quinta-feira, 25 de maio de 2017

As coincidências que o não são

1. Há muito que é um clássico dos regimes em crise: quando manifestantes vêm para a rua exigir a sua demissão depressa pequenos grupos de infiltrados fazem tudo descambar em atos de vandalismo e violência, que sirvam para legitimar o recurso a repressão mais musculada. O recurso ao Exército para conter a indignação dos que protestam legitimamente contra um poder corrupto constitui o salto qualitativo, que pode degenerar em algo de bastante preocupante.
Conseguirá Temer evitar o contragolpe, que centenas de milhares de brasileiros protagonizam nas ruas das maiores cidades? Conseguirá a Globo cavalgar nestes acontecimentos, mais recentes por ela própria despoletados, para impor quem interessa ao clã Marinho, antes que a dinâmica dos protestos devolva o poder a Lula ou a quem ele apoiar?
A situação brasileira está a incendiar-se com tal rapidez, que se aproxima de um de dois desideratos: ou os Balsonaros, apoiados no Exército, impõem uma ditadura fascista, ou o povão perde o medo e impõe uma transformação radical da relação de forças entre a elite endinheirada e a maioria dos que estão condenados à miséria das favelas. Cresce a consciência da necessidade em desarticular a promiscuidade entre os políticos e os interesses privados, que têm justificado as mais descaradas formas de corrupção.
2. Outro clássico costuma acontecer quando a esquerda está a evoluir nas sondagens, ameaçando as previsões apressadas de quem já escolhera que tipo de governo aconteceria após as eleições. Por «acaso» acontece um atentado terrorista capaz de travar uma dinâmica difícil de suster e devolver eleitores atemorizados a quem lhes prometa mais segurança e políticas xenófobas.
Durante meses a fio os opinadores do costume previram a hecatombe para o Partido Trabalhista inglês nas eleições de 8 de junho. Congratulavam-se sobretudo com a «punição», que os eleitores dariam a quem se atrevia a apostar em propostas verdadeiramente de esquerda.
De repente esses opinadores calaram-se, começaram a sentir-se inquietos com as notícias vindas do outro lado do Canal da Mancha: afinal o velho socialista de barbas até estava a aproximar-se aceleradamente da queridinha dos mercados e a ameaçar-lhe a vitória antecipada.
Já víramos este filme em França, quando, em vésperas da primeira volta e com Mélanchon a aproximar-se da possibilidade de disputar a final com Macron ou Le Pen, surgiu oportunamente o atentado dos Campos Elísios.
Apenas coincidências infelizes ou a possibilidade de reimpor os discursos em torno das questões da segurança, secundarizando os do emprego ou os da correção das desigualdades sociais?
Não somos ingénuos para acreditar que, nesta coisas, existam acasos tão tendenciosamente orientados!

1 comentário:

  1. Onde estão as provas, Jorge Rocha? As coisas correm mal à Esquerda e arranja-se logo uma teoria da conspiração para justificar os maus resultados e a azelhice (e já agora, a distância entre Tories e Labour antes do atentado era de 9%, o que num sistema eleitoral como o Britânico chegaria e sobraria para mandar Corbyn para as trevas exteriores e a votação na primeira volta das eleições francesas foi exatamente aquela prevista nas sondagens publicadas antes do atentado). E depois, parece-me altamente insultuoso sugerir que alguém, por puro cálculo eleitoral, iria agora preparar um atentado contra crianças (a não ser talvez o Daesh, que se pudesse votaria à Direita). May comportou-se aliás com toda a dignidade que se esperaria do cargo, não como 'queridinha dos mercados'. Habitue-se a saber perder, porque é isso que distingue os democratas dos que não o são e habitue-se a respeitar a inteligência dos seus adversários, em vez de os tratar como vendidos ou tolos...

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