terça-feira, 28 de março de 2017

Nuvens negras nos céus do Médio Oriente

O problema com o regime dos aiatolas iranianos é termo-nos tantas vezes iludido com a ideia de pouco faltar para o regime cair cumprindo as esperanças dos que sonharam num país laico e progressista, que olhamos para cada reportagem sobre a insatisfação da juventude e já não cremos na possibilidade de ser esta a que cumprirá aquele desígnio.
A reportagem que Mylène Massé foi agora rodar a Teerão reatualiza o que víramos noutras ocasiões: raparigas e tirarem o véu para se deixarem fotografar e, depois, revelarem-se de cabelos ao vento nas redes sociais; a compra de álcool no mercado negro; noitadas de dança desenfreada em apartamentos da classe média ou mais abastada; a instalação de antenas parabólicas nos terraços e telhados.
Os jovens desafiam as proibições do regime com ousadia crescente. O problema é a existência da milícia religiosa, os Basidjis, quatro milhões de fanáticos com o poder legal de a todos aprisionar nos cárceres do regime. Que continua a ser impiedoso com quem prevarica, contando-se mil execuções por ano, a maior parte por tráfico de droga, mas 15% delas por sodomia, que atesta a sanha muito particular do regime contra a homossexualidade.
Embora meteorologicamente o Irão esteja novamente na primavera, a nível político ainda mantém rigoroso inverno, levando os que podem a dele emigrar.
Ali ao lado, no Iraque, os repórteres ocidentais vão dando conta do alívio de muitos dos que fogem de Mossul em terem-se livrado do Daesh, mas lamentando que o seu país tivesse deixado de ser bem governado desde que Saddam Hussein foi derrubado. E, para além dos riscos inerentes aos bombardeamentos, aos snipers e às minas, os sobreviventes enfrentam outra ameaça não menos perigosa: a poluição suscitada pelos dezanove poços de petróleo, que o Daesh incendiou antes de os abandonar às forças do regime iraquiano.
Nos anos mais recentes a Turquia de Erdogan beneficiou da extração de petróleo de tais poços, pois era para ali que centenas de camiões carregados se dirigiam diariamente.  Uma das razões para se perspetivarem dificuldades crescentes ao «sultão» de Ancara será a de não dispor de hidrocarbonetos tão baratos quanto os propiciados pelos seus aliados jihadistas.
Atualmente os bombeiros não conseguem controlar as chamas, que estendem uma negra nuvem de fumo sobre Qayyarah e arredores. Os recursos hídricos estão a ficar contaminados, os pastos e os terrenos de cultura destruídos por muitos anos, e as populações, especialmente as crianças, veem afetadas as vias respiratórias.
As consequências sanitárias e económicas dessa sabotagem ainda estão por contabilizar, tornando incerta a sobrevivência de quem ali viveu até agora.
Quinze anos depois de George W. Bush ter mandado invadir o país com o ámen de Blair, Aznar e Barroso, os custos de tal crime continuam a subir. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Não gosto da solução mas continuo a confiar

