terça-feira, 30 de maio de 2017

O otimismo perante quem antevê tempestades

A propósito do texto "As favas que ainda estão afinal por contar" Jaime Santos contesta o entusiasmo ali explicito pela possibilidade de Jeremy Corbyn conseguir um resultado eleitoral muito acima do que lhe profetizavam os comentadores, que dominam o nosso espaço mediático.
Diz aquele nosso leitor:
“Sim, mas mesmo a pasokização dos Partidos de Esquerda Social-Democrata, muitos deles convertidos ao neoliberalismo, não altera o essencial, que é, ou você governa com o que tem, ou tarde ou cedo vai de mão estendida ao FMI, como já aconteceu antes entre nós, aliás.
Pode prometer-se tudo a toda a gente, mas para entradas de leão com saídas de Syriza, prefiro a minha 'Esquerda' moderada e pasokizada, ou mesmo a Direita Liberal, a todos aqueles que querem transformar os diferentes Países Europeus em diferentes versões da Venezuela sem o petróleo.
Como disse acima, o programa de Corbyn tem um pequeno problema. Ao revelar-se incapaz de recolher os recursos que necessita para fazer o que pretende, ou vai acabar a defraudar os eleitores, ou o 'Socialismo' acaba, como dizia Thatcher, quando acabar o dinheiro dos outros (dos credores). Podem ganhar-se mil eleições recorrendo à demagogia, que o resultado final é sempre o mesmo... A não ser que, claro, como Maduro, depois se queira acabar com as eleições…”
Como quase sempre acontece discordo completamente da crítica, porque assenta neste pressuposto: ou aceitamos a TINA, também ela uma tese de Margaret Thatcher, ou caímos no caos venezuelano.
A realidade é bem mais rica do que este tudo ou nada em que Jaime Santos fundamenta a antipatia pelas propostas de Jeremy Corbyn. Tanto mais que esquece um dado importante: o atual líder trabalhista britânico tem uma formação política, que os militares venezuelanos não possuíam, quando secundaram Chavez e se apossaram dos lugares-chave do regime. E que nunca quiseram vir a ter, porque se contentaram em encontrar a forma de segurar o poder e dele colher as mordomias subsequentes.
Tratar-se-ia, à data do 25 de abril, de equiparar os conhecimentos e a preparação para a governação entre Mário Soares e Otelo Saraiva de Carvalho. Uma comparação, que não fazia qualquer sentido, por muito que o autor de «Alvorada em Abril» pudesse sonhar-se como réplica potencial do seu admirado Fidel. Daí que os efeitos da governação de uns e de outros nunca possam ser postos nos pratos da mesma balança.
Jaime Santos contesta as propostas económicas dos trabalhistas ingleses, nomeadamente no que têm a ver com as renacionalizações que tanto andam a incomodar as lideranças europeias. Imagine-se que elas vêm a revelar-se bem sucedidas, com Corbyn a imitar Centeno na lista dos governantes por quem poucos se dispunham a apostar um tostão furado. Seria a hecatombe de mais uma máxima de entre as muitas que têm caído nos últimos anos a propósito das vantagens da propriedade privada sobre o setor público da economia.
O que me tem sempre surpreendido nas contestações de Jaime Santos é a sua posição de princípio em como se algo corre mal - mormente todas as falhadas experiências socialistas até aqui rastreadas! - assim sempre ocorrerá. E continuando a apostar em cavalos completamente esgotados - a social-democracia ou a direita liberal - que fizeram sentido em fase recuada do capitalismo, mas não têm qualquer cabimento no atual, financeirizado, plutocrático, impeditivo de manter expectativas quanto ao funcionamento eficiente do elevador social - tenta diminuir o corpo teórico, que fundamenta a única alternativa justa para gerir um planeta onde resta pouco tempo para o manter habitável. As exageradas desigualdades na distribuição de rendimentos,  o esgotamento avassalador dos recursos naturais e assustadora degradação dos ecossistemas em  que vivemos não aconselham a perdurabilidade do laissez faire, laissez passer - que é fórmula ainda atual para as intenções desreguladoras dos mercados.
E que o nosso crítico descanse: a sociedade socialista pela qual muitos almejam nada tem a ver com as que gosta de citar como exemplos fracassados das tentativas para a alcançar. Será que desconhece a capacidade inesgotável de aprendizagem da sociedade humana com os seus erros? Veja como as próprias esquerdas portuguesas conseguiram, enfim, dissociar-se do tradicional fratricídio com que costumavam abrir as portas de par em par, para que as direitas desgovernassem!
A nossa espécie ainda será muito bem capaz de o surpreender quanto à sua capacidade de renegar as tentações bárbaras e tornar-se em algo de muito decente. Eis uma Utopia, que ainda espero poder testemunhar, senão enquanto realidade sustentada, pelo menos enquanto expetativa iminentemente concretizável.

