quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

POLÍTICA: a nuvem de fumo do despesismo


No excelente jornal que é a versão portuguesa do «Le Monde Diplomatique», a diretora Sandra Monteiro recorda algo, que é esquecido por muita gente: a chamada crise das dívidas soberanas não foi causada pelo despesismo dos governos (apesar da direita explorar demagogicamente até à exaustão esse  suposto pecado de José Sócrates, que até tratara de recuperar o desequilíbrio herdado de Durão Barroso e Santana Lopes!).
Recordemos que, quando a Lehman Brothers faliu em Setembro de 2008, a ordem dada aos governos europeus pela Comissão Europeia foi que se lançassem grandes fluxos monetários na economia. E devidamente apoiado pelos ricardos salgados, pelos ulrichs e demais banqueiros, José Sócrates levou por diante essa diretiva dimanada de Bruxelas. Desconhecia que seriam eles quem rapidamente lhe tirariam o tapete debaixo dos pés, quando a direita neoliberal internacional viu na conjuntura a oportunidade para aplicar um programa ideológico, que temeu impossível de levar por diante doravante. E de que esses banqueiros se converteriam rapidamente em lugares tenentes bastante convictos.
Está, pois, em causa o oportunismo de quem mais defende os responsáveis pela crise de 2008 querendo garantir-lhes terreno fértil para que continuem a prosperar em detrimento da imensa maioria dos cidadãos. Diz Sandra Monteiro no artigo, que nos serve aqui de referência («Austerizados, uni-vos!»):
A pretexto de uma dívida pública criada pela resposta à crise originada no sistema financeiro, foi-se impondo um estado de exceção e de necessidade que tudo parece justificar:
· do desemprego como programa até às reduções de salários e pensões;
· da venda e concessão a privados de bens e serviços essenciais
· à aceitação de uma suspensão da democracia que usurpa os instrumentos de governação sem os quais uma comunidade política não pode ser sujeito das suas escolhas.
Porque a democracia constitui uma aspiração inalienável da comunidade humana o plano desta direita, que tem passos coelho como sua principal marionete, está condenado ao fracasso. Mas até lá, quantos sofrerão pelos crimes colaterais inerentes a este roubo legalmente sancionado por um resultado eleitoral conjuntural, que já perdeu totalmente o seu sentido.


BANDA SONORA: Dave Brubeck Quartet Blue, «Rondo à la Turk»


Nesta altura em que a morte parece ter saído à rua para nos levar um arquiteto (Niemeyer), um encenador (Benite), um escritor (Papiniano) e um músico (Brubeck) fica aqui uma evocação de todos eles com um dos temas mais conhecidos do último...

FILME: «Violeta se fue a los Cielos» de Andrés Wood



Violeta Parra suicidou-se em 5 de fevereiro de 1967 com um tiro na cabeça, apesar de ter composto uma das mais belas canções do reportório latino-americano: «Gracias a la vida». Tinha 50 anos e sempre se consagrara a recolher as cantilenas populares, que estavam condenadas a desaparecer com o advento dos tempos modernos nos ambientes rurais.
Filha de uma camponesa e de um professor primário contava com a amizade do poeta Pablo Neruda, que a definiu como alma incendiária e incendiada do Chile. Foi esse país e a sua cultura que, de viola na mão, cantou nos palcos internacionais, nomeadamente nos soviéticos e polacos, com temas sobre a miséria e o sofrimento do sue povo, mas também sobre a sua esperança e espírito de revolta.
O filme «Violeta» de Andrés Wood constitui uma biografia convencional, mas tem o grande mérito de recordar uma grande voz, que convém sempre ter presente nas lutas por que não tardaremos a passar. Porque os seus versos - a exemplo dos do Zeca - continuarão imorredoiros. E, ademais, a interpretação de Francisca Gavilan é referenciada como comovente...

