terça-feira, 25 de abril de 2017

A homenagem a um homem pequeno que não era conhecido como grande bailarino

Não sendo exatamente a mesma coisa, a atribuição de medalha a Sá Carneiro em dia de comemoração da Revolução faz tanto sentido - ou falta dele! - como a de distinção similar ao foragido fiscal do Pingo Doce. Marcelo continua igual a si mesmo: aparentemente inócuo relativamente às esquerdas só engana os ingénuos quanto às suas verdadeiras intenções: a paciente espera das circunstâncias para as devolver à oposição de um poder mais do seu agrado. O mesmo tipo de  aguardamento, que só o levou a candidatar-se a Belém, quando, por falta de comparência de Guterres, sabia invencível o seu passo à frente.
A diferença entre Marcelo e Passos Coelho é a deste último não conseguir disfarçar o nervosismo por não ver o Diabo tão perto quanto desejaria, enquanto o primeiro continua a usufruir as mordomias da função, a cultivar a falsa bonomia de ser uma espécie de mãe protetora, enquanto, pela calada, vai escondendo o rancor de se saber irrelevante para os interesses de que é marioneta.
O que teve Sá Carneiro a ver com a Revolução de Abril? Os mais ingénuos dirão ter sido importante a participação na bancada dos deputados da «ala liberal» do regime fascista, que procuraram dar-lhe o arejamento prometido por Caetano e afinal depressa esgotado na ilusão da «Primavera Marcelista».
Se recordarmos esses tempos houve deputados bastante mais intervenientes e corajosos, como Pinto Leite ou Miller Guerra, pois Sá Carneiro já então habituara os pares a refugiar-se no estrangeiro, quando sentia a situação mais aquecida. Algo que repetiria depois, quando a contestação interna dentro do PPD não lhe corria de feição e tinha Snu Abecassis para lhe afagar as mágoas.
Não podemos esquecer que, no pos-25 de abril, e até à sua morte, Sá Carneiro foi um político contrariado com tudo quanto a Revolução significara: nacionalizações, reforma agrária, legislação laboral progressista, etc.
No rescaldo do 25 de novembro não terá sido um dos que se chegasse à frente para impedir a proibição do Partido Comunista pretendida pelos seus apoiantes mais broncos. Nessa altura, não tivesse sido o papel destacado de Melo Antunes e uma boa parte dos portugueses ficaria sem representação parlamentar, condenados à clandestinidade.
Depois, quando conseguiu apossar-se do poder com a maioria absoluta da Aliança Democrática, o projeto passou por querer infletir quase tudo quanto a Revolução significara. Compreende-se, pois, que gerasse reações emotivas muito fortes em quem nele via um tiranete porventura mais sofisticado do que o padrinho do atual presidente.

Sem hipocrisia, recordo a alegria com que recebi a notícia da sua morte, quando andava embarcado no petroleiro «Neiva». Logo a entendi merecedora de ser devidamente comemorada. O acidente de Camarate - quem ainda acredita na falácia de atentado? - foi daqueles acasos, que refreou, por uns anos, o intento das direitas em «normalizar» a realidade portuguesa. Em pleno Índico, e apesar do luto sentido do Comandante (por sinal boa pessoa esse Mesquita, que um ataque cardíaco abreviaria a vida poucos anos depois!), colaborei na organização de ruidosa festa a celebrar o interregno da iminente contrarrevolução.
Condecorar Sá Carneiro a 25 de abril constitui, pois, um insulto ao que a data representa para a maioria dos portugueses. Porque o homenageado ganhou com o facto de a História se lhe abreviar nesse 4 de dezembro de 1980. Acaso tivesse sobrevivido, e mesmo falhando a vitória de Soares Carneiro na eleição presidencial, teria agudizado de tal forma o clima social nos anos seguintes, que  faria sobressair a evidente inadaptabilidade às práticas democráticas. Por muito que haja quem afiance na possibilidade de Snu em lhe moderar os ímpetos.
É verdade que o programa gizado pelo bétinho da Foz do Porto viria a ser manhosamente cumprido pelo filho do gasolineiro de Boliqueime, mas, na época deste, a CEE ainda impunha aparências de respeito pelas liberdades fundamentais, que não se traduziriam no seu imediato cerceamento.
Que importava, então? Os jornais e as televisões já se caracterizavam pela subserviência à vontade de quem mandava e a redução progressiva dos direitos de quem trabalhava ia-se fazendo de mansinho sem danos de maior para quem ia mudando pouco na expetativa de ir conseguindo alcançar muito mais. Ao mesmo tempo acentuavam-se as desigualdades entre o primeiro percentil de rendimentos e os outros três, progressivamente apequenados na distribuição da riqueza nacional.
Neste 25 de abril, e apesar de distante do nosso retângulo, parece-me que a notícia maior foi a absurda consagração de um homem pequeno que, tanto quanto se sabe, nunca foi grande bailarino! E a reiterada confirmação da verdadeira natureza de quem mora no Palácio de Belém.

5 comentários:

  1. Olhe Jorge Rocha, está no seu direito não gostar da figura política de Sá Carneiro, agora não lhe ensinaram que não se fala mal dos mortos? Eu conheço bem o aforismo que cita, sobre os homens pequeninos, e não é só um aforismo, é um insulto.

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    1. Caro Jaime: discordo totalmente de si nesta matéria e se há coisa que me desagrada bastante é a hipocrisia. As lições colhidas, aceitei-as ou rejeitei-as consoante o que a vida (já longa!) me ensinou! E sobre um crápula, não é por ter morrido que lhe vou poupar nas palavras. Se fosse assim estaria impedido de, por exemplo, criticar o Salazar ou o Vasco Graça Moura, por exemplo, dois dos meus ódios de estimação. E não peça aos sessenta anos para andar com paninhos quentes. Quem deles gosta, tudo bem. Quem deles desgosta, temos pena...

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    2. É isso mesmo Jorge Rocha! E mais não digo, porque, como sabe, a maioria das pessoas está completamente manipulada, sem se dar conta, claro, disso!
      Obrigado pelos seus posts (todos!!!).
      Manuel Torres

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  2. Boa resposta, jr, porque diabo um mau depois de morto deverá ser considerado bom?! É por ter morrido que um FDP se transfigura em bom?! O Joaquim Ferreira dos Santos, mais conhecido por Conde Ferreira, foi um benemérito?! Não, foi um FDP de um negreiro, ele capturava seres humanos para vender como gado. As coisas que ele deu à sociedade foi apenas a reposição de uma pequena parte do que rapinou à Humanidade.

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  3. Pois, mas eu gostava de perceber o que Sá Carneiro, mau grado o autoritarismo, fez de tão mau para o tratar dessa maneira. E, já agora, eu posso achar que Salazar foi um ditador com as mãos sujas de sangue, mas isso não chega para eu insultar a sua memória. Porque os insultos sabe, aos vivos e aos mortos, ficam sempre com quem os profere...

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