quarta-feira, 26 de abril de 2017

O ascensor social empanado

Teria o meu pai uns vinte cinco anos quando, acabado de casar, concluiu não garantir melhor vida à mulher e aos filhos, se não cuidasse de carregar no botão do elevador social e alcançar patamar superior.
Na época a rádio ainda era novidade só acessível aos abonados e da televisão nem quase se ouvia falar. Mas ele decidiu investir o que sobrava do modesto salário de torneiro mecânico num curso por correspondência enviado do outro lado do Atlântico e que o habilitaria a tornar-se técnico de ambos os  meios de comunicação.
Entre tal decisão e o momento da exclusiva dedicação a essa atividade ainda passou uma década em que continuou a apanhar o barco matinal no Porto Brandão para se deslocar até à oficina de Alcântara onde punha o engenho a funcionar e nele criava as peças prontas a cumprirem a missão para que engenheiros as haviam congeminado.
Quando nasci a meio da década de cinquenta já ele ia compondo o ordenado à conta das reparações de eletrodomésticos em que ia ganhando renome na aldeia e noutras em redor. Depois, na altura em que Salazar mandara avançar para Angola e em força, entrava numa das mais conhecidas empresas dedicadas às reparações das cada vez mais disseminadas televisões, ali se conservando até à reforma.
Foram anos de muitos quilómetros percorridos por todo o distrito de Setúbal a repor a operacionalidade nos televisores, que os agentes iam recolhendo nas lojas à espera da sua passagem semanal.
Foi graças à epifania - cujas circunstâncias nunca indaguei -, que de operário se converteu num daqueles exemplos de representante da classe remediada, nome por que então se designava a classe média. E conseguiu dar estudos universitários aos filhos assim fadados para se integrarem no segundo quadrante do percentil de rendimentos tal qual foram definidos no livro sobre a pobreza em Portugal agora publicado por José Teixeira Lopes, Francisco Louçã e Lígia Ferro.
A realidade, segundo os autores, é que se tornou quase impossível, a quem está nos quadrantes mais baixos, apanhar o tal ascensor social tão facilmente assumido pelo meu progenitor, mesmo que à custa de muito estudo e determinação. Os tempos mudaram e quem nasce pobre dificilmente conseguirá que os filhos saiam dessa condição. E, mesmo as classes médias, veem os rebentos condenados a essa maldição à conta dos empregos que quase nunca deixam de ser precários ou mal pagos por mais mestrados ou doutoramentos que se lhes acumulem nos preenchidos currículos.
A História deu sobejos exemplos de grandes convulsões provocadas pela cristalização das classes sociais e, sobretudo, pela concentração da riqueza nas mais privilegiadas. Ora o estudo dos três autores de “As classes Populares – A produção e a Reprodução da Desigualdade em Portugal” confirma que o primeiro quadrante  - o que corresponde ao percentil dos mais ricos - tem visto crescer os rendimentos, enquanto os outros três se vão aproximando, diluindo mais e mais as diferenças entre os pobres e os antigamente tidos por remediados. O que faz prever mudanças civilizacionais iminentes por muito que os ambientes ainda se nos apresentem bonançosos. Acaba por ser a confirmação da expressão «É a economia, estúpido», mas virada contra quem a afirmava como determinante para a execução de políticas contra os mais desfavorecidos. Marx não previa outra coisa … com o resultado consequente!

