quinta-feira, 31 de agosto de 2017

De como a tragédia se converte em farsa sem ponta de humor

Foi Hegel quem começou por constatar que a História repete-se sempre pelo menos duas vezes. E Marx acrescentaria que a primeira sob a forma de tragédia, a segunda como farsa.
Com o filho do gasolineiro de Boliqueime a revisão da tese marxista revela-se necessária, porque se a passagem de primeiro-ministro para presidente da República manteve o registo trágico, ele ameaça converter-se doravante num farsante contumaz, tão só o convidem para comparecer novamente sob as luzes da ribalta. Sobretudo na véspera de mais uma constatação do Instituto Nacional de Estatística em como a governação socialista, apoiada nos demais partidos da esquerda parlamentar, está a alavancar a economia do país para crescimentos há muito desconhecidos. A concomitância dos seus vómitos em Castelo de Vide com a confirmação das virtudes do modelo de governação, que ele tudo fez para obstaculizar, a reação pública joga por certo em seu desfavor.
Sinto-me tão distante de tão crapulosa personalidade, que não consigo imaginar-lhe as reações perante os sucessivos desmentidos dos seus dogmas ideológicos. Quase aposto que mudará de canal sempre que a evidência lhe entrar portas adentro e agarrar-se-á a todas as fake news prodigalizadas pelos seus acólitos para o convencerem de outra realidade, que não a existente. Não me espantaria, que repetissem com ele as práticas outrora seguidas pelos cortesãos do ditador de Santa Comba que, após a queda da abençoada cadeira, o convenciam da sua «iluminada» liderança.
A frustração da criatura será a de saber-se evocado da pior forma pela História lusa: por muito que o queiram convencer da imorredoira persistência no imaginário coletivo, temerá ver concretizado o que os (maus) instintos lhe perspetivam, o esquecimento, a sua não existência. Ao contrário de Mário Soares, que tanto detestou e a quem a História sempre atribuirá a justa quota parte na transição para a Democracia.
Temamos por novas aparições. Ou por novas assombrações como escreveu Pedro Filipe Soares nas páginas do «Diário de Notícias». Porque mais do que alguém que mereça ser respeitado, surgirá como o bufão sem graça, que todos desejarão ver atirado para as profundezas dos bastidores.

(S) A festa dos Proms de 2014 com um medley de temas de «Mary Poppins»

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Meia dúzia de apontamentos sobre a atualidade

1. Apenas vou dedicar cinco linhas ao que as televisões escolheram como um dos acontecimentos do dia: uma múmia, quanto muito expõe-se numa vitrina e coloca-se-lhe uma legenda a explicar as circunstâncias em que se enquadrou na sua época. No caso em apreço só se justifica uma explicação: o manifesto erro de casting para funções em que, mais do que incompetente, só soube causar sérios danos coletivos e individuais.
2. Que um partido tenha um troglodita como candidato em Loures e se socorra de cadáveres políticos para justificar a sua existência, diz muito sobre o estado a que chegou. Entre a incapacidade para ter a inteligência e adaptabilidade dos homo sapiens e o recurso ao horror dos zombies assim se vai afundando no pântano para onde se tem deixado arrastar pela sua lamentável liderança.
3. Parece que o governo está a perspetivar a alteração do Código do Trabalho para impedir a PT/ Meo/ Altice de prosseguir com as suas golpadas. Já se imaginam os rugidos de dor, que soarão das bocas de uns quantos comentadores, inconformados com mais uma provável reversão de quanto saudaram nos anos da troika. Lá se vai mais um esteio do corpus ideológico, que julgaram perenizar à conta dessa intervenção neocolonial.
4. A greve da Autoeuropa continua a parecer o que sugeria desde início: a tentativa dos sindicatos da CGTP em recuperarem uma influência na fábrica, que a existência de uma Comissão de Trabalhadores muito ativa nunca lhes possibilitou. Ora nenhuma luta laboral deve ficar refém das estratégias calculistas de quem trata quem trabalha como meros peões dos seus jogos mesquinhos. Sobretudo, quando o ecossistema político deve apontar para convergências em vez de estéreis dissidências.
5. Sim, o tipo que está à frente da Coreia do Norte tem tudo a apontar-se-lhe para ser considerado um pária. Mas ninguém se inquieta pelo facto de, desde 21 de agosto até ao último dia deste mês, os norte-americanos andarem em exercícios militares na região em conjugação com os sul-coreanos? Queriam que Pyongyang ficasse impassível perante tão óbvia provocação? E que dizer dos nossos «jornalistas», que tanto enfatizaram o apoio da China à condenação unânime do Conselho de Segurança da ONU, mas quase passaram como cão por vinha vindimada quanto ao facto de não terem sido debatidas, nem aprovadas novas sanções?
6. Não nos devemos congratular com as cheias terríveis, que vêm assolando o Texas e a cidade de Huston em particular, mas Trump pode ver-se acrescidamente posto em causa por fenómenos meteorológicos de dimensões extraordinárias e indiciadoras daquilo que tem feito por negar: o efeito das atividades humanas nos equilíbrios climáticos. Brincando com o fogo, a Administração corre sério risco de escaldar-se... 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Muda a meteorologia, avança nova moda nos cabeçalhos dos media

