quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

POLÍTICA: Uma questão de culpa


Um artigo de António Carlos dos Santos publicado na edição de Novembro do «Le Monde Diplomatique» («Um orçamento de Merkel e de Sade») esclarece quem duvida da natureza neoliberal das políticas de passos coelho, sob a alegação de estar a ser contrariada a lógica de tal corrente ideológica pressupor sempre a redução de impostos: os meios escolhidos pela Proposta de Lei de Orçamento 2013 afastam-se da visão tradicional das políticas neoliberais, normalmente associadas a reduções fiscais. Mas essa visão é redutora. O neoliberalismo é pragmático (os fins justificam os meios) e não é contrário à intervenção estatal nem a regimes autoritários. Pelo contrário, é-lhes favorável se tal intervenção favorecer as forças mercantis.
Mas, mais atrás o professor considerava quais os verdadeiros fins das políticas deste governo: a estratégia do executivo visa empobrecer o país. Visa ainda, de forma latente, proceder a uma redistribuição do poder social, do rendimento e da riqueza dos estratos mais pobres e médios da sociedade portuguesa a favor do capital financeiro.
Na conclusão do seu artigo António Carlos dos Santos conclui que a decência exige que os governantes representem quem o elegeu e não os credores. Pede-se aos políticos decentes que trilhem novos caminhos, caminhos que não visem empobrecer o país, que não assentem na economia do medo, que não vendam o património público ao desbarato, que não tornem a democracia mais frágil e não convertam os direitos laborais, sociais e culturais em meros direitos semânticos. Numa palavra: caminhos que não visem vingar-se do 25 de abril.
É que, no final, os mentores do processo revanchista em curso (PREC) regressarão à sua confortável vida, alguns em países do centro, deixando em pantanas a «parvónia», este sítio periférico mal frequentado e demasiado estreito para a sua genialidade. A culpa nunca será deles, mas do ignaro povo que, apesar de os ter elegido, nunca os compreendeu.

LIVRO: Ursula Le Guin, «Floresta é o Nome do Mundo»


Para que serve a ficção científica enquanto género? É uma das questões, que se justifica, quando se  lê este romance de Úrsula Le Guin, uma das melhores escritoras da literatura norte-americana.
No tempo de Júlio Verne era uma forma expedita de entretenimento popular e de transmitir conhecimentos, mas depressa se converteu numa forma de transmitir - umas vezes mais declaradamente, outras menos - uma mensagem política. Ou até de criar seitas de aparente cariz religioso como é o caso da célebre Cientologia.
Nos tempos da Guerra Fria, houve quem a ela recorresse como forma de transmitir o medo do outro, fosse ele extraterrestre ou monstro surgido da incontrolada necessidade de saber do homem. Os soviéticos podiam aparecer de muitas formas, mas a mais sagaz terá sido a das vagens que, durante o sono, tomavam conta da mente dos indefesos cidadãos.
Mas o género também serviu mensagens de carácter oposto e Ursula Le Guin enquadra-se nessa lógica: «Floresta é o nome do mundo» é uma bela metáfora anticolonialista que, datada de 1972, surge contemporânea do estertor da ditadura portuguesa nos territórios africanos ainda sob a sua alçada. Ou, em alternativa mais pertinente, corresponderá a uma vigorosa condenação da intervenção norte-americana na Indochina e o que nela pode ocorrer, quando um louco alucinado como Davidson não é travado e acaba por acelerar um processo já em si a tender para o fracasso...

POLÍTICA: o ano em que se acabará o medo!


