quarta-feira, 19 de abril de 2017

Regressando aos temas dos vilões e da primeira-ministra troca-tintas

O debate de ideias com o Jaime Santos, leitor assíduo do que aqui se opina, continua a ser estimulante pelo que de divergente pode subsistir entre pensamentos relativamente próximos nos objetivos, mas divergentes na forma de os alcançar. Os dois últimos posts mereceram respostas do nosso interlocutor, que realçam essas diferenças.
1. Comecemos pelo que tinha Vítor Gaspar como ilustração de um grupo de personagens apostados em nos fazer a vida negra com teorizações em torno das virtudes dum controlo férreo dos orçamentos por parte de instituições supranacionais, que evitariam as tentações despesistas dos povos exprimidas através de eleições. Escreve Jaime Santos a tal respeito:
“Os vilões da Marvel são caricaturas, estes, meu caro, mau grado a postura de quase boneco de Vítor Gaspar, são de carne e osso. A sua força resulta não de uma maldade intrínseca ou da posse de armas temíveis, mas das ideias, algumas das quais, note-se, contaminaram mesmo o pensamento social-democrata. Mas valia a pena prestar atenção a Reinhart e Rogoff, por exemplo. Afinal, quais as soluções apresentadas pela Esquerda para sairmos da crise? Crescimento da dívida. Se assim for, não nos queixemos depois de 'perda de soberania'. É que, como dizia a Doutora Ferreira Leite, quem paga manda. O primeiro propósito da Esquerda seria propor modelos que, em vez de prometerem tudo a todos, tornassem as economias mais resilientes e menos dependentes do 'tenebroso' capital estrangeiro. Divirto-me sempre com a hipocrisia de PCP e BE, cuja eterna solução para livrar Portugal dos ditames de Bruxelas passa por um keynesianismo 'reloaded', onde acabamos sempre de mão estendida. E aí, convenhamos, Thatcher tinha razão. O Socialismo acaba quando acaba o dinheiro dos outros…”
Reconhecendo que muitas das ideias austeritárias contaminaram algumas hostes sociais-democratas em que costuma inserir-se, Jaime Santos não propõe nenhuma outra alternativa, limitando-se a questionar as soluções do Bloco ou do PCP quanto ao aumento da despesa, sem terem em conta a inevitável condenação a virem-se, mais cedo ou mais tarde, novamente garroteados pelos credores.
Pessoalmente defendo uma solução, que provavelmente, o Jaime Santos compartilha: consoante as circunstâncias, assim se justificam as políticas. No momento atual, com o país condicionado pela relação de forças ainda favorável ao verdadeiro dono do Eurogrupo (Schauble) e com as mais influentes agências de rating  a classificarem a dívida portuguesa como lixo, Mário Centeno tem conseguido resultados notáveis, muito acima do que seriam expectáveis pela maioria dos que analisam a realidade político-financeira do país.
O que não significa que o governo abdique de criar as condições necessárias e suficientes para que a relação de forças no Eurogrupo se altere drasticamente, mormente com a saída de cena de Dijsselbloem  e de Schäuble. Daí que, procurando enfraquecer o campo inimigo, António Costa tenha feito tanta força para que o holandês venha a ser demitido e proposto um adiamento de qualquer decisão sobre a dívida sem antes ocorrerem as eleições alemãs, onde Martin Schultz possa encabeçar uma maioria no Bundestag semelhante à verificada em Portugal.
Nessa altura podem tornar-se exequíveis dois acontecimentos essenciais para o cumprimento da Agenda para a Década: a renegociação da dívida, que alivie os encargos com juros e permitam alavancar os investimentos públicos e a aposta nestes com estudos rigorosos baseados na garantia de cada um deles significar o devido retorno financeiro num prazo acomodável com os constrangimentos então identificados.
Esta parece ser a estratégia de António Costa e de Mário Centeno, muito diferente dos vilões da Marvel, perfeitamente conciliável com a análise, que reivindico, porque Marx era bem explícito na necessidade de se analisar, momento a momento, o estado das contradições dialéticas entre as forças sociais, defendendo as táticas potencialmente mais ajustadas para novos equilíbrios políticos, sociais e económicos mais próximos do objetivo fundamental enunciado no seu famoso Manifesto.
2. No segundo texto, Jaime Santos manifesta uma leitura da realidade inglesa conforme com a maioria dos comentadores dos nosso espaço mediático, encomendando desde já o funeral político a Jeremy Corbyn:
“Pois, mas May aproveita um momento em que os trabalhistas estão com as calças na mão (Corbyn vai ter que correr muito para apresentar um estratégia consistente, porque até agora, zero), reforça a mão em Bruxelas (até porque não fica dependente da ala mais radical do seu partido, se reforçar a maioria) e não tem que prestar contas até 2022 (como teria em 2020) pelas mais que prováveis dificuldades que surgirão durante as negociações. Quais sabotadores, qual quê (título da capa do Daily Mail), ela conseguiu do Parlamento tudo o que queria! E o meu caro continua a apostar em Corbyn, cujo mal não é tanto ser socialista, é ser completamente incompetente. O Labour vai levar uma abada pior do que no tempo de Michael Foot. Espere e verá... O seu problema é que pensa que a Ideologia basta para convencer um eleitorado. Pois, olhe, desengane-se…”
Nesta matéria estamos, efetivamente, em pólos opostos. Sim, eu acredito que os eleitores têm de ser convencidos com ideias concretas, que correspondam às suas preocupações e lhes deem respostas convincentes. Algo que se aponta como falha de Corbyn, mas também constatável em Theresa May cuja estratégia para levar o Brexit por diante continua por se entender. Sobretudo, porque ter-lhe-ão saído algo frustradas as expetativas de receber de Trump a garantia de lhe aceitar a subserviência neocolonial a troco de um apoio, que vá para além da sua volúvel retórica.
Quero acreditar que é verdadeira a efetiva preparação reclamada pelos trabalhistas para este combate eleitoral, mais do que anunciado apesar da promessa de May em a ele não recorrer antecipadamente. Ora, daqui até às eleições faltam oito semanas que tudo podem alterar. Veja-se como esse tempo foi mais do que o suficiente para que, em França, as certezas relativamente a Le Pen, ou mesmo a Macron, evoluíssem para o cenário de incerteza do próximo domingo.
E há um fator adicional, que não aprofundei no post, mas terá relevância significativa: graças à sua oposição determinada ao Brexit, os liberais-democratas irão desalojar uns quantos conservadores de alguns bastiões nas grandes cidades, aumentando significativamente a representação em Westminster.
Ora, tendo em conta a forma como foram penalizados em 2015 pela sua associação aos conservadores em 2010, é provável que fujam de nova coligação como gato de água fria. Daí a possibilidade de uma receita semelhante à portuguesa com o beneplácito dos nacionalistas escoceses e dos irlandeses católicos, que lance os conservadores para a oposição. Mesmo que à custa da organização de um novo referendo sobre o Brexit.
Será sonhar alto? Porventura, sim! Mas, como diria o outro, I’m not the only one...


