sábado, 5 de agosto de 2017

O crescimento económico: essa grande ilusão

O conceito de “shifting baselines” foi teorizado pelo biólogo Daniel Pauly e define o dia de cada ano em que gastámos os recursos naturais, que levaria todo ele a renovar. E é sobre tal questão que Philippe Bihouix escreve no seu recente «L’Âge des low tech» publicado nas Éditions du Seuil. A sua proposta vai a contracorrente do discurso, que ouvimos todos os dias aos políticos de todas as tendências: em vez de garantir o combate à pobreza através do crescimento da economia importa orientá-la no sentido do decrescimento. É que o ponto de não-retorno já foi atingido em numerosos casos e continuamos a degradar o meio ambiente,  a perder biodiversidade.
Se nos ativermos à cultura hoje dominante na Casa Branca, tenderemos a procurar petróleo, gás natural e minerais em quantidades menos concentradas e acessíveis, com rendimentos inferiores e imprevisíveis consequências ecológicas. Podemo-nos iludir com os desenvolvimentos tecnológicos, que passarão, por exemplo pelo recurso de energias renováveis. Mas quando se esgotarem as reservas de neodímio, como poderemos continuar a construir turbinas eólicas? E como exequibilizar automóveis elétricos sem lítio? A solução parece ser a de dependermos menos de recursos não renováveis para nos concentrarmos nos que o são, ainda que consumidos mais criteriosamente do que até aqui.
O crescimento há muito se revela incompatível com o aumento das emissões de gases com efeito de estufa na atmosfera. Por isso teremos de nos adaptar a uma sociedade que consuma menos energia e matérias-primas, que reduza substancialmente a produção de lixo. Politicamente, só será garantida a sustentabilidade do planeta, que legaremos aos nossos netos, se implantarmos um sistema político-económico contrário ao capitalista, capaz de garantir o pleno emprego, que o furação schumpeteriano cuidou de inviabilizar.
Hoje, na nossa sociedade ocidental, condicionada por uma globalização descontrolada, a criação de empregos leva os governos eivados de tentações neokeynesianas a apostarem nas grandes obras públicas, muitas das quais se tornarão elefantes brancos a médio prazo. A ilusão de conseguir animadores crescimentos económicos depressa se esboroa. E as alternativas passam pelas ineficazes e abjetas respostas populistas ou pela convicção maioritariamente coletiva de se tornar possível a gestação de um mundo alternativo mais justo, igualitário e ecologicamente responsável. 

1 comentário:

  1. O problema é que justamente um mundo em que produziremos menos e consumiremos menos será também um mundo onde iremos trabalhar menos. E quando se olha para a cartilha de todos os Partidos, com exceção dos Ecologistas (os verdadeiros Conservadores), a solução parece passar pelo crescimento, incluindo os Partidos mais à Esquerda, que desejam recuperar as tais soluções de pleno emprego, mantidas à custa, claro, de gastos de dinheiros públicos. O meu caro não pode querer ter sol na eira e chuva no nabal. Se enveredarmos por soluções de decrescimento haverá necessariamente menos emprego. Será isto um problema? Keynes pensava que não e que o progresso tecnológico se encarregaria de reduzir o nosso tempo de trabalho para poucas horas diárias. Infelizmente, o trabalho não confere só um rendimento, confere também dignidade. A revolta da classe média baixa, com laivos de neo-ludismo, que vota nos populismos de ambas as cores deriva justamente daí, da dignidade que sentem ser-lhes retirada. Marx pensava justamente numa sociedade em que o trabalho deixaria de ser um meio de rendimento para passar a ser um objetivo de vida. Os Marxistas requentados atuais sonham, ao invés, com o regresso aos idos de 1970...

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