domingo, 22 de outubro de 2017

A excentricidade vs. a racionalidade

No verão dos meus dezasseis anos vi-me sujeito a fortes restrições por conta do relativo fracasso escolar, porquanto passara para o sétimo ano do liceu com chumbos a matemática e a filosofia. A severidade do castigo passava por me ver impedido de ir à praia ou continuar a dar cabo das solas dos sapatos nas peladas com os amigos, obrigando-me a estudar de forma a recuperar o atraso suscitado pela inédita condição de semi-cábula.
Estava-se em 1972 e a alternativa era fechar-me no escritório lá de casa e pôr o transístor em som muito baixo para não suscitar a atenção pidesca da minha mãe. A ordem era para me dedicar aos mistérios da trigonometria ou do cálculo vetorial, sem esquecer o manual de psicologia, que constituía o programa do ano escolar entretanto concluído. As notícias projetavam-me então para um dos grandes acontecimentos desse ano de 1972: na Islândia estava a decorrer o jogo do século entre Bobby Fischer e Boris Spassky.
Como era época de Guerra Fria, uns pendiam para o lado norte-americano, eu e muitos outros desejávamos a vitória do soviético.
Entre 11 de julho e 1 de setembro fui acompanhando as vicissitudes do movimento das peças no tabuleiro, antipatizando com a excentricidade de Fischer e irritando-me com a falta de imaginação de Spassky, aparentemente incapaz de sair da racionalidade dos movimentos canónicos para corresponder eficazmente às originalidades do adversário.
Lembrei-me desse verão de há quarenta e cinco anos atrás a propósito do confronto não declarado, mas óbvio nos bastidores, entre Marcelo e António Costa. É que os jogos de xadrez, como muitos outros, prestam-se a pertinentes metáforas sobre cada momento político.
No discurso de Oliveira do Hospital, Marcelo parece ter posto o primeiro-ministro em xeque. Embora adivinhassem que a jogada muito distava do almejado xeque-mate, as direitas e os comentadores a ela enfeudados regozijaram-se com a perspetiva de verem Costa em dificuldades.
Desconfio, porém, que Marcelo teve, então, o seu momento islandês - não esqueçamos que Fischer e Spassky disputaram as partidas desse campeonato em Reiquiavique - e que a capacidade de se sentir vitorioso quedar-se-á por aqui. Sobretudo, porque se continuar a apostar na excentricidade de ser um Presidente, que deixa a gravitas em casa para andar de terra em terra a distribuir afetos e a tirar selfies, a receita esgotar-se-á perante os três anos, que aí vêm, presumivelmente marcados pelo sucesso das políticas económicas, financeiras e sociais do governo e, sobretudo, com a desejável prevenção de novas tragédias através da implementação das políticas ontem aprovadas em Conselho de Ministros extraordinário. É que, se Marcelo iguala Fischer no comportamento pouco convencional para a função que representa, António Costa lembra Anatoly Karpov em vez do cinzento Spassky. A racionalidade, a frieza com que encara os problemas e lhes garante as melhores soluções, abrem expectativa para duradoura vida útil dos seus governos ao contrário do «número» habitual de Marcelo cujo efeito de novidade acabará por atingir a sensação de «tudo quanto é demais, também enjoa».
Esta semana ele desmentiu-se a si mesmo, porque deixou em aberto a possibilidade de concorrer a um segundo mandato. Eu não esqueço que, em campanha eleitoral para as presidenciais de 2016, afiançara o contrário. Mas todos conhecemos a sua tendência para a volubilidade, quase tão intrínseca quanto a indissociável obsessão pelos cálculos políticos. Tal como Fischer se recusou a voltar a jogo em 1975, quando anteviu a provável derrota face a Karpov, também não me admiraria que essa venha a ser a opção de um esgotado Marcelo. 