Como socialista tenho dificuldade em engolir a imposição europeia de impedir qualquer influência do Estado português no Novo Banco apesar de ficar com 25% do seu capital. Obviamente consideraria mais asizada a assumpção da sua nacionalização - já efetiva desde que Passos Coelho e Carlos Costa optaram pela sua resolução! - em vez de proporcionar um bom negócio ao fundo-abutre disposto a «comprá-lo».
Há ainda assim dois problemas a obstar a tal posição que, por princípio, deveria mobilizar toda a esquerda: por um lado a Caixa Geral de Depósitos poderá ser o grande banco público, não só regulador de todo o sistema bancário, como com desejável potencial de crescimento  face aos concorrentes privados. Ter mais um concorrente público para quê?
A outra questão tem a ver com a fragilidade ainda evidente do governo português em relação às instituições europeias, sejam elas a Comissão, por via da sua Direção da Concorrência, ou o Banco Central Europeu, que ainda nos anda a financiar até ao final deste ano.
Até que a relação de forças se altere e o Partido Popular Europeu veja o seu domínio contrabalançado pelos socialistas e progressistas, o governo de António Costa continuará a confrontar-se com a má-vontade dos Schäubles e dos Djesselbloems de serviço ao ideário austeritários.
Daí que, mesmo engolindo em seco, terei de apoiar a decisão de quem governa sobre todo este imbróglio. Costa e Centeno já nos deram provas bastantes para percebermos, que baterão o pé sempre que sentirem possibilidade de sucesso contra quem nos tenta cingir ao falso estereotipo dos «povos do Sul», cedendo no acessório sempre que não for possível colher vitória imediata no essencial.
No fundo António Costa segue o exemplo dos melhores generais que, nos teatros de guerra, avançam confiantemente quando a vitória está ao alcance, mas preferem retirar para melhor posição estratégica, quando o sucesso é mais do que improvável.
É claro que Passos e Maria Luís aparecerão reivindicativos como se fossem virgens virtuosas sem culpas no cartório, tendo garantido o coro dos jornais e televisões, que arranjam todos os pretextos para desvalorizar a determinação do governo em resolver tudo quanto anteriormente tinha sido escondido debaixo do tapete ou mascarado. Mas será que uns e outros convencem de facto a maioria dos portugueses, que sente a confiança de ter ao leme quem melhora efetivamente a sua qualidade de vida e revela competência para devolver a esperança negada nos quatro anos anteriores?

domingo, 26 de março de 2017

Só neste país?

Se há coisa de que fujo como gato da água fria é daquele tipo de programa radiofónico ou televisivo em que se abre a antena para a manifestação das opiniões dos ouvintes ou telespetadores. Das poucas vezes, que aguento o suplício, é para constatar como no mesmo espaço e tempo parecem convergir um selecionado lote de grunhos, cuja imagem associo à daquelas personagens mentecaptas dos Monty Python com lenços a servirem de boné na cabeça. Já me indignei com tais alarvidades, que evitá-las passou a constituir preventivo ato de higiene mental.
Uma das expressões comuns ali escutadas é o só acontecer isto ou aquilo - sempre o pior! - neste país. E muitas vezes argumentam em contraponto como tudo é bem diferente para melhor nos países do norte da Europa.
O que a muitos terá surpreendido durante a semana que passou, foi a unanimidade conseguida pelo pascácio do Eurogrupo, quando nos qualificou, povos do sul, como particularmente atraídos por copos e mulheres. Dias a fio até nesses programas se ouviu ruidoso coro de indignação. E, no entanto, quantos desses  ultrajados de hoje, acenaram com a cabeça quando Passos Coelho e seus acólitos nos quiseram fazer crer que tínhamos vivido acima das nossas possibilidades?
Quem sempre contestou esse tipo de discurso tem legitimidade para contestar com a maior das veemências as barbaridades, que alimentam a inquieta mente de um holandês empurrado para o desemprego. Quanto aos outros mais valeria, que fossem pondo a mão na consciência e entendessem como, com o seu voto e passividade, contribuíram para dar ao resto do país os piores quatro anos vividos desde a Revolução de Abril.