terça-feira, 25 de abril de 2017

A homenagem a um homem pequeno que não era conhecido como grande bailarino

Não sendo exatamente a mesma coisa, a atribuição de medalha a Sá Carneiro em dia de comemoração da Revolução faz tanto sentido - ou falta dele! - como a de distinção similar ao foragido fiscal do Pingo Doce. Marcelo continua igual a si mesmo: aparentemente inócuo relativamente às esquerdas só engana os ingénuos quanto às suas verdadeiras intenções: a paciente espera das circunstâncias para as devolver à oposição de um poder mais do seu agrado. O mesmo tipo de  aguardamento, que só o levou a candidatar-se a Belém, quando, por falta de comparência de Guterres, sabia invencível o seu passo à frente.
A diferença entre Marcelo e Passos Coelho é a deste último não conseguir disfarçar o nervosismo por não ver o Diabo tão perto quanto desejaria, enquanto o primeiro continua a usufruir as mordomias da função, a cultivar a falsa bonomia de ser uma espécie de mãe protetora, enquanto, pela calada, vai escondendo o rancor de se saber irrelevante para os interesses de que é marioneta.
O que teve Sá Carneiro a ver com a Revolução de Abril? Os mais ingénuos dirão ter sido importante a participação na bancada dos deputados da «ala liberal» do regime fascista, que procuraram dar-lhe o arejamento prometido por Caetano e afinal depressa esgotado na ilusão da «Primavera Marcelista».
Se recordarmos esses tempos houve deputados bastante mais intervenientes e corajosos, como Pinto Leite ou Miller Guerra, pois Sá Carneiro já então habituara os pares a refugiar-se no estrangeiro, quando sentia a situação mais aquecida. Algo que repetiria depois, quando a contestação interna dentro do PPD não lhe corria de feição e tinha Snu Abecassis para lhe afagar as mágoas.
Não podemos esquecer que, no pos-25 de abril, e até à sua morte, Sá Carneiro foi um político contrariado com tudo quanto a Revolução significara: nacionalizações, reforma agrária, legislação laboral progressista, etc.
No rescaldo do 25 de novembro não terá sido um dos que se chegasse à frente para impedir a proibição do Partido Comunista pretendida pelos seus apoiantes mais broncos. Nessa altura, não tivesse sido o papel destacado de Melo Antunes e uma boa parte dos portugueses ficaria sem representação parlamentar, condenados à clandestinidade.
Depois, quando conseguiu apossar-se do poder com a maioria absoluta da Aliança Democrática, o projeto passou por querer infletir quase tudo quanto a Revolução significara. Compreende-se, pois, que gerasse reações emotivas muito fortes em quem nele via um tiranete porventura mais sofisticado do que o padrinho do atual presidente.

Sem hipocrisia, recordo a alegria com que recebi a notícia da sua morte, quando andava embarcado no petroleiro «Neiva». Logo a entendi merecedora de ser devidamente comemorada. O acidente de Camarate - quem ainda acredita na falácia de atentado? - foi daqueles acasos, que refreou, por uns anos, o intento das direitas em «normalizar» a realidade portuguesa. Em pleno Índico, e apesar do luto sentido do Comandante (por sinal boa pessoa esse Mesquita, que um ataque cardíaco abreviaria a vida poucos anos depois!), colaborei na organização de ruidosa festa a celebrar o interregno da iminente contrarrevolução.
Condecorar Sá Carneiro a 25 de abril constitui, pois, um insulto ao que a data representa para a maioria dos portugueses. Porque o homenageado ganhou com o facto de a História se lhe abreviar nesse 4 de dezembro de 1980. Acaso tivesse sobrevivido, e mesmo falhando a vitória de Soares Carneiro na eleição presidencial, teria agudizado de tal forma o clima social nos anos seguintes, que  faria sobressair a evidente inadaptabilidade às práticas democráticas. Por muito que haja quem afiance na possibilidade de Snu em lhe moderar os ímpetos.
É verdade que o programa gizado pelo bétinho da Foz do Porto viria a ser manhosamente cumprido pelo filho do gasolineiro de Boliqueime, mas, na época deste, a CEE ainda impunha aparências de respeito pelas liberdades fundamentais, que não se traduziriam no seu imediato cerceamento.
Que importava, então? Os jornais e as televisões já se caracterizavam pela subserviência à vontade de quem mandava e a redução progressiva dos direitos de quem trabalhava ia-se fazendo de mansinho sem danos de maior para quem ia mudando pouco na expetativa de ir conseguindo alcançar muito mais. Ao mesmo tempo acentuavam-se as desigualdades entre o primeiro percentil de rendimentos e os outros três, progressivamente apequenados na distribuição da riqueza nacional.
Neste 25 de abril, e apesar de distante do nosso retângulo, parece-me que a notícia maior foi a absurda consagração de um homem pequeno que, tanto quanto se sabe, nunca foi grande bailarino! E a reiterada confirmação da verdadeira natureza de quem mora no Palácio de Belém.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Algo continua podre no reino que foi do Crato (o Nuno, entenda-se!)