sábado, 21 de outubro de 2017

Notas Desafinadas (IV): Selminho, abusos laborais e dívida pública

(1) Sem surpresa ficámos a saber que a imobiliária de Rui Moreira e seus familiares reitera a intenção de reivindicar em tribunal a propriedade do terreno na Calçada da Arrábida, com 2260 metros quadrados, na realidade pertencente à Câmara do Porto.
Tendo tido a oportunidade de impedirem a golpada, os eleitores do Porto portaram-se como os de Oeiras: apesar de todas as evidências, elegeram quem aparenta abocanhar cargo público para melhor defender os seus interesses pessoais.
(2) Ciente de existirem patrões que contactam abusivamente os trabalhadores no período de descanso, o Partido Socialista promete inscrever na legislação laboral o direito dos trabalhadores a “desligarem do trabalho”. O problema está nos detalhes: mantém a possibilidade de regulamentos internos em que “exigências imperiosas” imponham a possibilidade desses contactos através de ferramentas digitais.
(3) O Orçamento para 2018 prevê que, no final do ano, a dívida pública desça para 123,5% do PIB, ou seja quase sete pontos percentuais a menos em relação a 2016, quando ascendia a 130,4%. Isso equivale a quase 14 mil milhões de euros.
Comentando algumas afirmações de quem diz que lhe sabe a pouco, Ricardo Paes Mamede riposta: “É importante que as pessoas que querem diminuir a dívida mais rápido digam claramente onde é que  entendem que se pode realizar mais cortes.”  Tenho cá uma desconfiança que vai ter de esperar sentado...

Humildade, ora essa! O que querem impor é Humilhação!

