sexta-feira, 23 de novembro de 2012

POLÍTICA: Não existe Estado Social só para os mais pobres!


Embora sejam cada vez menos os que têm paciência para ouvir Vítor Gaspar e, quando a tal se arriscam, acreditem tanto nas palavras quanto nas suas sempre erradas contas, ainda me surpreende ouvir gente supostamente identificada com as oposições a deixarem-se embalar pela ideia de termos um Estado Social muito caro, que importa «aligeirar profundamente».
Como recorda João Cardoso Rosas  no «Económico» "um Estado social justo é, necessariamente, aquele que assume a sua função redistributiva e geradora de coesão social. Nesse Estado social existe universalidade dos benefícios e universalidade das contribuições, adaptadas aos rendimentos e riqueza de cada um. Este Estado social é para todos e todos nele participam. Não é um Estado social apenas para os muito pobres."
Nada pior para a identidade de um país do que a sensação de vivermos num espaço geográfico e populacional em que existam direitos diferenciados de acesso à educação, à saúde, à segurança social e a um mínimo de qualidade vida digna. Em que uns tenham direito a quase tudo e aos outros pouco mais reste do que o conformismo de não terem sido capazes de singrarem no chico espertismo em que os relvas e os limas se terão mostrado muito mais aptos.
Na sociedade de amanhã, em que pretendamos usufruir dos direitos de cidadania próprios de uma democracia digna do seu nome, as atribuições do Estado nos serviços comummente associados à vertente social têm de ser universais, eficientes e de qualidade. Contribuindo cada um de nós de acordo com os nossos rendimentos. É esse o papel regulador do Estado reequilibrando, tanto quanto possível, a distribuição desigual da riqueza, que deve ser diluída cada vez mais com mais educação e crescimento económico.
É por isso que, apesar das intensas pressões para assassinar o Estado Social até Fevereiro espoliando-o de 4 mil milhões de euros, a solução está em defendê-lo na rua por muito violenta que se venha a revelar a ação dos polícias, que caucionam os crimes deste Governo.






quinta-feira, 22 de novembro de 2012

FILME: «Deste Lado da Ressurreição», de Joaquim Sapinho



O surf nunca foi tema que me interessasse, apesar da minha fundamentada vocação marítima. Se admiro e respeito a coragem de quem enfrenta as grandes ondas, que rebentam nas nossas costas, sempre considerei tal desporto como divertimento de betinhos e bétinhas, ou de aspirantes a tal, vindos de camadas sociais menos abonadas. Por outro lado compreendo situações de grande dispêndio de adrenalina enquanto necessidade de sobrevivência (como o são as situações de guerra, por exemplo!), mas nunca como fútil réplica da roleta russa.
E, no entanto, foi há pouco estreado um filme sobre um surfista tentado pela vocação monástica, que me poderá levar a reconsiderar esse preambular desinteresse. Porque, na entrevista, dada a António Loja das Neves no «Expresso», o realizador Joaquim Sapinho explica como surgiu «Deste Lado da Ressurreição»: no cinema que faço é como se eu já não escolhesse, são os sítios que me escolhem a mim, não consigo lidar com a ideia de tomar decisões prévias para fazer o filme. Os sítios é que me atraem, sou testado por eles; o Guincho, o convento na serra de Sintra testam-me. E sobreviver a essa possessão é o trabalho do próprio filme.
Ora para essa abordagem de um espaço privilegiado como o é aquele aonde se passa o filme poderá revelar-se esteticamente muito interessante. Porque, acrescenta o realizador: as formas falam, os planos falam, os sítios falam, e o meu trabalho é ouvir, olhar e saber registar.
Escalpelizando esse testemunho depressa descobrimos que o tema é outro, o da alienação nas nossas sociedades continuamente caracterizadas por estímulos comunicacionais, que tornam a solidão uma preciosidade rara: a nossa sociedade, ao proibir a solidão, ao obrigar-nos a estarmos sempre em comunicação, impõe uma espécie de destruição da vida interior que leva a uma forma de estar com os outros que é falsa.
Incapazes de se conhecerem, de se interrogarem, os jovens não têm tempo para o serem, depressa se confrontando com as questões tendencialmente apropriadas para quem passou por tal fase da vida e pode encarar as grandes questões metafísicas.
Acho extraordinário que a sociedade de consumo tenha colocado as pessoas das novas gerações nuas, diante do nada. Já não é necessário chegar a uma idade avançada para o confronto com a morte. Os adolescentes de hoje estão já diante da morte, não há nenhum sentido nesta sociedade de consumo. É como se tais perguntas fossem também postas demasiado cedo em relação à capacidade de se responder.
Parece-me, porém, que Sapinho pareça esquecer quanto, ao longo da História, a humanidade tem sido confrontada com a realidade permanente de guerras terríveis e em que morreram fisicamente ou animicamente quem para elas foi empurrado mesmo ainda de rosto imberbe.