O período tutelado por Nuno Crato no Ministério da Educação só teve comparação com os do período fascista, quando o objetivo era formar elites e condenar a grande maioria dos petizes à subserviência de quem mandasse.
Foi com ele que se acentuou a falta de democratização nas escolas, promovida, infelizmente, por uma ministra socialista e que passou a tornar o diretor numa espécie de gauleiter, relativamente ao qual se devia ficar cego, surdo e mudo se com ele não se concordasse.
Data desse negro período o assédio moral a que foram sujeitos os professores João Filipe Vieira e Paula Gil na Escola José Afonso no Seixal, provavelmente por terem nos currículos os doutoramentos com que os invejosos se mordiam de inveja.
Condenados aos piores horários, privados de lecionarem às turmas que melhor se adequariam às suas características, não puderam suportar verem-se “avaliados” no seu trabalho por uma colega cujo curso era o de Educadora de Infância, e com eletivas afinidades com o reciclado gauleiter.
Sentindo o facto como uma forma mesquinha de os humilhar insurgiram-se e foram, por isso mesmo, sujeitos a processo disciplinar.
A chegada de um novo governo julgou-os libertos do jugo do notório cratista, que agora se tenta fazer passar por entusiasta da atual situação.
Enganaram-se! Afinal ainda muito falta mudar no ministério da 5 de outubro. A começar por secretárias de Estado, que avalizam condenações sem questionarem o que estava em causa e nem quererem ouvir os argumentos dos condenados.
Algo continua podre no reino que foi do Crato!

Um homem pouco providencial

Há uns vinte anos fui delegado ao Congresso do Partido Socialista no Coliseu dos Recreios, onde António Guterres foi consagrado secretário-geral do PS. Um dos acontecimentos mediáticos, que mais deram então nas vistas foi o surgimento de um personagem histriónico, que passaria a ter dimensão nacional sob o nome de Tino de Rans.
O propósito era óbvio: usando um linguajar popular o carteiro da pequena povoação nortenha julgava-se capacitado para se medir com os experientes dirigentes socialistas como um seu par. Provavelmente terá imaginado possível chegar à bancada parlamentar para prosseguir essa forma indigente de assumir o púlpito e ganhar galões de líder popular.
Sem capacidades nem competências, que não a sua acrítica lábia, fez-se presidente da Junta, mas nada o distinguiu no cargo. Rans não primou pela excelência da sua gestão e, até ver, o calceteiro, ou ex– não faço ideia!, nunca mais ali quis ou conseguiu ser reeleito.
Agora, falhada a possibilidade de chegar a Belém, dado ter encontrado pelo caminho um populista mais sofisticado e esperto do que ele, tenta a Câmara de Penafiel. 
Para fazer o quê não se sabe. Na vontade esdrúxula de dar satisfação ao ego o Vitorino lá saberá se, nas quase analfabetas meninges, algum propósito em benefício dos munícipes albergará.
Por mim , mesmo incorrendo no risco de parecer elitista, considero o personagem um perigo, porque livrai-nos de quantos adoram olhar tanto para o umbigo e se orgulham da ignorância evidente do seu comportar.
Não é só em França, na Holanda ou na Alemanha, que o fascismo anda à solta. Algures no concelho de Penafiel assume a forma de sinistra criatura que finge tão completamente a modéstia, que chega a fingir que é ávida ambição, a ávida ambição que deveras sente.

É prá amanhã, que tudo se há-de arranjar!