Há uns anos, quando um programa televisivo andou a promover qual seria a figura histórica nacional com maior popularidade, foi com grande mágoa, que muitos de nós, vimos a votação concentrar-se em Salazar. Como era possível que, depois de anos de Democracia, ainda houvessem suficientes portugueses disponíveis para corresponderem aos organizadores de sindicatos de votos, apostados em troçarem de quem sofrera com o fascismo para darem imerecida consagração ao ditador?
Concluía-se que se uma boa parte do país execrava esse passado, subsistia uma outra que não só o desculpabilizava como, sobretudo, perdurava uma cultura de valores dele remanescentes.
Lembro amiúde o aforismo de Alexandre O’Neill  sobre a vigência desses dias sombrios, em que imperava a regra: “neste País em diminutivo, juizinho é que é preciso”. Mas atrás do juizinho vinham outros valores igualmente repelentes: a caridadezinha, o respeitinho, a humildade.
A caridadezinha foi subsistindo ao longo destes últimos 43 anos sob a forma de correspondermos com esmolas, peditórios, subscrições e outras formas de donativos às vitimas de alguma tragédia circunstancial. Ora, como se viu com os dinheiros entregues à Misericórdia de Pedrógão Grande, que têm tardado a chegar a quem era suposto receber (e sobre quem ninguém volta a verificar se cumpriram os fins em vista), deve ser o Estado a centralizar, definir e distribuir esses recursos. Aqueles que quiseram contribuir diretamente para as Instituições de Solidariedade Social têm justos motivos para, a esta hora, desconfiarem se não andaram a encher os gordos cofres de interesses privados encostados a esse tipo de organizações.
À luz dessa ideologia salazarenta, não tivesse Passos Coelho perdido o pote e veríamos os pensionistas, os reformados, os desempregados crónicos e outros setores desfavorecidos a viverem miseravelmente e umas senhoras muito boazinhas a atribuírem-lhes uma sopinha com que mitigassem a fome e umas roupinhas usadas com que tapassem a nudez. A valorização da Segurança Social enquanto polo fundamental da luta contra a pobreza está a constituir uma espinha cravada na garganta de quem apostara na sua menorização, quiçá privatização de acordo com o modelo vislumbrado no filme de Ken Loach, «Eu, Daniel Blake», que demonstrava o que seria tal estratégia de eugenia social.
Quanto ao respeitinho andou a direita anos a fio a tentar que se traduzisse no pressuposto de competir a governação aos partidos do tal «arco», porque os situados à esquerda do PS (ainda assim só tolerado nos períodos em que chegava ao poder e sempre sabotado na sua ação, quando ela não se coadunava com os interesses ideológicos dos herdeiros do antigo regime) não teriam legitimidade para si, porque blá-blá-blá sobre a Nato, blá-blá-blá sobre a União Europeia, blá-blá-blá sobre o euro, blá-blá-blá sobre outra argumentação qualquer.
Mas concentremo-nos na humildade, que tanto temos encontrado esta semana, ora nos lábios de Marcelo Rebelo de Sousa, ora nos dos dirigentes das direitas, ora nos dos comentadores por elas inspirados.
Não conheço outra cultura onde se dê a importância que o salazarismo impôs como idiossincrasia nacional a essa suposta humildade, mas que se traduz mais corretamente pela humilhação. Do pobrezinho humilde, que aceita a parca esmola espera-se um agradecimento servil ao bom coração, que lha estende. Do trabalhador precário a quem se propiciou emprego mal pago e com horas excessivas - tipo «A Padaria Portuguesa» - espera-se que se curve perante o patrão arrogante e lhe beije o chão acabado de pisar. Esse é o tipo de humildade que as direitas tanto prezam, que Marcelo propôs ao governo e, de facto, remanescida herança de um passado tenebroso.
Por isso não aceito que António Costa tivesse de apresentar qualquer pedido de desculpas. Elas só se justificariam se não tivesse feito tudo quanto estivesse ao seu alcance para combater os incêndios de Junho e do passado fim-de-semana. É licito assacarem-se-lhe culpas por décadas de desleixo, por condições climatéricas particularmente agressivas e por causas ainda por apurar que muitos enquadram em equívocas teorias da conspiração?
A um governante exige-se serenidade no meio da tormenta, confiança em dar o seu melhor a cada momento e visão para identificar os problemas e saber-lhes encontrar as melhores soluções a curto, médio e longo prazo. É isso que o governo está a fazer e dará expressão mais ambiciosa a partir das decisões  hoje definidas no Conselho de Ministros extraordinário.
Tem sido lamentável a forma como as direitas cavalgam necrofilamente sobre as tragédias para darem expressão à única estratégia, que lhes resta perante os evidentes sucessos obtidos nestes dois anos nas vertentes políticas, sociais, económicas e financeiras. Humilhadas nas sondagens reais, que foram os votos nas autárquicas, as direitas agarraram-se a esta boia de salvação como única alternativa à sua manifesta incapacidade para pensarem o futuro do país numa formatação distinta da incurável vontade em tudo privatizar e desregular.
Ainda há pouco a Academia Sueca, que atribui os Nobéis consagrou um economista cujos trabalhos têm a ver com a influência dos comportamentos humanos na evolução dos modelos macroeconómicos. Exista otimismo e entusiasmo e os indicadores alavancam-se para além do esperado. Ora é isso que tem sucedido nestes últimos dois anos com as políticas aprovadas pela maioria parlamentar a excederem as previsões mais otimistas de todos os analistas, particularmente dos das instituições internacionais, vocacionados por natureza para desqualificarem os tipos de soluções aqui aplicadas.
Pelo contrário se nos deixamos contaminar pelo medo do Diabo, pela humildade de continuarmos pequeninos e sem ambição - não era Passos quem defendia a competitividade do país através de baixos salários e nenhuns direitos laborais? - entramos em depressão coletiva, quer psicológica, quer económica. É claro que esse é o objetivo das direitas cripto-salazaristas, a que se associou claramente Marcelo Rebelo de Sousa esta semana. Está em todos nós dar a resposta a quem nos quer puxar para baixo, quando tem sido tão sustentada a recuperação do abismo para que nos tinha empurrado a coligação da troika.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

E porque não deveria acreditar?

