sábado, 25 de fevereiro de 2017

Como se vão apagando na Rússia os valores da Revolução de há cem anos

Oleg é um espertalhão. Já casado e pai de filhos, decidiu reciclar-se em sacerdote da Igreja Ortodoxa de que até então se dizia devoto. Alcançou, assim, o melhor de três mundos possíveis: manter os privilégios da conjugalidade, arranjar emprego certo e usufruir de invejável estatuto social junto dos crentes. Ademais, porque cossaco e anticomunista primário, pode colaborar ativamente na intenção autocrática do poder de estilhaçar décadas de ateísmo como dogma do Estado.
A lenta transformação do regime russo numa forma aproximada do fascismo tradicional vai-se consolidando. Após a confusão lançada por Ieltsin para possibilitar o enriquecimento vertiginoso dos amigos, tornados oligarcas, Putin pareceu duvidar se regressava à ideologia em que se formara como espião se a substituía pelo modelo criado para a destruir. Pedra-de-toque a definir-lhe a opção entre uma e outra tem sido o favorecimento do clero ortodoxo no dia-a-dia dos cidadãos, a lembrar o quanto Mussolini, Franco ou Salazar utilizaram a Igreja Católica e o «regresso às tradições» como instrumentos fundamentais da consolidação dos respetivos poderes.
A questão da descriminalização da violência doméstica vai nesse sentido ao menorizar as mulheres na sociedade russa, sonegando-lhes a importância outrora conferida por quem as considerava iguais em direitos e deveres. O regime masculiniza-se sob a égide da imagem trabalhada do líder, que para tal se difundem as fotografias do seu torso nu em cima de um cavalo. Tal imagem remete para o imaginário cossaco em cuja cultura os equídeos sempre desempenharam relevância primordial. A sua cavalaria foi fundamental para que os czares esmagassem revoltas populares e invadissem vizinhos fragilizados e viria a integrar as forças dos russos brancos, que tentaram, em vão, derrubar o poder bolchevique.
Olhando para os últimos dois séculos esses cossacos, que habitam entre os rios Don e Volga, estiveram sempre do lado errado da História, porque, apesar da propaganda soviética tê-los dado como intrépidos combatentes na batalha de Estalinegrado, a verdade manda reconhecer que eram mais os que alinhavam com os invasores nazis do que do lado comunista.
Oleg, que conhecemos através de um documentário apresentado no canal ARTE, revela-se orgulhoso com a missão a que se passou a dedicar, bem sintetizada por um dos seus cúmplices: apagar tudo quanto ainda resta da revolução de há cem anos e impor os valores (mais propriamente os preconceitos!) da sua etnia no que eles se traduzem em misoginia, xenofobia, homofobia e outras manifestações de intolerância para com quem deles difere.

1 comentário:

  1. O regime soviético não era propriamente recomendável no que diz respeito à ausência de misoginia ou homofobia e, se era secular, era-o à custa da perseguição das religiões. Agora tem toda a razão no que diz relativamente ao nacionalismo fascista de Putin, o que me leva a interrogar por que ele fascina tanto alguma Esquerda. Será só porque é adversário dos EUA (agora nem tanto)? O inimigo do meu inimigo é meu amigo? Os EUA adotaram essa política relativamente aos mujahdenin afegãos e os resultados são os que se conhecem. Mas a razão é também outra, parece-me. É que essas pessoas olham para a Democracia Liberal de modo puramente instrumental e no fundo desejariam fazer com ela o que Putin fez com a frágil Democracia Russa (foi-lhe fácil depois dos disparates dos pró-ocidentais que orbitavam em volta de Ieltsin). Transformá-la num Estado multipartidário, mas de Partido Único, que era precisamente o que a RDA foi (havia uma coisa chamada Frente Nacional), onde, note-se, Putin trabalhou como oficial do KGB...

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