quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um punhado de areia em frente à pirâmide

Existem épocas da História em que se torna assaz intenso o combate entre o velho e o novo. 1871 foi, nesse aspeto, um ano lapidar. Enquanto Paris se incendiava por conta da luta dos revolucionários da Comuna, a monarquia lusa tremia perante o que se começou a discutir sob a capa das Conferências do Casino. Viviam-se tempos de impasse nas várias geografias e sobrava muita vontade em sacudir a letargia e dar espaço para a afirmação de novas formas de pensar, agir, organizar e, em última instância, governar.
No ensaio, que ontem apresentou no Teatro da Trindade, o Professor Sampaio da Nóvoa relembrou esse esforço de Antero e seus companheiros para dar asas a uma nação tolhida pela incompetência e preconceito de quem nela insistia em mandar. Apesar da repressão e das proibições, promovia-se a mudança, a transformação, por muito que faltassem quase quarenta anos para ela se concretizar.
O sentido maior das palavras do antigo candidato à Presidência da República foi o dever de nos escusarmos a desculpas por nos sentirmos demasiado pequenos face ao que temos como tarefa: reduzir as iníquas relações entre quem nada tem, sujeitando-se à pobreza e à precariedade, e quem acumula riqueza de forma tão escandalosa, que oito indivíduos conseguem concentrar em si tanto dinheiro quanto a metade mais desfavorecida da população mundial. Lembrando Borges cego perante as pirâmides, já teremos feito alguma coisa se nos esforçarmos por mudar a posição de um punhado de areia no conjunto do deserto.
Importa ainda adotarmos um comportamento de abertura perante o que de novo se vai produzindo. Nas artes, nas ideias, na economia, na política. Podemos estar tão formatados em cristalizadas certezas, que nos fechamos a alternativas com potencialidades tidas por inexequíveis. A mesma História, que vai avançando no confronto dialético entre quem dela não quer sair e quem nela anseia por irromper, está cheia de exemplos de anunciadas impossibilidades depois concretizadas numa qualquer fulgurante manifestação de contrapoder, depressa convertido em novo poder.
Um dos alertas explícitos deixados pelo conferencista teve a ver com o que une muita gente das esquerdas e das direitas: os tempos idos não voltam para trás. Por muita nostalgia, que sintam, os modelos de sociedade e de valores, entretanto ultrapassados por outros, não podem ser reconstruídos. Quem anseia pelo regresso ao salazarismo só poderá vê-lo refletido nas suas versões atualizadas (Passos Coelho é disso um exemplo), mas que não são mais as mesmas. Quem julga possível regressar à pureza dos regimes soviéticos, só pode sentir-se incomodado pela persistência criminosamente quixotesca do atual líder norte-coreano.
O impasse em que hoje vivemos é o de um capitalismo sem respostas para as monstruosidades sociais, que criou. E, sobretudo, para as que pretende dar vida na descontrolada corrida para o próprio fim. A desenfreada busca do lucro e da acumulação de capital em número cada vez mais exíguo de mãos, não chegará ao desenlace previsível de uma disrupção apocalítica. O instinto coletivo pela sobrevivência tomará conta da derrapagem antes que se torne ainda mais desvairada.
Como? Caber-nos-á encontrar resposta pela problematização constante do desafio, na discussão intensa e aprofundada do que ele implica, sem chegar ao extremo de repetir-se o erro dos que, perante o cerco de Constantinopla, teimavam em prosseguir a discussão sobre o sexo dos anjos. É, nesse âmbito, que faz todo o sentido olhar para os jovens, para aqueles que, um dia, na Praça do Rossio, em Viseu, terão dito a Sampaio da Nóvoa que estavam verdadeiramente interessados na política e até dela tinham conhecimentos insuspeitados para o então candidato - tentado a proferir-lhes discurso paternalista e moralizador sobre a importância de se entregarem aos deveres da cidadania! - mas que afirmavam a convicção de ainda não ser este o seu tempo. E essa é outra questão que a realidade nos está a sugerir: há quarenta anos, quando tínhamos a frescura da juventude, avançávamos, destemidos, para os grandes combates políticos, porque a esperança de vida nos consideraria velhos aos cinquenta, aos sessenta anos. Hoje, perante a forte possibilidade de chegarem a octogenários, os jovens têm menos pressa de se chegarem à frente do palco, dão-se tempo e espaço para viverem a intensidade dos afetos e das experiências radicais, sem descurarem a atenção para esse mundo onde, mais tarde ou mais cedo, sentirão a inevitabilidade de empunharem o testemunho.