As ilhas Cook são dos cenários naturais da Terra, que mais se aproximam da ideia de paraíso celestial. Os dias correm bonançosos, com alimentação farta propiciada pela abundância de peixes junto às praias e pela prodigalidade das árvores frutícolas, que bastariam para erradicar qualquer carência em alimentos. Sobram as galinhas e os porcos, que engordam em liberdade, entre grandes e pequenos, para lhes virem a propiciar as proteínas suplementares.
Vivesse numa dessas ilhas e, mesmo sem cinemas, teatros, salas de concerto ou bibliotecas, não me passaria pela cabeça trocá-la por qualquer outro sítio onde a velocidade dos ponteiros do relógio se aceleraria e o ambiente competitivo, de que me livrei ao alcançar merecida reforma, regressaria em força.
E no entanto…
Há sempre um mas, não é?
Hoje já são muitos os cookianos, que abandonam o seu doce habitar por empregos proletários na vizinha Nova Zelândia. Não por julgarem-se aí felizes, mas pelo medo de se verem submergidos pelo oceano, elevado de nível pelo imparável aquecimento global.
Até é possível que, essa impossibilidade em se manterem onde sempre viveram, só ocorra daqui a vinte ou trinta anos, mas a antevisão de um cenário de catástrofe fá-los sair do ameaçado conforto atual para demandarem a incerta sobrevivência futura. Descrentes do cumprimento do Acordo de Paris fazem-se à vida antes que ela se lhes venha a tornar inviável.
Pensei neles ao acompanhar noite adentro os resultados das eleições francesas. Envolvendo exagerados temores a respeito de Marine Le Pen. Que pouco superou a barreira do quinto de apoiantes contabilizados, provavelmente engrossados até um terço dos que, daqui a duas semanas, repetirão a visita às secções de voto. Mas esse resultado constituirá por muitos anos o pico de uma maré viva em vias de retornar à normalidade das que não avançam tanto na praia.
Aqui na Holanda já ninguém se lembra de Wilders, que davam como possível vencedor das eleições do mês passado. Na Alemanha o partido da extrema-direita esfrangalhou-se com tal fragor, que saiu do congresso deste fim-de-semana sem haver quem o queira liderar para as eleições de Setembro. E, quer se queira, quer não, o Brexit voltará a ser referendado daqui a mês e meio, quando o oportunismo da atual locatária do 10 de Downing Street arriscará ser punido com um resultado diferente do esperado. A exemplo do que aconteceu com o antecessor, Theresa May poderá ver-se na condição de ter de encontrar outro sítio onde morar.
Existe uma dinâmica de refluxo das extremas-direitas pela perda de impacto da vinda de emigrantes sírios, afegãos e iraquianos pela península balcânica a caminho de uma Europa onde se tornaram ostensivamente rejeitados. Mesmo que, diariamente, dezenas, senão mesmo centenas de desesperados se afoguem nas águas mediterrânicas, sem qualquer impacto mediático.
Não deveria ser assim num mundo ideal, mas é forçoso reconhecer o quanto são as esquerdas a sofrerem injusta penalização por políticas humanistas para com quem só quer fugir da guerra e da fome julgando encontrar no mirífico destino, se não a felicidade (também ela só possível nas terras onde nasceram e sempre viveram!), pelo menos uma qualidade de vida acima do patamar da mais austera sobrevivência.
A dinâmica de enfraquecimento dessas extremas-direitas deveriam levar as esquerdas a interrogarem-se como por elas viram sonegado o apoio das camadas mais desfavorecidas, aquelas que não sentem respondidas as inquietações por quem as deveria conhecer e lhes dar expetativas de mudança. Porque o hoje tornou-se asfixiante, insuportável. E é estulta a posição de muitos - o exemplo é Pacheco Pereira no artigo de opinião hoje assinado no «Público» - que continuam a acenar com um perigo, que deixou de ser iminente. E provavelmente o não voltará a ser se as esquerdas souberam ressuscitar-se como prometeu Benoît Hamon na declaração, enquanto derrotado, na sua sede de candidatura.
O desafio imediato numa área política, que a generalidade dos comentadores, exageram ao prenunciar-lhe a morte, é entre quantos querem manter o insensato rumo dos últimos anos, uma linha autodefinida de «progressista», mas apenas traduzida na reciclagem da que motivava a direita antes desta se ver defenestrada pelas suas franjas mais radicais, e os que consideram a necessidade de novos tempos exigirem outras estratégias de reencontro com os objetivos da matriz socialista, demasiado esquecidos por quem deles apenas assumiu a sigla sem lhe respeitar os conteúdos.
Tal como os emigrantes das ilhas Cook apressamo-nos a temer futuros habitados por criptofascistas, quando os da atual cena mediática - Trump, Erdogan, Orban ou Kaczinsky - não tardarão a conhecer as agruras da sua inconsequência no provimento das aspirações dos respetivos povos.
Se há cinquenta anos a França entediada dava origem a uma subversão feita de impossíveis tornados realidade e de praias descobertas por baixo das pedras da calçada, a que resultará das sucessivas eleições concluídas até meio do verão, poderá sinalizar a alteração substancial dos atores políticos em cena e o que eles terão a propor a quem aguarda por novas estradas de tijolos amarelos com arco-íris flamejantes ao fundo. 

