terça-feira, 4 de abril de 2017

Populismo (ainda) tem poucas hipóteses em Portugal

Paulo Pena foi entrevistar Susana Salgado, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e co-coordenadora deo estudo «Populist Political Communication in Europe». O resultado veio ontem inserido na edição em papel do «Público».
Para a entrevistada o populismo sempre existiu na Europa desde o século XIX, quer na forma de movimentos, quer de partidos políticos. O que explica o sucesso recente é a maior facilidade de difusão das suas mensagens simples através das redes sociais, muito embora os meios de comunicação social tradicionais não sejam isentos de crítica. Não podemos esquecer que Donald Trump começou a posicionar-se para a Casa Branca através do seu reality show na NBC. Ou que Marcelo Rebelo de Sousa chegou a Belém graças às suas colaborações semanais na TVI, primeiro, e na SIC depois.
A facilidade com que as forças populistas europeias viram crescer o apoio eleitoral nos últimos anos deve-se a quatro fatores principais: à crise do euro, à crise dos refugiados, aos escândalos de corrupção e às ligações excessivas entre o poder político e os interesses financeiros.
De repente passámos a ter uns manipuladores a dirigirem-se a quem mais tem sido esquecido pela crise geral do capitalismo decorrente da falência do Lehman Brothers e dos efeitos de deslocalização de muitos empregos para outras latitudes. O discurso tem sido sempre o mesmo: existimos “nós”, os que temos legitimidade em cá estar e sobram os “outros”, os que para cá querem vir para colherem os apoios sociais, demasiado escassos para quem deles está a precisar.
É um discurso emotivo, que apela à pertença legítima a um “espaço nacional”, e rejeita quem nele não nasceu. Indo mais além na exclusão, tendem-se a diabolizar os que, mesmo aqui tendo nascido, não têm os mesmos valores (entenda-se como os inerentes a uma definição estrita do catolicismo), nem a alva cor.
Esses populistas revelam-se muito hábeis a perscrutar o que esse universo eleitoral pretende ouvir, não enjeitando o recurso às mais descaradas mentiras para lhes cativar o apoio.
Não admira que os mineiros do carvão da Pensilvânia rejeitem ver quão injustificada será a reabertura das galerias do subsolo, tornadas obsoletas não só ambientalmente, mas sobretudo por razões económicas. Se há quem lhes diga que elas voltarão a proporcionar-lhes o perdido emprego, não se furtam a servir de figurantes a uma grotesca cerimónia na Casa Branca.
O mesmo com os agricultores franceses - em grande parte apoiantes de Marine Le Pen - que gostariam de receber os lautos subsídios de Bruxelas, mas que os viram cortados, porque já não conseguem ser competitivos com os produtos vindos de outras paragens. Querem acreditar que, fechando-se as fronteiras, conseguiriam superar a presente miséria obrigando os compatriotas a pagar o leite, a carne, os frutos ou os produtos hortícolas pelo valor com que pudessem regressar aos lucros.
Felizmente que, entre nós os populistas esforçam-se por ser ouvidos, mas não conseguem grande sucesso.  No entanto só nas últimas presidenciais poderíamos englobar nessas características Paulo Morais, Tino de Rans ou Henrique Neto. Sem esquecer uns quantos anónimos, que ainda menos votos tiveram do que estes três. Mas, segundo  Susana Salgado os partidos representados na Assembleia da República têm conseguido manter-se em comunicação com os eleitores para que eles não se sintam tentados a experimentar rumos mais duvidosos. Esperemos que assim continue a acontecer... 

1 comentário:

  1. Os Portugueses sabem que têm beneficiado do projeto de integração europeia, mau grado a troika. Nos Países do Norte, que são contribuintes líquidos para a união e que receberam o grosso da imigração do Leste da Europa logo a partir de 2005 e depois do Sul, com a crise (e também absorveram mais refugiados), este discurso encontra mais ressonância pelas razões óbvias. Depois existe, como dizia o Pedro Adão e Silva, um certo cinismo da parte da população, habituada que está a ser mal governada, perante as sucessivas crises (intervenção da troika, austeridade, casos de corrupção, sistema bancário). A probidade e a competência da presente solução governativa, que já não víamos desde o primeiro Governo de Guterres, também explicam porque as popularidades do Governo, AR e da democracia em geral estão a subir. Gostei de ver Costa e Centeno a darem a cara pela venda do NB, apesar da solução não ser do meu agrado (preferiria uma nacionalização com eventual venda posterior quando o Banco estivesse bem consolidado, como defendia Vítor Bento). Como já lhe disse, é essa capacidade de governar bem e proporcionar às pessoas estabilidade para se dedicarem à construção das suas vidas que é o ponto forte de Costa e da sua equipa, e não um qualquer radicalismo ideológico a la Hamon ou a la Corbyn (que falaram muito da solução portuguesa sem a terem compreendido). Agora, não sou tão otimista como o meu caro em relação ao populismo. Se o PSD (cujo nome original é PPD), que é o 'mais Português de todos os Partidos' (leia-se o Partido por excelência dos videirinhos nacionais), achar que consegue ganhar votos cavalgando na agenda populista, vai ver se não o faz. PPC é provavelmente um cadáver político adiado e já não irá a tempo, mas o próximo líder se for esperto (Luís Filipe Menezes era a coisa mais próxima que o PSD teve de um líder populista, mas não prima pela inteligência política) irá certamente aproveitar a onda (claro que se arriscará sempre a levar com os barões em cima, avessos à dita retórica)...

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