Numa conferência, que seria possível abordar por tantos outros aspetos, pois foram múltiplas as pistas de reflexão, que Sampaio da Nóvoa deixou, talvez a maioria dos presentes tenha saído tão pessimista perante o futuro quanto para ali entrou. Mas para os que não se conformam com este impasse e continuam apostados em substitui-lo por novas formas de aproximação à Utopia, as ideias enunciadas para Projetar Portugal fizeram todo o sentido e deram alimento ao otimismo de tudo continuar a ser possível. Andamos tão poluídos com as tropelias dos Trumps do nosso espaço mediático, que nos esquecemos de quão perecíveis são. E como, em alternativa, vão-se pressentindo sinais encorajadores, ainda incapazes de se tornarem mais do que isso. Bernie Sanders, por exemplo, poderia ter subido à ribalta como cabeça-de-turco dessa irrupção do que estará para vir sob a forma de novos valores, novos costumes, novos comportamentos para com os outros, e nomeadamente para com este planeta exaurido, que tanto exige ser respeitado.
Neste cantinho atlântico da Europa esse prenúncio do que será o futuro já se manifesta através da convergência das esquerdas. E por isso tudo está a mudar - na Economia, na atitude mais descontraída das pessoas, nas perspetivas do que poderá vir a ser o país. Talvez sirva de exemplo para que seja o punhado de areia enunciado por Borges, pondo em movimento a aparente imutabilidade deste deserto global.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O prazer de voltar a ouvir um dos nossos melhores sábios

Há sábios, que nunca nos cansamos de ouvir, porque cada oportunidade  de voltarmos a contactar com o muito que nos têm a transmitir, dão-nos a sensação de enriquecermos um pouco mais, de ganharmos múltiplas pistas para tentarmos vencer a incultura, que não adivinhávamos tão grande. Porque atendo-nos à definição de Cultura por Millor Fernandes ela é “aquilo que amplia a nossa ignorância.”
Numa conferência subordinada ao tema  "Projetar Portugal - Quem decide sobre as nossas vidas?", o professor Sampaio da Nóvoa lembrou aquela frase de 2008 sobre existirem bancos demasiado grandes para que pudessem falir. Afinal o Lehman Brothers demonstraria o contrário. Por isso, e tendo em conta nada existir de tão grande, que possa obstar a que o discutamos, esteve em causa a forma de superar a alienação (conceito tão importante dos anos 70 e que valeria a pena ressuscitar!) contraída das redes sociais e não só, que tendem a confundir-nos das questões essenciais, causando um tal ruído que nos distraímos facilmente com questões comezinhas sem nos pensarmos, nem reinventarmos. Porque esse é o grande problema com que nos defrontamos: numa época em que o capitalismo está no seu crepúsculo e o emprego tende a tornar-se em algo de raro, poderemos conformarmo-nos com o revoltante crescimento das desigualdades e com os vários níveis de precariedade vividos pelos mais novos?
Como se se tratasse de uma sonata em três andamentos a conferência evoluiu da impossibilidade de voltarmos para trás no tempo - como certas direitas e certas esquerdas desejam em vão! -, e encontrarmos respostas para ganharmos os desafios do futuro. O que só pode acontecer com uma aposta decidida no conhecimento, ou nos conhecimentos, porque tanto importam os já testados por múltiplas experiências, como os nunca ensaiados e apenas figurando como hipóteses.
