domingo, 6 de janeiro de 2013

POLÍTICA: Miguel Real e o medo fantasmático


No dia 4 de janeiro, e no âmbito da sua série de artigos intitulados «Que Valores para 2013?», o «Público» inseriu um excelente texto de Miguel Real intitulado «O Sentimento do Nada, a confiança e a esperança».
Porque se trata de uma abordagem bastante interessante sobre uma das principais obsessões destas páginas, aqui fica mais um trecho:
Lentamente, temo-nos tornado um povo sonâmbulo, sem alma nem esperança, roídos pelo Sentimento do Nada (…). Vivemos numa atmosfera impregnada de medo: medo no trabalho, medo nos transportes públicos; medo nas ruas; medo da polícia, por sua vez medrosa de não atingir os objetivos propostos pelo superior hierárquico; medo dos funcionários bancários, que nos exigem a prestação do carro, da casa…
Este medo fantasmático nasce da suspeita de em breve a nossa existência ser atormentada pela concretização real de um desses perigos, projetando o Nada na nossa vida, subvertendo a existência suave que tínhamos atingido após dezenas de anos de trabalho.

FOTOGRAFIA: a realidade segundo Tom Hunter


Um clássico da história da arte assinado por Vermeer (“A Leitora à Janela”) serviu de modelo a Tom Hunter para a sua fotografia mais conhecida, que mostra uma mulher a ler uma notificação de expulsão da casa que ocupa.
O fotógrafo reinterpreta a pintura de Vermeer no quarto londrino de Hackney para representar uma história real: a mulher em causa recebera, de facto, essa notificação e estava obrigada a abandonar o seu alojamento. Mas parece que a história viria a ter um desenlace feliz, não chegando a ocorrer essa prevista expulsão.
Para compor as suas imagens Tom Hunter recorre à mesma dedicação, que empregaria na pintura de um quadro. O seu objetivo é contar histórias do nosso tempo, mas servindo-se do olhar académico dos clássicos para ilustrar o quotidiano dos vizinhos, que expõe com as cores e a iluminação de outros tempos.
Resultam daí imagens impressionantes e surpreendentes da Grã-Bretanha de hoje.
O fotógrafo nasceu em Dorset em 1965 e veio trabalhar como operário para Londres até assistir a uma representação do «Sonho de uma Noite de Verão» de Shakespeare ao ar livre, no conhecido Regent Park.
Ficou tão entusiasmado, que decidiu enveredar pela formação artística. Mais tarde, para a sua série «A Midsummer Nights’s Dream», reconstituiu cenas daquela peça com bailarinas de samba e de strip-tease.
Para quem for a Londres nas próximas semanas vale a pena a deslocação à National Gallery para visitar a sua mais recente exposição...

FILME: «Hannah Arendt» de Margarethe von Trotta



Um retrato comovente de uma mulher intempestiva incapaz de compromissos, mas cuja vida excecional  nunca esteve desprovida de humor nem de paixões.
A realizadora Margarethe von Trotta enfatiza os anos sessenta do século XX, quando Hannah Arendt vai a Israel para, por conta do “New Yorker”, acompanhar o processo de Adolf Eichmann.
Ela imaginava encontrar um monstro, mas é obrigada a constatar que Eichmann era um mero burocrata. Desenvolve assim a tese da «banalidade do mal».
Por todo o mundo essa tese causa escândalo, tornando-a alvo de uma verdadeira caça às bruxas, mas ela permanece inflexível, mesmo se à custa de tempos difíceis.

LIVRO: "Seven Days» de Deon Meyer


É um dos principais escritores de policiais da África do Sul.
Antigo jornalista, Deon Meyer vive com a mulher e os quatro filhos na região do Cabo. As suas histórias, escritas em Afrikaans, sua língua materna, apalpam o pulso desta ainda jovem democracia sul-africana.
Para além do suspense, que cativa o leitor, os seus romances abordam as clivagens culturais que dividem o país: descreve como se vai diluindo o abismo entre negros e brancos apesar dos preconceitos ainda remanescentes na sociedade sul-africana.
Deon Meyer faculta uma perspetiva ácida e sem ilusões sobre a história e o presente do país.
«Seven Days»  já é considerado um dos melhores thrillers do ano nos Estados Unidos.