domingo, 23 de abril de 2017

Macron: mais uma ilusão para os defensores de como estão as coisas na UE

Lá temos finalmente as sondagens a acertarem: os resultados da eleição francesa apurados esta noite resultaram num confronto entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen na segunda volta.
É claro que os lobos solitários, que se inspiram no Daesh para tentarem criar cenários de guerra na atualidade francesa, estarão a esta hora a congeminar onde, quando e como poderão ter sucesso nos seus objetivos nos próximos quinze dias. Mas a eficiência da polícia gaulesa tem sido tal que confiemos na forte probabilidade de não conseguirem o êxito pretendido.
Em tal situação, e porventura por diferença menor do que foi a de Chirac com o pai Le Pen, Marine será amplamente derrotada daqui a quinze dias. E terá de regressar à ostracizada condição de pária com quem nenhuma outra força política se pretende consorciar.
É, pois, crível que nas legislativas subsequentes, a relação de forças entre as direitas e as esquerdas repliquem a verificada no anterior quinquénio, com predomínio das segundas. É que, sendo a eleição feita por circunscrição a duas voltas, a soma dos votos de Melanchon, Macron e de pelo menos metade dos de Macron bastarão para vencer os que votaram agora em Fillon e noutros ajuramentados da direita, que dele se dissociaram logo nesta primeira volta.
A dificuldade será para Macron gerir uma maioria de esquerdas, sobretudo com o PS a contas com a redefinição da sua linha estratégica. Ou Valls e uns quantos envergonhados  com a sigla saem e formam um novo partido - mas com quem irão concertar votos? Com o PS virado mais à esquerda? Com os apoiantes de Mélanchon, que nem os querem cheirar por perto? Ou com a direita em cuja direção tendem a aproximar-se a olhos vistos? - ou dificilmente o futuro presidente encontrará quem esteja disposto a dar-lhe maioria suficiente para executar o seu programa político.
Mas será que Macron o tem? Todo o seu percurso do último ano, quando se demitiu do governo de Valls e começou a preparar a campanha não indiciou qualquer visão consistente quanto ao que pretende para a França. A ideia de conjugar o que de melhor têm as direitas e as esquerdas não significa absolutamente nada. Por isso, se o mandato de Hollande terá sido o de uma precoce deceção, o de Macron arrisca idêntica apreciação.
Esperemos que os socialistas entendam a mensagem dada pelas urnas esta noite e saibam reinventar-se de forma a acabarem com essa coisa espúria de andarem a fazer o jeito a quem ideologicamente se situa no campo contrário. Porque o resultado pode ser a pasokização de que Hamon terá sido injusta vítima. 

Quando a ganância substitui as convicções

Há uns meses segui com interesse os episódios da série «Marte» apresentados pelo canal da National Geographic. 
Em grande evidência surgia Elon Musk, o proprietário da empresa SpaceX, que anda a aprimorar a tecnologia de reaproveitamento de foguetões para os enviar ao espaço e pretende alcançar Marte com uma missão tripulada, antes de qualquer concorrente.
Musk é também o dono da Tesla, a empresa de carros elétricos, que corresponderia a uma alternativa interessante à necessidade de nos deslocarmos sem suscitarmos emissões de carbono por parte dos veículos a diesel ou a gasolina, que possamos utilizar.
Pela  importância conferida à Ciência nos seus objetivos Musk teria todas as condições para ser admirado por quantos apostam num planeta apostado em combater as alterações climáticas. Só que ele é um orgulhoso colaborador de Donald Trump de nada valendo a campanha mediática em curso para que imite o inventor da Uber que, temendo a publicidade negativa, já se dissociou de tão nefasta companhia.
Musk procede como o ganancioso financeiro, que procura exercer lobbying junto da Casa Branca de modo a influenciar em favor da sua carteira na legislação a ser emitida em breve, que possa valorizar a indústria tradicional de construção de automóveis em seu desfavor, ou nomear amigos seus para a NASA, como que a privatizando numa fusão com a SpaceX.
Livremo-nos pois de saudar falsos iluminados, muito modernaços, que acabam por só terem em conta  os seus exclusivos interesses, mesmo aceitando servir de adorno a tão desvairada Administração e contra todos os outros empresários vinculados a preocupações ecológicas, que condenam tão nefastas políticas.