FILME: "Thérèse Desqueyroux" de Claude Miller



Estreou-se em França «Thérèse Desqueyroux», o filme que Claude Miller rodou quando já estava muito doente e concluído pouco antes da sua morte verificada em abril transato.
Embora nunca tenha apreciado a obra, nem os valores de François Mauriac, escritor de simpatias conservadoras, que, em teoria me deveria tornar alérgico a tal proposta cinematográfica, as palavras de Jêrome Garcin no Nouvel Observateur bastam para me fazerem reponderar essa predisposição.
Conta Garcin: Um homem que vai morrer filma o regresso à vida de outro, que escapou à morte por pouco. Para o jornalista resultou daí um filme simples, belo e puro como um adeus. Se a intriga foi respeitada - na burguesia das Landes, entre as duas grandes guerras, uma jovem tenta envenenar o marido com arsénico, esse homem que desposara por conformismo e a quem dera uma filha - é sobretudo para absolver a culpada que Claude Miller levou por diante o seu projeto.
Quem interpreta o papel de Thérèse é Audrey Tautou, espantosa na fleuma, na indiferença, no mutismo quase esquizofrénico. Ela é a mulher que se dissocia do mundo à sua volta por detestar a moral, a fortuna, os costumes.
Contra a moral era também Claude Miller que morria no mesmo hospital em que a amante estava a dar à luz o filho clandestinamente concebido. Tragicamente, esses mesmos preconceitos inviabilizaram que ele visse uma primeira e ultima vez a mulher a quem amara na última fase da sua vida, e cuja presença foi obstada pela família dele.
Existiu, assim, um singular paralelismo entre a ficção e a realidade, com os mesmos valores conservadores, retratados e verberados no filme a virem ao de cima na realidade e a nela tornar recorrente a solidão definitiva de quem contra eles se bateu.

FILME: «Lincoln» de Steven Spielberg



Será muito provavelmente um dos grandes filmes, que veremos nos próximos meses, pelo menos a julgar pelos encómios publicados na imprensa norte-americana: a abordagem de Steven Spielberg à fascinante personalidade de Abraham Lincoln.
À partida o casting não poderia ser mais imponente: há Daniel Day Lewis no papel principal (e já se fala de um justo terceiro Óscar para a sua interpretação, como sempre preparado com o rigor obsessivo tão inerente a ele!). Mas também Tommy Lee Jones, James Spader ou Sally Field.
Há também o argumento assinado por Tony Kushner, que já tanto nos entusiasmara com a peça «Angels in America», que vimos transformada em interessantíssima minissérie.
Mas, sobretudo, há a história em si, que não se pretende hagiográfica (como sucedera com o jovem Lincoln de John Ford), mesmo mantendo as características reconhecidamente intrínsecas à sua personalidade: a humildade, a ternura, o comedimento, a sensibilidade, a tolerância. O Lincoln do filme de Spielberg tem de mergulhar a fundo no ambiente venal da política de Washington, quando lhe restam poucos meses de vida e luta por aprovar a 13ª emenda constitucional, aquela que acabará definitivamente com a escravatura.
O que se retrata é uma arena turbulenta em que abundam acusações de parte a parte e em que há virtude na iniquidade e impiedade na probidade.
Naquele que parece confirmar a consolidação de um projeto cinematográfico menos dedicado ao entretenimento em favor da equação de questões que considera relevantes na política norte-americana - e aqui existirá algum paralelismo entre as boas intenções de Obama face à intransigência republicana - Spielberg acrescenta mais um título de referência na sua carreira.