documentário: «Around the World with Joseph Stiglitz» de Jacques Sarasin



Um Outro Mundo É Necessário ou O Mundo Segundo Joseph Stiglitz é um documentário de hora e meia, realizado por Jacques Sarasin, que deveria ser de visão obrigatória para todos quantos ainda teimam na visão neoliberal das relações económicas entre as nações ou dentro delas próprias.
O filme inicia-se em Gary, aonde o protagonista, tornado famoso pelo Nobel da Economia, nasceu em 1943, quando aquela (então) grande cidade do Indiana abrigava as maiores metalúrgicas  da época. Tinha sido, aliás, para tal objetivo, que a cidade nascera em 1906.
Filho de democratas, Stiglitz desde cedo ouvira discutir as grandes questões políticas à mesa das refeições e iria ter nesse caldo cultural o início de uma curiosidade que, tantos anos depois, o trará de volta para analisar os  efeitos ali causados pela mundialização. O que encontra é uma cidade decadente, sem comércio local, que perdeu, entretanto 40% da sua população, ainda por cima a mais jovem e qualificada, porque a falta de investimentos tornaram-na num espaço de desesperança. Um cenário parecido com o que se converterá o Portugal de passos coelho e de vítor gaspar se eles não forem rapidamente empurrados para o tal caixote do lixo da História.
Tentando contrariar a ruína presente, o presidente da câmara procura investidores estrangeiros, mas as esperanças reduzem-se a possíveis indústrias chinesas e indianas dispostas a aí instalar cadeias de fabrico de peças para produtos a serem montados nas suas distantes origens. Ou seja exatamente o oposto do que sucedia no passado, quando as peças de pouco valor acrescentado eram fabricados em países subdesenvolvidos para que os sofisticados produtos finais saíssem das empresas europeias ou norte-americanas.
 Mas Stiglitz também se interessa pelos exemplos da ação nefasta da mundialização noutras  paragens: na Índia os camponeses suicidam-se aos milhares por não conseguirem competir com os preços dos produtos agrícolas altamente subsidiados pelos países desenvolvidos; no Equador a Texaco andou a extrair hidrocarbonetos e gás natural e a poluir recursos hídricos, que condenam zonas importantes do país à total desertificação por neles se tornar impossível a subsistência; no Botswana, as populações bosquímanas são expulsas dos seus territórios tradicionais pelo interesse ganancioso das grandes multinacionais diamantíferas.
O que ressalta da abordagem de Stiglitz é o comportamento criminoso das multinacionais apenas interessadas em maximizarem os lucros dos seus acionistas em detrimento dos prejuízos causados nas populações das regiões sujeitas à sua exploração desenfreada.
Rafael Correa, o corajoso presidente do Equador, testemunha a sua opinião sobre o tema, lembrando a importância de levar por diante políticas benéficas para a maioria dos seus concidadãos por muito que desagradem às multinacionais.
Recordemos que, embora legitimamente eleito sucessivamente para a mais alta magistratura do seu país, Rafael Correa não se livra de ser apodado de ditador pelos comentadores ocidentais demasiado incomodados com a sua irreverência perante as multinacionais. É o preço por não se conformar com o esbulho das riquezas naturais do seu país, bem espelhadas no exemplo das tentativas de norte-americanos sem escrúpulos capazes de patentearem como invenções suas as metodologias de cultivo tradicionais dos índios equatorianos para procurarem receber direitos ilegítimos do conhecimento que roubaram.
Ajuíza Stiglitz: os recursos naturais deveriam servir para melhorar a qualidade de vida das populações dos países subdesenvolvidos e, pelo contrário, elas continuam a sobreviver em condições precárias, enquanto os monopólios lucram obscenamente com a exploração desenfreada de tais riquezas.
Daí a importância por ele atribuída à alteração profunda da ordem económica mundial com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial a terem de abandonar os modelos de capitalismo selvagem que tão prejudiciais se têm mostrado.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

POLÍTICA: Se, ao ver o que vê, não cair redondo - sorria!


