terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Mário Soares e o bom exemplo das esquerdas lusas

1. Em dois momentos do dia voltei a Mário Soares, menos de um mês passado sobre o seu desaparecimento físico.
O primeiro aconteceu-me à tarde, quando estava a concluir a leitura do «JL» de 18 de janeiro e dei com a crónica de Hélder Macedo. Ele conta um episódio ocorrido em Inglaterra durante uma visita oficial, que incluiu uma missa na igreja de Windsor: “Mário Soares, maçon e republicano è moda antiga, manteve-se de pé enquanto a Rainha se ajoelhava. E ela, de joelhos, olhava-o de lado para cima e até lhe puxou pela bainha das calças, a ver se ele entendia.  Mas o nosso Presidente manteve-se ali impávido e sereno, de braços cruzados. O vasto público sem saber como devia proceder.
Um dos diplomatas portugueses era especialista em protocolo e, como o seu Presidente estava de pé, também se levantou. E, seguindo-lhe o exemplo, vários dos outros portugueses presentes. Mas, como a Rainha continuava de joelhos, alguns ajoelharam-se de novo enquanto outros se levantavam. E assim foi acontecendo durante alguns minutos, numa onda de sobe e desce  que animou a missa. Ah, grande Soares!”
O outro momento aconteceu à noite, quando ouvia um programa da Antena 2, o «Ronda da Noite», emitido em 9 de janeiro, em que Luís Caetano reemitiu uma entrevista sua com Mário Soares que, apesar de todas as dificuldades por que estava a passar o país, continuava otimista e confiante num futuro melhor.
Como qualquer homem de esquerda que se preze assim se reafirmava, porque, apesar de momentos em que se possa vacilar, acaba-se sempre por encontrar na espécie humana uma predisposição para mudar a sua vida para melhor. E isso só pode dar confiança a quem nela nunca descrê...
2. Jovens holandeses do Partido Trabalhista - o mesmo a que pertence Djesselbloem - vieram a Portugal conversar com vários responsáveis do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda para tentarem compreender o sucesso da coligação das esquerdas lusas, que tomam como exemplo para possível aplicação no seu país.
Em simultâneo os apoiantes de Benoît Hamon, que acabou de vencer as primárias do Partido Socialista para as presidenciais de abril/maio, também confessaram o entusiasmo com que olham para a experiência portuguesa.
Lenta, mas merecidamente, o governo de maioria parlamentar liderado por António Costa começa a constituir um sério case study para uma Europa ansiosa por encontrar um modelo ideológico de esquerda, que se revele exequível e eficaz…
3. Essa exequibilidade e eficácia continua a medir-se nos indicadores do INE, que não admitem qualquer «verdade alternativa» à indubitabilidade dos seus números: o índice de confiança dos consumidores voltou ao que era há 17 anos, quando o país estava acabara de viver a Expo dedicada aos Oceanos e a taxa de desemprego desceu para 10,2%, como já não sucedia desde abril de 2009, acrescida de criação líquida de postos de trabalho.
Bem pode Passos Coelho agendar oportunidades diárias para aparecer nos telejornais a dizer mal de tudo e de todos, que as realidades não coincidem com o seu sombrio pensamento mágico...

1 comentário:

  1. Eu gostava de perceber por que um líder moderado de um Partido Centrista (o PS), que conduz uma política económica prudente (que não é exatamente a que desejaria fruto quer dos acordos à Esquerda, quer dos constrangimentos europeus), que defende o comércio livre e a livre circulação de pessoas, causa tanto entusiasmo por essa Europa fora, onde muitos dos seus congéneres (na Oposição) defendem (agora) ideias bem mais à Esquerda do que ele. A sua chegada ao poder deriva afinal de um fator conjuntural, a saber, a maioria de Esquerda na AR, combinada com o medo que os quatro partidos que a compõem têm (por diferentes razões) do regresso da Direita 'além-troika' à governação. Se calhar, para além da sua capacidade de estabelecer pontes, a grande virtude de Costa (e do Super-Mário que o acompanha) é prometer pouco e fazer muito. Convém lembrar que o triste estado dos Tsipras e dos Hollandes por essa Europa fora se tem devido sobretudo às promessas por cumprir... Ou seja, a força de Costa não virá da sua capacidade para fazer sonhar, mas sim do seus empedernidos pragmatismo e realismo...

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