O texto abaixo é da autoria de Manuel Maria Matos, que o inseriu como comentário ao que intitulara «Eu continuo a confiar, e muito!». Trago-o à página à página principal porque, estou tão de acordo com o seu conteúdo, que o subscrevo na íntegra.
E porque não deveria acreditar?. Por causa de um discurso (ou melhor, um arrazoado de palavras) patético! Morreram cem pessoas que creio, não deve haver ninguém que não lamente a sua morte, mas isso não é razão para um Presidente de um país, o mais alto magistrado, demagogicamente aproveitar a situação para lançar farpas ao governo. Interrogo-me, como reagiria o presidente se o país estivesse em guerra ou sofresse um cataclismo de milhar de mortos.
Um presidente tem que ter uma serenidade acima dos conflitos e ser capaz de passar essa mensagem elevando o moral das pessoas em sofrimento e não, como fez, pondo-se a choramingar ante uma situação menos boa. E isto, dando de barato que o Presidente agiu de boa fé, comovido, perturbado. Só que o Presidente é um político que já nos habituou a muitos malabarismos.
Mas o que gostaria aqui de realçar é que por mais que o Presidente goste ou não goste do governo, tem pouco valor a sua opinião. O que verdadeiramente interessa é a geringonça manter-se unida e dar uma resposta cabal às forças reacionárias que o pretendem derrotar.
Agora que o Presidente deixou cair a máscara e mostrou ser o velho Marcelo dos comentários ácidos acerca de qualquer governo que não fosse PSD, é tempo de mostrar na Assembleia uma coesão a toda a prova, dando uma bofetada com luva na moção da rapariguita e da qual o Presidente, mostrando uma parcialidade inequívoca, se tornou padrinho.
Fica uma palavra de agradecimento ao autor por me possibilitar a utilização das suas palavras numa altura em que todas elas são poucas para reiterar o apoio ao Governo e a crítica a um Presidente cuja máscara caiu a partir do momento em que demonstrou só representar os que se identificam com quem contesta a atual maioria parlamentar. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Eu continuo a confiar, e muito!

Chego agora ao computador e dou com muitos amigos das redes sociais a dizerem coisas, que me deixam atónito. O governo ficou e estará fragilizado? António Costa cedeu à direita? A possibilidade de cumprir o resto da legislatura reduziu-se significativamente?
Francamente, estou banzado, até porque muitos dos que assim se andam a expressar não têm nenhuma aparente simpatia pelo PSD e pelo CDS a quem, no entanto, estão a fazer um favor com este súbito esmorecimento nas suas convicções a respeito da atual maioria parlamentar.
Assim, de um momento para o outro, deixou de ter qualquer importância o que já foi conseguido no crescimento económico, no desemprego, na redução do défice, na reversão dos cortes nos rendimentos de milhões de portugueses ou na inversão total do clima das instituições internacionais a respeito do rumo económico do nosso país?
Quer isto dizer que de governo bestial, passaram a achá-lo um conjunto de bestas quadradas ignorantes quanto ao que andam a fazer?
Haja algum bom senso e, sobretudo, devolva-se a António Costa o crédito de termos andado meses em campanha a proclamarmos que nele confiávamos.
É claro que as direitas andavam fulas com o que isso significava quanto ao projeto de se perenizarem no poder a fim de prosseguirem uma agenda ideológica feita de cortes nos rendimentos dos mais fracos e na privatização de tudo quanto ainda até aí escapara à sua sanha de entregar todas as joias dos dedos aos interesses dos que, depois, lhes assegurariam bons empregos (vide Catroga!).
Agora António Costa, depois de tanto ter conseguido, é dado como ferido na sua legitimidade enquanto primeiro-ministro? Repito: haja bom senso. Ou não o conhecemos suficientemente bem, para sabermos que não são dificuldades a desviarem-no do rumo certo para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos? Não sabemos o quanto ele parece conhecer de fio a pavio o célebre manual de Sun Tzu, que formou gerações milenares de chefes militares, que nele aprenderam quando se deve atacar ou quando se deve mostrar contenção para acumular forças e encontrar melhores circunstâncias para voltar a avançar? Num outro contexto estamos na altura de voltar a ver cumprida a célebre máxima de se saber dar um passo atrás para avançar dois em frente.
A interina direção laranja e Assunção Cristas, que despertou para a política quando o atual primeiro-ministro já nela labutava há muitos anos, revelam-se uns verdadeiros meninos a julgarem-se capazes de se medirem com quem possui uma outra maturidade. Mesmo que se pretendem encher de bazófia com uma moção de censura destinada a abortar logo após a sua gestação…
É por isso mesmo que digo e redigo: Eu confiei, continuo a confiar … e muito!

Ser Presidente é isto?

