercados» ocorre porque há tanto dinheiro nos bolsos de quem o acumulou  agora se vê a financiar algumas dívidas soberanas a juros negativos (caso da alemã), que está ansioso por negócios, que lhes rendam uns atrativos 5%;
2. esse mesmo «regresso aos mercados» em nada alterará a tendência de crescimento do desemprego, de destruição da economia e da pauperização da quase extinta classe média;
3. se o efeito Draghi tivesse ocorrido há dois anos atrás como tanto pugnou José Sócrates nas reuniões com os parceiros da (des)União Europeia provavelmente a história do Governo anterior teria sido completamente diferente;
4. o suposto défice  cumprido por este (des)governo tinha à partida uma previsão de 4,5% em qualquer receita extraordinária, como a da venda da ANA.
Conclusão: Lançar foguetes pelos «sucessos alcançados» é pirotecnia rasca para iludir papalvos;

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

POLÍTICA: Foguetórios e realidades


O que mais surpreende com este (des)governo, já não é o seu radicalismo ideológico, nem toda a corrupção a ele associada com os inúmeros tachos criados para os seus jovens e bem remunerados assessores, mas a incompetência por ele manifestada na forma como transmite a sua mensagem.
Bem tentam os seus marketeiros arranjar momentos de esplendor para os maravilhosos sucessos de tão iluminada política, que acabam sempre por tropeçar aonde menos esperariam. Depois da conferência para os amigos de moedas e de sofia galvão, que resultou no desastre mediático, que se verificou, é o famigerado relatório do FMI a ser denegrido, já não apenas pelo carácter de trafulhice a ele associada enquanto encomenda do moedas, mas ainda por cima pela assinatura de um agora desmascarado vigarista espanhol, destituído de diretor-geral da Fundación Ideas.
Hoje foi a ação de propaganda encenada em torno do regresso aos mercados , como se significasse o corolário de uma estratégia bem sucedida de gaspar. Que pode enganar uns quantos inocentes, mas não ilude a grande maioria dos portugueses, cientes de êxito ainda maior dos nossos vizinhos espanhóis, apesar de terem adotado atitude absolutamente oposta ao servilismo vergonhoso de passos perante a srª Merckel e os mandantes europeus da sua política de austeridade.
Que significa isto? Significa que a tão badalada confiança dos mercados é determinada não pelo nível de austeridade imposto a cada país, mas pelas garantias dadas por Mario Draghi de que faria o que fosse necessário para defender o euro. 
Sabendo-se quem compôs o grupo de bancos envolvido na operação percebe-se bem como têm passado tão despercebidas  as notícias elucidativas sobre o BES, como aponta Daniel Oliveira no «Arrastão»:  E também se fica a compreender por que razão as notícias sobre corrupção no BES têm sido bastante discretas.
Sendo o banco um dos parceiros privilegiados do Governo nos seus negócios, não conviria sujar uma imagem que, de resto, é perfeitamente imaculada.
Tudo está quando acaba bem. Na Sicília é assim: os negócios são sempre um assunto de família.
Que esta operação nada alterará no propósito deste gente prosseguir o esbulho dos bolsos do que ainda resta da classe média, lembra Sérgio Lavos no mesmo blogue: ela apenas significa que seria sempre impossível pagar uma dívida crescente - mais de 120% - nas condições em que esta foi contraída.
Haverá mais renegociações, prolongamentos, perdão parcial da dívida. Como aconteceu na Grécia.
Mas se a economia não começar a crescer, de nada adiantarão os cuidados paliativos que estão a ser administrados. E como poderá a economia crescer, se tudo o que o Governo está a fazer é errado?
Um bom exemplo de um tenebroso erro que o (des)governo se prepara para cometer a mando do FMI é a contabilização do subsídio de maternidade para o IRS, eliminando um dos escassos apoios ainda existentes para favorecer a inflexão da tendência demográfica da população portuguesa. No Expresso Online escreve o já citado Daniel Oliveira:  A nossa crise demográfica é tão ou mais grave do que a nossa crise financeira. É, aliás, um dos fatores para a crise das contas públicas. E está a ser agravada pela crise económica, o desemprego de quase 40% dos jovens e a fuga de trabalhadores qualificados. Esta medida simbólica, coerente com tudo o que está a ser feito para destruir qualquer possibilidade de futuro para este País, é apenas mais um exemplo da nossa caminhada para o abismo. Até sermos um enorme cemitério. E mesmo isso não sei se será possível. É que até os coveiros têm de comer.
E até são os próprios números do Eurostat a desmentir o falso otimismo de passos coelho, tendo em conta a progressão imparável da dívida. Pondo os pontos nos is, escreve Paulo Campos no ~facebook: Até na dívida este tipo de governo falha…
No último ano e meio, a dívida direta do estado cresceu quase 50% do que tinha crescido entre 2004 e maio de 2011 (quase 6 anos e meio).
O Eurostat, no seu relatório refere "Este rácio de 120,3% alcançado pela dívida nacional no final do terceiro trimestre corresponde a uma diferença de 9,9 pontos percentuais face ao valor apresentado no mesmo período do ano passado. Foi o quarto maior aumento neste período, apenas atrás do Chipre (17,5 pontos percentuais), da Irlanda (13,4 pontos percentuais) e de Espanha (10,7 pontos percentuais), segundo o Eurostat".
Sem crianças a nascer e com a população a envelhecer, bem se pode esperar recorrências da inenarrável tese do ministro japonês apostado em acelerar a morte dos velhos, que só trazem encargos para as depauperadas finanças públicas. E  É Alfredo Barroso quem, na sua página do facebook, evoca a paternidade da ideia para o ideólogo do Pingo Doce, António Barreto, quando não há muito tempo, propunha algo de semelhante sem suscitar o merecido repúdio, que já então se justificava: Primeiro rezam para que os idosos não durem muito, depois querem que eles morram rapidamente, depois reclamam que eles morram imediatamente - por exemplo, racionando e recusando tratamentos e medicamentos...
Lembram-se de um famoso sociólogo português com barbas a perguntar, na SIC Notícias, se faz sentido o SNS garantir a diálise a doentes com mais de 70 anos e sem dinheiro para pagar o tratamento?
Qualquer dia também acham que os deficientes devem ser despachados depressa desta para melhor, e depois os loucos, os anarquistas, os esquerdistas, os oposicionistas, os feios, os caixa d'óculos, os canhotos, os carecas, os pretos, os homossexuais, etc., etc.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