BANDA SONORA: Krar Collective perform Guragigna

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

POLÍTICA: uma estátua para a nossa indignação


É claro que não pertenço ao imenso coro de vozes há dias afinado a elogiar a polícia a propósito dos incidentes subsequentes à greve da CGTP.
Por muito «idiotas úteis», que os hooligans eventualmente ali misturados com os infiltrados da polícia, tenham sido para darem ao governo e a quem o apoia a oportunidade para escamotear a dimensão e a importância da greve geral, a realidade continua a mesma: muito mais violentos do que os atiradores de pedras à polícia, são os ministros e deputados responsáveis por tanta miséria, desespero e mortes resultantes da continuação da sua criminosa governação. Por isso subscrevo por inteiro o texto hoje publicado por Nuno Ramos de Almeida no «i» e em que ele diz: Nas últimas manifestações há cada vez mais gente desesperada, um sem-número de pessoas que não aguentam a situação em que sucessivos governos deixaram Portugal.
Nos bairros dos subúrbios os filhos nunca tiveram emprego e os pais já não têm. Temos uma falsa democracia, em que os manifestantes são espancados mas os antigos responsáveis do BPN, banco em que desapareceram para os bolsos de alguns milhares de milhões de euros, nunca foram presos e tornam-se conselheiros do primeiro-ministro.
Portugal é um país com milhão e meio de desempregados. As estatísticas falam de um número recorde de pessoas na pobreza, de gente expulsa das suas casas e sem dinheiro para comer.
A violência é filha de um país sem saída.
Como querem ter a paz social da Suécia com a miséria da vida da Grécia?
Desenganem-se, a guerra está no início e a violência vai encher as ruínas das nossas cidades desertificadas por uma política que serve apenas os poderosos.
Já noutra coluna de opinião, Pedro Tadeu dá no «DN» um exemplo bem concreto da pauperização dos portugueses, de nada adiantando que sejam profissionais competentes e respeitados no seu ofício: Uma jornalista que me acompanhou na mesma redação durante cinco anos, uma jovem de reputação profissional impecável e que, nos bons tempos, era disputada entre duas ou três publicações, atravessou o período do subsídio de desemprego e trabalha agora a servir cafés num centro comercial.
Ganha menos do que o salário mínimo e gere, com um filho, um horário louco.
Imagino os palavrões que lhe devem sair da boca, como a milhares e milhares de outros profissionais que vivem situações semelhantes, quando o primeiro-ministro, perdão, o ministro das Finanças, proclama a sua satisfação com a aplicação destes 95% de medidas do memorando da troika.
Mas olho a cara de Vítor Gaspar e vejo, juro, honestidade. Só restam, portanto, infelizmente, duas hipóteses: autismo ou tolice.
A receita deste Governo precipita-nos para o desastre como reconhece o FMI, muito embora não saia da cartilha de ser mantido o esforço de austeridade, que só tem acumulado fracassos: O FMI diz que há o risco de o crescimento recuperar de forma demasiado lenta para conseguir baixar o elevado desemprego. A consequência será a emigração de uma geração jovem e qualificada. Um fenómeno que, avisa, poderá ser difícil de reverter.
Sem jovens - muitos dos quais já começam a requerer a nacionalidade dos países aonde as suas competências e capacidades foram acolhidas interesseiramente - o envelhecimento da população portuguesa é irresistível. A médio prazo o país todo tenderá a converter-se numa daquelas aldeias do nosso interior aonde velhos esperam a morte na solidão e na pobreza mais constrangedora. Números do INE já revelam que para cada 100 jovens, há 129 idosos.
No meio de tudo isto seria risível, se não fosse trágico, o despudor de um Secretário de Estado - por sinal aquele que assinou pelos bancos as célebres PPP’s, que a direita pretende atribuir fraudulentamente como responsabilidade exclusiva dos socialistas - a propor uma estátua a Pedro Passos Coelho pelos bons resultados da sua governação. O que levou João Lemos Esteves a comentar no Expresso Online: O Secretário de Estado dos Transportes tem razão: Passos merece uma estátua. É que normalmente quem tem uma estátua já terminou a sua carreira política - portanto, se a estátua de Passos significar que já abandonou o exercício das funções de Primeiro-Ministro, será uma excelente notícia para Portugal! Venha a estátua! Eu próprio a posso contribuir para o financiamento com os 5 cêntimos que me sobram mensalmente depois de o Estado me tirar dinheiro e ter de pagar as despesas de um cidadão comum em Portugal... 
Eu acrescentaria que haveria uma vantagem suplementar nessa estátua: ser alvo fácil para os portugueses irem garantir alguma catarse da sua indignação projetando nela tudo quanto gostariam de atirar à cara do suposto homenageado.


DOCUMENTÁRIO: «A Mongólia em balão» de Annette Scheurich



Que maravilhosas imagens as facultadas por Annette Scheurich, enquanto acompanha  Phil e Allie Dunnington nas aventuras em balão pelos diversos continentes. Ontem o episódio da ARTE era passado no Sri Lanka a sobrevoar arrozais e campos de chá, com alguns monumentos de permeio. O episódio de hoje era passado na Mongólia e tivemos direito a imagens sublimes do deserto do Gobi.
A virtude de alguns documentários é levarem-nos a participar em aventuras improváveis em que o que vemos compensa bem o facto de lá não termos estado...

