quarta-feira, 10 de maio de 2017

Ceci n’est pas … du socialisme!

Deveria ser uma evidência, mas pelos vistos não é: quando alguém se define a si mesmo como socialista isso implicaria ter-se incompatibilidade ideológica com o capitalismo. A não ser assim imita-se Passos Coelho, que ostenta a bandeirinha na lapela, mas teve, e tem, recorrente prática política antipatriótica e antinacional.
Vem isto a propósito do entusiasmo manifestado em artigos de opinião por duas socialistas a respeito da conferência de hoje, dada por Robert Reich no ISCTE em que está prometida a abordagem da relação causa-efeito entre a agudização das desigualdades  e o sucesso eleitoral de Donald Trump.
Quer Ana Catarina Mendes (no «JN»), quer Maria Lurdes Rodrigues (no «DN»), revelaram a concordância com os principais pressupostos do referido professor de Princeton, implicitamente defendendo a necessidade de salvar o capitalismo. A segunda até conclui o seu texto com a falácia de associar o florescimento da democracia às economias de mercado, como se a liberdade dos patrões não coincidisse cada vez com a opressão de quem eles exploram, e mesmo a humilhação dos que eles empurram para as margens da precariedade e do desemprego. Por isso diz almejar uma profunda reforma do capitalismo “para que o seu desenvolvimento beneficie a maioria e não apenas os mais poderosos.”
Quer a secretária-geral adjunta do meu partido, quer a antiga ministra da Educação lembram-me aqueles náufragos que, em vez de embarcarem nos salva-vidas, esgotam as forças a tentarem tapar o rombo por onde a água vai afundando mais e mais o navio.
É a ilusão dos que se dizem sociais-democratas e ainda sonham com as irrepetíveis experiências do modelo nórdico entre o pós-guerra e os anos setenta. Ignorando ostensivamente um facto de que nem sequer pretendem ouvir falar: a presença do Estado na economia era então significativa, senão mesmo maioritária, impedindo o patronato de se assumir na força exagerada com que hoje desequilibram o prato da balança de quase todas as decisões políticas, económicas e judiciais a seu favor.
Serão as duas socialistas ingénuas ou acreditam piamente em como volte a ser possível, politicamente, impor limites á apropriação e privatização de bens públicos ou à exploração de patentes, como defende Reich?
Vejam-se as dificuldades do governo socialista em limitar os subsídios às escolas privadas para logo se armar uma guerra de enorme dimensão, que não foi nada fácil vencer. Ainda que os argumentos em defesa de tal política fossem de límpida clareza e irrefutável racionalidade.
Como poderiam os governos contrariar a obscena concentração de capital em monopólios transnacionais, que usam e abusam do seu poder para derrubar governos, promover quem sirva de marionetes dos seus interesses e ocupam todo o espaço mediático com mensagens explicitas ou subliminares tendentes a acentuar os preconceitos e as «certezas», que melhor sirvam os seus interesses?
E, continuando a seguir a cartilha de Reich para reformar o irreformável, como convencer os patrões a acederem aos instrumentos da contratação coletiva e ao fortalecimento dos sindicatos? Se até o atual governo, mesmo com as pressões dos seus parceiros na maioria parlamentar, recusou a possibilidade de pôr termo à indecente caducidade dos contratos, pondo os representantes dos trabalhadores em delicada posição negocial por não poderem partir de uma base de reconhecimento dos direitos adquiridos.
E, finalmente, só mentes ainda mais dadas às utopias do que eu mesmo é que podem acreditar que os patrões, grandes ou pequenos, aceitariam de bom grado políticas distributivas e fiscais, que lhes minguassem os lucros.
Pese embora toda a inaptidão de Nicolas Maduro ou de Dilma Rousseff para concretizarem os programas que tinham em mente, os golpes já concretizados, ou por concretizar no quintal das traseiras dos EUA (e com a CIA por certo bastante ativa!), mostram bem como o patronato é capaz de todos boicotes, sabotagens e subornos para pôr fim a regimes, que procurem recuperar um mínimo de justiça social.
Não! O capitalismo não pode nem deve ser salvo. Ele evolui para o seu definitivo estertor em que não terá mais mercados para conquistar, nem consumidores que lhe possam garantir o crescimento, que constitui a sua identidade. Ele é um touro, que entrou na arena no auge da sua força, mas a que as farpas vão esgotando até desfalecer, exangue, na arena.
Que não será bonito de se ver estamos a comprová-lo: Donald Trump , Erdogan ou Orban mais não são do que desesperadas tentativas de fazer recuar o tempo para as soluções engendradas nos anos 20 e 30 do século passado e que os portugueses tiveram de suportar até 1974. Mas quem cré que a salvação reside noutro modelo mais do que ultrapassado e para o qual já não se encontram as condições macroeconómicas que as tornaram possíveis durante um breve ciclo de trinta anos nos mais desenvolvidos países ocidentais, está a enganar-se a si mesmo.
Pode mudar o nome ao partido, como o fizeram os italianos ou pretendiam Manuel Valls ou François Hollande, mas já não estão intimamente associados ao que impõe o socialismo. Que, como Marx previu, só poderá advir como evolução natural do definitivo esgotamento da receita capitalista.