2 comentários:

  1. Ora, meu caro, o cortejo de vítimas das pretensas 'utopias' passadas é tão grande que eu acho que tenho muito boas razões para estar bem cético em relação a mais um dos entusiasmos socialistas recorrentes (no final, perdem sempre). E não, não descansarei, fique pois descansado. Quanto a Corbyn, acho que a sua formação económica é igual a zero, mas o problema não está aí, porque reconheço alguma competência ao seu 'shadow chancellor'. O meu problema é o seu programa ser baseado na mentira de que existe dinheiro para pagar as nacionalizações (em relação às quais eu não tenho um problema de princípio, até porque os serviços públicos estão bastante mais privatizados no RU do que cá) ou que conseguirá arranjar recursos para pagar o enorme aumento da despesa a que se propõe. O reputado Institute of Fiscal Studies considera que os aumentos de impostos que Corbyn pretende impor não conseguirão cobrir de todo esse enorme aumento de despesa que ele propõe e o insuspeito Larry Elliot fez notar que, além disso, não está previsto um único pence para as privatizações (só os serviços de água custariam 60 mil milhões de libras a nacionalizar). Portanto, em que ficamos? Não se nacionaliza, ou expropria-se? Cá não funcionaria porque a CRP proíbe o confisco, e, azar dos Távoras, a nossa Constituição também protege direitos de propriedade (os desmandos do PCP em 1975 ocorreram antes dela entrar em vigor). Depois, francamente, estou farto dessa conversa sobre a convergência das Esquerdas em Portugal. As Esquerdas convergiriam para permitir ao PS governar com um programa de Centro-Esquerda, quase liberal... É a isto que chama 'Socialismo'? Lamento dizer-lhe, mas onde lhe sobra ideologia e entusiasmo, falta-lhe todo o realismo... Espero sinceramente que Corbyn, com este programa, perca (nem sequer merece perder), apesar de detestar os Tories, mas se porventura ganhar ainda me vou divertir muito com as suas trapalhadas. Não sei é se os Britânicos vão achar muita piada... E, já agora, se aparecerem aí uns anónimos a dizer que eu sou um vendido ou um direitista porque desejo a derrota de Corbyn, olhe estou muito bem acompanhado, porque Soares disse o mesmo a Kinnock em tempos (ver https://www.publico.pt/2014/12/14/politica/noticia/parabens-e-obrigada-1679311). E Soares tinha razão mesmo quando estava sozinho e soube bem, justamente, meter o Socialismo na gaveta e abraçar a Europa... P.S. Alguns dos meus comentários por vezes não aparecem, imagino que por questões técnicas. Agradecia que corrigisse isso, porque se por vezes dá relevância ao que escrevo, agradeço que publique todos os comentários na íntegra...

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  2. E já agora, mais um esclarecimento relativamente ao que escreve acima. Eu nunca disse que não existe alternativa à TINA que não passe pelo caos venezuelano. O que eu disse é que ou a Esquerda apresenta um programa económico consistente, que leva em conta os constrangimentos presentes (vide a prática de Mário Centeno), ou o resultado final não será muito distante dos disparates de Maduro. E Corbyn, pelas razões expostas, não tem nenhum programa consistente. Esse é que é o ponto que parece que o meu caro se recusa a perceber. O Syriza também prometeu mundos e fundos e chegou à Europa e a sua impreparação fez dele o bombo da festa. Quando se estica a corda, é bom que se esteja preparado para ela partir. Não vale a pena travar batalhas que vamos necessariamente perder por falta das armas adequadas...

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