sábado, 25 de março de 2017

Eurodesiludido mas não eurocético

Em dia de aniversário europeu reafirmo a eurodesilusão sem me colocar ao lado dos eurocéticos.
Uma das mais espantosas incongruências, que venho constatando nas esquerdas nacionais, quando se dizem contra o euro e contra a União Europeia, é esquecerem uma das maiores lições que as várias experiências falhadas de implementação do comunismo propiciaram:  por muito bem intencionadas que fossem as intenções primevas dos seus promotores a aplicação do modelo revolucionário a um espaço geográfico limitado só dificulta o seu sucesso e obriga ao recurso de práticas totalitárias. Porque o cerco de que se veem alvo, somado ao apoio exterior a quem se sente prejudicado com a nova realidade, tende a acossar as cúpulas dirigentes aos seus pequenos kremlins, privando-as do contacto com as massas populares com que teriam estado consonantes no início.
Entre Estaline e Trotski era este último quem tinha razão ao defender a impossibilidade de sucesso numa Revolução, que não ocorresse ao mesmo tempo na mais vasta extensão geográfica. As grandes fomes dos anos 20 e as purgas dos anos 30 confirmavam o vaticínio do antigo bolchevique entretanto assassinado no México.
O euroceticismo equivale a defender uma realidade em que seremos pequeninos e fraquinhos, porque incapazes de influenciar as grandes dinâmicas que uma sociedade globalizada irá conhecer, nomeadamente ao nível das ideologias e dos sistemas políticos.
Não é por acaso que os dirigentes progressistas do século passado prezavam tanto o internacionalismo. Por isso existiram organizações que, por um lado, agregavam os Partidos Comunistas, e por outro os Socialistas. Mesmo desavindos, uns e outros compreenderam a necessidade de convergirem com quem, nos demais povos do mundo, partilhava os seus próprios ideais e sonhos de futuro.
Nestes anos recentes lamentamos que a União Europeia tenha promovido os interesses neoliberais em detrimento dos seus cidadãos. Em vez de defender maior justiça e igualdade, tornou-se útil ferramenta dos interesses financeiros graças à ação dos milhares de burocratas sedentarizados em Bruxelas, Estrasburgo ou Frankfurt.
Sem pôr em causa o  projeto europeu vale a pena ser contra este em concreto, que não corresponde aos anseios dos povos. Mas será bem mais fácil apressar o fim do capitalismo e abrir caminho ao que lhe sucederá - aliando o que foram os anseios socialistas com as preocupações ecológicas perante um planeta cada vez mais doente - se a transformação abarcar quase todo o Velho Continente e passar por outro projeto europeu, que resulte da transformação deste ou renasça das suas cinzas.
Ao contrário do que sugeria o antigo secretário da Defesa de Bush filho (um Rumsfeld que também era … Donald!), a Europa possui, graças a toda a sua longa História, a capacidade de assumir a sabedoria ainda inacessível a outras geografias, seja porque ainda longe de atingirem o grau derradeiro da evolução capitalista, seja por terem cultivado idiossincrasias individualistas muito difíceis de se adaptarem a um tipo de sociedade sem emprego para todos e, por isso mesmo, obrigada a pensar-se em novos modelos de solidariedade como forma de escapar às ameaças da violência dos seus deserdados.

De derrota em derrota ...até ao impeachment fatal

A humilhante derrota de Donald Trump ao fim de apenas dois meses de mandato vem confirmar o que na altura perspetivei: ainda que assustador em quanto mal consegue fazer (basta ter o acesso ao tal botão capaz de deflagrar o Armagedão!), o pato-bravo depressa chegaria à constatação da incapacidade em traduzir os desejos por realidades, dado estas serem sempre bem mais fortes do que o seu incurável narcisismo.
O tão execrado Obamacare perdurará, porque os próprios republicanos não se entendem na forma de o eliminarem e já veem aproximar-se as eleições intercalares do próximo ano nas quais poderão pagar os custos das tolices contínuas do presidente. Por isso mesmo não será de espantar ver a Administração completamente paralisada porque alguns dos seus supostos apoiantes compreenderão que só dela se dissociando poderão ter a esperança de garantir a continuidade do emprego.
Há males que podem vir por bem, como pressupõe conhecido provérbio popular. É que o efeito de vacina é tal, que a viragem ideológica em sentido contrário torna-se bem mais fácil. Assim saibam os democratas ir potenciando estas borlas, que Trump, involuntariamente, lhes vai proporcionando. Nomeadamente não esquecendo de cativar esse eleitorado momentaneamente iludido pelo discurso marketeiro de quem agora lhe vai apresentando fatura tão pesada. Basta olhar para o rascunho do orçamento federal já conhecido: muitos dos programas eliminados - para que das respetivas poupanças se financie o grande crescimento das despesas militares - beneficiava precisamente esse eleitorado dos Estados vermelhos, que não tardam em sentir na carteira o ricochete da estupidez do seu sentido de voto. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Um parêntesis na História