Ambiguidades britânicas



«Os Infinitos» é o romance do John Banville, cuja leitura iniciámos, e onde encontramos uma família reunida em torno do patriarca, previsivelmente a viver os últimos momentos depois de fulminante AVC.
Ao fim de cinquenta páginas ainda é cedo para reconhecer mais do que uma escrita densa, descritiva, mas eficiente na elucidação do estado de alma da mulher e dos filhos de Adam, todos eles a cultivarem uma ambiguidade de emoções relativamente a um progenitor reconhecidamente egoísta e devasso.
Mas, estando em causa a temática da morte, vale a pena situarmo-nos num parágrafo da página 38 em que Banville escreve:
O segredo da sobrevivência é uma imaginação defeituosa. A incapacidade dos mortais para imaginar as coisas como elas realmente são é o que lhes permite viver, uma vez que um vislumbre momentâneo, incontido, da totalidade do sofrimento do mundo os aniquilaria imediatamente, como uma lufada da mais letal emanação de canos de esgoto. Nós temos estômagos mais fortes, pulmões mais resistentes, vemos tudo na sua fealdade total a cada instante e não nos intimidamos; é essa a diferença, é isso que faz de nós divinos.
Ficam-me dúvidas quanto a esta tão axiomática definição da nossa condição de divinos. Admito que para um intelectual burguês a viver no floreado reino da Rainha Isabel II aonde imperam tantos rituais absurdos, cumpridos com a maior das desenvolturas por gente que se deveria interrogar quanto à sua natureza e aparência, esse voltar costas à realidade constitua estratégia de fácil execução. Já para a maioria dos seus leitores nesta tão difamada Europa do Sul as circunstâncias diferem substancialmente. Porque, dia após dia, vão-se apertando as oportunidades de sobrevivência facultadas por sociedades a contas com os piores desígnios das pardas eminências capitalistas escondidas por trás dos tais omnipotentes mercados.
E então se ponderarmos no que sentirão os palestinianos de Gaza, uma vez mais, agredidos pela barbárie sionista, a possibilidade de serem divinos alheando-se da realidade é reduzida à mínima expressão…
A descoberta deste livro ainda mal começou mas, apesar de tantos encómios à qualidade da escrita de Banville, começa a justificar-se um distanciamento idiossincrático entre a nossa condição de latinos leitores e a do britânico autor daquelas palavras…
Já quanto à excelente série da mesma origem, «Downton Abbey» de Julian Fellowes, cuja terceira temporada está a passar num dos canais por cabo, a reação só pode ser oposta: o efeito de empatia é imediato, muito embora também estejam presentes, e de que maneira!, as mesmas diferenças culturais e sociais. Só que o retrato de uma velha família aristocrática inglesa é aqui caracterizado pela consciência de existir um mundo em acelerada mudança, a tornar obsoletos muitos dos valores, que prevaleceram durante séculos. E, quer nela, quer no mundo singular da criadagem respetiva, vão-se revelando valores éticos intemporais, que justificam algumas das estórias em que o argumento se vai enredando, mesmo à custa de algum empastelamento de umas quantas situações.
Conceitos como de lealdade, de tolerância e de integridade sobrepõem-se aos da intriga, da mentira, do preconceito, que daqueles constituem a outra face da moeda. E, numa altura, em que este capitalismo criminoso em que sobrevivemos nos quer dissociar dos valores mais importantes, que fundamentam a nossa humanidade, é sempre bom encontrar divertimentos inteligentes em que eles são devidamente enfatizados.
É esta qualidade das produções britânicas a nível das reconstituições históricas, que explica bem porque, às segundas-feiras, sempre que se transmite um novo episódio, o telespectador converte-se num guloso prodigamente saciado...

domingo, 18 de novembro de 2012

DOCUMENTÁRIO: «Clint Eastwood, o franco atirador» de Michael Henry Wilson


Ainda anda muita gente a tentar perceber o que foi aquela cena estranha de Clint Eastwood na convenção do Partido Republicano, que consagraria Mitt Romney como o candidato à recente eleição presidencial. Aquela que fora propagandeada como uma participação determinante para galvanizar as tropas anti-Obama acabou por se revelar pífia, pondo os dois campos partidários a avaliar os ganhos e perdas decorrentes da tal conversa com uma cadeira vazia.
Eastwood mostrava assim, e uma vez mais, o quanto consegue ser desconcertante: quando o encostávamos ideologicamente à direita graças à temática criptofascista dos seus desempenhos enquanto inspetor Harry, logo ele nos surpreendeu com filmes bastante críticos sobre temas quentes na sociedade americana - o racismo, o puritanismo, a pena de morte, etc. E, quando o julgávamos completamente em dissonância com os energúmenos do «tea party» aí o víamos a partilhar-lhes as escolhas partidárias. Daí o interesse de um documentário já com cinco anos, mas que permite clarificar muito do que fundamenta a sua personalidade: «Clint Eastwood, o franco atirador» de Michael Henry Wilson
Na sua propriedade de Carmel, na Califórnia, Clint Eastwood evoca a sua biografia a partir dos filmes, que acabara de rodar nessa altura sobre a guerra do Pacífico até aos tempos de iniciação no mundo do cinema, mostrando como sempre se deixara guiar pela intuição.
Não se encontrarão revelações sobre ele, apesar de se tratar de um retrato intimista, mais sobre a sua vertente artística do que sobre a sua vida privada. É nesse sentido que o documentário já se assemelha a uma espécie de balanço em forma de passeio improvisado tendo Eastwood como guia.
O olhar dele quanto à sua carreira nada tem de intelectual. Pelo contrário é descontraído, humilde e extremamente elegante, delegando no interlocutor as conclusões que se vão impondo. Para ele não parecem existir verdades definitivas, com o tal instinto a empurra-lo para direções muito diversificadas, apesar das modas e das pressões dos estúdios.
Michael Henry Wilson faz as passagens obrigatórias pelas colaborações com Sergio Leone ou na pele do detetive Harry, mas dá preferência a filmes mais pessoais como «Honkytonk Man», «Bird»,«Imperdoável», «As Pontes de Madison County» ou «Million Dollar Baby», revelando o paradoxo de um homem que é, ao mesmo tempo um conservador e um rebelde, uma estrela e um independente.
Nas cenas de rodagem de dois dos seus filmes mais recentes, Eastwood faculta a abordagem sobre os seus métodos de trabalho, muito baseados na improvisação. E o documentário transforma-se, assim, numa útil lição de cinema.