HISTÓRIA: Os cem anos de Nefertiti


Quem é afinal o proprietário legítimo do busto de Nefertiti exposto em Berlim? Esta questão, sempre em debate, é digno de um policial científico. O antigo diretor do Museu do Cairo exige que a Alemanha devolva a estatueta. Mas as autoridades alemãs mantém a posição de considerarem legítima a sua integração na coleção do Neues Museum.
A polémica não é recente, mas poucos sabem que a efígie de Nefertiti também provocou um conflito franco-alemão na época em que a responsabilidade pelas antiguidades egípcias estava entregue aos franceses.
A situação conhecera uma reviravolta durante a Primeira Guerra Mundial como se constata num conjunto de documentos inéditos encontrados em arquivos franceses e alemães pela historiadora Benédicte Savoy, nomeadamente num dossier do arqueólogo Pierre Lacau. Nele descobre-se como se criara um ódio pelas prospeções arqueológicas alemãs a partir de 1914, quando Lacau tudo faz para que as autoridades egípcias exijam dos alemães a devolução do que haviam encontrado e lhes fosse proibido o acesso a novos locais.
O livro da historiadora, «Nofretete – Eine deutsch-französische Affäre 1912 -1931 »,  acaba de ser publicado na Alemanha, ao mesmo tempo que a estatueta voltou a ser exposta no Neues Museum de Berlim até 13 de abril.

DOCUMENTÁRIO: «München in Indien» de Walter Steffen



Esta história é completamente verdadeira e atestada por documentos fascinantes.
Um grande documentário retrata o percurso incomum de um empregado bancário da Baviera, que escolheu consagrar-se à pintura e tornou-se num dos mais conceituados retratistas dos príncipes indianos dos anos trinta do século passado.
O pintor chamava-se Hannes Fritz-München, com o apelido a apontar para a sua cidade natal. 
Na cave do artista o neto encontrou numerosos rascunhos e películas de filmes realizados pelo avô durante as suas peregrinações à Índia, ainda então sob o jugo colonial britânico.
Durante a sua viagem de núpcias, Hannes fora de facto solicitado por um marajá para lhe pintar o retrato naquela que constituiria a primeira de muitas encomendas posteriores, que o levaram de corte em corte durante diversas deslocações ao subcontinente indiano.
Na altura em que os nazis chegaram ao poder estava Fritz-München a viajar entre o Rajastão e o Ceilão no seu habitual labor de pintar retratos e rodar filmes. Ele chega a encontrar o Mahatma Gandhi que recusa o retrato a óleo, mas acede a ser imortalizado em película cinematográfica.
 Em «München in Indien», documentário anteontem estreado nas salas alemãs, acompanha-se Konstantin Fritz, o neto do artista, a percorrer os caminhos outrora palmilhados pelo avô para encontrar muitas das suas numerosas obras ainda penduradas nas paredes dos palácios indianos, ao mesmo tempo que se reconstituem os seus últimos anos de vida na Alemanha.
Durante a Segunda Guerra Mundial Fritz-München pintou as vinhas da sua região natal e, logo após, trabalhou para as forças de ocupação americanas.
Apolítico, e talvez um pouco ingénuo, contentava-se em executar as encomendas, que recebia. O que o torna merecedor de lhe redescobrirmos a biografia.

sábado, 5 de janeiro de 2013

FILME: «4.44 last day on earth» de Abel Ferrara



Muitos filmes depois, Abel Ferrara continua a não me entusiasmar enquanto realizador, muito embora lhe reconheça muitas das qualidades enunciadas pelos críticos mais conceituados. Mesmo neste caso, em que me embalavam os textos lidos sobre as últimas horas de vida de um casal nova-iorquino enquanto se aproxima o apocalipse motivado por um comportamento descontrolado da camada de ozono. E até contando com o desempenho sempre irrepreensível de Willem Defoe.
Porque é que me senti enfadado durante hora e meia? A razão principal terá sido a previsibilidade do que vai ocorrendo: cenas de encontro e desencontro do casal, que ora faz amor, ora se disputa devido ao passado dele, quer a nível amoroso, quer enquanto toxicodependente.
Pelo meio Skyie vai pintando as suas telas à moda de Pollock e as televisões vão passando  imagens de Al Gore, do dalai Lama ou de outros profetas do fim dos tempos.
Ferrara contorna na perfeição a falta de meios para credibilizar a ambiência de ficção científica. Mas quando chega a hora prevista e o fim se verifica, ficamos a questionarmo-nos se ficamos assim sem mais nada que acrescente algo à história.