Sejam os jornais, sejam as televisões - e admito que o mesmo aconteça com as rádios! - verifica-se um sério atarantamento dos jornalistas, que se sabem obrigados a respeitar os ditames de quem lhes paga os ordenados, mas confirmam, dia a dia, como as suas peças merecem progressiva indiferença em quem as lê ou vê. Sobretudo, porque se as críticas eram outrora cingidas à oralidade dos espaços públicos, agora ficam registadas em reações virais nas redes sociais. Razão porque vêm reagindo com particular sanha contra quem delas se serve para lhes denunciar a incompetência ou a submissão a interesses, que não os devidos à luz do seu código deontológico.
Poderíamos ter tido alguma expetativa face à assumpção de muitos dos problemas hoje verificáveis na imprensa tradicional no recente Congresso dos Jornalistas. Nalgumas intervenções estiveram em causa a exagerada filiação aos interesses dos proprietários desses meios de comunicação e a incapacidade em prender a atenção de leitores e espectadores perante a mudança de paradigmas da sociedade contemporânea. Porém, se a consciência existe quanto a viver-se um fim de ciclo de contornos imprevisíveis - mas notícias como a da colocação no mercado das revistas do grupo Impresa vão-no configurando! - não se constatam grandes diferenças em relação ao já visto e conhecido. Por isso as semanas mais recentes foram as da exploração até à náusea de reportagens sobre incêndios, mesmo sabendo-se quanto elas poderiam desencadear mecanismos de mimetismo em quem alimentava no íntimo uma propensão pirómana. Embora muitos dos responsáveis pela edição de jornais e telejornais possuam formação bastante para saber quanto o sucesso de um negócio está dependente da sua diferenciação, todos se limitaram ao exercício preguiçoso de se repetirem uns aos outros, sem haver quem arriscasse a autocrítica quanto ao sentido do que iam produzindo.
Quem gostaria de encontrar como diferença a objetividade, o aprofundamento das questões, a racionalidade, só encontrou a exploração das emoções, como se o sucesso da informação dependesse da satisfação das tendências voyeuristas dos seus consumidores.
Agora, que as chuvas chegaram e o futebol não basta para preencher cabeçalhos vistosos, o tema que se cria é o das visitas de altos quadros da Administração Pública à China ou aos EUA convidados por empresas multinacionais com interesses na venda dos seus produtos ou serviços. Merece o destaque que está a ter ou volta a ser a tendência para explorar o lado mais sombrio do imaginário coletivo, mormente o sentimento de inveja por uns terem acesso a tanto e os outros a tão pouco?
É essa a notícia que merece prender a nossa atenção ou não tem outra relevância a prometida melhoria da qualidade de vida da maioria dos portugueses à conta da revisão das tabelas do IRS? Ou não será mais relevante a forte probabilidade de redução efetiva da dívida soberana à conta do pagamento a ser feito ao FMI  dentro de poucas semanas?
Se os media pretendessem explorar o que de maligno subsiste na sociedade portuguesa poderiam sempre indignar-se por, mais uma vez, ser adiado o prazo para o Ministério Público confessar-se quanto a ter ou não uma prova, uma provazinha que seja, para justificar a perseguição a que tem submetido José Sócrates. Mas, nesse aspeto, os jornalistas em causa seriam obrigados a dissociar-se do papel que lhes tem cabido de servirem de idiotas úteis a quem pretendeu, desde início, criar um caso judiciário mesmo só tendo por argumento o seu preconceito ou desconfiança. 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Quando alguns sindicalistas portam-se como idiotas

