sábado, 25 de março de 2017

Eurodesiludido mas não eurocético

Em dia de aniversário europeu reafirmo a eurodesilusão sem me colocar ao lado dos eurocéticos.
Uma das mais espantosas incongruências, que venho constatando nas esquerdas nacionais, quando se dizem contra o euro e contra a União Europeia, é esquecerem uma das maiores lições que as várias experiências falhadas de implementação do comunismo propiciaram:  por muito bem intencionadas que fossem as intenções primevas dos seus promotores a aplicação do modelo revolucionário a um espaço geográfico limitado só dificulta o seu sucesso e obriga ao recurso de práticas totalitárias. Porque o cerco de que se veem alvo, somado ao apoio exterior a quem se sente prejudicado com a nova realidade, tende a acossar as cúpulas dirigentes aos seus pequenos kremlins, privando-as do contacto com as massas populares com que teriam estado consonantes no início.
Entre Estaline e Trotski era este último quem tinha razão ao defender a impossibilidade de sucesso numa Revolução, que não ocorresse ao mesmo tempo na mais vasta extensão geográfica. As grandes fomes dos anos 20 e as purgas dos anos 30 confirmavam o vaticínio do antigo bolchevique entretanto assassinado no México.
O euroceticismo equivale a defender uma realidade em que seremos pequeninos e fraquinhos, porque incapazes de influenciar as grandes dinâmicas que uma sociedade globalizada irá conhecer, nomeadamente ao nível das ideologias e dos sistemas políticos.
Não é por acaso que os dirigentes progressistas do século passado prezavam tanto o internacionalismo. Por isso existiram organizações que, por um lado, agregavam os Partidos Comunistas, e por outro os Socialistas. Mesmo desavindos, uns e outros compreenderam a necessidade de convergirem com quem, nos demais povos do mundo, partilhava os seus próprios ideais e sonhos de futuro.
Nestes anos recentes lamentamos que a União Europeia tenha promovido os interesses neoliberais em detrimento dos seus cidadãos. Em vez de defender maior justiça e igualdade, tornou-se útil ferramenta dos interesses financeiros graças à ação dos milhares de burocratas sedentarizados em Bruxelas, Estrasburgo ou Frankfurt.
Sem pôr em causa o  projeto europeu vale a pena ser contra este em concreto, que não corresponde aos anseios dos povos. Mas será bem mais fácil apressar o fim do capitalismo e abrir caminho ao que lhe sucederá - aliando o que foram os anseios socialistas com as preocupações ecológicas perante um planeta cada vez mais doente - se a transformação abarcar quase todo o Velho Continente e passar por outro projeto europeu, que resulte da transformação deste ou renasça das suas cinzas.
Ao contrário do que sugeria o antigo secretário da Defesa de Bush filho (um Rumsfeld que também era … Donald!), a Europa possui, graças a toda a sua longa História, a capacidade de assumir a sabedoria ainda inacessível a outras geografias, seja porque ainda longe de atingirem o grau derradeiro da evolução capitalista, seja por terem cultivado idiossincrasias individualistas muito difíceis de se adaptarem a um tipo de sociedade sem emprego para todos e, por isso mesmo, obrigada a pensar-se em novos modelos de solidariedade como forma de escapar às ameaças da violência dos seus deserdados.

1 comentário:

  1. A Esquerda Nacionalista irá lembrar-lhe, e com razão, que a CE foi desde os seus modestos primórdios como Comunidade Europeia do Carvão e do Aço predominantemente um espaço de livre comércio, a Europa Social só aparece muito mais tarde. Claro que o modelo de Mercado Comum atual deve bastante a uma Thatcher, por exemplo. E irá lembrar-lhe que o nacionalismo não é incompatível com o internacionalismo, desde que as relações entre nações soberanas se façam em pé de igualdade.

    Isto é tudo muito bonito, mas sabemos que no antigo Bloco Soviético isso não acontecia, tratava-se de Imperialismo Russo puro e simples, com supressão de liberdades individuais e supressão da própria soberania de Estados que se atrevessem a pôr em causa o modelo soviético (lembre-se do que se passou na RDA, Hungria e Checoslováquia). Depois, os nacionalismos progressistas que levaram aos processos de independência no Terceiro Mundo descambaram em cleptocracias (Angola e a própria Rússia, por interposta responsabilidade do Ocidente que não soube apoiar Gorbatchov e depois Yeltsin, mas também devido à incompetência económica destes últimos), no capitalismo mais selvagem (China e Índia) ou em anedotas que dariam vontade de rir se não dessem vontade de chorar, como a Venezuela do Chavismo, onde falta tudo.

    Ou seja, o Socialismo num só País é uma fraude. Mas é-o por estrita responsabilidade do 'Capitalist encirclement', o que levaria a propor que ele poderia resultar numa comunidade territorial alargada, como defende o meu caro? Claro que não é. O sistema soviético faliu porque faliu economicamente, não porque era uma forma de despotismo, embora também o fosse. Os sistemas de gestão coletivizada acabam sempre a alimentar uma burocracia medíocre que mente nas estatísticas. O processo é idêntico nos Monopólios Capitalistas. Um sistema que só reproduz o que o Capitalismo tem de pior (o Monopólio) definha e morre. Nada bate o Capitalismo (em regime de Economia Mista, note-se) no que diz respeito ao processo de inovação, como os EUA do pós-guerra mostraram.

    Os Marxistas fariam bem em ler o insuspeito Emannuel Todd... A gestão dos socialistas é um rotundo falhanço, para além do seu carácter anti-democrático ao cercear a liberdade económica (e a inovação)...

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