Dirão os meus amigos marcelistas, que pareço ter uma obsessão pelo inquilino do palácio de Belém não perdendo nenhuma oportunidade para lhe cortar na casaca. Mas, depois da declaração ao país lida esta noite fica alguma dúvida sobre a falta de qualidades do referido titular para se considerar o mais alto magistrado da nação, o presidente de todos os portugueses?
Uma das características exigíveis a um Presidente digno desse nome é ter a gravitas, no que isso significa de contenção na expressão e rigor no que diz. Será que o país merece ter em tal função uma espécie de menino da lágrima, mais preocupado em parecer demonstrar o que lhe vai na alma do que em assumir-se como um homem probo e capaz de se revelar um líder à medida da tragédia por que passa o país? Alguém que finge desconhecer as causas conjunturais e estruturais explicativas do sucedido e contra as quais demorarão anos a amortecer-lhes os efeitos?
Perante a dimensão do sucedido não era hora de exigir a unidade de todas as forças políticas e instituições para que, em conjunto e sem reservas mentais se cuidasse do essencial nesta altura: enterrar os mortos e cuidar dos vivos? Ou, pelo contrário precisamos de um presidente alinhado com uma fação oportunista, que repete o aproveitamento necrófilo das vítimas para, em cima dos seus túmulos, alcançar ganhos políticos?
Marcelo confirma o que, desde início dele se sabe: por muito que tente contornar as tendências no ADN, como dissociar-se de ser filho e afilhado de quem foi? Merece o Portugal de Abril ver-se representado por quem confirma portar-se como o herdeiro de quem o sempre quis asfixiar? Ou esquecemos de que lado ele sempre esteve, quando nos tempos da ditadura os estudantes da sua Universidade enfrentavam os gorilas e os pides?
Com o ultimato ao governo, e a óbvia determinação para que a vontade do CDS seja cumprida, Marcelo demonstrou incontornável parcialidade. Não é que as esquerdas desconhecessem quem teriam de enfrentar, quando com papas e bolos - na sua versão atualizada de abraços e selfies - logrou chegar onde o temos de suportar. Mas seria estúpido se, atempadamente, socialistas, comunistas, verdes e bloquistas não começassem desde já a pensar numa alternativa forte, capaz de o apear do cargo ao fim deste mandato. É que, hoje, ficou bem claro o que faria Marcelo se já contasse à frente do seu partido com quem ajustasse o golpe capaz de devolver as esquerdas para a manietada oposição ao governo do seu agrado. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Operário Letrado continua a fazer perguntas

Uma dúvida pertinente, que as quatro mil páginas do processo da Operação Marquês suscita: terá Passos Coelho amnistiado as dívidas fiscais do grupo Cofina porque o seu pasquim matinal estava a servir de altifalante às fugas de informação, que tanto serviam a sua estratégia política? E já agora seria exigir muito a Joana Marques Vidal que nos desse conta dos custos de uma investigação, que se prolongou por vários anos e muitas dezenas de procuradores, especialistas da Autoridade Fiscal e respetivos assistentes, sem esquecer todo o economato consumido para o efeito? Ou, ainda, que misteriosa razão terá levado Paulo Portas à sede do BES no dia da sua demissão irrevogável e de lá voltou feito cordeirinho amestrado disposto a dar o dito pelo não dito?
Quem coloca outra dúvida, que mereceria resposta, foi o blog «A Estátua de Sal», que, a propósito da afirmação de Marques Mendes sobre a forte probabilidade de não ter havido nenhum processo contra José Sócrates se Pinto Monteiro ainda fosse o procurador-geral da República, questiona se o diminuto comentador se teria escapado tão lestamente das múltiplas suspeitas a que tem sido sujeito nos anos mais recentes se não fosse Joana Marques Vidal a atual titular desse posto.
E, já que estamos em marés de perguntas, coloquemos outra a Marcelo Rebelo de Sousa, que insinuou o desejo de ver a Ministra da Administração Interna demitida ao falar de uma suposta «responsabilidade funcional» do topo da cadeia de comando por quem comete falhas nos escalões hierárquicos abaixo. Na mesma lógica, não deveria Marcelo retirar as mesmas conclusões a respeito de si mesmo a propósito do que quer que tenha acontecido com o armamento de Tancos, já que é o Comandante-Chefe das Forças Armadas? Ou, mais uma vez, ele confirma a lógica de se fazer como diz, e não como faz?