Durante alguns anos dirigi uma empresa de manutenção, que estava incumbida de garantir a melhor operacionalidade possível das instalações administrativas e de alguns sistemas de apoio à fábrica na Autoeuropa. A experiência bastou para compreender quantos anos-luz distavam das práticas negociais da sua Administração relativamente a muitas outras, que também contactava como prestador de serviço.
Nesses anos a paz social estava garantida pela capacidade de concertação entre essa Administração e a Comissão de Trabalhadores liderada inquestionavelmente por António Chora para grande desgosto dos sindicatos comunistas, sempre condenados a servirem de parceiros minoritários num contrato social, que os excluía invariavelmente das decisões finais.
A saída do líder histórico dos trabalhadores da fábrica alemã permitiu aos comunistas aproveitarem a oportunidade para levarem por diante a sua vindicta. Daí a greve marcada para quarta-feira, fundamentada em argumentos de somenos importância, quando está em causa o essencial: o futuro da fábrica em Portugal.
Cegos por uma miopia ideológica, que contradiz muitos dos princípios outrora enunciados em textos do próprio Lenine, os dirigentes sindicais do SITESul parecem importar-se pouco com a forte probabilidade de regressarmos à situação de dez anos atrás, quando o iminente abandono dos modelos então ali montados fazia antever um agravamento ainda maior de uma crise social num distrito bastante causticado pelo desemprego operário.
Foi surpreendente o resultado da votação num plenário, que deslegitimou o acordo assinado pela Comissão de Trabalhadores para garantir o sucesso da produção do novo modelo T-Roc. Será que muitos dos que apoiaram os comunistas já esqueceram quanto andaram preocupados perante a possibilidade se verem sem emprego?
Subscrevo, por isso mesmo o texto hoje assinado por Nicolau Santos, que pergunta se eles saberão mesmo o que estão a fazer. Seria bom que o Comité Central do PCP chamasse à razão alguns dos seus dirigentes sindicais, que julgando espreitar para o longe só veem o seu eventual sucesso de curto prazo. O comunismo pressupõe um outro tipo de ambição: ser capaz de, a exemplo de Newton, alcandorar-se aos ombros dos gigantes e encontrar os caminhos adequados para chegar mais próximo da Utopia que almejam. 