Se me pedissem para escolher uma época em que Nova Iorque teria vivido uma época de rutura com os valores vigentes na sociedade norte-americana do seu tempo, não me lembraria de escolher o ano de 1951. Talvez porque ainda faltariam cinco anos para nascer, remetendo-o para a minha «pré-história». Seria bastante lógica a opção pelo verão de 1969, quando Woodstock simbolizava a revolta dos estudantes universitários contra a guerra do Vietname e a revolução hippie ainda não declinara nas expetativas de redundar num mundo diferente. Tinha então treze anos, andava fascinado pelas viagens das missões Apollo e olhava com estranheza, mas também fascínio, para os acontecimentos vindos de além-Atlântico, mesmo filtrados pela censura do fascismo.
Um documentário inglês dá-me bons exemplos de como, apesar de se viver no macartismo e na segregação racial, Nova Iorque polarizava novos tipos de criatividade, que influenciariam as diversas artes nas décadas seguintes. Jack Kerouac na literatura, Thelonious Monk no jazz, Jackson Pollock na pintura ou Lee Strasberg com o seu Método, atiravam para a condição de obsoletas as formas de escrever, tocar, pintar ou representar apreciadas até então. Perdia sentido um tipo de arte bonitinha e entorpecente ao libertarem-se as emoções, que estilhaçavam aquele pequeno mundo feito de donas-de-casa ainda competentes a conterem o desespero, de chefes de família investidos na condição de operários ou mangas-de-alpaca apenas interessados em terem emprego certo e receberem um relógio de ouro ao fim de trinta ou quarenta anos de subserviência aos patrões sem nada lhes questionarem ou aqueles jovens atoleimados ocupados em imitarem os modelos dos mais velhos.
Não terá sido propriamente uma época de ruturas determinantes, porque a televisão em todos os lares trataria de garantir a uniformização dos gostos e das opiniões, mas esses exemplos de contracultura antes do tempo serviriam de pioneiros para a manutenção em lume brando de uma contestação, que explodiria de tempos a tempos e ainda tarda em manifestar-se no seu definitivo esplendor.
Nos anos setenta Fernando Namora foi visitar o outro lado do Atlântico e trouxe de lá uma opinião, que confirmei, quando por lá andei no final dessa década e lá voltei já neste milénio: nos vastos territórios entre o Canadá e o México coexistem muitas revoluções de sinal contrário. São como bolhas numa panela a ferver, que se digladiam por chegarem à superfície, rebentam em vapor sugado pela chaminé, e dão lugar a outras, suas semelhantes. Por isso é enganador olhar para Trump e encarar-lhe os apoiantes como se representassem toda a América. Mesmo sendo muitos, demasiados!, eles correspondem a uma parcela ínfima dessa realidade em constante mutação.
É essa a razão, porque vejo Trump como um parêntesis sem grande importância, quando analisado daqui a duas ou três décadas. Na sua insignificância ficará na História como eloquente demonstração do erro de se confundir Democracia com a possibilidade dos povos elegerem quem queiram. Ela é muito mais do que isso!