BANDA SONORA: Barber - Overture to The School for Scandal



Samuel Barber  nasceu em West Chester, na Pensilvânia, em 1910. Desde muito novo recebe formação de pianista e de organista antes de estudar no Instituto Curtis de Filadélfia, entre 1924   e 1932, com Rosario Scalero, Isabelle Vengerova e Fritz Reiner, chegando também a ter aulas de canto.
Em 1928 recebe o prémio Bearns pela sua Sonata para violino. Encontra então Gian Carlo Menotti com quem estabelecerá uma longa e frutuosa amizade que o marcará significativamente.
Logo às primeiras obras conseguiu um certo sucesso: a abertura The School of Scandal (1933) vale-lhe novo prémio Bearns, seguido do Pulitzer Scholarship (1935) e o prémio de Roma (1936). Será este último que lhe permite a viagem subsequente pela Europa e a estadia em Roma durante dois anos.
A descoberta do velho continente será determinante e explicará as ulteriores ligações da sua obra às raízes europeias. A Sinfonia nº 1 (1936) será estreada em Cleveland e. logo depois, no festival de Salzburgo.
No mesmo ano o mítico Toscanini dirigirá a estreia do seu 1º Ensaio opus 12 e o Adagio para cordas, um extrato do seu Primeiro Quarteto (1936), que se transformará na sua obra mais popular.
Entre 1939 e 1942, Samuel Barber ensina no Instituto Curtis de Filadélfia até ser mobilizado para o serviço militar (1943-45).
Após a Segunda Guerra volta para a Europa como conselheiro da Academia Americana em Roma.
O bailado Medeia, composto em 1943, impõe-se graças à suite orquestral que dele retira. Wladimir Horowitz dirige a sua Sonata para Piano (1947).
Aborda o universo operático com Vanessa cujo libreto será de Menotti (1950), e será representada no Metropolitan Opera de Nova Iorque e em Salzburgo em 1958.
Em 1966 assinará nova ópera para a inauguração da nova sala do «Met» no Loncoln Center: António e Cleópatra, que revê em 1974.
As várias direções, frequentemente contraditórias, da música de Barber não permitem associá-lo a uma corrente estética bem definida: ele faz parte do grupo desses compositores norte-americanos apostados em procurar a sua verdadeira identidade sem se cingirem à herança de Charles Ives ou de George Gershwin.
A música de Barber expressa sentimentos pessoais através de um profundo lirismo valorizado pelos seus conhecimentos vocais. Essa busca do canto humano enquanto linguagem harmónica foi criticada por alguns, que o apodaram de compositor anacrónico, neo-romântico. Até por o sentirem muito ligado às formas tradicionais e à tonalidade. Tanto mais que a influência europeia o colocaram à margem dos outros compositores norte-americanos do seu tempo. Mas, ainda assim, os seus compatriotas sempre receberam muito bem a sua música pela sua imediata acessibilidade.
Após o período neo-romântico ilustrado pelo Adagio para Cordas, ele abre-se à dissonância, à politonalidade e a uma certa complexidade rítmica com o Concerto para Violino (1939).
Medeia é uma espécie de desiderato da sua liberdade criativa.
 Após um período em que se deixa tentar pelo neoclassicismo (Capricorn Concerto, 1944) ele aborda o dodecafonismo (Sonata para Piano, 1947).