sábado, 26 de agosto de 2017

As vozes do dono na SIC e no Expresso

Há duas «fontes de informação», que servem para, semanalmente, se aferirem os recados de Marcelo Rebelo de Sousa a António Costa. Uma é promovida pelo oráculo de Fafe aos domingos na SIC, nunca se sabendo até que ponto as suas opiniões são as próprias ou as encomendadas por quem o tem como «conselheiro». O certo é que as suas posições sempre críticas para com o governo, espelham quase por certo as subscritas por Marcelo, mas que ele se exime de expressar devido à sua condição institucional.
Mais interessantes são os recados sempre trazidos pelo «Expresso», mormente por essa voz apócrifa, que assina como Ângela Silva. Tal como sempre foi tida como altifalante do que interessava provir da sede da Rua Buenos Aires, a jornalista também tem mostrado vocação para cumprir idêntico papel relativamente ao que Belém pretende veicular no espaço público.
Desta feita o que diz o artigo da sua autoria é basicamente isto: por muito que António Costa pretenda mudar de registo, esquecendo os incêndios e orientando a atenção coletiva para os resultados económicos e financeiros da governação, Marcelo não lho permitirá. E, mais ainda, até pressiona no sentido de uma remodelação governamental, que teria como alvo principal a ministra da Administração Interna. Algo que o primeiro-ministro tem liminarmente afastado como hipótese nas entrevistas mais recentes, nomeadamente na facultada ao mesmo semanário.
Que levará Marcelo, a através de Angela Silva, enviar tal recado ao governo? Será que na habitual reunião semanal com Costa tem levado contínuos nãos a respeito de tal sugestão? Pretenderá manter na ordem do dia um assunto, que fragilizou o governo durante umas semanas e tende a cair no esquecimento tão só o verão decline e surjam as primeiras chuvas de outono? Quererá Marcelo cavalgar algum resultado menos bom do PS nas autárquicas e, mediante uma remodelação algo forçada, criar a ideia de uma decadência irreversível na sua ação política? Todas elas são questões a serem respondidas nas semanas vindouras. No entanto não parece que venha a ter grande sucesso: não só os resultados da governação voltam a sobressair como muito positivos como também prometem ainda potenciar-se no segundo semestre com algumas exportações a acelerarem-se.
Serão as direitas a exporem-se a graves dissabores, não só pela escusa de Passos Coelho em sair de cena, mesmo acumulando sucessivas derrotas eleitorais, mas também pelo indiciado pelas sondagens a respeito dos resultados de Assunção Cristas em Lisboa. Bem podem a SIC e o Expresso darem expressão aos humores agastados de Marcelo, que lhe restará manter-se no circuito das selfies e dos afetos. Se é que possa pretender a prossecução do seu objetivo principal num novo quinquénio - reorientar a governação para a direita, se o ensejo se lhe apresentar.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Impresa: falida, mas teimosamente antigoverno.

Que o império da comunicação de Balsemão está a meter água por todos os lados assim confirmámos na semana em curso. Que a linha editorial da informação por ele ministrada na SIC ou no Expresso só tende a provocar a ira e a desafeição dos seus espetadores e leitores só faz compreender como, em vez de se orientar para lhes conquistar o favor, os seus responsáveis continuam a privilegiar os preconceitos ideológicos relacionados com um governo, que tudo fazem por desqualificar e sabotar.
Peguemos no exemplo do jornal digital desta quinta-feira. Quem é que tem direito a capa senão um imbecil em forma de suposto especialista em pediatria, cujos «conselhos» sempre execrei quer como pai, quer agora como avô. O que diz esse «cabeça-de-cartaz»? Que a polémica sobre os manuais de exercícios da Porto Editora não tem qualquer importância e seria mais próprio  da silly season. Homessa!? É questão de somenos, que se minimizem as meninas para sobrevalorizar os meninos? Como pai e avô de meninas sinto-me indignado com aqueles livros, que tendem a perenizar a subalternização feminina no nosso espaço coletivo. E só posso reiterar a classificação de imbecil, quem assim não vê a questão. Ademais, porque logo adiante cuida de subscrever os propósitos entretanto enunciados por essa outra aventesma, Henrique Monteiro, sobre o assunto.
Na outra manchete do dia o «Expresso» - a exemplo dos noticiários da SIC - dá um putativo direito de resposta à PT a respeito do que António Costa sobre ela dissera a respeito da sua responsabilidade nas falhas do Siresp. Entre o primeiro-ministro e uma empresa assumidamente ligada a comportamentos inaceitáveis a respeito da forma como se comporta com os seus trabalhadores, e que tem efetivas responsabilidades no sucedido, a desinformação do grupo Impresa atribui idêntico valor, como se eticamente pudessem equivaler-se. Por muito que desagrade aos seus muitos defensores - todos conotados com o governo anterior! - a Altice / PT/ Meo é das entidades que merece ampla condenação dos seus critérios de operação e de gestão A falência por ostracização dos que ainda têm a desdita de serem seus clientes deveria constituir um mero ato de justiça. Eu que tive com ela um prolongado diferendo por não ser aceite a rescisão de contrato de serviço telefónico por morte da minha mãe, com cobrança indevida e injustificada do mesmo durante sucessivos meses, sei do que falo ao aludir ao seu comportamento indecoroso.
Se o «Expresso» quisesse dar importância ao que, efetivamente, o teve no dia de ontem, bem poderia puxar para a capa a criminosa decisão do governo de Temer em acabar com uma reserva ecológica na Amazónia para aí dar azo ás negociatas dos que ali pretendem explorar os recursos mineiros. A destruição do pulmão, que o planeta tem na bacia do rio sul-americano constitui decisão com tão grave alcance que deveria merecer intensa campanha internacional de denúncia de tal tipo de política.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Crónica de uma morte anunciada