quinta-feira, 23 de março de 2017

Provas que se somam a muitas outras já conhecidas

1. As provas são múltiplas e não podemos deixar de as ir recenseando: ao arquivar o dossier da lista VIP sem ouvir os principais dirigentes nele envolvidos, o Ministério Público volta a dar mostras da sua costumada prática: tudo quanto sejam suspeitas sobre políticos socialistas são para levar até ao fim, se possível com fugas seletivas para os jornais a fim de os culpar antes sequer de serem acusados. Mas se as dúvidas envolvem políticos de direita, os casos são apressadamente arquivados por «falta de provas».  Mesmo quando eles são tão chocantemente evidentes, que só cegos voluntários os não querem ver.
Pudera! Se não se quer sequer investigar, como será possível encontrar os factos comprometedores?
2, As provas sobre a incompatibilidade de Carlos Costa para cumprir com  irrepreensível competência o cargo de governador do Banco de Portugal também são muito mais do que as suficientes. Acrescentemos-lhes agora mais uma, na expetativa de não tardar muito a gota de água, que faça extravasar o copo, ou por outras palavras, forçar a sua demissão.
Soube-se agora que, numa reunião realizada nos primeiros dias de dezembro de 2013, os responsáveis do Banco pela supervisão reuniram com a administração propondo que se retirasse a idoneidade a Ricardo Salgado. Numa atmosfera muito tensa, os subscritores da proposta apresentaram argumentos irrebatíveis, mas Carlos Costa opôs-se-lhes conseguindo que o Grupo Espírito Santos levasse as suas guerras internas até ao fim, enganando milhares de clientes e prejudicando sistemicamente todo o sistema bancário nacional.
3. Há dezenas de anos que não vejo o Festival da Eurovisão, nem sequer o que entre nós se organiza para escolher a canção destinada a ali representar a «música» portuguesa.  Mas o boicote ucraniano à participação russa no concurso deste ano, confirma-o como peça de uma estratégia política, que nada tem a ver com as cantorias. 
A atitude ucraniana apenas segue a lógica desesperada de um governo, surgido de mais um daqueles golpes cirúrgicos em que a CIA e outras agências de espionagem ocidental se especializaram nos anos Obama, e que terão agravado, mais do que verdadeiramente beneficiado os povos que supostamente seriam por eles «libertados».

Um tranquilo debate quinzenal

Esta tarde estava preparado para assistir ao debate quinzenal, quando os atentados terroristas em Londres vieram inibir os canais de notícias de darem dele o registo habitual. Como alternativa mudei para o Canal da Assembleia da República para ver respondida a minha curiosidade: tendo vivido duas semanas desastrosas, como iriam as direitas manter a tensão dos debates anteriores? É que estava a verificar-se uma tal escalada no insulto, na mentira, na deturpação da realidade, sempre com o objetivo de provocar a periclitante fleuma de António Costa, que o interesse residia em assistir à estratégia para tornearem a total falta de argumentos e sustentarem uma oposição verbalmente violenta, mesmo sem substância.
As duas horas de debate constituíram um passeio para o primeiro-ministro, mesmo quando Assunção Cristas e Luís Montenegro tentaram colar Djesselbloem à família socialista europeia. Tiros sem pólvora, claro: quer António Costa, quer Augusto Santos Silva já tinham mandado rezar a extrema-unção à carreira política do holandês. E nem mesmo a Caixa Geral de Depósitos lhes avivou o desânimo em que parecem ter caído. Com os indicadores publicados e a publicar pelo INE, que papel resta às direitas senão o de embatucarem e irem bebendo uns chás de tília?
Nunca vislumbrando outra alternativa, que não fosse a receita neoliberal, deve-lhes ser desconcertante encararem com uma realidade capaz de lhes negar os mais arreigados dogmas em que politicamente se formataram.