No dia em que muita gente desligou o televisor para marcar o momento em que Passos Coelho se dirigia ao país, continuam a surgir nos jornais as mais diversas formas de o qualificar, mesmo sem recorrer à mais frequentemente utilizada nas manifestações de rua.
Assassino, propõe José Vítor Malheiros no «Público», numa crónica em que, relativamente a 2012, o designa como o ano em que Passos Coelho matou o Natal.
No «i» Tomás Vasques aborda a questão das previsões semore falhadas para dizer que neste Natal de 2012, sem burrinho, nem vaquinha no presépio, e com a desgraça a bater à porta de quase todos os portugueses, em vez do menino Jesus do que menos precisávamos era de ter o nosso destino nas mãos de bruxos e adivinhos.
No mesmo jornal, a Ana Sá Lopes conjetura sobre o estado de guerra em que nos encontramos com Passos Coelho a liderar as forças dos vende-pátrias: admitamos que vivemos um estado de guerra económica em que a sobrevivência do país como o conhecemos nos últimos 20 anos está em risco. Em que não nos podem anexar território – mas podem fazer regredir 30 anos no que respeita a desenvolvimento social.
Se isto é uma guerra, a batalha só pode ser contra quem aceita recuar aos confins da história. Infelizmente para Passos Coelho e para a imagem que gosta de fazer de si próprio, ele encarna o inimigo. “O resultado” vê-se nos números da decadência social.’
A voz insuspeita de Fernando Madrinha, do «Expresso», sempre associada às posições políticas mais conservadoras, não hesita em considerar o primeiro-ministro como o cabecilha de terroristas sociais: há no discurso político patamares abaixo dos quais um primeiro-ministro, ainda que tomado pelo pânico, pelo espírito messiânico do seu ministro das Finanças ou pela sujeição acrítica aos ditames da troika, nunca devia descer. Entrámos na fase do terrorismo social. Que ele seja estimulado pelo próprio chefe do Governo, eis com o que muitos não contariam.
Perante este comportamento obstinado contra a maioria dos portugueses, Nuno Ramos de Almeida, do «i», prevê um agravamento da repressão contra quem se manifeste nos próximos meses … mas também lembra o que pode suceder, quando esticam demasiado a corda: à força de espremerem sempre os mesmos, trabalhadores por conta de outrem e reformados, há um momento em que as pessoas deixam de ter alguma coisa a perder, e nesse instante os governos apenas conseguem mandar pelo medo.
Quando vemos que a activista Myriam Zular é acusada do crime inexistente de “manifestação não autorizada” por distribuir panfletos à porta de um centro de emprego e que se vai buscar aos baús da ditadura a acusação de motim para processar os arguidos dos incidentes da manifestação da greve geral, percebe-se que 2013 vai ser um ano de repressão.
Não se esqueçam os mandantes que também pode ser o ano em que se acabe o medo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

LIVRO: «A Maldição» de Stephen King



Todos temos pecadilhos de que nos devemos penitenciar. Eu confesso: gosto bastante de ler romances do Stephen King por muito inverosímeis que me pareçam e por muito repetitivas, que se revelem as suas temáticas. Mas é assim: se existem no inconsciente questões, que possa resolver catarticamente com tais leituras e elas me dão satisfação, porque não ceder umas horas a tal prazer?
Publicado em 2008, «Duma Key» tem por protagonista um antigo empreiteiro de construção civil do Minnesota, Edgar Freemantle, que quase fora morto num acidente de trabalho, quando uma grua esmagara o carro em que chegava ao seu estaleiro principal.
Edgar perde o braço direito e sofre importantes danos cerebrais, que o fazem ficar amnésico e afásico. Mas, pior ainda, as suas crises de raiva na convalescença assustam a companheira de toda a sua vida até aí, que acaba por lhe pedir um divórcio.
Por uns dias Edgar pensa em suicidar-se: o mundo mudou tão significativamente de um momento para o seguinte, que nenhuma esperança lhe parece doravante permitida. Mas não é esse o parecer do médico, o dr. Kamen, que o incita a mudar de espaço e a dedicar-se à pintura retomando assim um interesse esquecido desde a juventude.
É assim que temos Edgar instalado em Duma Key, ilha quase desértica da costa da Flórida, numa casa pertencente a senhora de proveta idade, sua vizinha mais próxima: Elizabeth Eastlake. Mas, porque padece de Alzheimer, cuida dela um antigo advogado, Westlake, esse sim o amigo cada vez mais sólido com quem Edgar poderá contar.
A estranheza não tarda a instalar-se nos dias do recém-chegado: o som das conchas como que a conversarem por baixo da casa e ao ritmo das marés; algo de maléfico e irrespirável na outra ponta da ilha aonde vai passear um dia com Ilse, a filha que o viera visitar; e, sobretudo, a súbita pulsão para pintar quadros de um fôlego sobre temas, que o ultrapassam a nível de compreensão, como se se visse tomado por um transe incontrolável.
Apesar de inquietantes, esses quadros têm tal qualidade, que uma galeria local faz tudo para que aceite mostrá-los numa exposição aprazada para daí a poucas semanas.
Não tarda que Edgar perceba que a sua pintura tem uma interligação assustadora com a realidade, e a própria Elizabeth avisa-o para os perigos com ela relacionados nos momentos de lucidez, que consegue ter por entre os seus dias de apatia inconsciente.
Investigando a história da ilha ajudado por um rapaz, que lhe costuma tratar do aprovisionamento do frigorífico, Edgar descobre que, algumas décadas antes, ocorrera ali uma tremenda tragédia em que tinham morrido afogadas três irmãs de Elizabeth, um cunhado e a ama. Ademais, o navio que aparece figurado nos quadros, «Perse», é o transporte da morte e faz-se cada vez mais presente na realidade.
O horror não tarda a instalar-se: se a exposição é um sucesso as mortes não tardam a cercar Edgar, que vê assassinada a própria Ilse. A par de Elizabeth, Kamen e todos quantos terão arriscado a compra dos quadros em causa.
Ele compreende que a força maléfica, que lhe comandava o braço enquanto pintava, está na tal zona da ilha, aonde ele e Ilse tinham-se sentido indispostos. E é com Westlake e Jake, que vai ao encontro dela na que fora a casa de Elizabeth quando criança. E aonde ela conseguira aprisionar tal força, Perse, num invólucro que, passados tantos anos, se fissurara e a libertara para retomar a sua estratégia assassina.
Num esforço terrível, descrito por King de uma forma tremendamente eficaz (chega-se sempre àquela situação de estarmos a ler e espreitarmos para as folhas seguintes pela dificuldade em, enquanto leitores aguentarmos tanta tensão), os três amigos conseguem fechar hermeticamente o monstro dentro de uma lanterna e, depois, arranjar-lhe uma segunda camada de enclausuramento de forma a evitar o mais possível o regresso à realidade.  
Como é frequente em King, a abertura da caixa de pandora pelos pais acaba por vitimar os filhos transformados em vítimas inocentes - aqui é Ilse quem acaba afogada na banheira! - alcançando-se um final feliz, que nunca o é verdadeiramente, não só pelas cicatrizes, que comporta, mas sobretudo, porque a ameaça por agora vencida, poderá sempre encontrar artes de se voltar a libertar...