Fui leitor fiel do semanário «Jornal» que, infelizmente, vi adquirido por Francisco Balsemão. Recebi a sua transformação em revista com algumas reticências, mas anos a fio, fui assinante pesando positivamente nas vantagens e desvantagens de assim ir investindo algum do meu dinheiro.
Há uns quatro anos o desagrado com a evolução da publicação levou-me a não renovar a assinatura, mantendo-me como leitor mais ou menos regular das revistas, que iam saindo nas bancas de jornais. Era já uma altura em que os textos iam-se aligeirando, cuidando da abordagem da realidade com escasso esforço analítico.
A gota de água, que me fez desafetar em definitivo de tal publicação aconteceu há uns meses, quando foram liminarmente despachados para o desemprego alguns dos bons jornalistas ainda sobreviventes numa redação cada vez mais entregue a gente medíocre.
Desde então o tipo de capas, que ia vislumbrando semana após semana confirmava-me o rumo de progressiva degradação seguido pela sua nova diretora. Não me admira, pois, a notícia da intenção de Balsemão em livrar-se de um investimento cada vez mais ruinoso. Mas pode-se lamentar que ele tenha pegado num património muito respeitável, produto do esforço de tão memoráveis jornalistas (de Cáceres Monteiro a Assis Pacheco, passando por muitos que seria fastidioso aqui enumerar!), e o destruiu por o ter transformado numa lamentável caricatura do que ele representara.

Uma ordinária manifestação de fascismo

Agora que já avanço aceleradamente nos sessentas vejo a necessidade de retomar combates, que julgaria irreversivelmente vencidos. O antifascismo como mote para muitas lutas volta a estar na ordem do dia tendo em conta o sucesso eleitoral de gente, que há muito tempo deveria ser considerada tóxica, imprópria para consumo. E isso faz tanto sentido em Charlottesville como em Loures, em Budapeste como em Pas-de-Calais, em Varsóvia como em Manila, em Budapeste como em Viena de Áustria. Com matizes pouco diferenciados entre si a extrema-direita levantou a cabeça e está mesmo a pedir que a decepemos por ação da empenhada militância contra o ódio, a xenofobia e o racismo.
Mas a besta imunda não surge do nada para ganhar súbita importância. O ovo da serpente vai sendo chocado em pequenos factos do dia a dia com os quais podemos ir contemporizando sem lhes atribuirmos a devida dimensão. Felizmente que, por vezes, a reação é imediata e contundente: a história dos livros de exercícios da Porto Editora com distinção para o menino e para a menina evidencia a tentativa nunca abandonada de certos setores em recuperarem um estilo de família em que o homem é o chefe que em tudo manda e a mulher a fada-do-lar destinada a obedecer.. Décadas de luta pela emancipação feminina podem ser postas em causa por exemplos destes, ademais justificados pela inenarrável responsável da editora em como nada teriam de mal, porque se venderiam com grande sucesso.
O governo esteve muito bem quando alegou uma violação grosseira da Constituição e aconselhou a empresa a retirar de venda tão esdrúxulo produto. Mas foi antecedido de um autêntico alarme social em que, mormente nas redes sociais, se levantou um clamor ruidoso para ecoar a indignação por esta forma inaceitável de fascismo ordinário.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Porque não entro num Pingo Doce