quarta-feira, 22 de março de 2017

A eficiência e a dignidade de uns vs. a mentira e o nepotismo de outros

1. A rapidez com que as autoridades reagiram ao risco de grave acidente no viaduto de Alcântara demonstra a seriedade com que hoje se encara a prevenção de males maiores.
A paragem do tráfego rodoviário e ferroviário pode causar graves transtornos à circulação num eixo fundamental da cidade, mas constitui uma inflexão digna de elogio em relação à prática de esperar para ver, que tanto norteava a prática do anterior governo.
Já não vivemos tempos em que se empurrem os problemas com a barriga ou see escondem debaixo do tapete, procurando dar-lhes solução atempada.
Exceção à regra? A enorme dívida soberana seriamente agravada nos anos da troika. Mas aí não deixa de ser judicioso aguardar pelo resultado das eleições alemãs. É que cresce a probabilidade de Martin Schultz  empurrar Merkel para a reforma, dando início a uma nova atitude nas políticas europeias.
2. O homem já anda combalido desde a semana passada, quando o seu partido quase foi varrido do parlamento holandês, mas a posição oficial portuguesa de exigir a demissão do presidente do Eurogrupo contrasta com a diplomacia subserviente dos anos passistas.
Sabe bem ter um governo, que não se intimida perante os que se julgam mais fortes, argumentando-lhes com posições de princípio para os remover de onde não merecem estar, quanto mais não seja por não conseguirem disfarçar a boçalidade, que lhes ensombra a mente.
Esperemos que a teimosia de Schäuble não baste para abrir um guarda-chuva protetor a quem dele mais não foi que servil vassalo.
3. Outro subordinado, sobre quem quase ninguém insiste em defender, é Durão Barroso, que se juntou a Santana Lopes no coro dos descontentes com o livro de José Pedro Castanheira sobre os anos da presidência de Jorge Sampaio.
No seu caso não terá gostado da denúncia de só ter avisado o presidente quanto à iminência da cimeira das Lajes a quarenta e oito horas dela acontecer, confrontando-o com o seu facto consumado.
Procurando desculpar-se, o atual serventuário da Goldman Sachs veio afirmar que recebeu o telefonema de Aznar e logo telefonou para quem dependia institucionalmente. O que todos os conhecedores do caso desmentem, havendo quem afiance ter Barroso alinhado na fantochada onze dias antes.
Mas existe outro elemento que confirma a mentira de Barroso: é regra estabelecida que as deslocações dos presidentes americanos no Air Force One exigem setenta e duas horas de preparação, pelo que Bush já se sabia nos Açores com tal antecedência.
A quem pretenderá Barroso ainda enganar?
4. Qual a dose de nepotismo, que os norte-americanos estarão dispostos a tolerar até correrem com Donald Trump da Casa Branca?
Por agora a indignação por genro e filha terem aí gabinetes ainda não justifica a impugnação por que suspiramos (muito embora o vice-presidente seja tão assustador quanto o pato-bravo!), mas o copo vai enchendo. E foi um conhecido chinês que constatou bastar uma faísca para que toda a pradaria se incendeie! 

Figurantes sem espaço na paisagem

Há por aí muita gente que está morta politicamente, mas ainda não deu por isso. Apesar de serem mais do que muitas as evidências nesse sentido.  Um deles é Jeroen Djesselbloem com o qual já não vale a pena gastar mais latim tão viral se tornou a indignação institucional e as das redes sociais contra as infames afirmações com que insultou os países do sul da Europa.  Quando se trata de encontrar explicação para o abrupto desastre dos sociais-democratas holandeses nas eleições da semana transata, basta considera-lo como um dos seus rostos maiores: não são só as vítimas europeias do austericídio de que ele foi um dos principais entusiastas a execrá-lo. Os compatriotas devotaram-lhe idêntico sentimento de rejeição.
Outros zombies a carecerem de golpe de misericórdia são os velhos fascistas do PNR ou a reciclada versão dos que quiseram promover e promover-se à pála de Jaime Nogueira Pinto.  O confronto verbal de ontem na FCSH constituiu o ligeiro sobressalto de um vulcão em vias de extinção. É que, por uma vez em muito tempo, Clara Ferreira Alves acertou em recente crónica, quando lembrou exaustivamente o que significaram os sinistros anos do salazarismo, que tais trogloditas insistem em sacralizar.
Idêntico definhamento conhecem os que, nas direitas, andam sempre à espera de notícias, que lhes aticem a pálida ilusão quanto a recuperarem o «pote». Mas ele vai ficando sempre mais distante, seja porque a descida do desemprego conhece ritmos desconhecidos há quase três décadas seja porque a atividade económica em fevereiro confirma a dinâmica do crescimento dos meses mais recentes. Com tal cenário quem, senão apenas os indefetíveis, acedem a servir de cordeiros à expectável degola de outubro?
Penosa vai sendo a tarefa dos opinadores das direitas nas várias televisões: por mais imaginativos, que queiram ser, não há criatividade bastante para almejarem escamotear os sucessos da maioria parlamentar.