FILME DE CURTA-METRAGEM: "Água Fria" de Pedro Neves



Pela segunda vez em poucos meses revisitámos a curta-metragem, que Pedro Neves rodou numa aldeia piscatória junto a Esposende no Verão de 2010 e em que se detetam os piores estereótipos de uma certa forma de ser português.
Estava-se, então, no Portugal de José Sócrates, quando a aposta era na investigação científica, nas energias renováveis e em tudo quanto projetasse o país para a modernidade. Mas aqui o que se vê é o Portugal dos feios, porcos e maus, de corpos disformes, de mulheres de bigodaça, da música pimba e das procissões dignas das cenas mais absurdas dos filmes mexicanos de Buñuel.
A voz off considera que se revela um povo sofrido, donde a alegria está ausente. E conformado com as promessas do céu para compensar as agruras na terra.
Não duvido que foi este povo iletrado, em quem os exploradores elogiariam a sua “humildade”, que levou passos coelho à governação. E que sofre agora as piores consequências da sua estúpida aposta. Mas também não duvido que muitos desses participantes no ritual místico com raparigas vestidas de nossa senhora ou de anjos e com bébés mergulhados três vezes nas águas do oceano, continuarão a sofrer as agruras do desemprego, das remunerações de miséria, do encarecimento da saúde e da educação com o conformismo de quem exorciza pecados imaginários.
A mudança - desejavelmente o regresso ao país ambicioso e determinado de Sócrates - continuará a não passar por esta gente, que continuará a ver nas ideias de esquerda a pior ameaça para a aspiração em se virem a sentar ao lado de deus, pai, nosso senhor...


O CRÁPULA DO DIA: Nouri al-Maliki


É claro que podemos sempre considerar que Nouri al-Maliki é uma marionete de outros crápulas, que ainda não mereceram aqui a merecida deferência (George W. Bush, que o promoveu ao poder depois de derrubar Saddam Hussein, e Ali Khamenei, que constitui o verdadeiro poder iraniano), mas hoje escolhemo-lo em função de ver em risco a condição de primeiro-ministro iraquiano devido a uma revolta, que está a crescer a partir da província de Anbar.
Numa altura em que ainda não está esquecida a revolta pela bárbara violação da jovem indiana de Nova Deli, temos de convir que no Iraque de hoje, comandado por tão sinistra personalidade esse tipo de agressões às mulheres são frequentes e praticadas pela calada. De facto, segundo relatórios da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch, citados no «Público», se hoje as forças de segurança iraquianas efetuarem uma rusga e não encontrarem o homem que procuram, será a mulher, a irmã ou até a filha dele que serão presas. E estas mulheres serão torturadas e violadas nas cadeias, sem nunca comparecerem em tribunal.
Segundo um operador de cãmara da Al-Jazira, de seu nome Laith Musthaq, o Governo é apenas uma marioneta nas mãos do Irão. As receitas das vendas de petróleo vão parar aos bolsos de políticos corruptos - os políticos que semearam o ódio entre os iraquianos. Cristãos e muçulmanos viviam em harmonia; agora estão separados. Não é este o país com que sonhávamos.
Será de espantar que, nas manifestações de Anbar, tenham aparecido muitos cartazes com o rosto do assassinado Saddam Hussein, recordado com saudade por muitos dos seus compatriotas?

POLÍTICA: Miguel Real e o absolutamente inqualificável!