Ao contrário do que costumamos pensar, não faltam aos jovens informações nem competências, que possam oferecer para a criação de uma sociedade mais avançada. Segundo o Prof. Sampaio da Nóvoa há algo que lembra a ficção científica na forma como gerações distintas ocupam o mesmo lugar e não conseguem comunicar umas com as outras. Como se estivessem noutras dimensões, noutros vetores da conjunção espaço-tempo. Um dos motivos do aparente impasse em que nos encontramos tem a ver com essa difícil interação,
Outro problema tem a ver com o que se passa nas Universidades, que perderam a função de investigarem e produzirem saberes inovadores, cristalizadas em metodologias ultrapassadas e inibidoras da inovação, do arriscar direções ainda não trilhadas por mais ninguém.
Na conclusão da sua apresentação-ensaio, o orador lembrou um pequeno texto sobre o encontro de um Jorge Luís Borges quase cego com as pirâmides do Egipto: A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide inclinei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais adiante e disse em voz baixa: Estou a modificar o Saara. O ato era insignificante, mas as palavras nada engenhosas eram justas e pensei que fora necessária toda a minha vida para que eu pudesse pronunciá-las.”
É com essa ousadia em transformar o deserto, e ao mesmo tempo com a humildade de nos sabermos capazes de mudar apenas um punhado de areia, que nos devemos situar em relação ao futuro. Fazendo todos os possíveis por o discutir, sobre o questionar sempre que para tal tivermos possibilidades. E esse é o melhor desafio, que o prof. Sampaio da Nóvoa nos veio lançar.

O caso que está mesmo a pedir uma Comissão Parlamentar

A notícia de que 10 mil milhões de euros desapareceram em offshores no período entre 2011 e 2014 tem todos os condimentos para se tornar no novo escândalo mediático nacional e agora a embater fortemente nas direitas, que têm usado e abusado da novela dos sms para porem em causa o governo.
Essa fuga de capitais equivaleu a mais de 1/8 do valor adiantado pela  troika em 2011 e, acaso, tivesse permanecido em bancos nacionais funcionaria como importante paliativo para os apertos então conhecidos.
Para já existe á um rosto com direito a pelourinho: Paulo Núncio, a «estrela» do CDS, que tutelava a área fiscal do governo de Passos Coelho e ainda há dias perorava no programa de José Gomes Ferreira sobre os pecados de Centeno. É inaceitável que um responsável político que, voluntariamente ou por mera negligência, prejudica assim o país, ainda mereça tempo de antena no nosso espaço mediático!
A história, porém, não fica por aqui: provavelmente por sentirem que o fartar vilanagem estava prestes a acabar, 2015 foi o ano do record de transferências de dinheiro, quase sempre de empresas portuguesas para outras nos paraísos fiscais: 8885 milhões de euros. Baamas, Hong Kong e Panamá foram os destinos mais procurados, ou seja aqueles onde a cooperação com as instituições internacionais destinadas a conhecer a identidade dos possuidores dessas contas se revela mais obstaculizada.
Que tal uma Comissão Parlamentar de Inquérito a sério para esclarecer quem andou a branquear capitais, a fugir ao fisco e, dentro do governo de Passos Coelho, andou a assobiar para o lado?

Marx antes de descobrir a vocação

Embora possa haver quem julgue ter sido Karl Marx o criador do socialismo e do comunismo, a verdade é que esses conceitos já existiam antes dele os ter reformulado, e continuariam a ter vida própria se ele nunca houvesse aparecido. E, convenhamos, que isso até teria sido muito possível, pois dos oito irmãos de Karl, apenas três chegaram aos 25 anos.
Com «O Capital» e outros textos de referência para a futura luta dos povos pela sua emancipação, Marx é só o mais importante de um grupo significativo de historiadores e filósofos de que Michelet fora um dos pioneiros, e Lenine viria a ser quem de tais contributos faria a mais consistente síntese.