Passos nunca mais

No «Expresso» Nicolau Santos nega o carácter austeritário do orçamento de Estado para 2018 constatando que “foi isto que a receita da troika e do PSD/CDS nunca quis ver: que só com maior crescimento era possível o país sair do buraco em que tinha caído. E quando ao mesmo tempo se deprimia brutalmente a procura interna e a capacidade creditícia da banca que operava no mercado nacional, o resultado só podia ser uma recessão prolongada, que durou três anos e encolheu a riqueza produzida no país em mais de 7%, levando à emigração de meio milhão de pessoas fazendo disparar a taxa de desemprego até aos 17%.”
E, no entanto, não falta quem por aí ande a agradecer a Passos Coelho os «serviços» prestados» como se o seu legado não fosse suficientemente tóxico para só o encararmos com adequada máscara de proteção. Por muito que se lhe tente pegar por alguma ponta menos fétida todas exalam o mesmo odor pútrido de uma ideologia, que fenece sem cura, mas ainda capaz de causar significativos danos.
Daí a necessidade de criarmos uma barreira eficiente se lhe constatarmos a vontade de regresso à ribalta política, algo tão natural quanto ele próprio se vê à beira de ser sucedido por quem já demonstrou terem sido trágicas as anteriores passagem pelo poder - municipal ou nacional - e agora não enjeita encarnar a farsa que um deles já representou nos meses de sucessão a outro malquisto sebastião.
Se a palavra de ordem «Fascismo Nunca Mais» continua plenamente atual - mormente  nestes dias lá para as bandas da Áustria! - a sua adaptação ao mesmo apelo substituindo a primeira palavra por “Passos” também plenamente se justifica. Até porque, vistas bem as coisas, e embora parecendo mais cosmopolita na sua inveterada saloiice, não existe grandes dissemelhanças entre a criatura e a matriz ideológica, que lhe andou sempre na mente. 

Notas Desafinadas (III) - Orçamento, Marcelo e Santana Lopes

(1) Nas diversas abordagens dos jornais e televisões ao Orçamento de Estado para 2018 há o inevitável reconhecimento dos ambiciosos objetivos do governo, mas quase não se ouvem vozes, que os deem como intangíveis. Até a D. Teodora se rendeu à evidência dos factos anteriores  que, sucessivamente, a desmentiram.
Agora alguns lamentam não se reduzir o défice a zero em relação ao PIB, como se o 1% previsto fosse caso de lesa-majestade. E até há quem se proponha a dizer como o faria. Algo que levaria um dos meus pretéritos encarregados a emitir uma das suas máximas preferidas: «estamos fartos de ver especialistas de obras feitas!».
O que ninguém parece ter reparado foi na prudência que, em exercícios anteriores, Mário Centeno demonstrou, sempre comprometendo-se com metas bem menos exigentes do que as dos resultados depois, efetivamente, alcançados. Quantos tiveram de engolir em seco por terem afiançado impossíveis as previsões do ministro e, depois, tiveram de dar o braço a torcer perante números e indicadores, que estimavam impossíveis?
Para as que agora anunciou para 2018 confio que repita o estilo e venhamos a constatar como ele nos continuará a surpreender sempre pela positiva.
(2) As declarações escritas ou verbais de Marcelo Rebelo de Sousa sobre as tragédias relacionadas com os incêndios de há quatro meses e deste fim-de-semana não deixam de ser paradoxais se nos ativermos à biografia do insigne professor. É que ele exige «mais atos e menos palavras».
Como disse?
Não é incongruente que um homem de quem nenhum ato concreto se conhece e sempre viveu da verbosidade dos textos que escreveu em ambiente académico ou nas páginas dos jornais, sem esquecer as mesmas rabulices vocais no comentário televisivo, venha agora exigir aquilo que nunca soube ou quis fazer? Critica as palavras quem delas  sempre alimentou a carteira e a carreira jornalística, universitária ou política?
Marcelo já nos revelou muitas das suas limitações comportamentais, mas faltava-nos esta faceta de mandar fazer aos outros como diz e não propriamente como alguma vez materializou!
(3) No facebook José Gabriel questiona Santana Lopes na segunda pessoa do singular surpreendendo-se com a jactância de se julgar desejado no partido, quando a realidade é a dos militantes preferiram-no na Santa Casa, porque aí dispensa-se de fazer aquilo para que já demonstrou não ter qualquer jeito: Política. E conclui: “o teu confronto com Rio vai tornar evidente a todos o que já é claro para muitos: não tens grande coisa na cabeça. Será deserto contra deserto.” 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A necessidade de uma análise séria sobre os incêndios