No dia 4 de janeiro, e no âmbito da sua série de artigos intitulados «Que Valores para 2013?», o «Público» inseriu um excelente texto de Miguel Real intitulado «O Sentimento do Nada, a confiança e a esperança».
Porque se trata de uma abordagem bastante interessante sobre uma das principais obsessões destas páginas, aqui fica o seu primeiro parágrafo:
Em nome da santidade do seu orçamento, o Estado português é hoje uma aterrorizante máquina de roubo coletivo: roubo de empregos e de lucro legitimo das empresas; roubo de poupanças de anos; roubo dos salários; roubo de pensões; roubo da vontade empreendedora dos cidadãos e, sobretudo, roubo da alma dos portugueses. O maior roubo que o Estado português tem cometido nos tempos recentes residiu num espetacular e aparentemente impossível roubo do excedente de esperança que todo o cidadão necessita para a existência diária como garantia de que o futuro será, senão melhor, pelo menos não pior que o passado. Este foi o grande roubo coletivo - absolutamente inqualificável - operado pelo Estado português, assente na crença metafísica e obsessiva, até delirante, mesmo patológica, da inexistência de alternativas financeiras e económicas para a sua política.

POLÍTICA: acabar com os tiros nos pés à esquerda!


Tudo começou com um post do Miguel Coelho no Facebook a propósito da reação da deputada Heloísa Apolónia aquando da abstenção do PS sobre a proposta de aumento do salário mínimo nacional.
Enquanto socialista com mais de um quarto de século de vínculo ao partido, nem gostei da posição da sua bancada parlamentar e muito menos do conteúdo do texto do Miguel:
Momento hilariante na AR: a deputada dessa verdadeira aberração chamado Partido Ecologista os Verdes, Heloísa Apolónia, justificando a aliança com a direita para derrubar o Governo de José Sócrates, afirma: os srs (PS), depois do PEC1, Pec2, 3, queriam que a "Verdadeira Esquerda" apoiasse o Pec4?. Desta "verdadeira esquerda" ficamos todos esclarecidos....
E, porque ele levanta questões mais relevantes gostaria de deixar aqui expressas as seguintes opiniões:
1. a circunstância excecional, que permitiu a José Sócrates contar com a maioria absoluta no primeiro mandato do seu Governo, não é crível que se repita a curto/médio prazo, pelo que, mesmo ganhando eleições com maioria relativa, o Partido necessitará de fazer alianças com outro parceiro político;
2. é lamentável que, enquanto a direita facilmente dilui as suas diferenças e se une, a esquerda não o consegue muito por causa do espírito sectário, que a costuma caracterizar e de que o post do Miguel Coelho e muitos dos comentários a ele acrescentados denotam. Aliás esse espírito sectário está bem presente nas nossas secções do Partido em cujas reuniões se ouvem muito mais facilmente posições anti-PC ou anti-BE do que contra o PSD ou contra o CDS;
3. o combate ao sectarismo não se faz com mais sectarismo, mas com a abertura de pontes efetivas para com os potenciais parceiros. Ora, abandonar de vez a desculpa de terem votado contra o PEC 4 como forma de os desqualificar permanentemente deveria ser a atitude inteligente de uma direção responsável;
4. se nos ativermos na experiência francesa, quer com Mitterrand, quer mais recentemente com Hollande, a vitória da esquerda resultou do esforço em pretender liderar a federalização das suas tendências do que em combate-las e querer-lhes impor um pensamento dominante;
5. É tempo de os socialistas se definirem claramente quanto ao seu posicionamento ideológico: estão com quem pretende uma sociedade mais igualitária e justa ou com quem pretende cavar o fosso entre os direitos dos mais ricos e dos mais pobres? Quer conhecer um fracasso da dimensão de um PASOK ou replicar a estratégia potencialmente vencedora do Partido Democrático Italiano? Como Mário Soares enquanto líder histórico do PS tem defendido com persistência o combate não se faz contra os que estão na mesma trincheira que nós (mesmo sabendo-os suficientemente inábeis para termos de contar com algum «fogo amigo»), mas contra quem produz iniquidades sem fim na trincheira oposta!
Ao constatar como António José Seguro tarda em impor-se como uma alternativa credível junto dos portugueses, fica a questão: se em vez de manter um posicionamento tão ambíguo perante o memorando e perante os movimentos sociais inorgânicos que vão proliferando, ele se assumisse como o político capaz de assumir as aspirações de quem esteve na rua a 15 de setembro e reunisse sem receios com comunistas e bloquistas para definir o mínimo denominador comum de uma progressiva estratégia de contestação a este estado de coisas, o impacto nas sondagens e no imaginário coletivo dos portugueses seria determinante para a aceleração do presente ciclo. E mostraria a consistência de uma verdadeira alternativa!
É claro que as televisões e os jornais não deixariam de agitar o papão comunista, mas hoje em dia, sem emprego, ou com ele sempre à beira de ser extinto, os portugueses têm muito maior receio desta direita troglodita que dos supostos extremismos de esquerda…
Por isso mesmo o post do Miguel Coelho e os comentários contra a Heloísa Apolónia acabam por ser o contrário do que pretendem: são, de facto, tiros nos pés de uma alternativa coerente e consistente para um futuro melhor dos portugueses!