São essas as conclusões principais da biografia  de Gareth Stedman Jones, publicada pela Harvard University Press, e que adota uma perspetiva com a qual estou em total desacordo: a de situar historicamente no seu tempo, e nele compreender o seu pensamento, sem lhe reconhecer qualquer pertinência na definição do nosso futuro. A exemplo de outros esquerdistas, que se reciclaram em autores de reflexões teóricas muito conservadoras, Jones já se considera distante do tempo em que se considerava socialista revolucionário. E, no entanto, a abordagem da vida de Marx até é feita de forma equilibrada, permitindo-nos aceder a informações pouco conhecidas.
Comecemos pelo nascimento, ocorrido em 5 de maio de 1818 em Trier, cidade da Renãnia alemã, onde o pai convertera-se ao dominante catolicismo como forma de lhe ser permitido o exercício da advocacia. Razão para ter mudado o nome próprio do comprometedor Herschel para Heinrich.
Contratado como jurista no tribunal local, ele garante à família uma qualidade de vida bastante confortável.  O jovem Karl viveu nesse contexto burguês e julgou-se talhado para a poesia. 
Aos dezoito anos ei-lo tomado de paixão assolapada por uma jovem quatro anos mais velha, Jenny von Westphalen, que lhe retribuiu o afeto, mas não teve autorização para se mostrar recetiva ao noivado com quem não se lhe equiparava no estatuto social. Tiveram por isso de esperar sete anos para que o pai dela morresse e ficassee assim removido um incontornável obstáculo à felicidade de ambos. Não adivinhariam as muitas dificuldades e doenças que os esperariam e, sobretudo, o desgosto pela morte de vários filhos.
Por essa altura, Marx ainda não era o agitador político, nem mesmo o escritor arguto de teses revolucionárias. Enquanto frequentou a Universidade de Bona preferiu dedicar-se à boémia e aos duelos. A mudança verificar-se-ia com a sua transferência para a universidade de Berlim.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Um homem pequeno que, decididamente, não é bailarino!

De Marques Mendes já sabíamos tratar-se de um bufo no que a expressão tinha de mais pejorativa no tempo do fascismo. Apresentando-se como tendo bons contactos, utiliza a prestimosa colaboração dos que por ele andam com o olho nas fechaduras alheias ou a ouvirem conversas que não lhes eram destinadas.
Também o sabíamos especialista em truques e jogadas sujas, pois só alguém disso capaz conjetura intenções na demora da publicação de diplomas, cuja explicação era bem mais simples. Mas, como, no capítulo das “virtudes”, mostra ser um bom julgador, hipóteses desse tipo tornam-se clarividentes para quem delas era capaz. O arauto de Fafe pergunta-se: o que faria se estivesse do lugar de quem critico? E vai de lhes atribuir comportamentos e intenções, que seriam as suas.
Ontem ficámos a conhecer mais um traço do seu mau caráter: vingativo. Porque, pondo-se na pele de António Domingues, ele imaginou-o tomado de desejo de retaliação por quem ter-se-á sentido prejudicado.
Para o comentador de Balsemão que, como o «Expresso» anunciou esta semana, anda em animados jantares com Passos Coelho e Montenegro, não se coloca a questão das exigências exorbitantes do antigo administrador, nem o interesse nacional, que mandaria travar de vez a novela da Caixa Geral de Depósitos. Interessa-lhe, sim, fazer o jogo dos adoradores do Diabo que, sentindo-lhe a falta, tudo farão para o ressuscitar, assim se lhes não esgotem as poções nem as mezinhas.
Um último aspeto ainda a  aguçar a nossa curiosidade: tenho em conta a sua assumida condição de porta-voz oficioso das intenções da  especulativa Lone Star seria interessante constatar por que escritório de advogados se faz ela representar no negócio pela compra do Novo Banco. É que, como Gustavo Sampaio já denunciou num dos seus livros («Os Facilitadores»), Marques Mendes e esses seus cúmplices, são dos mais ativos lobistas dos interesses estrangeiros no nosso país.
