sábado, 4 de março de 2017

A sonsice de um proclamado modelo de virtudes

O empréstimo de dez mil euros contraído pelo juiz Carlos Alexandre junto do procurador Orlando Figueira, comprovadamente corrompido pelo vice-presidente angolano Manuel Vicente, é um bom exemplo de constatação há muito tida como lei: são os maiores defensores das virtudes públicas, quem acabam por ser desmascarados nos seus indignos vícios privados. Porque não sendo em si nenhum crime receber um empréstimo de um amigo, o facto de o ter auferido nega-lhe a legitimidade para questionar quem também assim procedeu.

Tendo sido esta a primeira rachadela no telhado de vidro, que o tem acobertado nestes anos de imerecida notoriedade, ficamos expectantes quanto aos demais vícios privados que se podem esconder por trás de tanta virtude proclamada. É que, como vimos com Cavaco Silva, este tipo de caracteres, que muito devem a uma certa salazarenta forma de estar na vida, comportam outras formas de velhacaria: a intriga, a falta de escrúpulos, a ganância, a gula (vide a imagem da comprometedora degustação do bolo-rei), etc.
Havendo sério perigo nas tentativas de beatificação de tal gente, desmascarar-lhes as fraquezas é tarefa de que nunca poderemos abdicar...

2 comentários:

  1. Nunca tive dúvidas de quem era este elemento do Sistema de Justiça! Que Justiça é esta? E deste modo se vai vendo quem acusou sem motivos nem escrúpulos o José Sócrates, um dos melhores, senão o melhor, 1.º Ministro pós 25Abril74. O último parágrafo deste seu post é um princípio a seguir incondicionalmente!

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  2. Brincar às equivalências morais não é sério. Retire-se Carlos Alexandre do inquérito (algo que já deveria ter acontecido por manifesta parcialidade desse Juiz) e o caso contra Sócrates mantém-se. Um ex-PM não pede empréstimos informais a amigos, ainda por cima se eles tiveram no Passado relações de negócio com o Estado, quando o próprio exercia altos cargos. À mulher de César não lhe basta ser honesta, tem também que o parecer. As obrigações de políticos (ou de magistrados) são maiores que as de anónimos como você e eu. Existe aliás uma categoria chamada 'Pessoa Politicamente Exposta' que obriga que políticos, mesmo fora do ativo, tenham que ter um comportamento absolutamente transparente. E depois, convém lembrar que Sócrates mentiu descaradamente à imprensa sobre a origem do dinheiro que lhe permitiria viver em Paris. No limite, se o antigo PM tinha falta de dinheiro e não tinha mais ninguém a quem recorrer, pedia um empréstimo ao amigo usando uma figura legal chamada Letra de Crédito e assumia isso plenamente. Como nada disso aconteceu, as autoridades francesas e portuguesas cumpriram o dever de investigar (estas últimas de forma incompetente e porventura desrespeitando os direitos da Defesa, se olharmos para as incessantes fugas ao Segredo de Justiça, nunca devidamente investigadas). Sócrates expôs-se por causa desta sandice e expôs todos os seus antigos colaboradores, próximos e amigos que trabalharam com ele e o defenderam. Ou seja, mesmo que não tenha cometido um único crime, não tem, moralmente, uma perna para se segurar. E continuam os fãs deste ex-PM social-liberal, que cultivou relações de proximidade com o Poder Económico (algo politicamente legítimo, mas seguramente não exatamente de Esquerda), a gastar latim a defendê-lo... É uma escolha...

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