Nas leituras de hoje vale a pena começar por um blogue, o Arrastão, aonde Sérgio Lavos aborda a patética desautorização a que gaspar se sujeitou por parte dos seus homólogos do Eurogrupo, sobretudo porque põe a tónica em algo que não é tantas vezes referenciado pelos opinadores e comentadores quanto o necessário: a importância de passos, relvas e companhia perdurarem o mais possível no governo para acautelarem os negócios em que contam encher os bolsos logo a seguir.
Diz o bloguista em causa: Fazer os portugueses de parvos tornou-se o passatempo favorito deste Governo. Depois do desmentido do primeiro-ministro sobre as propinas no Secundário e do secretário de Estado dos transportes ter atribuído à fraude a razão de uma quebra de quase 13 milhões de passageiros nos transportes públicos, agora é o impressionante Gaspar a fazer a hermenêutica do PM e do presidente do Eurogrupo, assim como das suas próprias palavras. Um Governo sem rei nem roque, a cumprir o suficiente para Relvas e Coelho orientarem os seus negócios e os dos amigos. Uma comissão liquidatária do país.
Quando um dia olharmos para estes meses com o distanciamento de quem vê à distância um pesadelo, um dos mistérios jamais esclarecidos será o de se saber como terá sido possível aprovar um orçamento contra 99,9% dos que o terão lido e comentado (e só não chega ao pleno porque há sempre a contar com um josé gomes ferreira na Sic Notícias e um camilo lourenço no Negócios).
Têm passado por aqui extratos de artigos nesse sentido, e o do José Vítor Malheiros no «Público» é só mais um para continuar a dar com água mole em pedra dura: O Orçamento de 2013 é mentira. Mas, pior do que ser mentira, é um orçamento de ataque ao povo português. É um orçamento de guerra. Não por ter sido imposto por uma situação de guerra, mas porque é um ato de guerra contra os pobres e a classe média, contra a democracia e a liberdade (de que liberdade goza um desempregado?). É um ato de revanchismo serôdio contra o 25 de Abril. Mais do que um confisco de salários e pensões é um confisco de direitos. É um confisco de democracia. É um ato de guerra civil.
Talvez os 100% se atinjam para o próximo mês, quando, na expressão de Daniel Amaral no «Económico» a reação dos mais distraídos não deixará de acontecer: Deixo aqui uma sugestão ao leitor: relaxe e esteja atento à remuneração de Janeiro. Se, ao ver o que vê, não cair redondo - sorria!
Nessa altura até os mais cordatos críticos de passos coelho deixarão de ter discursos enviesados como o de António Costa, diretor do mesmo jornal: Pedro Passos Coelho está a falhar, porque não se adivinha o que poderá ser o dia seguinte à ‘troika', mesmo com o regresso aos mercados e a independência financeira da nossa economia. Ou melhor, adivinha-se, e por estes movimentos, teme-se o pior.
A revolta assumirá cada vez mais a veemência manifestada por Tomás Vasques no i: Tudo ao contrário, como se a democracia fosse pura batota, o jogo da vermelhinha que circula em feiras e romarias. Estes embustes, deliberados, não podem cair na rotina de uma sociedade democrática, sob pena da Democracia passar a ser, apenas, um pin com a bandeira nacional, colocado na lapela de membros do governo e banqueiros . Quem tanto mentiu, conhecendo a situação, tem de se ir embora. O mais rapidamente possível, para que Portugal, os portugueses e a Democracia voltem a respirar de novo e encontrem outro caminho – o seu caminho.
É claro que a queda deste governo ajudaria à solução, sem porém a conseguir por inteiro. Porque o mal desta política de austeridade tem de ser corrigido com uma alteração a nível europeu. Di-lo José Reis Santos ainda no Económico: "There is no alternative" (TINA) é a ideia-síntese do atual discurso liberal europeu, cujo propósito é tornar inevitável o desmantelamento do Estado Social e implementar modelos teóricos (ultra) liberais que entendem que as sociedades humanas se devem organizar em Estados ‘low cost' de soberania relativa, deixando aos privados, aos mercados internacionais e às suas elites oligarcas a definição e gestão do bem-estar coletivo. (…)
Assim, e infelizmente, resta-nos menosprezar (em certa medida) a politiquice nacional e concentrarmo-nos na promoção de uma coligação progressista europeia que consiga, em 2014, eleger um Presidente da Comissão que definitivamente mande esta TINA às malvas.
Para nosso contentamento os ventos começam a soprar de feição em diversas latitudes, mesmo naquelas em que poderíamos temer mais comprometidas as possibilidades de se acabar com o tal passo atrás e virarmo-nos para dois decisivos saltos em frente. E, a demonstrá-lo nada como acabar esta súmula com a notícia do Público sobre o que se está a passar atualmente no Egipto, em que os islamitas estão a ser contrariados com crescente determinação pelos que exigem um poder laico e democrático: Os manifestantes que se concentraram em torno do palácio presidencial do Egipto, no Cairo, para protestar contra o Presidente Mohamed Morsi, atravessaram as barreiras da polícia, que respondeu com gás lacrimogéneo. O Presidente deixou o palácio e foi para o seu apartamento, enquanto a manifestação continuava.

POLÍTICA: Correr com esta gente, já!


As novidades - invariavelmente más - sobre o comportamento deste governo são tão quotidianas e traduzem tão contínuo desaforo, que vale a pena comparar com quanto ocorria nos tempos do mal-afamado José Sócrates.
Aonde estão as turbas vociferantes, que então reclamavam por não haver uma escola ou uma maternidade em cada rua da mais recôndita aldeia? Aonde estão os professores, que então eram contra qualquer avaliação de desempenho e agora são convidados pelo seu representante nogueira a optarem por se curvarem às decisões do crato de serviço?
E aonde está toda essa gente que via corrupção mais do que certa em todas as inventonas propagandeadas por quantos bloguistas se viram entretanto promovidos a assessores dos vários ministros e agora encolhem os ombros perante as confirmadas ações de Relvas e Passos com as verbas europeias para formações inventadas à pressão?
E aonde estão os investigadores e os investidores em tecnologias avançadas - nomeadamente nas energias renováveis - que eram apoiados para levarem o país para um estado de excelência e agora se calam ou carregam as malas para outras paragens, porque se viram de súbito no que Alexandre O’Neill chamou de «país no diminutivo»?
Passaram-se dezassete meses, que transformaram completamente o país e os portugueses. Aonde está o grande clamor, que a situação justifica?
É que, embora já tenham ocorrido grandes manifestações públicas contra o governo, ainda nenhuma surtiu o único efeito justificado: correr a pontapé com esta gente e devolver à política a dignidade e o sentido de esperança, que lhe deve estar no adn…