Importantes vestígios arqueológicos feitos em cacos

A notícia da destruição de um sítio arqueológico no distrito de Beja pelas máquinas utilizadas na escavação profunda do terreno, a fim de se instalar um sistema de rega destinado à plantação de olival, é um bom exemplo de como continua a existir um total alheamento dos empresários a respeito do que pode enriquecer a memória do Património nacional.
Quando eu era miúdo vi algo de semelhante na quinta do meu avô: escavando o solo para criar um poço no pátio deu de caras com um túnel provavelmente dos tempos dos romanos e onde o meu tio Calisto penetrou até onde foi possível, de lá trazendo pedaços de ânforas e moedas ou medalhões em ouro.
Porque ainda se vivia no tempo de Salazar e o meu avô, quase analfabeto não tinha outra consciência senão o medo de se ver espoliado da propriedade, avançou com o projeto do referido poço, tapando o acesso ao túnel e exigindo silêncio absoluto de todos quantos ficaram guardiões do seu segredo.
Cinquenta anos depois, e por certo salvaguardados os interesses dos que descobrem nas suas terras este tipo de achados, seria crível que tal tipo de atentados à nossa cultura histórica não se repetissem. Mas de um empresário, que quer ver as oliveiras o mais rapidamente possível a dar fruto, sobra em ganância o que deveria prevalecer em sentido cívico. E nada conseguiram aproveitar os arqueólogos enviados ao local pelas autoridades incumbidas de prevenir tais casos...