sábado, 22 de dezembro de 2012

POLÍTICA: O equilíbrio da balança comercial


Num texto inserido no «Público», José Pacheco Pereira dá resposta eloquente a quem, à direita, tece loas ao reequilíbrio da nossa balança comercial: o último tempo onde mais negra foi a miséria portuguesa que ainda pode ser lembrado pelos vivos foi por volta de 1943, o ano em que houve um excedente da balança comercial que a imbecil ignorância actual se permite louvar, sem saber do que está a falar. Ter havido excedentes na balança foi bom, a razão por que isso aconteceu foi péssima.

IDEIAS: o small voltará a ser beautiful


Se o mundo não acabou anteontem, também é verdade que ESTE mundo em que vivemos está a acabar com as mudanças a anunciarem-se por entre as fissuras de um capitalismo decadente. E, muito embora, existam muitas ideias singulares de como será o futuro, que se segue, vale a pena ir conhecendo-as a todas, porque, na realidade, ele será composto de um misto de todas elas. Por exemplo a de Lauren Anderson, diretora de inovação da organização Collaborative Consumption, sobre quem o «Público» traz um artigo curioso.
Ela incentiva-nos a esquecer as pilhas de livros a encherem a casa ou um carro por pessoa, porque a tendência é a de um dia deixarmos de ter produtos para serem usados por uma única pessoa. E acrescenta:
Acredito que nos estamos a afastar dos típicos ideais do consumismo em que quanto mais tínhamos, melhor éramos. (…) Acho que estamos à procura de formas mais significativas de nos relacionarmos uns com os outros. O papel das empresas tradicionais é olharem para o que está a acontecer: as pessoas estão fartas de transações de grande volume e querem relacionar-se com seres humanos reais.
A acreditar nas teses desta ideóloga virá aí um futuro complicado para as grandes superfícies e uma revalorização do comércio mais tradicional...

LIVRO: «Como num espelho» de Gunnar Staalesen


A literatura escandinava tem-nos dado excelentes escritores do género policial e ainda nos faltam descobrir uns quantos. Por exemplo o norueguês Gunnar Staalesen, que cria histórias envolventes em torno de uma espécie de Philip Marlowe chamado Varg Veum.
Em «Comme un miroir», seu décimo romance com tal personagem, e agora publicado em França, volta a estar em questão a Noruega que, de país ainda pobre há não muito tempo e enriquecido graças ao petróleo, viu alterados os seus valores e mentalidades.
Temos então uma investigação a partir de uma rede de prostituição de menores, que conduz ao tráfico de imigrantes clandestinos em navios que regressam de África depois de, para ali, terem levado resíduos tóxicos a partir de Bergen.
Para densificar a intriga temos uma advogada, que contrata Varg para encontrar a irmã e o cunhado, cujo desaparecimento acaba por se relacionar com a morte trágica da mãe dela trinta e cinco anos atrás.
Quem aconselha o livro di-lo rigorosamente estruturado e  sugestivo.