Esta vaga de fogos, que destruíu uma boa parte da cobertura vegetal do norte do País, tem gerado dois tipos de reações extremadas: uns encaram-na como normal e acusam o governo de não ter prevenido tragédias nem ter investido meios bastantes para as combater; outros veem mão criminosa em quase todos eles como reação da direita revanchista contra os sucessivos desaires eleitorais por que vai passando. Os primeiros valem-se das televisões cujos repórteres quase obrigam os entrevistados a queixarem-se de falta de meios como forma de enfatizarem as críticas ao governo e secundarem as direitas, que puseram espumante no frigorífico para comemorarem quando António Costa lhes entregar a cabeça da ministra. Os segundos vão combatendo esse terrorismo mediático ripostando à medida das suas capacidades nas redes sociais.
Uma análise serena manda reconhecer que estamos numa daquelas situações em que a ocasião faz o ladrão: os humores meteorológicos, que têm fustigado o continente com uma seca extrema, tornam facilmente combustível toda a vegetação despojada de qualquer humidade. Basta assim que os mal intencionados e os tarados lhes cheguem ignitor para que um incêndio ganhe grandes proporções e logo se alavanque para situações incontroláveis.
Poderia o governo fazer melhor na sua atuação? Só os intelectualmente desonestos podem defender que sim. Não está nas capacidades de António Costa ou da ministra Constança, a ordem aos céus para dele ver descarregado um manancial de águas que tanta falta andam a fazer aos devastados campos. Só quem não quer ver os efeitos do aquecimento global pode persistir na sanha contra quem apenas se limita a investir em mais meios, como se duplicando-os ou decuplicando-os pudesse evitar que o fogo perdesse a sua força incontrolável.
As tragédias deste ano só tornam incontornável uma política de reflorestação, que não volte a permitir a plantação de árvores apenas na lógica do lucro a curto prazo, trocando-a pelas que melhor se adaptem às condições climáticas atuais, presumivelmente agravadas com a falta de políticas globais de combate às ameaças iminentes. Terá de se refletir em formas eficazes de mudar o interior, seja repovoando-o com populações mais jovens que aí possam encontrar empregos viáveis, seja aceitando a sua transformação em vastos parques nacionais devidamente organizados para prevenirem sinistros desta dimensão e criarem acessos ao seu combate, quando eles efetivamente ocorrerem. Nenhuma dessas opções políticas se concretiza em um ou dois anos: tem de ser seriamente pensada nesta altura e concretizada em plano estruturado com ações faseadas a curto, médio e longo prazo. Com um custo, que nem se pode imaginar quanto comportará para a nossa condicionada economia.
Fazer política séria é o oposto ao indecoroso aproveitamento dos mortos deste fim-de-semana, que voltarão a dar fôlego aos oportunistas que tanto exploraram os de Pedrógão Grande.  Vale-nos que as direitas, responsáveis por esse comportamento, são corredores de velocidade, que depressa esgotam as energias depois dos sprints consequentes a estas ocorrências. Quanto a António Costa continua a demonstrar ser o corredor de fundo, ciente de saber dosear os recursos à justa medida das metas, que quererá alcançar. Aquelas que verdadeiramente interessam aos portugueses.