A partir de 1950 sintetiza as diversas experiências anteriores, guiado pela forma e pela melodia, que se mantém enquanto elementos fundamentais da sua linguagem musical. Dizia então: Não sou um compositor com grande consciência de si mesmo: Diz-se que não tenho qualquer estilo, mas isso não tem qualquer importância.  Limito-me a prosseguir no meu caminho e acredito que isso requer uma certa coragem.

POLÍTICA: Como eles se enganam a julgar que nos enganam!


Imagino que esta noite passos coelho, vítor gaspar e o inevitável moedas irão para casa convencidos de terem dado a volta ao perigo que se anunciava: a queda iminente do governo.
Afinal não anunciara António José Seguro um governo alternativo preparado para tomar posse tão só erradicado este para as profundezas do caixote do lixo? E não se multiplicavam comentários políticos denunciadores da profunda solidão do exausto corredor de fundo, que nem a meio da corrida conseguiria chegar? Para já não falar de nova manifestação gigantesca - como a do 15 de setembro - agora anunciada para o próximo 2 de março?
Os alarmes soaram a sério em São Bento e nalguns dos gabinetes europeus aonde o (des)governo conta com os seus principais aliados!
A experiência de conseguir que um país se aparte de todas as suas principais políticas de proteção aos mais desfavorecidos - seja nas leis laborais, seja nas áreas da saúde, da educação e da segurança social - para a estender a seguir a todos os demais países europeus, parecia estar em grande risco.
À vista da praia a nau comandada pelo grande capital financeiro através dos seus lugares-tenentes na troika, ameaçava naufragar sem concretizar os objetivos pretendidos.
Explica-se assim a grande mistificação, que se prepara com o aparente regresso aos mercados financeiros e a aceitação de um maior prazo para pagamento da dívida contraída no famigerado memorando. Só possível, porque os draghis (há mais tempo), a par dos junckers e dos schaeubles sentiram já não ser possível escamotear por mais tempo um segundo fracasso da sua tão almejada austeridade depois do abismo em que a Grécia se vê.
As súbitas facilidades reveladas pelos credores nesta fase são a prova gritante do iminente fiasco do credo fundamentalista na redentora austeridade. Porque, em poucos dias, todo o caminho parece facilitar-se no sentido do discurso de sucesso com que se pretende mascarar o saldo deste ano e meio de contínuas agressões aos direitos da grande maioria dos portugueses.
Significará isto que gaspar e os seus amigos têm razões para se sentirem realmente aliviados? Iludem-se que sim embora as próximas semanas os venham a desenganar.
Como dizia Henrique Monteiro na sua crónica de sábado do «Expresso», o autismo desta gente é de tal jaez, que não são capazes de ver a realidade. E esta é a de desempregados que continuarão a não encontrar solução para o seu desatino, de famílias condenadas a enfileirarem para enganarem a fome nas sopas dos pobres, que vão aliviando as consciências às jonets deste país, e a generalidade dos cidadãos a abandonarem a perplexidade de se sentirem defraudados em quaisquer expectativas de futuro e a indignarem-se com crescente veemência.
É por isso que as «boas» notícias de um dia não apagarão as crescentes faíscas, que eclodem de norte a sul no imenso território dos nossos desencantos. E, como diria o outro, chega-se a um ponto em que uma só faísca acaba por incendiar toda a pradaria…