IDEIAS: As propostas que vêem dos Estados Unidos

Nos Estados Unidos estão a ganhar influência algumas correntes filosóficas, que merecem a nossa atenção por quanto possam contribuir para a mudança dos paradigmas com que vemos a realidade.
Joan Tronto, professora da Universidade do Minnesota, é uma das defensoras do «care», uma nova corrente intelectual que constata a atribuição exclusiva às mulheres e a pessoas em situação de inferioridade social de algumas atividades humanas fundamentais como o são, por exemplo, a educação de infância, o tratamento dos idosos ou dos doentes.
Na nossa sociedade são atividades quase exclusivamente consideradas como de natureza feminina, o que demonstra uma desigualdade de género na distribuição de tarefas a nível social. O que não condiz com a suposta democracia igualitária em que vivemos.
Existem dois tipos de cuidados: os necessários, que não conseguimos assumir por nós próprios, como acontece com os facultados por médicos e que conferem ao fornecedor de tais serviços um estatuto social relevante. Pelo contrário, os cuidados, que estamos em condições de facultar a nós mesmos, transforma-nos em privilegiados ao delegarmos noutros tais tarefas.
As sociedades dividem-se então entre os que beneficiam de demasiados cuidados e os que deles carecem e passam o seu tempo a facultá-los a outrem.
A introdução deste conceito do «care» no debate público equivale a  trazer para a esfera privada o problema da luta de classes, que só costuma associar-se ao domínio público.
Igualmente de raiz progressista, a visão social de Wendy Brown, professora em Berkeley, orienta-se para a condenação do neoliberalismo enquanto sistema, que destrói as nossas aspirações democráticas e as substitui pelos valores importados do mercado.
O neoliberalismo trabalha para que cada pessoa tenha um só objetivo: melhorar a sua competitividade, aumentar as competências, defender a sua notação de crédito. Era verdade para o Estado, para a empresa, e tornou-se relevante para o indivíduo, doravante ocupado em maximizar o seu valor económico.
Chegados a este ponto não se pode falar de um indivíduo democrático, dado ter deixado de se orientar para a igualdade e o bem estar coletivo. Pelo contrário, é instado a tomar conta de si mesmo, sem se preocupar com os outros ou com o interesse coletivo.
Falacioso é o argumento de neoliberalismo corresponder a mais liberdade. Mas qual liberdade? Esta, no seu sentido mais clássico - a possibilidade de participar nos destinos coletivos - desaparece em proveito de uma outra “liberdade”: a de escolher o melhor investimento para si mesmo em função das normas e das possibilidades do mercado.
O indivíduo transforma-se, então, num mero capital humano a ser gerido com a melhor habilidade possível.
Ficam assim esquecidas todos os conceitos de dignidade humana propostos por Kant (o homem é um fim e não um meio), por Locke (o homem tem o direito de ser protegido) ou por Rousseau (os homens conjugam-se para se governarem num todo).
Convertido num mero capital económico, o indivíduo pode ser sacrificado da mesma forma que se sacrifica um investimento, quando deixa de ser rentável.
É o que está a ocorrer com as políticas de austeridade: se as pensões de reforma, a saúde ou a educação se tornam demasiado caras suprimem-se.
No final é toda a estrutura do contrato social, que acaba destruída: em vez de proteger o indivíduo, o coletivo irá sacrificá-lo. Um sacrifício, que não chega a ser fascista, nem militar: limita-se a ser de cariz económico.
Numa luta de vida ou de morte entre uma sociedade mais humana ou outra de injustiça a campear à solta, importa acabar com o retrocesso civilizacional trazido ao ocidente por Reagan e por Thatcher e assegurar os dois pulos, que o devolvam a um tipo de sociedade em que a Declaração Universal dos Direitos do Homem voltem a ter força de lei.

VOCAÇÕES


1. O benemérito Efromovich só pagaria aos consultores jurídicos e de comunicação que trabalharam ativamente para a privatização da TAP se ela se verificasse. Como isso não ocorreu gente como Jorge Bleck e Paulo Fidalgo ficaram a xuxar no dedo! E ficámos elucidados sobre o altruismo do sr. Efromovich!