terça-feira, 21 de março de 2017

O novo cavalo de batalha das direitas na CGD

As esquerdas ainda teimam em não aprender as lições que tudo quanto tem sucedido na Caixa Geral de Depósitos nos últimos meses, lhes já deveriam ter facultado.
O novo cavalo de batalha de Passos Coelho e de Assunção Cristas contra o banco público é o de contestarem os balcões, que irão encerrar um pouco por todo o país.
Perante a ladainha das direitas o que deveriam ter feito as esquerdas? Em primeiro lugar denunciarem-na como mais um exemplo de hipocrisia de quem andou anos a forçar a inevitável privatização, acabando por arrastar o maior banco nacional para a hecatombe em que deixaram todo o setor bancário. Depois, sem suscitarem parangonas, teria sido judicioso reunirem com Mário Centeno e Paulo Macedo para garantirem aquilo que eles já se apressaram a confirmar: não só existirão balcões em todos os concelhos do país como não deixarão de existir caixas automáticas nas zonas mais desertificadas. (Não seria má ideia localizarem-nas nas juntas de freguesia, que aí costumam funcionar como centros de apoio aos mais idosos).
A realidade bancária é hoje completamente diferente da que conhecemos até há relativamente pouco tempo. Quantos costumam ainda frequentar as agências se mais rapidamente podem resolver o que precisam nas caixas automáticas?
A mera constatação dessa inevitável evolução e o quanto exige estratégias incontornáveis na gestão do setor bancário deveria ser acolhida pelas esquerdas como elas sempre estariam obrigadas a concetualizar nas suas ações: se existem dinâmicas irreversíveis, é estúpido gastar energias a contrariá-las. O desafio de quem se considera progressista consiste em canalizar essas dinâmicas para a direção mais conveniente para o interesse coletivo. Aquilo que precisamente as direitas não querem nem conseguem entender.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A independência que o poder judicial não tem sabido merecer