Tendo em conta a sua prática dolosa continuada e a própria intervenção de Lobo Xavier no sentido de prejudicar os interesses da Caixa Geral de Depósitos, só não compreendo porque tardam as esquerdas em promulgar uma legislação anti-lobistas, que, a exemplo dos tempos de antena, sempre antecedidos pela identificação de quem os utiliza, também obrigue a SIC a anteceder os seus programas de comentários políticos de ambos os seus colaboradores com o anúncio dos negócios a que estão vinculados e ali supostamente a serem por eles defendidos...

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ando curioso com a imaginação dessa gente!

1. Passado este fim-de-semana em que a luta política amainou por conta do futebol, importa constatar o subterfúgio utilizado pelas direitas para manterem em lume brando uma fogueira onde sentem a progressiva falta de lenha. Com Marcelo e Costa a darem o assunto da Caixa Geral de Depósitos por encerrado, com as esquerdas unidas na decisão quanto à dispensabilidade de uma nova comissão de inquérito, que assunto pode ser agarrado para distrair o país dos excelentes resultados da economia? Défice abaixo de 2,1%, crescimento de 1,9% no último trimestre, criação líquida de empregos, aumento das exportações, investimento a subir.
Admita-se que, na Lapa e no Caldas, os mais imaginativos dos seus inquilinos andarão com a cabeça à volta para criar o «facto alternativo» seguinte. Buscaram-no no desaparecimento das pistolas na PSP, mas o assunto tem pouco glamour para merecer a atenção de quem pretendem captar. E o pior vem aí a seguir: os indicadores do primeiro trimestre de 2017 deverão prosseguir na mesma ordem de tendências.
Que dirão então os arautos das direitas? Que o país está com menos turistas em fevereiro do que em julho ou agosto? Ou que a canção portuguesa terá repetido classificação miserável na Eurovisão?
Pessoalmente sinto-me curioso quanto ao resultado das efabulações dessa gente!
2. Há dois factos, que têm andado nas entrelinhas das notícias e julgo não estarem a ser devidamente compreendidos pelo grande público: o primeiro tem a ver com a demissão de Matos Correia da presidência da Comissão Parlamentar que dirigia.  Ora o que motiva essa atitude é a negação dos partidos das esquerdas em acederem à exigência de documentos privados, constitucionalmente protegidos como tal, e que se referem a atos relacionados com a Caixa em … 2016.
Ora Matos Correia deveria saber que a sua Comissão foi formada para analisar o sucedido nesse banco público entre 2000 e  … 2015!
Como alertava Carlos César, ele parecia desconhecer o âmbito do que lhe incumbia dirigir.
O outro facto tem  a ver com a  exigência de Passos Coelho exigir para os administradores da CGD um vencimento máximo correspondente a uma percentagem do do primeiro-ministro.
A tal ser aprovado, e sendo impossível tal pressuposto ter aceitação do BCE, que hoje superintende todas as instituições bancárias europeias, Passos conseguia maquiavelicamente o objetivo de a  privatizar, pois, só dessa forma se contornaria essa limitação: a CGD deixaria de ser pública, não porque esse seria o que o interesse do país (que o não é!), mas porque só dessa forma os administradores poderiam ser remunerados de acordo com as regras europeias.
3. A vinda de Benoît Hamon a Lisboa para aprender as virtualidades da maioria das esquerdas é um prenúncio do que não tardará a produzir-se: a assumpção de mais líderes da esquerda europeia quanto ao modelo português de demonstrar os méritos desta alternativa ao austericídio.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Passarinhos e passarões

1. Uma das notícias mais importantes da semana foi a do anúncio do novo aeroporto no Montijo para o qual Marcelo já sugeriu um nome incontornável: Mário Soares.
Trata-se, porém, de um remendo para solucionar um problema tido como incontornável na época do governo de José Sócrates e para o qual se inventaram mil e um obstáculos para que não fosse por diante. Quem pode esquecer os urubus, muitos dos quais ainda por aí andam como comentadores encartados, que diziam extemporânea essa necessidade, porque a Portela ainda poderia bastar por muitos e bons anos?