2. O espetáculo de ontem à noite no encerramento da Guimarães Capital da Cultura fala da fome, da pobreza, da condenação à emigração, do direito a uma vida digna. Sem poder evitar a sua transmissão a RTP exilou-a para o canal 2. E, se privatizada, alguma vez este tipo de programa de verdadeiro serviço público voltará a ser disponibilizado? E, no entanto, o serviço público é isto mesmo!

3. Piada inteligente no Jon Stewart a propósito da invocação de Jesus pelos opositores ao casamento gay: tendo em conta que vivia acompanhado de 12 homens, escolheu 3 para lhe sucederem, um dos quais, diz a Biblia ter sido o discîpulo que Jesus "mais amou" será ele a referência mais adequada para os fins em causa?

POLÍTICA: e o palhaço, sou eu?


Das leituras que hoje fiz por jornais e blogues retenho cinco trechos elucidativos sobre o que vai ocorrendo por estes dias.
De Daniel Oliveira no «Expresso» socorro-me de dois textos bastante elucidativos, o primeiro dos quais remete para a necessidade urgente de nos livramos deste governo pela suspeição fundamentada de envolvimento de miguel relvas com uns investidores mais do que suspeitos: Não é preciso elaborar nenhuma teoria da conspiração para perceber o que se está a passar neste País. E o resultado será este: a rede internacional de contactos de Miguel Relvas, que integra o que de mais nebuloso pode existir no mundo empresarial, vai tomar conta da economia portuguesa, através do seu homem em Lisboa. E depois de o fazer nada poderá ser desfeito. Se outras razões não existissem para a urgente saída desta gente do governo, esta chegaria. Portugal, já tão minado pela corrupção, corre o risco de se transformar numa lixeira empresarial.
No outro texto retira ensinamentos positivos de quanto foi feito para travar a negociata da TAP com o altruísta senhor colombiano-boliviano-brasileiro-polaco e de como a luta não pode parar: Valeu a pena a determinação com que, nos últimos 15 dias, se debateu a privatização da TAP. Mas a coisa, adiada com uma desculpa pouco credível, continua em cima da mesa. E a decisão sobre privatização da ANA é já para a semana. Ficou a lição: vale a pena insistir. O governo está fragilizado e internamente dividido. E isso pode ser a nossa salvação.
No blogue «Jugular», o João Galamba publica um texto inicialmente postado no facebook e em que se compromete com uma denúncia incansável contra o ataque a que os pensionistas estão a ser sujeitos pelo governo: O Primeiro-Ministro vai avançando subrepticiamente com as atoardas contra o Estado Social, numa tática velha, de minar a credibilidade, para mais facilmente justificar os cortes que aí virão. Depois da falsa partida em matéria de propinas no ensino secundário, voltou-se agora para o sistema de transferências sociais, com particular foco no sistema de pensões. No que de mim depender, esta tática não passará sem denúncia, séria, serena e profunda, tanto quanto for capaz!
No «Diário de Notícias», José Manuel Pureza também abordava o mesmo tema:  Pondo gerações contra gerações, trabalhadores contra trabalhadores, o que o Governo pretende atingir é simples: criar espaço para cortar a sério nas reformas da classe média, esquecendo o que é verdadeiramente milionário. E, pelo caminho, destruir o pilar da Segurança Social da nossa democracia e substitui-lo por um modelo totalmente diferente em que a capitalização privada através do jogo do mercado financeiro tome o lugar da matriz redistributiva e em que todos sejamos penalizados por um adiamento sucessivo da idade da reforma.’
Para concluir temos o texto de Sérgio Lavos no «Arrastão» em que é a mentira descarada dos principais rostos do governo, que está em causa: É notável a desfaçatez com que este Governo mente. Mente com todos os dentes. Mente o primeiro-ministro, mente o Dr. relvas, mente o impressionante Gaspar. Diz-se que a mentira é a segunda pele dos políticos. Pode até ser. Mas o grau de mentira a que este Governo se dedica, o à vontade com que o faz e a indignação que finge ao ser confrontado com a mentira - como o faria uma criança apanhada em tal pecado - são de mestre. A sério. Um fenómeno.
O impressionante Gaspar, o tal economista tecnocrata com pouca habilidade política, rapidamente aprendeu os segredos do ofício. Mente, mente tanto e tão completamente, que chega a fingir ser mentira a verdade que deveras sente. Mente na televisão e mente na casa da democracia. Depois de no início do ano ter dito que 2012 iria marcar um ponto de viragem, hoje negou que o tenha feito. Sem se rir e sem vergonha na cara. Mas ele disse. Agora recusa-se a admitir que disse e não faz novas previsões. Não o podemos censurar - a figura de urso ninguém lha tira, contudo. Nem a mentira. Vítor Gaspar, o ministro que não acerta uma previsão e que mente descaradamente, é realmente impressionante.
Em contraponto com estas análises lúcidas da realidade tal qual ela se nos apresenta com uma evidência repleta de factos indesmentíveis, surgem nos diversos canais televisivos os comentadores alinhados com as estratégias do governo que, desde o  truão miguel beleza ao anão marques mendes, culminando no equilibrista marcelo, reduzem a análise política a uma comédia circense mais apropriada para um outro universo de cariz surrealista...