FILME: «Honkytonk Man» de Clint Eastwood



«Honkytonk man» de Clint Eastwood (1982) mostra um cantor de country a dirigir-se a Nashville na América dos anos 30, acompanhado do sobrinho. Trata-se de um filme de aprendizagem com os Eastwood, pai e filho, a abordarem o tema dos “caçadores de sonhos”.
Red Stovall volta à terra natal no dia em que um tornado destrói a plantação de algodão na sua quinta no Oklahoma. Guitarrista e cantor de country, tuberculoso e alcoólico, Red sabe-se condenado e oferece a si mesmo uma derradeira oportunidade: a de participar numa audição para o Grand Ole Opry de Nashville.
Acompanhado do avô, que quer morrer no seu Tennessee e do sobrinho Whit, de 16 anos, conta com este para servir de seu motorista e anjo da guarda. Pelo caminho juntar-se-lhes-á Marlene, uma rapariga que julga ser capaz de também conquistar a glória na capital do country…
O caminho é longo e cheio de surpresas para os peregrinos da Meca deste tipo de música. Na América da Grande Depressão Red e Whit vão passando por bares rurais e lendários clubes de blues, bem como por prisões e bordéis, ao mesmo tempo que tentam roubar galinhas ou assaltos à mão armada.
Tendo por bagagem a guitarra e uma boa dose de ingenuidade, o tio inicia o sobrinho na música, no álcool e nas mulheres e este, por seu turno compensa-o com o papel de salvador e de confidente.
Escolhendo o próprio filho, Kyle Eastwood, para desempenhar o papel do adolescente, o cineasta assina uma homenagem nostálgica e terna á sua própria juventude.
Essa relação filial, na ficção como na realidade, garantem-nos algumas das cenas mais bem conseguidas. Whit, que aspira a escapar ao seu destino de trabalhador nos campos de algodão, também aprende muitos dos fatores, que consubstanciam a mitologia americana. O mérito de Eastwood reside na opção por uma simplicidade, que confere à história a dimensão de um western moral e musical.


DOCUMENTÁRIO: «Teatro nô: o mistério do silêncio» de Carl Amadeus Hiller e Thomas Schmelzer (2004)

Longe do barulho e da agitação de Tóquio, o nô conta e canta histórias muito antigas. O documentário transporta-nos para um universo de silêncio, de clareza e de beleza, retratando grandes artistas e testemunhando divergências entre modernidade efervescente e tradição. Oposições que acabam por o não ser, como demonstram dois artistas reputados, que evoluem nesses mundos com grande à vontade.
No Japão do século XIII, as formas mais antigas do espetáculo como o sarugaku e o dengaku ganham complexidade e evoluem para outros mais próximos do teatro.
Dos quatro grupos especializados nestas artes de rua no início do século XIV o de Kan-ami é o mais importante. Em 1374 o jovem principe Yoshimitsu, terceiro shogun da dinastia dos Ashikaga, convida o célebre artista a atuar no palácio para grande escândalo dos cortesãos. Comprovando o seu bom gosto, Kan-ami insere uma dança ritual, que garante uma notável elegância a um espetáculo originalmente popular. O que constitui uma revelação!
Entusiasmado, o jovem shogun toma Kan-ami e o filho Zeami sob a sua proteção. Será este último quem inventa verdadeiramente o nô. Não só se lhe devem as melhores peças do reportório, mas também fixa as bases teóricas da técnica nô: a dinâmica da interpretação, a relação tripartida entre autor, ator e espectador ou ainda os mecanismos da ação dramática.


DOCUMENTÁRIO: «Le Parlement des enfants du Rajasthan», de Thomas Uhlmann e Anja Freyhoff (2004)



No documentário «Le Parlement des enfants du Rajasthan», de Thomas Uhlmann e Anja Freyhoff (2004) mostra-se o retrato de uma jovem pastora indiana, que desempenha as funções de ministro da Agricultura no Parlamento das crianças, ocupadas diariamente entre as tarefas no campo e as do seu «governo».
No Rajastão, no noroeste da Índia, as encostas áridas à beira do deserto de Thar são pedregosas e difíceis de cultivar. É aí que vive Neraj Jath de 13 anos. De dia ela guarda as cabras e as vacas, ajudando a família nas tarefas quotidianas.
À noite participa nas aulas do Barefoot College (literalmente a «escola dos pés descalços»), uma ONG criada nos anos 70 com o apoio da Unesco, que escolariza mais de três mil alunos.
É no quadro destas escolas que foi lançado o Parlamento das crianças do Rajastão. Neraj Jath foi designada como ministro da Agricultura e do Pastoreio: responsável pelo equipamento das escolas e do aprovisionamento da água às aldeias, que tenta remediar a seca e as desigualdades. Um desafio exigente, sobretudo quando é necessário afrontar o conselho dos anciãos da aldeia para quem as palavras de uma mulher nada valem. Ainda para cima as de uma pastora de 13 anos.