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

POLÍTICA: O desespero nunca foi bom conselheiro


De entre os textos de opinião surgidos no «Negócios» dos últimos dias vale a pena regressar a dois pela pertinência das ideias neles expressadas.
Um é da autoria de Fernando Sobral. Muito embora não acredite em alternativas à desastrosa política governamental, o jornalista situa esta última em parâmetros com algum sentido, por a conotarem com modelos de poder asiáticos. Comecemos por um extrato particularmente eloquente:
Parece cada vez mais evidente que o modelo que vai na cabeça de Passos não é liberal. Finge que é. Mas, na prática, é a utilização do poder do Estado para forçar à criação de um fosso social brutal, onde clientelas reduzidas terão ao seu dispor o Estado para o que é verdadeiramente importante.
Trata-se da aplicação de um modelo que nem sequer é americano, porque os portugueses estarão amarrados ao saque fiscal do Estado, à sua burocracia e à sua falta de bom senso e justiça real.
O modelo que se adivinha nas palavras de Passos Coelho é muito mais identificado com o capitalismo estatista de certos países asiáticos, onde por detrás de um liberalismo económico as grandes decisões políticas estão nas mãos de uma elite.
Recordemos que, há ano e meio, Pedro Passos Coelho confessava o seu entusiasmo por um livro que andava a ler da autoria do antigo ditador de Singapura, a quem atribuía judiciosas propostas políticas.
Curiosamente não tenho visto qualquer referência a esse pormenor, mas ele parece-me interessante de referir até porque a vida profissional deu-me o ensejo de conhecer razoavelmente essa cidade-estado na ponta meridional da península malaia e o que vi não corresponde, de modo algum, a um modelo de regime a que os portugueses se possam adaptar. Nem à força de «tem de ser» ou de «aguentam, aguentam!».
De facto os portugueses não têm a passividade inerente às culturas orientais, nem se coadunam com caudal de proibições a que vi sujeitados os cidadãos em causa em nada consonantes com um quadro cultural europeu .
Engana-se, pois, Passos Coelho com os gurus de que se quer fazer seguidor. Por muito que o alicie o resultado pretendido de transformar a relação de forças atualmente existente entre as diversas classes de que se compõe a sociedade portuguesa, numa espécie de ditadura das reduzidas elites sobre uma maioria de iletrados novamente subjugados pela tríade dos três f’s (fado, futebol e Fátima), só por absurdo esses seus desejos poderiam converter-se em tenebrosas realidades.
Infelizmente para o atual primeiro-ministro, por muitos guarda-costas, que lhe pretendam preservar a integridade física, começa a haver muita gente desesperada, sem nada a perder e com um ódio revanchista pronto a manifestar-se contra si. É o que avisa Baptista Bastos em sucessivos alertas para a falsa brandura dos costumes lusos:
Até onde nos levará o ideário de que Passos é áulico servil? A angústia, o desespero, inquietação, a fome, o desemprego crescente, a ausência de perspetivas dos mais novos, o abandono dos velhos, os sem abrigo impelem a ações defensivas de resultados imprevisíveis. Determinam e explicam todas e quaisquer reações. O desespero nunca foi bom conselheiro. Cuidado!
Cuidado, pois, Passos Coelho e sua camarilha. Também Sidónio Pais quis moldar o país à luz da sua alucinada versão de deus, pátria e autoridade e acabou baleado no Rossio. Ou foi por uma unha negra que Salazar escapou à bomba preparada pelos anarquistas do grupo «A Batalha».
A História lusa mostra-nos com fartos exemplos como costumam acabar os miguéisdevasconcelos, quando se mostram demasiado subservientes aos interesses estrangeiros em detrimento dos respeitantes aos portugueses.
E, no entanto, essa seria a solução menos benéfica, que poderia surgir para que alternativa mais sensata possa sobressair. Senão vejamos que, ainda hoje, continuam a existir saudosos de um Sá Carneiro que era sujeito de pequena estatura e não constava que fosse grande dançarino…
Importa que a esquerda se liberte urgentemente do seu atávico sectarismo e apareça unida em nome do máximo denominador comum das suas diferentes propostas, que não são tão pouco complementares quanto parecem. Porque não se apressando, ainda acaba por ver o estoiro a rebentar-lhe nas mãos quando menos espera e a eficiência da resposta a ficar necessariamente comprometida...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

POLÍTICA: Como parecendo que estamos a falar de alpinismo é de política que se trata!