Viu-se o resultado: cinco anos depois não há como encaixar nas disponibilidades do atual aeroporto todos os voos potencialmente previstos para nele aterrarem ou dele partirem.
O país não se consegue livrar dos resquícios do salazarismo, que fizeram travar a Ponte sobre o Tejo por décadas e igualam tal feito com o novo Aeroporto. Porque ir-se-ão gastar quase 600 milhões de euros numa obra que mitigará o problema, mas o não resolverá a médio prazo. E quando o  novo aeroporto custaria mil milhões de euros!
Esta última hipótese gorou-se, porque Passos Coelho privatizou a ANA e deu aos franceses da Vinci a gestão de todos os aeroportos nacionais por 50 anos, tornando-os parte fundamental da solução para novas instalações portuárias. Ora esse concessionário cuidará de garantir o mais rapidamente possível o retorno do seu investimento - existem contas a provar que ao fim de dez anos já o terá recuperado, sendo os demais quarenta de lucros líquidos! - e de minimizar todas as intervenções a que está obrigado por contrato. Por isso nem lhes passaria pela cabeça investirem num novo aeroporto se têm uma solução mais baratinha como a agora gizada.
Se isto não comprova o autêntico crime cometido pelo governo anterior contra os interesses nacionais, que mais seria necessário para o comprovar? Mas para quem tiver dúvidas podem-se pegar em todos os demais exemplos - REN, CTT, etc. - que são eloquentes exemplos de como Passos Coelho não tem qualquer razão para usar o pin na lapela, tão antipatrióticas se revelaram as suas políticas!
2. Nunca encontro grandes motivos para elogiar Marcelo Rebelo de Sousa, mas este fim-de-semana encontrei a exceção para confirmar a regra: os comentários venenosos contra Cavaco Silva a propósito do vómito em forma de livro por este apresentado na quinta-feira. Constituem crítica mais contundente do que a defesa da honra intentada por José Sócrates. É que se o texto do principal visado pela prosa cavaquista poderá ter escapado a muitos dos que o condenaram apressadamente sem provas, as palavras de Marcelo terão caído fundo na atenção da maioria dos portugueses.
3. Mas, porque de Marcelo mais vale não deixar latente apenas o elogio, insista-se numa dúvida pertinente: sendo Marques Mendes e Lobo Xavier seus conselheiros, como entendê-lo ilibado da atividade anti-CGD a que eles se vêm dedicando há vários meses?  Que sentido têm a suas afirmações de apoio à  estratégia de recapitalização se os seus diletos amigos insistem em sabotá-la?
4. O último comentário tem Assunção Cristas como protagonista já que o «Expresso» anunciou o seu pedido de audiência a Fernando Medina. Para quê, não se sabe! Mas podemos adivinhar: se há algumas semanas andou a pedir aos munícipes, que lhe dessem ideias arejadas para o seu programa, será que face à indiferença dos destinatários, irá junto do atual edil à procura daquelas que ele tenha de sobra para lhas dispensar de forma a evitar a vergonha de se candidatar sem nada para propor?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Para acabar de uma vez por todas com essa coisa esdrúxula, que nos atanazou as vidas

Está mais do que demonstrada a tese de, sendo a História contada pelos vencedores,  estes dela darão a narrativa mais conveniente. Escolhamos ao calhas uma qualquer época passada e, elencados os seus principais factos, podemos logo indicar quem tratou de a moldar de acordo com tal seleção.
O livro ontem lançado por Cavaco Silva com a presença entusiasmada das várias direitas - da mais extremista, personificada em Passos Coelho, à eanista representada pelo seu criador - vai nesse sentido: apesar de ter vencido quatro eleições por maioria absoluta e ser o político por mais tempo em cargos de poder a nível nacional, o antigo presidente sabe-se um irremediável perdedor. Por isso dedica-se à recriação das memórias, realçando o que lhe convém e omitindo, muito oportunamente, tudo quanto sabe macular-lhe definitivamente o legado.