1 comentário:

  1. Sobre o meu primeiro comentário, eu compartilho exatamente da sua opinião. As condições objetivas (onde se incluem as relações de força, sendo que Portugal está por ora do lado fraco da corda) devem determinar as políticas aplicadas. Portugal poderia crescer mais se dispusesse da possibilidade de praticar uma política mais expansionista, onde pelo menos a redução do défice fosse mais ligeira de ano para ano. Mais do que isso, isso permitiria não apenas devolver rendimentos mas aumentá-los àqueles Portugueses que certamente não viveram acima das suas possibilidades e dispor de uma verdadeira política de investimento público. Só que infelizmente o País está, não há como dizê-lo de outra maneira, efetivamente refém das agências de rating e só pode deixar de o estar quando reduzir a dívida. Ora, se eu defendo uma renegociação dessa dívida, não me parece que ela se possa fazer sem condições (leia-se austeridade). Daí que a melhor maneira de a conseguir é justamente dispor de fortes argumentos de que os credores têm boas razões para confiar na República. PCP-PEV e BE não são capazes de fazer uma coisa simples que é admitir que as suas alternativas também têm custos e implicam riscos. Quanto a Corbyn e May, a segunda diz que não quer mostrar a sua estratégia para o Brexit para não comprometer a posição britânica nas negociações, mas eu pessoalmente não acredito que disponha de facto de uma estratégia. Mas que tem conseguido marcar a agenda e Corbyn mais não tem feito do que ir atrás dela, é uma verdade. E só agora Corbyn foi capaz de produzir um pequeno conjunto de propostas políticas dignas do maior Partido da Oposição. Para todos os efeitos, o manifesto do Labour ainda é o de 2015. Corbyn é um ativista e não um líder político. Falta-lhe 'killer instinct' e experiência ministerial, que May dispõe a rodos (de facto, as suas posições enquanto secretária do Interior são de estarrecer). E depois, os tabloides irão fazer a Corbyn o que antes fizeram com Kinnock e Miliband... Prepare-se...

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