No programa canadiano «Le Point» , transmitido pelo canal TV5 mostrou-se o caso dramático de Shriya Shah, empresária de Toronto decidida a subir ao cume do Evereste como se se tratasse de um desafio identitário já que, de origem nepalesa, ela vivera em Katmandu durante a infância e a adolescência.
De nada serviu, que a tentassem dissuadir invocando a sua inexperiência. Apostar em conquistar a montanha mais alta do mundo sem ter feito alpinismo até então, constituía para o marido e os amigos uma intenção absurda.
Mas quem conseguia opor-se à determinação com que ela  decidiu levar por diante o projeto? Tão  convencida se sentia de tal plano, que passou meses a preparar-se em caminhadas pelas florestas e pequenas montanhas das redondezas da grande metrópole canadiana.
Reunidos os 60 mil dólares para contratar sherpas e comprar material aí tínhamos  ela nas faldas do Everest na Primavera passada, juntando-se à enorme multidão, que estava decidida a imitá-la. E esse é um dos aspetos mais impressionantes da reportagem: o «turismo radical», que consiste em levar pessoas impreparadas até ao cume, assumiu uma tal dimensão, que eram dezenas os que se enfileiravam para atacarem a parte final da subida no fatídico 18 de maio, quando Shriya levaria por diante a sua tentativa. Contra todas as regras de segurança, eram dezenas os que subiam em fila indiana como se caminhassem para uma qualquer atração da Eurodisney. Ademais, como era o caso dela, acompanhavam-nos muitos guias inexperientes, que, sem outro emprego, vêem nessa atividade de apoio aos alpinistas uma fonte de rendimento.
Shriya não teve a sorte dos principiantes: lenta a subir, foi consumindo o oxigénio disponível e atrasando-se em relação ao horário recomendado para atingir o topo. As rajadas de vento e as temperaturas abaixo dos –40ºC não a dissuadiram de continuar em frente, quando o dono da empresa que contratara lhe propôs que voltasse para trás. E lá conseguiu chegar ao topo e aí permanecer durante meia hora.
A morte sucederia na descida quando já sem oxigénio e exausta foi deixada já inconsciente agarrada à linha de segurança, sendo vista por outros alpinistas que subiam e desciam já a encontrando morta.
O corpo dela só seria resgatado dez dias depois, e depois incinerado na presença da família.
O que este exemplo demonstra é o perigo de se teimar num objetivo, que não pode ser alcançado, ou que, se o for como sucedeu com Shriya, conduzirá inevitavelmente ao pior dos desenlaces.
E, quando se escolhem acompanhantes sem as qualificações necessárias para corresponder a este tipo de situações de crise  estão criadas as condições para o mais terrível dos insucessos.
Vistas as coisas se mudarmos Shriya pelo fundamentalismo de Passos Coelho e os tais acompanhantes pelos senhores da troika, que só têm facultado receitas contrárias às suas supostas previsões, bem podemos constatar como as leis, que regem as atividades radicais se aplicam como uma luva à política...


DOCUMENTÁRIO: «Camping» de Paula Gonzalez e Nuno Baptista



Camping de Paula Gonzalez e Nuno Baptista é um documentário confrangedor. Recentemente apresentado, depois de estar em rodagem desde 2007, mostra o quotidiano de campistas no parque do Inatel na Costa da Caparica ao longo das várias estações do ano.
Se, há muitos anos, víamos um filme como «Feios, Porcos e Maus» de Ettore Scola como o paradigma de um subproletariado italiano sem pinga de consciência política numa época em que a Itália estava à beira do nunca concretizado «compromisso histórico», Camping bem pode representar algo de parecido no Portugal de hoje ao mostrar como, nesse mesmo estrato, a coscuvilhice e o mau gosto andam de mãos dadas.
Comparadas com as festas aqui apresentadas, as que Miguel Gomes filmara no seu «Aquele Querido Mês de Agosto» quase pareceriam ter a sofisticação de um espetáculo num casino de Las Vegas. Mesmo que as músicas e as coreografias alinhem pela mesma subcultura. Porque reconhecidamente os pobres, aqui a mimetizarem mal os costumes pequeno-burgueses, são preconceituosos, têm gostos musicais pimbas e, à falta de outras identidades, vão procura-las a clubites absurdas.
É por isso que olho para o filme com algumas dúvidas quanto às vantagens da sua exibição, porque afinal mostra, sem nenhuma forma de crítica, uma triste arte de ser português. Afinal aquela que nos trouxe até ao atual estado de coisas, já que é fácil adivinhar em muitas daquelas pessoas, iludidos eleitores do governo atual.
Cenas como as do espetáculo noturno crismado de «Chuva das Estrelas», os queixumes do guarda do parque sempre queixoso de quanto tem de trabalhar ou os autoelogios de quem se compraz por ter tendas maiores e mais bem equipadas do que as dos vizinhos fazem-nos corar de vergonha.
E lembrar Almada Negreiros, quando dizia: "um país é o conjunto de todos os defeitos e qualidades. Coragem portugueses pois já só vos faltam as qualidades".