Há grandes superfícies onde nunca entro, onde rejeito gastar um cêntimo que seja. Uma delas, porventura a que mais execro, é o Pingo Doce, cujo comportamento acintoso para com o Estado português, e obviamente para com os seus cidadãos, merece justificada repulsa.
Há fundamento para tal atitude no facto de fugir às obrigações fiscais, pagando noutro país os impostos que deveria aqui satisfazer. Há o reiterado boicote à Festa dos Trabalhadores, a 1 de maio, fazendo abundante publicidade no facto. Mas há também aquilo que distingue esse grupo de qualquer outro da área do retalho: é o único a escusar-se ao pagamento da Taxa de Segurança Alimentar, apesar de criada pela sua apoiante Assunção Cristas, já ascendendo a 14,62 milhões de euros o valor em dívida para com o Estado.
Que não perde pela demora, avisa a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), que para tal está a levar o grupo Jerónimo Martins a tribunal. Por ora este vai demorando a cumprir com a obrigação, atardando-se em argumentos de suposta inconstitucionalidade, que mais nenhum dos seus concorrentes diretos vislumbrou.
Será que a família Soares dos Santos está à espera que o Diabo venha e a liberte do que deve por conta de alguma amnistia fiscal? Pelo que se prevê no médio-longo prazo bem pode esperar sentada.
Aos consumidores cabe penalizar quem mantém uma cultura de reiterado jogo do gato e do rato com a legalidade em manifesto prejuízo coletivo. Se ganharem a devida consciência cívica bem podem deixar às moscar os corredores dos hipermercados dessa insígnia.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Que não se esqueça quem tinha razão em devido tempo!

Durante os governos de José Sócrates não foram poucas as discussões que tive com quem discordava em absoluto da construção de um novo aeroporto. Os argumentos dos meus interlocutores eram os de quem ajuizava os outros por si mesmos, pois alegavam as negociatas envolvidas em tal tipo de projeto, desprezando os exemplos históricos óbvios (o quão limitada se revelou a Ponte 25 de abril duas décadas passadas sobre a sua inauguração) e ineptos na capacidade de preverem o crescimento do transporte aéreo a nível internacional.
Hoje podemos ACUSAR (em veementes maiúsculas) esses altifalantes da direita de então por terem impedido uma obra, que hoje se revela mais do que urgente, tendo em conta os problemas diariamente registados no Aeroporto Humberto Delgado à conta da exiguidade das suas pistas e instalações. Diariamente o país sai prejudicado em avultada maquia graças a tão míope gente. Mas, tão grave quanto foi essa travagem a um projeto fundamental para o país foi a entrega da ANA à Vinci por parte de Passos Coelho. A exemplo de outras privatizações ruinosas, o ainda líder da Oposição deveria ser objeto de severo julgamento à conta dos danos causados pela sua 8des)governação durante quatro anos.
O artigo hoje assinado por Nicolau Santos no «Expresso» e de que abaixo se transcreve grande parte é eloquente quanto a essas culpas passadas, que não deverão ser esquecidas no presente e muito menos no futuro: se o país vê travado muito do seu potencial muito o deve a quem o quis fazer tão minúsculo quanto o das mentes, que se julgaram capazes de lhe definir o rumo.