sábado, 17 de novembro de 2012

FILME: «O Retrato de Jimmy P.» de Arnaud Desplechin



A fotografia acima mostra o realizador Arnaud Desplechin entre Benicio del Toro e Mathieu Amalric, os dois protagonistas do seu filme « Portrait de Jimmy P.» recentemente rodado no Michigan, baseado num livro autobiográfico do psicanalista Georges Devereux.
Em «Psicoterapia de um índio das planícies» esse judeu de origem húngara contou como se tornara amigo de um índio blackfoot, Jimmy P., um dos pacientes de que se vira incumbido, quando chegou à América, fugido das perseguições nazis.
Embora, como dizia o outro, palpites só no fim do jogo, o currículo de Desplechin e as interpretações de Amalric e Del Toro, fazem deste filme um dos de visão quase obrigatória para o próximo ano.
Num edifício, que evoca o hotel de «Shining» reconstitui-se o ambiente da célebre clínica de Topeka, no Kansas, onde foram colocados muitos dos psicanalistas europeus ameaçados pelas forças hitlerianas. Mas, mais do que a fiabilidade da reconstituição do ambiente clínico dos anos 40, o que mais alicia é a história da  progressiva amizade entre o clínico e o paciente índio, à medida que este último vai revelando os seus sonhos e obsessões.
No final concluir-se-á que ambos são pessoas perfeitamente normais à procura de se preservarem tão bem quanto possível dos constrangimentos suscitados pelas suas origens e pulsões.

BANDA SONORA: C. Monteverdi - L'Incoronazione Di Poppea - Pur Ti Miro



Uma bela interpretação de Jarouski e Nuria Real

HISTÓRIA: O Far West


O termo de faroeste, popularizado pelo cinema, pela literatura, pelo folclore e pela televisão, é em si mesmo bastante vago e não corresponde nema um período da história americana, nem a um domínio geográfico bem definido.
Criado por imitação a Far East que para os americanos designa o que chamamos de Extremo Oriente, designa pois o extremo oeste do território americano, nas diversas fases da ampliação da nação. De facto, apesar das aparências, este termo que, na origem, tinha um conteúdo geográfico - o Far West seria depois do Middle We~st para quem vinha de leste - passou a qualificar uma fase da história americana, o fim da conquista e da ocupação territorial entre a Guerra da Secessão e a aurora do século XX.
A epopeia do Far West, concluída no início desse mesmo século, transformou-se numa autêntica mitologia, que fundamenta a civilização americana e justifica os seus objetivos. É, de facto, a luta dos bons contra os maus, a vitória do progresso sobre as trevas, a apoteose do homem branco contra as forças da natureza, temas tão caros a um país puritano e sem passado.

1. A definição geográfica e histórica
Os limites topográficos são bastante imprecisos, na medida em que o faroeste cobre o espaço situado entre o Middle West e a costa do Pacífico. Corresponde a Estados ou partes deles situados nas Montanhas Rochosas bem como aos seus prolongamentos nas planícies dos  dois Dakotas e da parte ocidental do Nebraska entre a fronteira canadiana a norte e os confins mexicanos ao sul.
Esse enorme território, que integra cerca de um terço dos Estados Unidos, além de faroeste também costuma ser designado por Estados das Rochosas.
Uma tal definição fica porém incompleta sem o recurso á história e a um fenómeno tipicamente americano, o de fronteira, definido no final do século XIX por Frederick Jackson Turner e depois retomado por numerosos historiadores.
A fronteira é a extremidade do povoamento pioneiro, face ao vazio do continente. Vazio relativo claro, porque nesse espaço havia que contar com os ameríndios.
Até ao fim da guerra da Secessão, os pioneiros tinham avançado até cerca de um milhar de quilómetros para além das margens do Mississipi. Vários estados tinham sido criados nessa margem ocidental a começar com o Missouri em 1821 e a concluir-se com o Kansas em 1861.
Mas logo os pioneiros avançavam para além das Montanhas Rochosas, pela Califórna e pelo Oregon, aproveitando simultaneamente três fatores: o reconhecimento de tais regiões integrarem o espaço norte-americano na sequência do Tratado de Guadalupe Hidalgo com o México (1848), as negociações com a Grã-Bretanha e, sobretudo, com a notícia da descoberta de ouro nos aluviões do Sacramento em 1849.
A grande corrida ao ouro provocará uma incrível animação, desordenada e violenta, no vale interior da Califórnia e em portos de desembarque como São Francisco.
A Califórnia passa a integrar a União em 1850 e o Oregon em 1859.
Entre esses dois espaços ocupados, uma a oeste e o outro a leste, estende-se o faroeste, cujas vastas extensões eram percorridas pelas tribos índias dos Sioux, dos Blackfoot, dos Arapahos, dos Crows, dos Zunis, dos Navajos ou dos Hopis, todas elas dependentes do bisonte, que era o animal por excelência das planícies e dos planaltos, fornecendo alimentação (carne e gordura), vestuário e abrigo (as tendas eram feitas com a pele desses animais).
Em função das migrações das manadas de bisontes as tribos seguiam-nas e não podiam deixar de o fazer. Havia, pois, um nomadismo comum à maioria dos índios, exceto para os que viviam da pesca do salmão no rebordo ocidental das Rochosas.
Por essa altura os únicos Brancos a aventurarem-se pelo faroeste tinham sido os mórmons na sequência da sua longa marcha desde Nauvoo (no Illinois) e que tinham criado o seu Reino de Deus nas extensões desérticas e isoladas do Utah, nas margens do Grande Lago Salgado, em rutura com uma civilização tida por eles como corrompida.
Os mórmons tinham-se, pois, sedentarizado num espaço, que tinham colonizado com coragem exemplar e cujo isolamento pretendiam preservar.