POLÍTICA: o Paraíso ainda mora longe de Varsóvia!


A Polónia desempenhou um papel de primeira linha nos acontecimentos, que iriam culminar na queda do Muro de Berlim e na implosão da União Soviética. Muito provavelmente contando com a orientação de Karol Wojtyła e da CIA, Lech Walesa e os seus cúmplices do Solidarnosc prometeram um mundo novo aos compatriotas, com muitos bens só acessíveis aos privilegiados do capitalismo ocidental, fornecidos por gente altruísta da estirpe da família de Alexandre Soares dos Santos, hoje um dos grandes beneficiados do «milagre polaco» (lamentavelmente só para alguns!).
Duas décadas depois os benefícios estão à vista, como se depreendem destes dados colhidos de um artigo do historiador e jornalista Dominique Vidal no «Le Monde Diplomatique»:
· 13 dos 38 milhões de polacos são pobres ou estão em risco de pobreza; e só 1,6 milhões recebem alguma proteção social.
· A percentagem de crianças que vive abaixo do limiar de pobreza atinge os 30%, e 60% delas em idade escolar não têm meios para pagar a cantina;
· 66% das famílias não goza férias, 70% das quais por motivos financeiros;
· 40% tem dificuldades de acesso aos cuidados de saúde;
· Uma em cada cinco famílias não tem como aquecer a sua habitação;
· Um em cada cinco apartamentos não tem casa de banho, duche ou lavabos;
E, no entanto, só entre 2007 e 2013, a ajuda da União Europeia cifrou-se em 67,2 mil milhões de euros aos quais se juntarão outros 80 mil milhões entre 2014 e 2020. A que se acrescentaram 130 mil milhões de euros em investimentos estrangeiros.
Poder-se-ão sempre invocar os dois milhões de empregos criados se, em compensação, não se esquecerem os cinco milhões perdidos.
Daí que a percentagem de desempregados declarados ultrapasse os 13% da população ativa, dos quais só um quarto recebe um subsídio, que, em média, é de 150 euros. Ou que a taxa de natalidade tenha descido de 2,4 para 1,4 filhos por mulher.
A complementar este cenário de pré-catástrofe vale a pena ainda considerar que a pensão de reforma e a pensão de invalidez mínimas ascendem a 177 euros mensais, ou seja, menos do que os 196 considerados como imprescindíveis à sobrevivência vital. E que um quarto num lar de idosos não fica por menos de 625 euros por mês.
Quer isto dizer que se passou de um purgatório quase paradisíaco para o insuportável inferno capitalista? Claro que não! Passou-se sim da implementação falhada de uma perspetiva de comunismo (que nunca se chegou verdadeiramente a estabelecer!) para uma enorme ilusão, que vitimou sobretudo a classe operária e a intelectualidade anteriormente acauteladas durante o regime de Gomulka ou de Gierek. E que hoje só podem sentir alguma nostalgia pelo que perderam. Mesmo que, por ora, a Polónia continue a ser um país governado à direita por um conjunto de políticos ainda há pouco tidos como entusiásticos apoiantes das políticas agressivas de George W. Bush…
Para os polacos o afiançado paraíso ainda continua muito distante...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

POLÍTICA: para que sejam os do costume a ganharem ainda mais?