Perante as reações populares aos funerais de Álvaro Cunhal e Mário Soares, ele sabe de antemão o que se lhe adivinha, quando passar de cadáver adiado a irrevogável defunto. O desprezo ou a indiferença são-lhe inevitáveis. Por isso estica a efabulação por quase seiscentas páginas, a que outras tantas por certo se seguirão.
Como em todos os maus romances, que primam pelo maniqueísmo, arranja um mau da fita em quem concentra todas as culpas sobre os males do país. Tomando-o como único responsável da vinda da troika, não considera sequer a responsabilidade da situação internacional decorrente da crise dos subprimes, a responsabilidade das oposições que inviabilizaram o PEC IV e, sobretudo, não assume as culpas por, durante os dez anos de duração dos seus próprios governos, ter enchido o país de betão e destruído setores económicos por que passavam muitos dos bens transacionáveis, que o país exportava ou consumia.
Não nos admiramos, igualmente, que passe por cima dos seus comprometimentos mais do que suspeitos com quanto sucedeu no BPN e as habilidades que o tornaram num homem rico, quando pouco ainda tinha de seu, quando se tornou deputado.
Porque é crível que a História venha a ser escrita pelos que vierem a superar o austericídio e o exânime neoliberalismo - de que foi empenhado cultor - Cavaco pressente a irrelevância da sua passagem pelas nossas vidas. Daqui a uma ou duas gerações será tão lembrado como um Domingues Pereira ou um António Maria da Silva, que até foram primeiros-ministros por três e quatro vezes há menos de um século. Quem deles hoje se lembra fora do círculo dos especialistas da Primeira República?
Pelo sucesso, que este governo está merecidamente a conquistar, com instituições e publicações internacionais a darem conta crescente de quanto sentem inesperados os resultados de uma estratégia governativa, que julgavam condenada ao fracasso, que clima sentirá o cinzento “escritor”, enquanto compõe o seu título seguinte e o contexto tenda a desmentir-lhe todos os preconceitos de quem viveu em permanente azedume contra quem lhos foi desmascarando?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O regresso das perguntas de um operário letrado

Volto com alguma frequência à personagem imaginada por Brecht sobre um operário letrado apostado em fazer umas quantas perguntas, que o levassem a compreender melhor o mundo.
Aqui vão as que ele hoje faria perante a insistência na novela Centeno:
1, António Domingues não era o tal fulano, que recusava divulgar os seus rendimentos e patrimoniais e está agora a mostrar os seus emails pessoais para que todos os possam conhecer?
2. Esse Lobo Xavier a quem Domingues andou a mostrar os sms, e logo os levou a Marcelo, não foi agora nomeado vice-presidente do BPI e como tal é parte interessada no enfraquecimento da CGD?
3. Esse Marcelo, que anda a vangloriar-se de decidir quanto à continuidade ou não de um ministro, desconhece só o poder exigir mediante a dissolução da Assembleia da República e a convocação de novas eleições? Não está previsto na Constituição, que só o parlamento tem poderes de viabilizar ou derrubar governos? Não é verdade que nem mesmo o Parlamento pode demitir o ministro A ou o secretário de Estado B?
4. Será que Marques Mendes e Lobo Xavier, enquanto conselheiros de Estado nomeados por Marcelo, andam a cumprir uma estratégia deste último para pôr fim à atual maioria parlamentar?
5. Será que o facto de a SIC perder muita audiência no seu telejornal de domingo (quando fala Marques Mendes) em relação a sábado (quando ele não está lá), significa que Balsemão está indiferente à perda de dinheiro, que essa queda pressupõe, conquanto o minorca de Fafe continue a lançar o seu veneno?
6. Será que o PCP tem razão quando diz que uma campanha das direitas como a que estas vêm alimentando contra Centeno, bastaria para derrubar um banco privado se para ele lançassem tal tipo de ataques?
7. Será mesmo verdade que toda esta novela tem a ver com as sondagens, que vêm revelando o desfavor sustentado do eleitorado em relação aos partidos das direitas?