FOTOGRAFIA: Alexander Rodchenko e o experimentalismo dos anos 20



Nos anos 20 do século XX um novo movimento chegava à fotografia, a Nova Visão, que ambicionava assumir uma forma de ver e de viver em claro contraste com o que se passara até então.
Primeira rutura: a linha do horizonte perdia a sua horizontalidade, pouco consonante com uma realidade vertiginosa e marcada por linhas em diferentes direções.
A objetiva passa a orientar-se para cima exaltando a grandeza dos edifícios ou no sentido contrário captando a desmesura da cidade.
Ciosos da ordem regida por diagonais, os fotógrafos influenciados pela estética desenvolvida por Dziga Vertov nos seus filmes, esquecem a Natureza, demasiado caótica para a sua apreciação visual. Pelo contrário as máquinas tornam-se fotogénicas enquanto símbolos de um imparável progresso.
Além de Aleksandr Rodschenko, cujas imagens visavam criar uma estética revolucionária paralela à transformação social da grande nação soviética, também importa salientar desse período a obra de Laszlo Moholy-Nagy no âmbito do movimento da Bauhaus.
Mas, embora proporcionando imagens de uma estética lindíssima, a Nova Visão  não tardaria a evaporar-se com a repressão imposta na URSS a expressões artísticas consideradas formalistas e com a extinção da Bauhaus pelo novo poder nazi.
Ficou, porém, a memória de obras ainda hoje de grata visualização...

FILME: «Polluting Paradise» de Fatih Akin



Fatih Akin é um dos principais realizadores alemães, conhecido por filmes em que surgem  personagens errantes à procura da identidade, senão mesmo do amor e da correspondente felicidade.
Apesar de nascido em Hamburgo em 1973, ele mantém a ligação à Turquia donde era natural a família paterna. E foi aí, na aldeia natal do avô situada numa recôndita região, que ele encontrou a inspiração para o seu título mais recente, o documentário «Polluting Paradise».
A história não podia ser mais pertinente nesta época de inaceitável desprezo pelos ecossistemas: pretendendo resolver o problema do lixo de uma comunidade urbana de mais de um milhão de habitantes, as autoridades decidiram eliminar a referida aldeia para instalarem uma lixeira a céu aberto nas minas aí desativadas. Apesar dos protestos e dos alertas de quem antecipava as consequências de tal decisão, o projeto seguiu por diante a partir de 2007. Defendiam-se os decisores com o efeito positivo de tal acumulação de detritos orgânicos, que equivaleriam a prodigiosos adubos para as culturas. Uma mentira em que, singularmente, eles pareciam acreditar!
Claro que o resultado foi uma catástrofe ambiental com os recursos freáticos a serem contaminados em pouco tempo, prejudicando as plantações de chá sobre que assentava a economia local.
Embora os seus títulos anteriores não fossem particularmente significativos quanto a preocupações políticas, Fatih Akin demonstra em «Polluting Paradise» a estupidez do poder, que, mesmo avisado das trágicas consequências dos seus atos, decide seguir em frente.
Algo parecido com o que se passa hoje em dia com o governo de Pedro Passos Coelho...