Diálogos à esquerda

Porque não há Democracia sem contraditório - e embora os textos em causa estejam igualmente disponíveis nas caixas de comentário dos respetivos posts -, importa assegurar maior divulgação aos comentários emitidos pelo nosso leitor Jaime Santos a alguns dos posts aqui emitidos durante esta semana.
O primeiro refere-se ao texto «Regressando aos temas dos vilões e da primeira-ministra troca-tintas». Sobre os constrangimentos, que justificam as atuais políticas do governo apesar dos remoques retóricos do PCP e do BE estamos quase inteiramente de acordo. Só considero que ambos os partidos, que integram a maioria parlamentar sabem bem os limites do que podem propor e assim no-lo demonstra o artigo de Francisco Louçã no «Público» de ontem onde zurze precisamente a pretensão das direitas em que essas esquerdas, ditas mais radicais,  lhes fizessem o favor de abreviar a duração da legislatura. Sobre as eleições inglesas faço votos de que Jaime Santos esteja enganado e seja eu a ver confirmado o vaticínio otimista:
Sobre o meu primeiro comentário, eu compartilho exatamente da sua opinião. As condições objetivas (onde se incluem as relações de força, sendo que Portugal está por ora do lado fraco da corda) devem determinar as políticas aplicadas.
Portugal poderia crescer mais se dispusesse da possibilidade de praticar uma política mais expansionista, onde pelo menos a redução do défice fosse mais ligeira de ano para ano. Mais do que isso, isso permitiria não apenas devolver rendimentos mas aumentá-los àqueles Portugueses que certamente não viveram acima das suas possibilidades e dispor de uma verdadeira política de investimento público.
Só que infelizmente o País está, não há como dizê-lo de outra maneira, efetivamente refém das agências de rating e só pode deixar de o estar quando reduzir a dívida.
Ora, se eu defendo uma renegociação dessa dívida, não me parece que ela se possa fazer sem condições (leia-se austeridade). Daí que a melhor maneira de a conseguir é justamente dispor de fortes argumentos de que os credores têm boas razões para confiar na República.
PCP-PEV e BE não são capazes de fazer uma coisa simples que é admitir que as suas alternativas também têm custos e implicam riscos.
Quanto a Corbyn e May, a segunda diz que não quer mostrar a sua estratégia para o Brexit para não comprometer a posição britânica nas negociações, mas eu pessoalmente não acredito que disponha de facto de uma estratégia. Mas que tem conseguido marcar a agenda e Corbyn mais não tem feito do que ir atrás dela, é uma verdade.
E só agora Corbyn foi capaz de produzir um pequeno conjunto de propostas políticas dignas do maior Partido da Oposição. Para todos os efeitos, o manifesto do Labour ainda é o de 2015.
Corbyn é um ativista e não um líder político. Falta-lhe 'killer instinct' e experiência ministerial, que May dispõe a rodos (de facto, as suas posições enquanto secretária do Interior são de estarrecer). E depois, os tabloides irão fazer a Corbyn o que antes fizeram com Kinnock e Miliband... Prepare-se…”
No comentário ao texto intitulado “os nervos de aço que irritam as direitas” estamos perante maiores discordâncias: mantenho ser João Rodrigues um dos que escrevem sobre a atual realidade, que  leio com particular atenção, mesmo que ainda não dê por inteiramente mortos o euro ou a União Europeia. E também não classificaria de liberal a governação de António Costa, porque não reconheço neles os pressupostos ideológicos da doutrina: segue-lhes a receita nalgumas das políticas implementadas, por compreensíveis motivos táticos, mas adivinho no âmago do nosso primeiro-ministro a convicção … socialista! E que tenha os objetivos definidos por essa filiação ideológica como eixo fundamental da sua orientação futura. Passemos então ao texto de Jaime Santos:
“O João Rodrigues, mau grado o agit-prop e a falta de detalhe relativamente às alternativas, característica das Esquerdas, que se recusam sempre a assumir que essas alternativas têm custos e implicam riscos (e que já foram tentadas e falharam, vezes sem conta), tem pelo menos a virtude da coerência. Ele é um Marxista que considera que o País deve não apenas abandonar o Euro como a UE.
Ao mesmo tempo, julgo que compreende que o PCP e o BE nada têm a ganhar pela interrupção do apoio à presente solução governativa. Como muitos, espera que os desenvolvimentos externos obriguem o PS a dar uma guinada à Esquerda e a 'ver a luz'. Ou seja, tal como Passos Coelho, está à espera do diabo, com objetivos bem distintos, bem entendido.
O meu caro, por seu turno, insiste em tomar a nuvem por Juno. O insuspeito Ricardo Cabral tinha isto a escrever ontem no Público: http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/04/19/pec-2017-2021-ir-para-alem-da-troika-novamente/.
Pessoalmente, acho também que Centeno está a exagerar. Mas, na minha sincera opinião, o principal constrangimento do País não é o Euro, é e será a dívida pelo que é preciso reduzi-la e depressa. Agora, tomar o programa do PS como mais do que algo razoavelmente ortodoxo em termos europeus é deixar-se levar pelo 'wishful-thinking'.
Nas condições presentes, a governação do PS nem sequer é social-democrata, é liberal. E as Esquerdas estão reféns do executivo enquanto as coisas correrem bem. Agora, valia a pena que quem não está refém da ideologia lesse o artigo da tribuna do Le Monde assinado por vários Economistas galardoados com o Nobel, críticos da UEM na sua forma presente. Foi escrito contra o aproveitamento abusivo do pensamento de algumas destas pessoas por Marine Le Pen, mas as críticas que faz vão cair direitinhas no colinho das Esquerdas, João Rodrigues incluído: http://www.lemonde.fr/idees/article/2017/04/18/25-nobel-d-economie-denoncent-les-programmes-anti-europeens_5112711_3232.html.
Cuidado com o que se deseja…”
A concluir fica o comentário ao texto «O capitalismo a morder a própria cauda», em que estamos totalmente consonantes, incluindo nos aspetos acrescentados pelo nosso leitor:
“Um excelente resumo dos nossos males presentes (não posso discordar em tudo), chegando ao fim assinalando aquela que é porventura a única arma que resta aos Governos para pôr cobro a esta situação, ou seja, uma política fiscal mais justa. Claro, em Portugal, o Governo consegue arrecadar mais dinheiro recorrendo ao IVA do que ao IRS, sendo o primeiro bem mais regressivo que o segundo. Também falta implementar verdadeiramente um imposto sobre transações financeiras à escala europeia e cabe lembrar que o RU foi sempre o maior opositor de tal medida... Por isso, haverá seguramente vantagens do Brexit... “
Por certo que prosseguirão estes debates de ideias entre este blogue e Jaime Santos, ficando aqui o desafio para que surjam outras perspetivas alternativas dentro das esquerdas, - quiçá mesmo das direitas, se inteligentes e cordatas! - para que os Ventos Semeados se tornem mais enriquecedores, quer para quem os lê, quer para quem os escreve.