6 comentários:

  1. O Socialismo foi um desastre económico, ambiental e ao nível dos direitos individuais onde quer que foi experimentado e não vale a pena recorrer ao 'capitalist encirclement' para justificar tudo. O Capitalismo até pode passar sem a Democracia, agora o contrário não parece ser verdadeiro. Eu prefiro as 'ilusões' de Reich ao 'realismo' do incompetente Maduro e claro, o meu caro parece só agora descobrir que o PS é afinal, um Partido Social-Democrata...

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    1. Caro Jaime:mais de trinta anos de filiação no PS já me comprovaram coexistirem nele várias tendências. E as que são efetivamente socialistas até me parecem hoje maioritárias. Basta-me ouvir os militantes de base e o que querem para o futuro do país e do Partido. Vade retro qualquer tentação de retrocesso a modelos defuntos!

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  2. Se isso é assim, então o que as bases pensam não se reflete de todo no programa de Governo (vá lê-lo, sobretudo as medidas propostas por Centeno antes da Geringonça). E ainda bem, senão em vez do competente Costa tínhamos um Corbyn à portuguesa e poderíamos bem ter que esperar 30 anos até que Passos caísse da cadeira... As pessoas que se dizem Socialistas não percebem uma coisa muito simples. Os Partidos representam coligações de votantes. Vá perguntar à maioria esmagadora daqueles que votam no PS se querem a ditadura do proletariado, nacionalizações de tudo e mais alguma coisa, o fim do Euro e da UE e etc, etc, etc. Não queremos e prezamos a Democracia Representativa (o que quer dizer que a Direita tem direito de cidade, como Mário Soares lembrou e bem a Cunhal em 1975 no famoso debate) e se o PS se lembra de eleger um qualquer émulo de Maduro como SG, levamos os votos para outro lado, quem sabe para um Partido com o título sugestivo de 'Em Marcha'. E o PS pasoka, pois... E aí vai ver para que lhe serve o Marxismo...

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    1. caro Jaime: sou levado a acreditar que não conhece, de facto, o eleitorado. As últimas campanhas que fiz, com muitas ações de rua, puseram-me a falar com imensas pessoas, que pretendiam, de facto, a solução política assente na convergência das esquerdas.Sem tergiversações com falácias sociais-democratas. É que,embora muitos se esforcem por criar má fama ao Socialismo, é ele que continua a habitar o imaginário de muitos portugueses quanto à promessa de melhoria na qualidade de vida. Quanto ao que afirma sobre o passado deixe-me dar-lhe uma sugestão: prender-se menos ao passado, onde já nada se poderá mudar, e focalizar-se no futuro a médio prazo, onde nunca me deu qualquer informação como pensa nele ser possível o modelo que deseja e já arrumado nos factos históricos como obsoleto. Dê-me com alguma consistência argumentativa como poderá fazê-lo renascer das cinzas?

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    2. Até eu gosto da Geringonça e isso não faz de mim Socialista. Diga-me onde é que a prática política do PS atual se afasta por um milímetro de um bom Governo social-democrata, bastante moderado? Leia o programa de Governo do PS e os seus princípios orientadores. E eu devolvo-lhe exatamente a pergunta: como pensa ser possível reatar um modelo que não está apenas obsoleto mas foi também imensamente cruel e assassino. Não lhe chegam a contabilidade infindável dos mortos, a repressão política, a depressão económica e a destruição ambiental para perceber que o Marxismo é um logro? Ou a definição de irracional de Locke, repetir algo vezes sem conta esperando resultados distintos é algo que lhe é desconhecido? Quanto a certezas, estou como Camus, que arrasou o Socialismo Real no seu 'O Homem Revoltado' já nos idos de 40: se existisse um Partido daqueles que não têm certezas, eu quereria ser desse Partido...

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  3. Existe uma diferença insuperável entre nós:o Jaime considera que uma tese científica tem de ser abandonada porque submetida aos teses da realidade elas falham sucessivamente. Eu acredito que,tão só ela faça sentido, tem de ser por tais ensaios,que se conseguirá a aproximação adequada para a sua aproximação à prática. É que por exemplo o catolicismo é responsável por milhões de vítimas (vide o suporte das igrejas católicas aos regimes fascistas europeus e latino-americanos do século XX) e não vejo em si a mesma obsessão em diabolizar os bispos e os cardeais cumplices de tais crápulas.

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