POLÍTICA: É difícil encontrar quem ainda defenda Pedro Passos Coelho


Este é um tempo dado a grandes absurdos. Basta ouvir Pedro Passos Coelho a discursar ou a insurgir-se contra Judite de Sousa, que o impensável acontece: até eu, confesso ateu, me sinto levado a bíblica metáfora do Evangelho Segundo São Mateus (E outra vez vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus)  para encontrar a comparação adequada quanto ao apoio público ao atual primeiro-ministro: começa a ser mais fácil acreditar no referido dromedário do que encontrar um comentador disposto a aprovar as políticas do Governo.
Marcelo Rebelo de Sousa ou Marques Mendes lá se vão ainda prestando ao frete, mas até o inefável Vasco Pulido Valente já se vai dissociando de tão comprometedora adesão.
Nos jornais lidos este fim-de-semana abundam, pelo contrário, atestados de incompetência a Pedro Passos Coelho, que justificam o apelo de um elevado número de personalidades lideradas por Mário Soares para que se apresse a sua candente demissão.
Vejamos alguns exemplos, a começar por Pedro Adão e Silva no «Expresso»: Hoje, perante a sucessão de declarações que variam entre o contraditório, o incompreensível e o mau português, tem-se tornado difícil analisar a ação de Passos Coelho. É que uma coisa é fazermos uma avaliação das propostas do Governo com base no seu conteúdo, outra, bem distinta, é tentar perceber até que ponto as decisões obedecem a critérios de racionalidade e visam criar uma coligação social de apoio.
Chegámos, hoje, a um ponto tal que, sendo ainda possível encontrar quem defenda a estratégia que, com dificuldade, se vislumbra no Governo, tornou-se virtualmente impossível encontrar alguém que reconheça capacidades a Passos Coelho. No fundo, parafraseando António José Teixeira em comentário na SIC-N esta semana: "Temos dificuldade em olhar para Passos Coelho como um primeiro-ministro."’
Na mesma linha, mas acrescentando ilegalidade inconstitucional à  inaptidão política do primeiro-ministro, escreve Carvalho da Silva no «Jornal de Notícias»: A coberto de mentirosas inevitabilidades e de uma emergência financeira cuja gravidade vai aprofundando, o Governo destrói a economia, entrega a grandes interesses capitalistas estrangeiros e nacionais os nossos recursos e setores estratégicos, e impõe escolhas de regime político que subvertem o Estado de Direito e a sua lei fundamental.
No «Diário de Notícias» Pedro Marques Lopes, que até votou no PSD nas últimas legislativas, dá-o como completamente perdido: O pior, porém, é já ser evidente que fora a sua fé cega no plano revolucionário pós-troikiano de Gaspar, Passos Coelho não tem uma ideia consolidada e estruturada sobre praticamente nada. E sempre que fala, isso torna-se claro para cada vez mais pessoas. Agora tem fé em Gaspar, outro guru se seguirá.
Nada pior do que sentir que quem nos lidera está ainda mais perdido do que nós.
No «Diário Económico» Pedro Silva Pereira continua na mesma lógica num texto em que lamenta o inqualificável ataque à qualificação dos portugueses pelo investimento na educação: Fica difícil saber o que mais devemos lamentar: se um Primeiro-Ministro impreparado, que desconhece aspetos básicos da nossa Constituição; se um Primeiro-Ministro insensível, que insiste na receita da austeridade sobre as famílias; se um Primeiro-Ministro sem visão que, num País como este, não percebe a função dos direitos sociais e admite pôr em causa o mais decisivo instrumento de promoção das qualificações e da igualdade de oportunidades. Mas que tudo isto é lamentável, lá isso é.
E no blogue «Arrastão» Sérgio Lavos chega a questionar se não estamos todos alucinados e tão paradoxal personagem exista: Impreparação, desconhecimento, arrivismo voluntarioso, eis o que define o primeiro-ministro. Dir-se-á mesmo: alienação. Quem não sabe como se organiza o ensino em Portugal está completamente a leste de tudo. Este senhor existe mesmo? E governa-nos?
Como afere Fernanda Câncio no «Diário de Notícias» é imperioso escorraçar rapidamente Passos Coelho do Governo. Já!: Demite-se um PM quando é mais danoso para o País mantê-lo no lugar que arriscar outra solução, por fraca e incerta que pareça. Quando cada dia que permanece no lugar para o qual foi eleito cria perigo para a comunidade. Demite-se um primeiro-ministro quando é preciso. É preciso.
Se ainda exista quem olhe para todas as desgraças dos vizinhos na esperança de vir a escapar da tempestade por entre os pingos de chuva é Nicolau Santos quem no «Expresso» se encarrega de os dissuadir: o que aí vem será dramático para a imensa maioria dos portugueses ainda não afetados pelo desemprego, pelos ordenados em atraso, pela precariedade do emprego ou pelos rendimentos cada vez mais reduzidos: As pessoas ainda não perceberam o que lhes vai cair em cima. Mas quando virem o recibo de vencimento no final de janeiro, compreenderão quão brutal é o tsunami fiscal que lhes vai arrasar o nível de vida e colocar-nos a todos a pensar em meios para sobreviver até ao fim do mês.
Concluamos este balanço das opiniões expressas nestes dias com o que Miguel Sousa Tavares subscreve no mesmo «Expresso»: O erro do adjunto do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, é a tentação de preencher a sua ignorância em matéria económica e a sua impreparação em matéria política encostando-se à muleta que Gaspar lhe estende, convencido de que assim hão-de conseguir atravessar para a outra margem. Eu estou convencido do contrário: que ele irá ao fundo e nós com ele, pois está escrito nos livros que não se pode salvar as finanças públicas de um país matando a sua economia. Já Vítor Gaspar, terá, provavelmente, um futuro garantido até à eternidade nalgum gabinete de estudos internacional ou como palestrante em universidades, para dar conferências com o tema 'Eu estava lá: como conduzi até ao fim o processo de ajustamento da economia portuguesa'.’

domingo, 2 de dezembro de 2012

BANDA SONORA: «The Jazz Age» de Bryan Ferry


Foi lançado esta semana o novo album de Bryan Ferry. Completamente instrumental ele constitui o seu regresso aos amores de juventude, quando o jazz dos anos 20 o fascinava.
Pioneiro da New Wave, enquanto esteve nos Roxy Music, Ferry reduz a pop dos últimos vinte anos à irrelevância pela falta de harmonia, de alma...

sábado, 1 de dezembro de 2012

DOCUMENTÁRIO: «A última jangada do Montenegro» de Matthias Hedder e Monika Hielscher.