sábado, 22 de abril de 2017

Entre a transparência e a ganância

1. O que já se sabe dos trabalhos da Comissão Eventual para a Transparência no Exercício de Funções Públicas, reportados por Pedro Delgado Alves na edição de hoje do «Público» abre expetativas otimistas para que se tornem objeto de melhor escrutínio a atividade dos deputados e dos lobistas, que junto deles tentam obter benefícios para terceiros.
Uma Democracia só se fortalece com a atuação preventiva junto das situações, que potenciem a corrupção. Tirando designadamente argumentos a populistas do estilo de Paulo Morais, muito lesto a denunciar em tese múltiplos indícios e incapaz de provar o que quer que fosse.
Ao confiarem no escrutínio feito por entidades impolutas aos seus representantes nos diversos patamares das funções públicas, os portugueses estarão habilitados a mais maduras escolhas, livrando-se tanto quanto possível da sinistra influência dos tabloides.
2. Confesso que esperava mais da apreciação da DBRS sobre a economia portuguesa conhecida esta semana. Mas também compreendo que sendo a sua avaliação acima das demais agências de rating, e sendo previsível, que elas se tentem equiparar no veredito, seja mais fácil constatar essa revisão em alta da Moody’s, da Standard and Poor’s ou da Fitch do que da empresa canadiana.
Talvez Marcelo tenha razão quando prevê essa revisão para a avaliação subsequente à saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo. É que já não faz qualquer sentido termos a dívida classificada como «lixo».
3. Dias atrás abordei a questão do presidente laranja de Paços de Ferreira se ter tentado intrometer na eleição da Associação do setor do calçado, procurando que a sua nova direção deixasse de ser conotada com a do empresário Fortunato Frederico, conhecido pela sua filiação á esquerda, para ser conquistada pelos que haviam tido em Cavaco Silva um dos seus mais inexplicáveis gurus.
Cumprido o ato eleitoral a vitória de Luis Onofre, que continua a linha estratégica da direção anterior, é a garantia de se prosseguir o excelente trabalho pelo qual o setor se tornou resiliente à mudança dos tempos e se tornou num dos mais dinâmicos de entre os dedicados preferencialmente para a exportação.
Mais uma vez os apaniguados de Passos Coelho ficaram impossibilitados de estragar o que tão positivamente estava a ser feito.
4. David Dinis e Rita Siza foram entrevistar o antigo presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e deram-lhe honras de primeira página e outras três no interior. Lendo as declarações de um dos maiores instigadores ao impeachment de Dilma Roussef conclui-se nada ter ele de substancial a revelar. Apesar do que já se viu entretanto acontecer com o governo golpista de Temer, ele não manifesta arrependimento por ter colaborado num tão veemente corte com a normalidade constitucional.
É um mistério - ou talvez o não seja de facto - a importância, que continua a ser conferida a tão nociva personalidade.
5. O que se ficou a saber do atentado ao autocarro do Borussia Dortmund é eloquente quanto à falta de escrúpulos, que grassa em torno das especulações bolsistas: criar um esquema de enriquecimento à conta da queda da cotação de uma instituição contra a qual se organiza um atentado terrorista diz bem do tipo de comportamentos suscitados por esta fase crepuscular do capitalismo. Mas que, vendo bem as coisas, têm sido prática comum, embora melhor disfarçada pelos grandes especuladores, que enriqueceram à custa do empobrecimento de países, da destruição de empresas e da condenação à miséria de amplas camadas populacionais incapazes de associarem as suas desgraças aos jogos da fortuna e do azar de uns quantos crápulas.