Uma visão alternativa à proposta de regeneração da Política

A propósito do texto «A importância de regenerar a Política», o atento amigo Jaime Santos redarguiu com um comentário, em que reitera a crença na social-democracia como orientação política passível de melhor responder aos desafios presentes e a rejeição de qualquer proposta fundamentada na análise marxista, que tenta ser a minha, porque a pressupõe inevitavelmente eivada de derivas totalitárias.
Obviamente que no essencial pretendemos o mesmo - uma sociedade menos desigual e com pleno usufruto das liberdades fundamentais (anote-se que a dos mercados não conta para esta convergência!) - mas as formas de a alcançar são diferentes. 
Porque essa visão alternativa tem obviamente grande pertinência aqui a transcrevo com a subdivisão em alguns parágrafos para facilitar a respetiva leitura:
“A Utopia original de Moore correspondia a uma sociedade gerida à custa de engenharia social em que nem eu nem o meu caro por certo gostaríamos de viver. E as Utopias que se lhe seguiram não andaram longe disso. Se for preciso matar no presente em nome do futuro, faça-se, como bem ilustra o exemplo da Revolução Russa de Outubro, de que agora 'celebramos' o centenário.
As instituições do Liberalismo Político, onde se insere a Social-Democracia, pelo contrário, aceitam o caráter contingente e falível da ação política, procurando dividir o poder de modo a evitar abusos, característicos da nossa natureza humana. É isso que hoje à Direita e à Esquerda está sob ataque, pois os diversos ramos do Populismo desejam substituir a nossa Democracia Liberal e os seus 'checks and balances' por uma 'Democracia Maioritária' onde o Povo é, claro está, sempre representado por um qualquer homem forte (excluo Sanders dessas tentações, porque ele na realidade é um bom social-democrata e nada mais do que isso). Fazem-no utilizando o argumento de que as instituições que temos foram capturadas por uma elite económica, o que é em parte verdade, só que isto foi de facto sempre assim.
O que torna as ditas instituições vulneráveis é o acumular de crises (financeira, económica, de refugiados, no Médio-Oriente). Por isso, todos os autocratas em potência veem chegada agora a sua hora.
Parece-me que foi Frank Herbert, no seu Dune, que disse que todas as formas de Governo tendem a evoluir na direção da oligarquia. Estamos talvez a assistir aos primeiros passos das democracias ocidentais nessa direção…”

domingo, 15 de outubro de 2017

A importância de regenerar a Política

A quinta temporada de «House of Cards» foi-me penosa de seguir porque, refletindo o estado pútrido da política americana comprovado na eleição de Trump, contribui para a consolidação da peregrina ideia de não existir quem seja isento de corrupção nos meandros de Washington - precisamente a mensagem ideológica, que o atual presidente inoculou no seu ignaro eleitorado de forma a dar-lhe ensejo para a revolução ultrarreacionária de que se faz orgulhoso expoente.
Do Arkansas ao Texas, do Alasca ao Mississípi, uma significativa percentagem do eleitorado achou ajustada a ideia de pôr os políticos da capital com trela conduzida por um sinistro anjo exterminador.
As últimas décadas, sobretudo depois da queda do muro de Berlim, facilitaram a tese do fim das ideologias, restringindo a política aos jogos de poder entre interesses plutocráticos e sem escrúpulos.
Infelizmente o mundo da social-democracia e do socialismo democrático foi tomado de assalto por gente da estirpe de Blair, Schroeder, Gonzalez ou Hollande, que puseram de lado os princípios fundamentais de tal corrente do pensamento ideológico e contaminaram o respetivo espaço à esquerda com a promiscuidade dos negócios instalados.
Frank e Claire Underwood, apoiados numa máquina administrativa colocada ao seu serviço e não dos cidadãos, perseguem objetivos estritamente pessoais, que nada têm a ver com as obrigações constitucionais sob que prestaram juramento. Como os citados exemplos «socialistas», mas não só, pois basta pensar em Portas e Barroso para concluir como a estratégia é transversal a todos os partidos do poder e comportam quem entra para a política para dela se servir escusando-se ao interesse coletivo, que deveriam priorizar.
É por isso que Bernie Sanders  - apesar de ostensivamente ignorado pela cúpula do Partido Democrata - assume importância tão fundamental na regeneração das instituições por agora sequestradas pelos políticos republicanos. Porque, quer desse, como deste lado do Atlântico, importa revalorizar, se não mesmo regenerar, a Política, devolvendo-lhe a nobreza de quem dela faz a expressão do bem comum.
Não admira, pois, que o velho senador do Vermont tenha imposto a ideia socialista como eixo da sua candidatura à Casa Branca. Porque essa recuperação dos valores éticos no exercício de cargos públicos implica afastar de vez a ideia de não existirem diferenças entre esquerda e direita, ou já estarem fora de moda os preceitos analíticos propostos pelo marxismo.
Estamos, precisamente, no momento em que importa voltar atrás, retomar a mesma bandeira e sabê-la empunhar por novas direções, diferentes daquelas que, ilusoriamente, deveriam fazer-nos aproximar da Utopia e dela nos afastaram...