Tenho comigo imagens cinéfilas bastante gratas sobre descidas de rios ou sobre jangadas de troncos de árvores. Só para citar algumas há o filme de John Boorman em que Burt Reynolds, Jon Voight e mais dois amigos descem um rio antes de uma barragem o destruir e dão ensejo a um inesquecível dueto entre uma guitarra e um banjo. Ou a experiência vivida ao largo de Libreville, quando chegavam jangadas de troncos ao costado do navio aonde eu era tripulante e, algumas vezes, surgiam tornados tão inesperados, que só havia tempo para salvar os homens, que a carga, essa, seguia rumo ao largo.
Foi tudo isso, que fui recordando ao ver o documentário «Le Dernier Radeau du Montenegro» realizado por Matthias Hedder e Monika Hielscher.
Quem diria que nessa região da antiga Jugoslávia, hoje incluída na Bósnia e no Montenegro independentes, ainda há quem ganhe a vida a comprar troncos de madeira na floresta, a com eles criar um par de jangadas levando-as depois rio abaixo para os vender a jusante?
Essa atividade ainda subsiste nos 140 quilómetros do rio Tara, um dos fluentes do Drina e testemunhamo-la mediante o acompanhamento de uma dessas viagens desde o seu início até à chegada a Foca.
Figret, o irmão e os sobrinhos começam por juntar os doze troncos entretanto comprados e constroem a jangada de quatro toneladas de peso, na qual também transportarão ferragens, materiais e até uma ovelha, carregados ao longo do seu trajeto de meia dúzia de dias.
Há tempo para recordar e homenagear outros grandes manobradores de jangadas cujo nome perdura numa espécie de muro da glória debaixo de uma ponte destruída. Ou para visitar a aldeia natal, abandonada em 1992 durante a guerra civil, que resultou na destruição pelo fogo de todas as casas e na morte dos velhos aí deixados para trás.
O canyon por onde as jangadas seguem é dos maiores do mundo com 1300 metros de profundidade e com correntes, que chegam a 20 quilómetros por hora nos seus rápidos de navegação mais complicada.
Mas as dificuldades da viagem não se ficam por aí: há a chuva torrencial, as zonas aonde a profundidade do leito do rio é tão baixa, que os obriga a desviar os pedregulhos, que impedem a navegação, e todas as dificuldades inesperadas, que podem ser fatais. Não admira, por isso, que Figret vá recordando aqui e além outros manobradores de jangadas mortos em acidentes, que perduram de geração em geração.
Para os sobrinhos de Figret a viagem constitui uma experiência iniciática em que a exigência física se alia ao permanente temor perante os perigos.
No final da viagem Figret reconhece tratar-se de atividade ainda rentável, já que lhe terá valido 1000 ou 1100 euros em apenas uma semana. Mas fica a ideia de se estarem a viver os últimos dias de uma tradição. Hikmet, um dos sobrinhos, entusiasma-se com a experiência, mas ela apenas constitui uma variante para os seus dias passados em frente ao computador. A nova geração já dificilmente manterá vivos os costumes dos seus antepassados.

FILME: «The Rum Diary» de Bruce Robinson


A personalidade de Hunter S. Thompson merece alguma atenção tendo em conta que, apesar de sempre vinculado a excessos de álcool e de drogas, a adesão a motivações políticas de extrema-esquerda numa América donde os sonhos já há muito tinham desaparecido, constitui uma raridade assinalável.
Essa orientação ideológica vincara-se-lhe sobretudo a partir de 1968 quando fazia a reportagem sobre a Convenção Democrata e assistira à violenta carga policial sobre os manifestantes antiguerra do Vietname.
Quer nos livros, quer nos trabalhos jornalísticos a que se dedicou, a influência da beat generation foi determinante, porque não entendeu a escrita de outra forma que não fosse a do testemunho da realidade na primeira pessoa e de forma bastante crítica para com as perspetivas mais convencionais do seu tempo.
Era o jornalismo gonzo em que não existe distinção entre a realidade e a subjetividade do autor, que nela mergulha por inteiro revelando-a e revelando-se.
Um exemplo disso mesmo ocorrera num dos seus trabalhos mais conhecidos, em 1965, que o levara a partilhar o quotidiano dos Hell’s Angels da Califórnia durante um ano até ser por eles violentamente agredido ao compreenderem não existir em Thompson outra intenção, que não fosse fazer dinheiro com o relato sobre as experiências vividas com o bando de motociclistas.
É esse comprometimento num determinado num ambiente, que está retratado em «O Diário a Rum», o filme-homenagem que Johnny Depp produziu e interpretou para eternizar a memória de um dos seus mais queridos amigos. A tal ponto, que terá sido ele a encarregar-se do funeral do escritor, quando ele se suicidou em 2005 em Aspen.
O filme é baseado no romance de Thompson, publicado em 1998, onde retrata a experiência como jornalista numa publicação porto-riquenha, em que o alcoolismo está sempre a condicioná-lo e os amigos são tão peculiares quanto o podem ser um fanático da luta entre galos ou um entusiástico ouvinte de um disco com os discursos de Hitler.
Mas, apesar do exotismo das paisagens e das trapalhadas em que o protagonista e os amigos se metem, o filme de Robinson é pouco interessante, não indo além do padrão das biografias cinematográficas. O que equivale a dizer da importância atribuída à vertente romântica, com a ligação do jornalista à imprudente namorada de um mafioso local.
Quer isto dizer que «The Rum Diary» pouco adianta à divulgação da personalidade de Thompson e torna-se projeto facilmente descartável da memória como se nunca tivesse existido.