POLÍTICA: O relançamento da Europa social


Num livro escrito com Pierre Larrouturou, o antigo primeiro-ministro francês Michel Rocard propõe uma mudança de políticas, que faz todo o sentido para o nosso próprio país, quando este (des)governo cair e for sucedido por uma nova equipa ministerial mais decente e apostada no bem público.
«La gauche n’a plus droit à l’erreur» (A esquerda não tem mais margem para errar) pretende responder a esta crise que ambos os autores consideram muito distante do seu fim e manifestando um sustentado ceticismo quanto à receita de François Hollande apenas baseada na expectativa de um regresso miraculoso ao crescimento, entendido como única solução para o crescente desemprego.
Eis alguns dos extratos de um dos livros mais importantes deste início de 2013:
Uma crise mal gerida: “Todas as grandes derrotas resumem-se a uma fórmula muito simples: demasiado tarde”, costumava dizer o general Douglas MacArthur. Iremos também esperar por que seja demasiado tarde para compreender a verdadeira dimensão da crise, não só europeia, mas a nível mundial? Iremos esperar demasiado para que ataquemos-lhe as causas fundamentais e saibamos agir em função da dimensão dos perigos que comportam?
Neste início de 2013, a questão não reside em sermos otimistas ou pessimistas. A questão reside em deixarmos de nos comportar como avestruzes.
Relançar a Europa social: Para evitar que os países europeus não sejam tentados a sucessivamente imitarem o dumping social, devem-se aproveitar as atuais negociações para impor um verdadeiro tratado social europeu, que obrigue os vinte sete Estados membros a convergirem pelos padrões mais elevados em matéria económica de acordo com os critérios de Maastricht.
A falsa esperança no crescimento: Deveremos estabelecer os nossos orçamentos e políticas de emprego numa base de crescimento zero… O que será uma verdadeira revolução!
Habituámo-nos a confundir crescimento com progresso. Habituámo-nos a confundir crescimento com justiça social. Habituámo-nos a confundir crescimento com financiamento dos serviços públicos. O que não voltará a acontecer.
Não será do crescimento que virá a justiça social, mas virá sim de um suplemento de justiça social, a garantia da estabilidade económica e de prosperidade,
Daí que, para Rocard e Larrouturou, seja necessário relançar o debate sobre a duração do horário de trabalho. A crise decorre dos excessos de se querer sempre mais, da competição, da acumulação de bens materiais. A felicidade não se limita a ter dinheiro. É por isso que, sair da crise passa pela construção de uma sociedade de valores!
Por isso os autores defendem uma outra sociedade, menos mercantil e mais orientada para os tempos livres. Que passe por reduzir o desemprego mediante horários de trabalho mais reduzidos.