Extrato do texto de Nicolau Santos no «Expresso» de hoje: 
A notícia, seca, reza assim: “Entre as sete da tarde de ontem, domingo, até quase às 22h00, a fronteira de partidas do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, esteve fechada, atrasando a partida de 17 voos. Esta situação aconteceu, segundo a gestora dos aeroportos, ANA, devido a um "erro de operação por parte da empresa de handling Groundforce", explicando que as partidas dos 17 voos sofreram atrasos "para não comprometer questões de segurança". Dirá o leitor: coisas que acontecem.
Dirá o leitor mais cético: só neste país é que isto acontece. Dirá o leitor que não gosta de António Costa: isto é culpa deste Governo. Dirá o leitor que não gosta de Pedro Passos Coelho: isto é culpa da oposição, que concessionou a ANA. Todos podem ter alguma razão, mas é pequena. Na verdade, aquilo a que estamos a assistir no aeroporto de Lisboa é o resultado de longos anos de inércia por parte dos políticos, para depois se passar a um combate político entre a construção ou não de um novo aeroporto, cada uma das razões alicerçadas em estudos que dizem sempre aquilo que quer quem os paga, até se chegar a uma decisão que é um remendo que rapidamente se esgotará.
Na verdade, os que se opuseram radicalmente à construção de um novo aeroporto no tempo do Governo de José Sócrates dirão que não era previsível esta explosão do turismo e este afluxo de visitantes a Portugal. E terão razão. Mas ter razão no presente sem olhar o futuro é incompetência. E bastava saber, como é do domínio público e já foi bastas vezes referido, que desde 1969, quase há 50 anos e ainda no anterior regime, se começou a discutir a necessidade da construção de um novo aeroporto para Lisboa para perceber que esta era uma obra pública incontornável para a qual o país teria de avançar.
Quando João Cravinho foi ministro das Obras Públicas, entre 1996/99, definiu a estratégia da construção de um novo aeroporto, até porque Barajas, que serve Madrid, estava a entrar nos limites de utilização e Lisboa capitalizaria os voos que não pudessem aterrar na capital espanhola. Não teve tempo, contudo, para concretizar o projeto. Mais tarde, com José Sócrates como primeiro-ministro e Mário Lino como ministro da mesma pasta (2005/09), o Governo avançou com estudos e localizações (Rio Frio? Ota, Alcochete?), mas o PSD, dirigido por Pedro Passos Coelho, fez da construção do novo aeroporto uma das suas principais bandeiras de combate político, usando-o como exemplo do despesismo que dizia combater e opondo-se tenazmente a uma solução para ampliar a Portela, que dizia, invocando estudos, não estaria esgotada antes de 2050.
Depois, durante o seu consulado, o Governo PSD/CDS não só concessionou a ANA, a empresa que gere todas as infraestruturas aeroportuárias do país aos franceses da Vinci por 50 anos (!), como deixou na mão desta a solução para o aeroporto quando se aproximasse do esgotamento. E a Vinci, como seria de esperar, não só adiou o mais possível uma decisão, quando era evidentíssimo que o esgotamento estava a chegar rapidamente, como depois se inclinou decididamente para a solução Portela mais um (neste caso o Montijo, que terá de ser ampliado), o que o anterior Governo aceitou e o atual, pressionado por uma situação que está a rebentar pelas costuras, decidiu subscrever por supostamente ser a que fica mais depressa pronta a ser utilizada.
Por isso, que ninguém estranhe que haja confusões no encaminhamento dos passageiros quando a zona de controlo de passaportes não comunitários está lotada; que ninguém estranhe que se demorem horas a passar no controlo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; que ninguém estranhe que a bagagem também demore bastante mais que o admissível a chegar aos seus donos; que ninguém estranhe as filas de centenas de metros para apanhar táxi à saída do aeroporto; enfim, que ninguém estranhe esta visão de um aeroporto do Terceiro Mundo que tem qualquer pessoa que chega pela primeira vez a Lisboa por via aérea.
Não é de estranhar. É o resultado da incapacidade para decidir e da miopia dos políticos, alguns dos quais preferem ganhos eleitorais a curto prazo a uma estratégia coerente de longo prazo para o país.
Mas dito tudo isto e perante o cenário que todos os dias se vive no aeroporto Humberto Delgado é estarrecedor que o PSD, pela boca do seu líder parlamentar, Hugo Soares, venha acusar o primeiro-ministro de “regresso ao socratismo” quando ele propõe um pacto, aprovado na Assembleia da República por dois terços dos deputados, para os grandes investimentos públicos que o país terá de efetuar no futuro, integrados no quadro comunitário de apoio do pós-2020. Que não se tenha visto aquilo que está a acontecer ainda se desculpa. Que não se queira ver o que está à vista de todos, para fazer chicana política, é inaceitável.