Ontem antónio lobo xavier tomou posse enquanto responsável pela coordenação pela comissão que irá estudar a forma de reduzir a carga fiscal para os patrões, sendo logicamente de esperar a compensação da inerente quebra de receita com o aumento da «contribuição» de quem trabalha. Ou seja, quatro meses ainda não estão passados sobre a estapafúrdia história da TSU e já vítor gaspar trata de a querer reavivar, sob outro modelo, mas sempre em obediência ao seu inamovível credo ideológico.
E que se nomeie para o lançamento de tal reforma o administrador de empresas como o BPI, a Sonaecom ou a Mota Engil comprova bem essa lógica tipo relvas em que se designam juízes para decidir em causa própria. Como dizia Ana Drago é uma espécie de nomeação em que pomos as raposas a definir as regras de proteção do galinheiro.
Mas o fanatismo de gaspar está a ser conduzido a tal paroxismo que, mesmo contra a vontade de outros ministros e o repúdio da UGT, apostou na redução a (quase) coisa nenhuma das indemnizações por despedimento. Até um insuspeito opinador como André Macedo foi levado a concluir no «Diário de Notícias», que ele está impossível, irredutível, não deixa ninguém falar. Exige o cumprimento incondicional do acordo com a troika. (…)  O ministro das Finanças foi longe demais. Não é ministro, é uma ravina política, é um abismo fiscal.
Que os sacrifícios estão e continuarão a ser (se o governo não for entretanto derrubado) direcionados para os mais pobres e para as ainda sobreviventes classes médias demonstram-no à saciedade  mais dois exemplos agora conhecidos: que, segundo o Tribunal de Contas não existe evidência de que as despesas de funcionamento dos gabinetes dos membros do Governo tenham diminuído; e que, segundo a Bloomberg, os bancos  e investidores que compraram títulos da dívida portuguesa tiveram uma rendibilidade excecional: 57% no ano de 2012, a mais alta da Europa.
Como comentou Sérgio Lavos no «Arrastão»: Austeridade? Isso é coisa que não assiste a ministros, secretários de estado, adjuntos, assessores, secretárias e motoristas que trabalham na administração central do Estado. Já sabíamos. Austeridade? O povo que pague! Não andaram a viver acima das possibilidades?



A CITAÇÃO DO DIA: com a devida vénia ao Daniel Oliveira


Todas as privatizações que estão a ser preparadas são um erro histórico. Seja quem for o comprador, sejam opacas ou transparentes, seja o preço alto ou baixo. Porque se tratam de empresas estratégicas para um País intervencionado e sem qualquer autonomia para atuar em quase todas as variáveis da sua economia. Porque são tudo o que nos sobra. Porque depois de vendidas e de passada a crise não estarão lá outra vez. Porque não se vende um património que pertence aos nossos filhos e aos nossos netos para acertar meio ponto no défice do orçamento de um ano. Pelo menos sem um debate sério sobre o que é fundamental: queremos mesmo ser um País independente ou já desistimos disso?
Expresso

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O CRÁPULA DO DIA: o novo cidadão russo


Confesso que nunca fui grande fã do Dépardieu como ator, embora o tivesse visto em dezenas de filmes de grandes realizadores franceses. Mas, verdade se diga que, da sua geração, sempre preferi os desempenhos interpretativos de Pierre Arditi, de Daniel Auteuil ou do precocemente desaparecido Patrick Dewaere.
Mas, hélas, se surgia em filmes do Truffaut, do Resnais ou do Téchiné, tornava-se incontornável. Mesmo que, invariavelmente, surgisse em papéis, quer na tela, quer na vida real, pouco consonantes com um comportamento de decência.
Que se tenha colado a Sarkozy como efusivo apoiante, ainda se compreendeu, mesmo que não se gostasse. Mas que se tenha tornado no arauto de uma campanha contra a aplicação de uma promessa eleitoral de Hollande traduzida na lei francesa e se assuma como um evadido fiscal diz bem qual a matéria de que é feito. Uma matéria decididamente crapulosa...