8. Será que toda a campanha tem a ver com o facto do governo ter conseguido um défice histórico na história da Democracia,  e que as direitas sempre disseram impossível de alcançar?
9. Será que também se explica pela aceleração do crescimento da economia, como o vêm demonstrando os números do INE?
10. Outra explicação residirá no facto de os leilões da dívida portuguesa terem batido o record histórico dos juros mais baixos  e, mesmo a 10 anos, voltarem abaixo dos 4%?
Como epílogo fica a questão remanescente sobre Marcelo: neste ziguezague, ora à esquerda, ora à direita, por quanto tempo usufruirá de apreciação positiva nas sondagens? Normalmente quem quer agradar a gregos e a troianos acaba por desagradar a todos. E lá se vai a possibilidade de cumprir um segundo mandato!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Livrai-nos dos escorpiões!

A continuação da novela em torno do que foram, ou não, os compromissos de Mário Centeno com António Domingues e as reações que dela advieram desde a conferência de imprensa de ontem à tarde, justificam-me três comentários:
1. Como tenho reiteradamente dito, e repetido neste blogue, sinto uma enorme estranheza por quem, sendo socialista, comunista, bloquista ou verde tem visto com bastante complacência o comportamento de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo deste ano de mandato.
Posso ser visto como um incorrigível teimoso mas nem votei nele, nem nele alguma vez confiarei: como nos avisa a fábula, um escorpião será sempre um escorpião, que age de acordo com a sua natureza, mesmo quando quem aceitou transportá-lo no dorso se deixou cativar pelas suas melodiosas palavras ou pelas selfies com ele tiradas.
A declaração da presidência da República, na sequência da conversa de Centeno com os jornalistas serviu para atirar um fósforo para um palheiro. Se não quis ser incendiário, não deixou de o parecer!
As esquerdas que não se cuidem, se insistem em julga-lo, se não um aliado, pelo menos neutro quanto à disputa política dos próximos anos!
2. Toda a campanha contra Centeno tem subjacente as sondagens divulgadas na semana passada, mas, sobretudo, os excelentes indicadores sobre o rumo da economia de acordo com o que vem sendo publicado pelo INE. E, naturalmente, as reações positivas do comissário Moscovici e de instituições internacionais, incluindo as agências de notação, que, não querendo dar já o braço a torcer, vêm reconhecendo sinais de clara recuperação no crescimento do PIB, na redução do desemprego e na dinâmica crescente do investimento.
As direitas sabem-se à beira de um limiar em que ficarão com argumentos cada vez mais pífios para criticar uma solução governativa, que funciona. Se. como o próprio Centeno considera possível, o desemprego tender a reduzir-se para menos dos 10%, o crescimento a evoluir e a ultrapassar as previsões mais cautelosas do governo e os fundos estruturais potenciarem investimentos determinantes para a requalificação do nosso tecido produtivo, com que cara conseguem ir Passos Coelho e Assunção Cristas às próximas eleições legislativas? Se o pleno das direitas está atualmente em mínimos históricos para que irrelevante dimensão minguarão?
A única possibilidade de travarem esse previsível definhamento residirá em recorrerem intensivamente à intriga, à coscuvilhice, à mentira descarada, à criação de “factos” a partir do nada. E é isso que visam com a tentativa de derrubarem o principal arquiteto dos excelentes resultados recém-conhecidos, e é o que procurarão através da contínua aposta na divisão entre as esquerdas nos próximos meses, tendo em conta o potencial de divergências nas vésperas das eleições autárquicas.
Façamos votos que, socialistas, comunistas, bloquistas e verdes ajam com lucidez e inteligência desarmando com cautelas o terreno minado em que as direitas os querem ver progredir. A maioria dos portugueses agradece-lhes que não deixem rebentar nenhuma bomba!
3. Disse-o aqui há dias e volto a repeti-lo: isto está mesmo a pedir uma grande manifestação nas principais cidades do país. Sob que palavra-de-ordem? «Contra as tentativas da direita para destruir a CGD». Quem é que poderá estar em desacordo com uma mobilização à pala desse objetivo?