POLÍTICA: enterrada uma aventesma ... eis que outra nos calha na rifa!


Há uns anos atrás um concurso televisivo de má memória deu a aventesma de santa comba como a personagem mais popular da história portuguesa.
Na altura encolhemos os ombros e atribuímos o incidente à miséria moral de uma camada de espectadores aculturados pelos programas televisivos de raiz berlusconiana e pela singular forma de olhar para o passado por essa sinistra figura que foi josé hermano saraiva.
É para essa gente capaz de votar tão estupidamente - pelo menos para os que ainda não abriram os olhos para a realidade! -  que passos coelho continua a falar. Exemplo disso foi o discurso por ele hoje proferido perante os deficientes das forças armadas, quando lhes disse: ‘Nós, hoje, vivemos uma guerra intensa, que, às vezes, nos parece, porque é, tão injusta como as guerras que tiveram lugar, e como a guerra do ultramar que produziu este resultado. É uma guerra diferente, é uma guerra em que precisamos de encontrar em cada cidadão um soldado que esteja disposto a lutar pelo futuro do país.’
Como a insuspeita Constança Cunha e Sá referia a seguir, na TVI24, ele até nem se apercebeu do efeito subliminar de convidar os portugueses para se comprometerem numa guerra idêntica àquela em que o saldo foi uma ...derrota final!
Mas, ademais, o recurso ao vocábulo «ultramar» denuncia o que lhe vai no subconsciente a propósito da História portuguesa do século XX e não perceber a diferença dessa palavra fascista com a mais correta designação de «Guerra Colonial»!

POLÍTICA: a mentira como única defesa!


A suspensão in extremis da privatização da TAP. A pergunta de João Semedo sobre miguel relvas que o pôs irritado. Heloísa Apolónia a chamá-lo pirata. Um desempregado a invetivá-lo das galerias da Assembleia. A manifestação de reformados na Portela. Tudo situações, que demonstram um passos coelho acossado pela catadupa de acontecimentos adversos.
Os marketeiros do governo já estão a carregar a fundo na estratégia de convencer os portugueses do enorme sucesso da agressão contínua ao longo dos últimos dezassete meses invocando a descida dos juros da dívida nos mercados internacionais, mesmo que ela nada decorra de tal política. Mas já sonham com o momento em que imaginam trombetas a vibrar aos milhares na celebração do tal regresso aos mercados que multipliquem os votos laranja nas próximas eleições.
Azar de tais moitasdedeus é a realidade não coincidir com a publicidade. Se nem Goebbels conseguiu o império por mil anos, por muitos mentiras que o seu führer espalhasse, muito menos obterão estes aprendizes de feiticeiro em cujos conselhos passos coelho e vítor gaspar se baseiam para mentir descaradamente aos portugueses.
Por exemplo no debate de ontem na assembleia, o primeiro-ministro julgou esquecidas as promessas no discurso do Pontal, quando anunciou a viragem da recessão em 2013. Que nunca disse isso!, asseverou. E a televisão não permitiu constatar se corou pelo menos com um pingo de vergonha por ser capaz de tal façanha.
Não tardarão as reduções nos salários e nas pensões ou o aumento do desemprego e da precariedade ou ainda o exponencial aumento do número dos pobrezinhos para a tia jonet cuidar! Mas não será preciso ser grande adivinho para conjeturar o que ocorrerá lá para fevereiro, quando os cortes previstos no orçamento espoliarem os rendimentos da maioria dos portugueses. Nem o que implicará a execução orçamental do 1º trimestre ao demonstrar em números a incapacidade de gaspar para acertar na mínima previsão em excel.
Talvez então os desesperados se cansem de gritar «Agora falo eu!» e sejam mais consequentes na contundência da sua indignação...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