CITAÇÃO DO DIA: Uma experiência salvífica

Portugal tem sido um dos campos de experiência para a evolução para novos patamares da contrarrevolução em marcha, que se anuncia como uma revolução salvífica, mas que mais não pretende do que reduzir as pessoas a estádios de pobreza  e de dependência máximas. Para que a sociedade funcione não em razão do bem-estar humano, mas sim em função de uma lógica subsidiária dos interesses privados de uma elite de poder económico e social e das suas aristocracias que gerem o sistema e o perpetuam.
Uma experiência que está a ser feita nas economias periféricas do Sul da União Europeia e que, tudo indica, tem como objetivo reduzir o nível de vida na Europa, o empobrecimento dos europeus, possibilitando maiores margens de lucro a quem domina o sistema de poder na atual fase do capitalismo financeiro, nivelando a Europa pelos outros continentes.
São José Almeida

POLÍTICA: Cesarismo vs. Democracia


«Rumo a um cesarismo europeu» foi um artigo da autoria de Cédric Durand e Razmig Keucheyan, publicado na versão portuguesa do «Le Monde Diploimatique» do mês passado.
Nele os autores demonstram como a crise económica e financeira deu o ensejo às lideranças europeias para pôrem de lado todas as bonitas ideias de «Democracia» para assumirem um comportamento cada vez mais autoritário:
A crise económica aberta em 2007 revelou as contradições inerentes à construção europeia. Demonstrou, em particular, que a União se encostava a um regime político autoritário, suscetível de suspender os procedimentos democráticos invocando a urgência económica ou financeira.
Foi assim que, numa tradução alargada de uma célebre afirmação de Manuela Ferreira Leite, quando ainda era a presidente do PSD face ao Governo de José Sócrates, a União Europeia passasse a obrigar os devedores a vergarem-se à vontade de quem aparentemente paga as contas: o princípio segundo o qual «a soberania acaba quando acaba a solvabilidade» reduz à condição de quase protetorados os países que se encontram sujeitos a programas de assistência. Por isso mesmo em Atenas, Lisboa ou Dublin, os homens de preto da Troika impõem os conjuntos de medidas a adotar, mostrando assim as relações neocoloniais a que se veem submetidos os países da periferia.
Que nada disto é novo demonstram-no os autores ao citarem Gramsci, que designava como «cesarismo» a tal suspensão dos regimes democráticos em tempos de crise para darem lugar à afirmação de tendências autoritárias. A diferença em relação à época em que o filósofo italiano expressava essa tese, é que em vez de militar, esse cesarismo adota vestes burocráticas e financeiras.
Para Durand e Keucheyan deparamo-nos com duas alternativas: a escolha que agora se nos apresenta já não consiste em opor a continuação da construção europeia a um regresso à dimensão nacional, como os media dominantes e os intelectuais euro-liberais pretendem fazer-nos crer, mas sim em duas opções antagónicas: cesarismo ou democracia.
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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