2. A corrida ao ouro
A partir de 1865 o faroeste penetra na história americana através de várias experiências sucessivas, que apressaram a colonização e a ocupação. Por altura da década de sessenta descobriu-se ouro e prata nas regiões montanhosas do Nevada, do Colorado, do Arizona, do Montana e do Wyoming, atraindo mineiros de hábitos rudes e violentos. Os métodos então utilizados consistiam em peneirar a água dos aluviões dos rios e em abrir  algumas galerias nos flancos dos vales.
Cada qual podia tentar a sua sorte, sem qualquer capital, com resultados variáveis e grande probabilidade de fracasso.
Nascem povoados sumariamente construídos no meio do nada, atingindo dimensão de pequenas cidades junto dos filões mais prometedores: Central City no Colorado, Virginia City no Montana e outra Virginia City no Nevada. Esta última seria a mais célebre das cidades fantasmas, aonde Mark Twain estivera como jornalista e repórter entre 1862 e 1864 antes de regressar à Califórnia.
Essas cidades tinham, então, um excelente aspeto com as ruas bordejadas de belas casas de madeira e com as suas instituições típicas: bancos, saloons, e, por vezes até o seu teatro aonde se apresentavam de vez em quando companhias de ópera.
A animação crescia sobretudo ao fim de semana, quando os pioneiros vinham gastar nos saloons e bares, nos bordéis e nos hotéis, o dinheiro ganho nos dias anteriores.
O xerife tinha, então, grandes dificuldades em fazer respeitar a ordem e impedir os ajustes de contas dos forasteiros embriagados.
A vida humana valia tão pouco, quanto era verdade, que muitos desses homens eram aventureiros de passado duvidoso ou imigrantes fugidos da Europa por razões pouco confessáveis.
A lei do mais forte acabava por prevalecer, segundo a imagem depois hiperexplorada pelo cinema, que não deixou de idealizar essa época, porém muito brutal.
O povoamento pelos mineiros revelava-se, porém, muito instável e esporádico, em função das jazidas encontradas e exploradas com as suas técnicas rudimentares. Uma vez esgotadas essas jazidas eram abandonadas, tal qual os povoados a elas associados.
No decurso da década de 70 do século XIX as sociedades capitalistas substituíram-se aos indivíduos, utilizando métodos mais elaborados e dispendiosos, pondo fim a essas experiências caóticas.
As cidades desse curto passado foram abandonadas e ficaram como vestígios dessa primeira febre pelo ouro.
Ademais aumentaram os conflitos com os índios, aos quais tinham sido garantidas terras em breve identificadas como muito ricas em metais preciosos. Caso das Black Hills do Dakota do Sul (1875) ocupadas pelos Sioux, que foram delas expulsos.

3. Caminhos de ferro e Índios
Nessa altura o faroeste estava em vias de se transformar graças aos caminhos de ferro.
A questão de uma junção ferroviária entre o vale do Mississipi e a Califórnia pusera-se no início da corrida ao ouro, mas fora sucessivamente adiada por causa da oposição dos Estados do Sul, que se viam prejudicados pelos do Norte.
Aproveitando a Guerra da Secessão, o Congresso adotou em 1862 o princípio de uma ligação transcontinental entre Omaha e Sacramento, através do norte do Utah e pelo Nevada.
Iniciadas logo no final da guerra, os dois ramos dessa ligação, um iniciado a oeste e o outro a leste, juntar-se-iam em 1869 no Promontary Point, no Utah, criando-se então a Union and Central Pacific.
Antes do final do século duas novas ligações transcontinentais surgiriam a norte (a Northern Pacific e a Great Northern ao longo da fronteira canadiana) e outras tantas ao sul (a Atchison, Tpeka and Santa Fe Cy ao longo do trilho de Santa Fé e a Southern Pacific pela fronteira com o México). Tais companhias tinham recebido subsídios em dinheiro ou em terras com a possibilidade de as poderem revender aos pioneiros.
A construção dos caminhos-de-ferro permitiu atrair colonos e acelerar a extinção dos bisontes. O avanço dos Brancos já tinha restringido singularmente os terrenos percorridos pelas manadas em comparação com a realidade do século XVIII, quando eles eram ainda numerosos na região dos Grandes Lagos.
A partir de 1865 o massacre foi estúpido e sistemático: por cupidez, porque a pele dos bisontes era, então, procurada pelos curtidores europeus; por gulodice, porque a língua desses animais era particularmente apreciada, ou simplesmente pelo prazer de matar um animal enorme mas sem capacidade para se defender.
As peles de bisonte acumulavam-se nas estações ferroviárias antes de serem exportadas para a Europa sem que se medissem as consequências dessa extinção no equilíbrio ecológico e na sobrevivência dos índios. Estes reagiram com ataques e emboscadas, que constituíram os derradeiros episódios de uma guerra permanente estabelecida entre eles e os pioneiros desde o século XVIII: massacre de Chivington (Colorado, 1864), massacre de Fetterman (Wyoming, 1866), batalha de Little Big Horn (Montana, 1876).
A «pacificação» foi confiada ao general Sherman, que vencera os Confederados e derrotaria as derradeiras resistências dos Sioux, com a rendição de Sitting Bull em 1881. Os sobreviventes seriam acantonados em reservas bem delimitadas, afastadas das grandes linhas de comunicação e com terras pouco hospitaleiras. A Revolta dos Nez-Percés do Chefe Joseph em 1877 e dos Dakotas em 1890, constituíram os últimos sobressaltos com Peles Vermelhas no faroeste.