DOCUMENTÁRIO: «Na Pele de Italo Calvino» de Damian Pettigrew


Nos documentários dedicados a grandes vultos da literatura mundial o objetivo deverá ser sempre o de estimular o correspondente conhecimento. Ver a última cena e ir às prateleiras à procura dos livros do escritor em causa, será prova da eficácia de tal projeto.
Pois bem: «Na Pele de Italo Calvino» o realizador Damian Pettigrew falha rotundamente no alvo. É que, muito embora até conte com um ator bastante parecido com o autor de «As Cidades Invisíveis»  despacha em poucos minutos os aspetos mais cruciais da sua biografia: a luta antifascista na Resistência contra a Ocupação alemã, quando tinha 19-20 anos, e a ligação ao Partido Comunista até 1956, em que sai por causa das «revelações» (antiestalinistas) do XX Congresso co PCUS e da intervenção na Hungria.
Depois, toda a preocupação do realizador consiste em dar conta da complexidade da escrita de Calvino, a preocupação com a estrutura dos seus livros, a interligação da narrativa em prosa com uma contínua inspiração poética. A fundamentação para que muitos considerem envolventes tais propostas literárias em que essa obsessão com a arquitetura subjacente à construção do romance acaba por ser um dos tópicos principais da sua intriga.
O filme acaba por servir essencialmente os prosélitos da obra de Calvino, aqueles que já não carecem ser convencidos do merecimento de ser tido como um dos principais autores da literatura mundial no século XX. Quanto aos que não se deixaram ainda seduzir pelo sortilégio da obra, não será «Na Pele de Italo Calvino», que os irá convencer...

POLÍTICA: irresponsabilidade social, desonestidade argumentativa e terrorismo intelectual


A suspensão da privatização da TAP foi uma boa notícia indiciadora do recuo do Governo perante a acumulação de vozes contrárias a um negócio de escassa transparência.
Acaba-se o dia com a imagem possível de duas forças contrárias a puxarem pela mesma corda, em que, até 15 de setembro, ela pendeu para o lado de passos coelho e companhia, mas cada vez mais a acelerar-se no sentido contrário desde então.
O sucedido com a transportadora aérea nacional confirma essa evidência e explica bem o porquê do desespero das bancadas parlamentares do PSD e do CDS, que, ilegalmente, impediram a convocação de miguel relvas a uma comissão destinada a apurar os estranhos contornos do negócio em torno da RTP.
Sobre tal matéria, escreveu Francisco Assis no «Público»:
A cada dia que passa torna-se mais nítido que o executivo, por motivos infelizmente adivinháveis, visa a todo o transe furtar-se ao exercício democrático de fiscalização parlamentar numa matéria de superior interesse público, dados os princípios, valores e direitos que estão em causa. Para atingir tal desiderato o Governo de Pedro Passos Coelho não hesita sequer em ofender a instituição parlamentar, contando para isso com o contributo activo de grupos parlamentares indignamente domesticados e que resolveram autodispensar-se do cumprimento do dever de zelar pelo prestígio da instituição que integram.
Não admira que no «Económico» o habitualmente ponderado João Cardoso Rosas constate que nunca houve na democracia portuguesa um primeiro-ministro que tenha atingido este nível de irresponsabilidade social, desonestidade argumentativa e terrorismo intelectual.
Sente-se cada vez mais a ambiência típica da mudança de um ciclo e é Baptista Bastos quem, no «Diário de Notícias» reflete sobre esse facto e como Paulo Portas já não se consegue libertar do atoleiro em que se deixou afundar: a coligação está por um fio. E não é apenas a exposição de decisões tomadas unilateralmente, como o desprezo demonstrado em assuntos cruciais. Passos considera mais o que lhe sussurra Gaspar do que acolhe o que lhe sugere Portas. Entre estes dois homens há um conflito de culturas e um atrito ideológico. O mal-estar no CDS é difícil de dissimular, e bem pode o patético Relvas asseverar que tudo está muito coeso quando ouvimos os trambolhões que já chegam ao céu.(…)
[Portas] teve a oportunidade de bater com a porta, e libertar-se das teias de uma política que o embaraça. Não o fez, em nome do tal "interesse nacional", e excedeu os limites éticos tradicionalmente atribuídos aos homens de bem. A escolha foi dele.
A não serem rapidamente erradicados estes governantes tornar-se-ão, segundo Alexandre Abreu no «Económico», os «coveiros de Portugal». Porque sabemos já que a encarnação do neoliberalismo tardio que dá pelo nome de XIX Governo Constitucional – e que, aliás, seria mais apropriadamente apodado de Desgoverno Inconstitucional – é especialmente medíocre e predatória.
Predatória na forma como ataca sem escrúpulos as conquistas do desenvolvimento português, bem como os direitos dos mais vulneráveis, para garantir benesses diversas a compadres e a complacência dos suseranos internacionais. Medíocre nos seus actores, nas suas pretensas "estratégias", nos argumentos falaciosos utilizados.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