Entre mim e Jaime Santos subsiste divergência antiga a respeito da Operação Marquês e do que ela tem significado para a imagem do antigo primeiro-ministro e do próprio Partido Socialista.
Em relação ao post desta madrugada ele comenta através do seguinte texto:
“Não percebo bem a crítica a Sousa Tavares. Nesta matéria do processo de José Sócrates, ele tem consistentemente atacado os sucessivos adiamentos e violações do Segredo de Justiça. Parece-me antes o meu caro que confunde esta investigação com um mero ataque ao PS.
Já disse e repeti isto várias vezes. O julgamento político de José Sócrates foi feito em 2011 e mau grado a eleição de Passos e de Portas, ele não foi brilhante para o ex-PM.
O julgamento moral cabe a cada um, mas pela minha parte, considero que Sócrates não tem uma perna para se segurar, depois das mentiras à imprensa sobre a origem do dinheiro e dos contornos pouco claros de um empréstimo informal que não envolveu bancos, letras de crédito ou quaisquer documentos escritos.
O comportamento de Sócrates deixou-o naturalmente à mercê de suspeitas e de uma investigação que qualquer sistema de Justiça teria necessariamente de conduzir, tratando-se de uma pessoa politicamente exposta.
Pior, Sócrates colocou em cheque todos os que o defenderam e trabalharam com ele e mesmo pessoas da sua intimidade. João Miguel Tavares já esfrega as mãos em preparação para o ataque ao PS que virá depois da mais que provável acusação.
Falta, como bem disse MST, o julgamento judicial (se houver acusação e esta for confirmada depois de uma abertura da instrução), que cabe aos tribunais e que é completamente independente dos dois julgamentos que referi acima.
Existe infelizmente algo em comum entre os detratores incondicionais de Sócrates e os seus fãs incondicionais, que é o de quererem misturar tudo. Os primeiros porque já o condenaram antes mesmo do julgamento e sequer do conhecimento completo das provas e da acusação e que, seja ele culpado ou inocente dos crimes de que é suspeito, desejam que ele sofra na cadeia pela sua condução da política nacional e que por isso não se importam que princípios básicos do Estado de Direito sejam violados. Os segundos, porque parece que assim é mais fácil acreditar que tudo isto não é mais que uma cabala contra o PS…”
Na realidade, entre mim e Jaime Santos não existem grandes divergências  quanto ao tipo de sociedade, que ambos defendemos, muito embora eu teime no socialismo inequivocamente marxista e ele na social-democracia. No entanto move-nos o mesmo desejo de contribuirmos para uma sociedade livre, justa e, tanto quanto possível, igualitária.
Já quanto ao antigo primeiro-ministro a divergência é maior, porque, independentemente dos tais juízos morais que uns fazem e outros não (e mesmo reconhecendo terem existido posições que nele me desagradaram!) não duvido da tese da cabala contra o Partido Socialista. Seja porque os agentes da Justiça deixaram-se inebriar pela possibilidade de virem a ser o poder mais forte neste século XXI (foi-o proclamado por um dos seus principais dirigentes, Rui Cardoso), seja por terem constatado no governo de José Sócrates a vontade política de cercear-lhes algumas das mais obscenas mordomias, a intenção foi clara em convergirem forças com quem manda nos jornais (e sobretudo nos pasquins) para tudo fazerem no sentido de perdurarem as direitas no poder enquanto tal fosse possível.
Mas, se olharmos mais para trás, ainda poderemos encontrar prequelas desse intento conspirativo no fim do guterrismo, quando o caso da pedofilia na Casa Pia deu injustamente cabo do percurso político de um dos mais competentes e talentosos dirigentes socialistas de então, Paulo Pedroso, e chegou a enlamear outros de irrepreensível probidade, como chegou a acontecer com o atual presidente da Assembleia da República.
O que a Operação Marquês tem demonstrado é  uma Justiça suficientemente lenta a investigar os casos que envolvem políticos das direitas (Portas com os submarinos, os cavaquistas com o BPN) para que os indícios de corrupção atinjam o prazo de prescrição, mas assanhada com quem é socialista.
Quer isto dizer que José Sócrates ou Armando Vara que a ele é comummente associado, estão inocentes?  Até que nos provem o contrário sim, pois é esse o princípio de presunção de inocência, que urgiria ser respeitado.
Mas o caso é ainda mais grave quando nem sequer  sobra a mínima dúvida sobre quem passa para os jornais os conteúdos das peças processuais como forma de assegurar o julgamento em praça pública sem o concretizarem na barra dos tribunais. A violação constante do segredo de Justiça é crime, que Joana Marques Vidal não quis investigar nem sancionar, sabendo como estilhaçaria assim todo o edifício pútrido, que ainda lidera.
Não podemos é aceitar um país onde se prenda para investigar, se prometam sucessivos prazos, que nunca se chegarão a cumprir, e se viole ostensivamente o direito ao bom nome sem qualquer prova que o ponha em causa. Ademais com custos, que seria bom conhecermos: quantos milhões de euros já nos custaram as investigações da equipa de Rosário Teixeira ao longo destes anos? Pode a Justiça suportar um tal desperdício de recursos?
Pessoalmente acredito que somos muitos a desejar que o poder executivo e o legislativo ponham na ordem o judicial, que se tem revelado incapaz de merecer a independência, que lhe deveríamos reconhecer.