sexta-feira, 21 de abril de 2017

O capitalismo a morder a própria cauda

Desde que publicou «O Capital no século XXI», Thomas Piketty passou a ser considerado um dos mais brilhantes e influentes teóricos de economia da atualidade. A sua tese fundamental pode resumir-se assim: as desigualdades entre os ricos e os pobres continuam a agravar-se e comprometem o futuro do capitalismo ao ponto de conduzir à destruição das nossas sociedades.
Will Hutton, jornalista do «The Observer», constatou que, em todas as sessões da conferência do Institut Of New Economic Thinking em Toronto, a obra de Pikety foi mencionada para justificar os fundamentos dos intervenientes. Ele afiança já não deparar com tão unânime atenção desde que o guru do neoliberalismo da Escola de Chicago, Milton Friedman, conseguiu tornar-se numa vedeta mediática nos anos setenta.
Na época as maiores preocupações advinham da inflação galopante, enquanto atualmente estão na ordem do dia a relevância dos plutocratas e o seu impacto na economia e na sociedade.
Piketty defende a tese segundo a qual os níveis atuais de desigualdade põem em causa o futuro do capitalismo. Só de a ouvir os defensores da interdependência entre ambos ficam de cabelos em pé, porque acham que o capitalismo precisaria das desigualdades para estimular os riscos e o espírito de iniciativa.
Foi motivado por tal preconceito ideológico, que David Cameron e George Osborne, seu ministro da Economia, reduziram os encargos sobre os direitos de sucessão e a carga fiscal sobre os dividendos das empresas.
Estudando dois séculos de dados estatísticos, Piketty condena essas políticas, porque o capital é cego por natureza. Quando o seu rendimento ultrapassa o crescimento real dos salários, o stock de capitais acumula-se bem mais do que o conjunto da produção. Aumentando significativamente as desigualdades entre os que tudo têm e os que ficam com as sobras. No fundo uma situação muito próxima da já descrita por Karl Marx no século XIX e que justificaria a pertinência do seu previsto desiderato.
Tal processo exacerba-se com as heranças familiares e com o aumento dos “superpatrões” tipo António Mexia, pagos principescamente.
Atualmente as desigualdades de rendimentos na Europa e nos EUA já atingiram os níveis anteriores aos da Primeira Grande Guerra, quando a sorte de aceder a uma herança constituía fator determinante de sucesso económico e social.
Na época foi necessária uma guerra e uma Grande Depressão para travar a dinâmica das desigualdades e implementar impostos mais elevados sobre os maiores rendimentos, de forma a garantir a paz social. Hoje voltou a ocorrer um processo de multiplicação acelerada de capital cego em favor de alguns privilegiados, desta feita a uma escala global.
À exceção de um punhado de start ups de Silicon Valley não há quem possa competir com capitais acumulados em grandes fortunas há muito consolidadas. Os dois maiores detentores de riqueza em Inglaterra são o duque de Westminster e o conde de Cadogan, um e outro donos há séculos de Mayfair e de Chelsea, hipervalorizados pela especulação imobiliária, e beneficiando de possibilidades de evasão fiscal, que lhes permitem avantajar continuamente o património.
Se ainda estivéssemos em condições políticas de aplicar o modelo social-democrata do pós-guerra o imposto sobre o património tenderia a devolver algum equilíbrio ao desajustamento progressivo de rendimentos, mas basta lembrarmo-nos da histeria por que passou o país quando se tratou de aumentar a taxação de IMI sobre a totalidade do património dos mais ricos para concluir que é a própria classe média - que nada teria a perder com tal política - a engolir acriticamente os argumentos falaciosos das direitas, coartando a vontade do governo em aplicar uma medida mais do que justa.
Hoje em dia é-se bem mais tentado a ser senhorio do que arriscar investimentos. Os ricos não precisam de apoiar inovações audaciosas, nem seque mesmo investir em produção de mercadorias transacionáveis.
Contra o capitalismo ainda convergem outras contrariedades: porque os ricos estão especializados em esconderem as fortunas nos paraísos fiscais, são os demais contribuintes a arcarem com maior carga fiscal. Daí toda a campanha das direitas contra o Estado Social (educação, saúde, habitação), porque as classes médias estão já demasiado asfixiadas a pagá-lo. Resultado: a degradação dos serviços públicos e das condições de trabalho.
A História ensina-nos que as sociedades reagem a estes desequilíbrios através de revoluções e guerras. Para as evitar seria necessário aumentar significativamente a carga fiscal sobre os mais ricos, mormente através de uma taxa mundial sobre as riquezas rastreadas a nível global. Por agora consideradas utópicas, essa políticas de efetiva redução das desigualdades podem constituir a última estação antes da chegada a males bem maiores...


1 comentário:

  1. Um excelente resumo dos nossos males presentes (não posso discordar em tudo), chegando ao fim assinalando aquela que é porventura a única arma que resta aos Governos para pôr cobro a esta situação, ou seja, uma política fiscal mais justa. Claro, em Portugal, o Governo consegue arrecadar mais dinheiro recorrendo ao IVA do que ao IRS, sendo o primeiro bem mais regressivo que o segundo. Também falta implementar verdadeiramente um imposto sobre transações financeiras à escala europeia e cabe lembrar que o RU foi sempre o maior opositor de tal medida... Por isso, haverá seguramente vantagens do Brexit...

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