POLÍTICA: um caso agudo de autismo


Sem ofensa para os autistas, que não têm culpa nenhuma de os conotar com tal comparação, é num acentuado estado avançado de tal doença, que passoscoelho se revela.
Não seria grave se a explicitação dos notórios sintomas de que padece se limitasse à esfera mais próxima, pessoal e profissional. Um bom psiquiatra receitar-lhe-ia uns químicos milagrosos e conseguiria pô-lo a ostentar uma funcionalidade mais ou menos consistente nas áreas de empreendedorismo oportunista com que tem preenchido o seu elucidativo currículo.
O problema é que esse estado psiquiatricamente doentio repercute-se em consequências dramáticas para milhões de portugueses, a começar pelos que, em completo desespero, se suicidam, como parece ter sucedido com aquela jovem mãe, que ontem se atirou para baixo de um comboio em Alverca com a filha de 13 anos.
Se o estado psicótico de muitos governantes tem conduzido demasiados países a uma sucessão de tragédias, não temos necessidade de passar por uma nova demonstração de tal constatação histórica.
Sabe-se que um dos sintomas mais notórios de autismo tem a ver com a inabilidade para interagir socialmente. O que é um padrão em passoscoelho, tão incapaz em sequer imaginar  o que pensam os portugueses dele, como sobretudo de sequer acreditar que eles existam e não são meras virtualidades redutíveis às folhas de excel de vítorgaspar.
Segundo sintoma característico de um autista e bem detetável em passoscoelho: a dificuldade no domínio da linguagem para comunicar ou lidar com jogos simbólicos. O seu inglês (comprovou-se há dias numa conferência de imprensa na Turquia) é mais do que deplorável pelo que nem sequer terá conseguido tirar a cadeira de Inglês Técnico ao fim-de-semana. E os seus discursos em português são de uma tão confrangedora pobreza, quer de fundamentação de ideias (inexistentes para além das sopradas pela camarilha da troika), quer de eficácia retórica, que chega a sentir-se alguma comiseração com a sua incurável falta de jeito!
E, enfim, como terceiro sintoma esclarecedor do carácter demasiado avançado da referida perturbação mental o padrão de comportamento restritivo e repetitivo. Para além da compulsão pela mentira, que o fez prometer paraísos artificiais em campanha eleitoral e o promoveu em prosélito dos diabólicos cenários em que envolveu os portugueses no último ano e meio, não consegue ir além de uma cartilha tão repetitiva, quanto esgotada.
Dizer no Conselho Nacional do PSD que o principal partido da oposição não terá mudado muito desde Sócrates é não compreender quanto se está a cumprir a máxima popular, que diz «depois de mim virá quem de mim bom fará!». E, de facto, cientes de nunca terem vivido acima das suas capacidades  - ao contrário do que mil vezes lhes quiseram fazer crer os arautos da austeridade custe o que custar - os portugueses sabem bem como os socialistas quiseram sempre apostar na sua qualificação a par dos investimentos na ciência e na inovação, que tinham por objetivo situar-nos entre os países mais avançados da União Europeia.
Não se reveem assim nas políticas deste governo, que vende as melhores, maiores e mais estratégicas empresas nacionais a interesses estrangeiros a preços de saldo e promete um futuro radioso em que o país se reduzirá à condição de exportador de produtos de escasso valor acrescentado manufacturados por gente iletrada e mal remunerada.
Se não fossem trágicas as consequências de tal desastre politico até poderíamos sentir alguma pena pelo autismo de passoscoelho. Assim só podemos pedir para que o encerrem urgentemente num manicómio aonde deixe de fazer tanto mal a quem diariamente acorda numa conjuntura em que é licito perguntar se a maluquice anda tão desaustinadamente à solta...