IV - O cow-boy
Estavam criadas as condições para a emergência de um novo tipo de pioneiro, o cowboy, outra personagem característica do folclore americano.
Desde o final da guerra da Secessão, que os criadores de gado do Texas tinham pressentido enormes potencialidades nas terras ocidentais para alimentarem os seus rebanhos e manadas. Mas o percurso era distante até às pastagens dos Planaltos ou das Rochosas. O que os não dissuadiu de terem começado com fluxos de transumância todas as primaveras na direção do noroeste e do sul todos os invernos.
Com o caminho-de-ferro as possibilidades de transumância multiplicaram-se e o gado pode chegar ao Novo México e ao Colorado, em seguida aos dakotas, ao Wyoming, ao Montana  e até mesmo ao Canadá.
Em apenas quinze anos, entre 1865 e 1880, o faroeste tornou-se o terreno de eleição das manadas e dos seus guardiões, os cowboys. As vastas extensões sem divisórias nem proprietários, nem outros obstáculos senão os do relevo, mostravam-se muito convenientes.
Estabeleceram-se ranchos junto de poços, aonde se concentravam essas manadas e respetivos cowboys. Essa atividade não conhecia tréguas, porque era necessário estar atento aos predadores selvagens, aos ladrões de gado e aos índios. Era também necessário cuidar dos animais sujeitos a epidemias e frequentemente extraviados por grandes extensões.
Era, pois, uma vida solitária e selvagem, só compensada por umas quantas idas aos saloons e às salas de jogo.
Uma das tarefas essenciais desses profissionais consistia em, na época própria, conduzir os animais prontos para serem abatidos aos matadouros de Kansas City, Omaha, Saint Louis, Abilene ou Chicago.
Havia, assim, uma complementaridade entre o quotidiano desses cowboys e o caminho-de-ferro, que transportava os animais para os centros de consumo a leste e aos portos de ligação com a Europa industrial.
A evocação dessa epopeia foi perpetuada na personagem de Buffalo Bill, cujo verdadeiro nome era William Frederick Cody, rancheiro no Nebraska e  depois no Wyoming, que criou o espetáculo The Wild West Show, muito apreciado quer por americanos, quer por europeus.
Mas a condição de cowboy não tardou a ser ameaçada pelos  progressos do povoamento.
A criação intensiva de gado acabaria por revelar demasiada onerosa nos seu elevado desperdício. Durante o rigoroso inverno de 1886-1887, dezenas de milhares de cabeças de gado morreram de frio. Os pioneiros, confrontados com os custos elevados das companhias ferroviárias, insurgiam-se contra os riscos incorridos pelas suas propriedades. Com a queda do preço da carne, depois de 1885, essa atividade tornou-se pouco aliciante.
A nova realidade jogava em desfavor do cowboy, tal qual se tinha revelado drástica anteriormente para os mineiros. O elemento decisivo foi a utilização do arame farpado que surgido no Illinois na década de 70, logo se estenderia por todo o oeste. Para cultivarem as terras e protegerem as suas propriedades, os novos colonos enclausuravam-nas impedindo as possibilidades da transumância e da criação intensiva de gado. O próprio Estado Federal, alertado pelos escândalos e pela extinção dos bisontes, interditou a ocupação dos espaços considerados de domínio público: em 1872 foi criado o primeiro parque nacional em Yellowstone nos confins do Wyoming, do Idaho e do Montana.
À medida que novos Estados iam integrando a União, a vigilância das autoridades federais apertava e a justiça tornava-se menos expeditiva. Só no ano de 1889 foram admitidos quatro novos Estados do noroeste: os Dakotas do Norte e do Sul, o o Montana e Washington, e no ano seguinte, dois outros, o Wyoming e o Idaho.
Qualquer solução de continuidade desaparecera nessa região o que permitia ao diretor do recenseamento de 1890 de assinalar, de forma algo prematura, a definição da fronteira, porque outros estados mais a sul seriam formados em 1912: o Arizona e o Novo México.
Entre 1885 e 1890 a criação de gado abandonou a transumância para se fixar em enormes ranchos inteiramente fechados. Tinham acabado os dias de glória dos cowboys.
Uma das grandes fontes de negócio do atual faroeste é o turismo, que se alimenta das mitologias dessa apopeia, graças a numerosos monumentos que emulam o esforço dos antepassados em dude-rranches, que albergam visitantes desejosos de mergulharem no passado através de rodeos, que perpetuam as grandes tradições equestres dos cowboys sem esquecer os Índios que, pelo seu lado, testemunham um passado não menos glorioso, mas mais discreto.
O faroeste já não existe, mas mantém-se a tradição da sua epopeia.