POLÍTICA: as (des)culpas de uns e as férias do Relvas com o Loureiro e o Arnaut


No artigo hoje publicado no «Diário Económico» João Cardoso Rosas considera que a estratégia de marketing do governo tem sido bem sucedida, quando se trata de culpabilizar os portugueses pelos seus supostos desvarios consumistas em passado recente: Os portugueses são culpados porque se endividaram, compraram casa e carro, quiseram comer bife em vez de batatas. Os trabalhadores por conta de outrem são especialmente culpados porque ficaram parados nos seus postos de trabalho, inamovíveis, difíceis de despedir. Os funcionários públicos são ainda mais culpados porque são eles os responsáveis pela despesa pública. Por isso é necessário tornar precário o trabalho em geral e o da função pública em particular, assim como diminuir salários e regalias.
Embora ainda se vão detetando alguns ingénuos capazes de aceitarem tal tipo de discurso e interioriza-lo numa espécie de síndroma de Estocolmo não estou assim tão convencido quanto a tão alargada crença. Sobretudo, quando se vão sabendo de exemplos tão evidentes de contenção de despesas e de exemplo de sobriedade como o foram as férias de passagem de ano de Miguel Relvas, Dias Loureiro e António Arnaut num dos mais luxuosos hotéis do Rio de Janeiro.
Esta gente denota tal despudor e obscena demonstração de valores éticos, que quase nos dá vontade reconhecer plena razão ao que Baptista Bastos publicou no «Diário de Notícias»: A regressão a que Pedro Passos Coelho nos obrigou contém uma incerteza dramática, que o atinge, atingindo-nos cruelmente. Ele abriu a caixa de Pandora e, agora, não sabe como fechá-la. É um tonto perigosíssimo. Arruinou a pátria, não somente a pátria política, social e económica mas, sobretudo, a pátria moral. 
Vale-nos o otimismo de quantos acreditam numa outra possibilidade a curto prazo e bem expressa por João Pinto e Castro no «Jugular»: Só um cego não se apercebe da crescente hostilidade da rua não só contra o governo, os partidos e os políticos, mas também contra os poderosos em geral. Prevalecendo o protesto inorgânico, cada vez mais desenquadrado das forças políticas, sindicais ou outras, a imprevisibilidade aumenta.
Ninguém sabe quando, onde e como o descontentamento espontâneo se manifestará. Ele espalha-se silenciosamente como uma epidemia, minando a confiança nas pessoas e nas instituições, pondo em causa comportamentos estabelecidos que sustentam a convivência civilizada e, a pouco e pouco, reforçando a crença no salve-se quem puder.
A reacção desesperada que inevitavelmente ocorrerá poderá ser mais ou menos visível, mais ou menos espectacular, mais ou menos violenta. Uma coisa me parece certa: as classes dirigentes irão ter saudades do tempo da contestação ordeira a que se habituaram nas últimas décadas.
Nessa altura de pouco servirá ao inquilino de Belém a invocação do consenso social: é que, quando a noção de compromisso com os parceiros fica exemplificada na proposta de lei sobre as indemnizações em caso de despedimento contra tudo quanto acordara com a UGT, é passos e companhia quem semeiam os ventos, que lhes fustigarão o lombo sob a forma de imprevisíveis tempestades!


POLÍTICA: ainda o discurso de cavaco


Em principio tinha decidido omitir aqui qualquer referência ao discurso de cavaco silva no primeiro dia do ano, já que, como diz João Rodrigues no «Ladrões de bicicletas», ele continua a ser o presidente, com p pequeno, de todas as troikas. Mas, no «5 Dias» o Tiago Mota Saraiva conta uma estória irresistível, que aqui reproduzirei enquanto possibilidade de deixar comentado o episódio:  Um povo caminha sobre uma autoestrada num viaduto sem fim à vista e com inúmeros monstros que o sugam e enfraquecem. No virar do ano o velho Adamastor abeira-se e obriga-o a saltar do viaduto. Diz que é inevitável, ainda que anuncie que uma parte morrerá do embate com o solo e outra dilacerada por automóveis. Nas suas memórias, o velho pulha, não demonstrará uma pinga de arrependimento declarando que tinha avisado para os perigos da queda e do atropelamento.

HERÓI DO DIA: Paul Watson


Aos 43 anos Paul Watson parece demasiado envelhecido, mas é algo de compreensível em função da autêntica guerra a que se dedica há nove anos, depois de abandonar a atividade de treinador de golfinhos: a proteção das baleias na Antártida. O que lhe valeu um pedido de extradição das autoridades japonesas que o classificam de pirata dos oceanos ou terrorista ecológico, pondo a Interpol a persegui-lo por todo o planeta com a conivência de todas as polícias locais. Mas, este ano, como de costume ele está num dos quatro navios da frota da Sea Shepherd a dificultar a tarefa aos navios baleeiros japoneses aí a navegarem sob o clima clemente do verão austral.
Duas estratégias são seguidas por Watson e seus colaboradores: ou impedir que as baleias assassinadas com explosivos sejam embarcadas e cortadas nos navios-fábrica, ou dificultar a aproximação dos navios aos cetáceos interpondo as rápidas lanchas Zodiac entre uns e outros.
Trata-se de um combate heroico, tremendamente arriscado, mas com resultados práticos: no ano transato os navios japoneses só conseguiram matar duzentas e cinquenta baleias ou seja um quarto do seu objetivo inicial.
E, quando os detratores da sua luta o criticam, como sucede com a emburguesada Greenpeace, Watson encolhe os ombros e cita uma frase de Mahatma Gandhi: Entre a cobardia e a violência, escolho a violência.