Uma fortaleza acossada e em ruínas

Só os militantes do PSD parecem não compreender que ficaram reféns de um líder incapaz de encontrar emprego tão só o perca em cargos com ele relacionados. Repudidado por um padrinho tão complacente como o foi Ângelo Correia e demonstradas tantas insuficiências para exercer funções de gestor em qualquer empresa, pequena, média ou grande, que alternativa resta a um medíocre com 53 anos senão agarrar-se o mais possível à possibilidade de ser deputado até 2025 nem que isso implique passar todo o próximo mandato na última fila do seu grupo parlamentar?
A realidade dos factos vai distanciando-o cada vez mais da possibilidade de voltar a ser primeiro-ministro: apesar dos fogos ainda ateados um pouco por toda a metade norte do país, sucedem-se as boas notícias para a governação socialista apoiada na maioria das esquerdas parlamentares. Na semana passada o IGCP emitiu mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro e os investidores dispuseram-se a pagar anualmente 3,05 milhões de euros para emprestarem esse dinheiro ao Estado Português. As exportações para Angola voltaram a recuperar, tendo crescido 47% no primeiro semestre em comparação com o período homólogo do ano anterior. As famílias com crianças prestes a regressar às escolas investiram agora em média 399 euros, ou seja quase menos 25% do que sucedia há dois anos e graças à política de gratuitidade dos manuais escolares para os primeiros anos do ensino obrigatório.
Compreende-se que a corte do desnudado rei que é Passos Coelho se desespere, sobretudo quando António Costa a confronta com os desafios do futuro a serem contemplados com os fundos europeus do período entre 2020 e 2027. Competitividade com melhor educação e requalificação de quem trabalha, maior coesão interna, a aposta em infraestruturas (nomeadamente as portuárias!) relacionadas com a economia do mar cuja pertinência ganha tanto maior importância quanto a zona económica do país na plataforma continental, que inclui o território emerso, pode em breve estender-se significativamente com o que isso implica em recursos potenciais a acrescentarem-se aos que já estão a transformar a nossa economia.
Pouco a pouco os que chegaram a convencer-se com o discurso diminutivo de Passos Coelho, dando de Portugal a caracterização de um país pobre sem outra solução que não a de empobrecer, para que as suas mercadorias transacionáveis competissem em preço com as produzidas no Bangladesh ou em Marrocos, estão a constatar quanto ele era criminosamente falso. Os rendimentos dos portugueses e as exportações aumentam, o Produto Interno Bruto cresce e a confiança de consumidores e investidores acompanha essa mesma tendência.
Passos e os seus cortesãos podem manter-se muito tempo na fortaleza onde se sentem acossados de todas as direções, mas não conseguirão obstaculizar uma dinâmica, que promete ser imparável. 

Tragédias até ao vómito

Será incontornável a apetência das televisões por tudo quanto lhes cheire a tragédia por muito que se revelem perversas as consequências das suas reportagens sem fim? Só para pegar em exemplos recentes podemo-nos questionar quantos pirómanos sentiram crescer em si o desejo de verem incêndios a irromperem das suas mãos só porque, horas a fio, as televisões multiplicaram imagens de bombeiros a combaterem incêndios um pouco por todo o país? E quantos lobos solitários avançam para ações suicidas só por detetarem o medo coletivo com atentados como os de Barcelona?
Em entrevista recente o filho do antigo traficante colombiano Pablo Escobar insurgia-se contra a série «Narcos» por glorificar a vertente criminosa da biografia paterna, fazendo com que muitos espectadores lhe invejassem o poder e a qualidade de vida proporcionados por uma reiterada atividade criminosa. Para Juan Pablo Escobar as televisões e os cinemas têm culpas sérias no despertar de novas vocações para o crime ao embrulhar de glamourosas cores todos os negócios avessos a qualquer resquício de legalidade.
Os canais dedicados a notícias em cima dos acontecimentos andam a prestar um péssimo serviço público: não só assumem um enviesamento notório das interpretações de tudo quanto se passa no país como, sobretudo, procuram explorar o lado mais emocional dos acontecimentos, aquele por onde mais facilmente investem a demagogia e os lugares-comuns, que impedem a abordagem mais racional, a única capaz de se revelar frutífera quanto aos resultados futuros.
Seria muito útil que, por uma questão de higiene coletiva, os espectadores passassem a desertar desses canais de modo privando-os do suporte publicitário. Mas, infelizmente, os responsáveis editoriais pela abordagem dessas tragédias vão ao encontro do que de mais sórdido existe no imaginário coletivo. Em vez de potenciar o que os portugueses têm de bom dentro de si, exploram o lado mais mesquinho e coscuvilheiro. Daí que se justificaria uma intervenção ativa do regulador a exigir modelos de informação conformes com o código deontológico dos jornalistas.
Forçassem-se eles a cumpri-lo escrupulosamente e teríamos melhores motivos para nos sentirmos otimistas face ao futuro.