terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Alcançado o primeiro milhão!

De acordo com a página de informação da plataforma Blogger será nas próximas horas, que o «Ventos Semeados» alcançará o primeiro milhão de visualizações. Tendo em conta que, em média, vêm nele ocorrendo duas mil visitas diárias, o facto de, nesta altura do dia estarmos nas 999 521 visualizações, e serem previsíveis cerca de mais mil até ao final do dia, esse objetivo está iminente.
O gráfico abaixo também demonstra que existe um número crescente de leitores a visitarem mensalmente a página, sendo vários os picos acima dos trinta mil, com um máximo a aproximar-se dos sessenta mil. Se existe exemplo da progressão exponencial nas matemáticas, esse indicador relativo aos nossos leitores constitui opção eloquente.
Estes objetivos vêm não só estimular-nos para que sejamos futuramente mais ambiciosos nesta ação política quotidiana mas também nos confere maior responsabilidade no sentido de credibilizar a informação aqui prestada, ainda que assumidamente orientada para uma mundividência de esquerda. Porque decerto ninguém terá dúvidas de que, embora o seu subscritor seja militante de um dos partidos da maioria parlamentar, é na sua convergência que se reconhece e identifica.
Temos de estar conscientes de como nesta fase concreta da luta de classes as redes sociais têm e terão determinante importância como ferramenta de agitação e propaganda. Daí que as direitas estejam a usá-las e a abusá-las - mormente através das fake news cujo efeito se comprovou na eleição de Donald Trump! -, para cumprirem a sua agenda. Daí a urgência em que páginas como esta se multipliquem e prevaleçam como fiáveis. Além dos atuais blogues, que devem persistir no esforço contínuo de denunciarem as malfeitorias que os candidatos a donos disto tudo vão fazendo, muitos outros devem surgir para criar uma rede tenaz por onde também se exaltem as propostas políticas capazes de darem um outro sentido de decência ao mundo em que vivemos.
Em condições normais o segundo milhão só deverá ser alcançado em 2020. Se o alcançarmos antes isso significará que existe uma massa crítica importante de leitores para quem o ideário de esquerda faz todo o sentido e, identificando-se com ele, estão dispostos a contribuir para que ele se cumpra.

Animosas tendências quando à direita se temem apocalipses

1. Se antes da privatização os CTT já estavam a funcionar com muitos problemas, suscitados pela estratégia da então Administração em reduzir-lhe os custos ao máximo de forma a torná-los atrativos aos potenciais interessados, a situação tem-se agudizado desde que perdeu o estatuto de empresa pública. Passam-se dias sem que haja distribuição de correio, que depois chega acumulado - se é que chega? - e as encomendas para o estrangeiro justificam sempre o credo na boca, porque quantas prendas para os familiares entretanto se perderam?
Esta semana soube-se que o Partido Socialista está a preparar a reversão da privatização em 2020 quando as evidências quanto ao incumprimento do contrato estabelecido for demonstrado. A tal acontecer muito teremos de nos congratular, mesmo que não baste para nos sentirmos satisfeitos: houve tantas e tão injustificadas transferências de importantes empresas públicas para interesses privados, que bem gostaríamos que tal «andorinha» significasse de facto o regresso da Primavera, traduzido noutras renacionalizações…
2. Boa notícia foi também a escolha de Lisboa como o melhor destino turístico a nível mundial de acordo com quem dinamiza globalmente essa atividade. É certo que beneficiamos de muitos fatores conjunturais, passíveis de se alterarem com a mesma rapidez com que surgiram, mas o desafio de quantos têm nisso influência, exige que transformem um fenómeno de moda numa realidade bastante mais sustentável.
3. De corporação inimputável, os juízes estão a sentir-se acossados face à indignação com muitos dos fundamentos, que vêm acompanhando um conjunto de vereditos denunciadores do tipo de preconceitos arcaicos assumidos por muitos dos seus pares. Há jubilados a assinar abaixo-assinados e a Associação Sindical também veio manifestar o desconforto. O que só nos pode congratular: era só o que faltava ver um dos mais influentes poderes da nossa sociedade eximir-se ao escrutínio da opinião pública como se os seus erros mais grosseiros continuassem a ser acatados como se de incontestáveis axiomas se tratassem…
4. O debate interno no PSD continua confrangedor: os candidatos à sucessão de Passos Coelho vê demonstrando que a passagem dos anos só lhes agravou os conhecidos defeitos  sem lhes ter trazido a compensação de alguma, mesmo que débil, virtude. Compreende-se, pois, a previsão apocalítica de um deles, descrente da capacidade da duração de vida de uma organização tão envelhecida quanto envilecida.
5. A mesma decadência irreversível também parece acontecer à direita tradicional francesa, que acaba de eleger para seu novo líder um político, Laurent Wauquiez, que pouco se distingue no discurso e nos valores, da Frente Nacional de Marine Le Pen. O que não deixa de ser positivo de uma outra forma: esclarecido o equívoco de ter participado num governo dito socialista, Emmanuel Macron confirma-se indubitavelmente como o rosto definitivo dessa área ideológica, marginalizando-lhe as franjas radicais para alternativas grupusculares. Cria-se assim a fronteira a partir da qual se define quem, à esquerda, se perfilará como seu principal oponente. Jean Luc Mélanchon está a ganhar um espaço de influência eleitoral, que nunca conseguira ter até aqui, mas o Partido Socialista (de que ele já fora importante dirigente!) também precisa de renascer das cinzas. Porventura para ser parte relevante de uma maioria parlamentar, que tenha na portuguesa uma boa base de inspiração.

domingo, 10 de dezembro de 2017

As práticas difamatórias da TVI

No raspar do tacho para ver se ainda dele se pode conseguir alguma coisa, que substitua a mais do que esgotada novela em torno dos incêndios ou do desaparecimento do material militar de Tancos, a TVI foi buscar um suposto envolvimento de Sonia Fertuzinhos com uma associação onde a gestão dos dinheiros é mais do que nebulosa. Muito embora a deputada socialista tenha julgado esclarecida o seu não envolvimento no caso, a «jornalista» da TVI Ana Leal - não esqueçamos que era uma das mais diletas colaboradoras de Manuela Moura Guedes! - explorou essa ligação enlameando a reputação da difamada. Na realidade a deputada terá aceite a deslocação para participar como convidada numa conferência cuja organização - como lhe cabia fazer! - terá pago todas as despesas à associação em causa que, ao contrário do afirmado na reportagem, não teve qualquer encargo com tal iniciativa. Não houve, pois, qualquer fundo de verdade na sugestão de haver políticos socialistas a passearem-se por esse mundo fora com despesas pagas a partir de um orçamento, que deveria servir para o apoio a doentes com doenças incomuns.
Para a estação cuja direção da informação continua confiada a Sérgio Figueiredo - também não esquecer que foi quem «despediu» acintosamente o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto santos Silva, quando ali produzia comentário político - todos os argumentos são bons para manter acesa a guerra contra o Partido Socialista. Razão para ainda dele podermos esperar pior se a TVI acabasse entregue à Altice e servisse de arma de arremesso contra um governo cujo líder já evidenciou no Parlamento o escasso apreço, que ela lhe merece…
Não deixa de ser curioso o afã com que as várias televisões exploram pistas mais do que ténues de situações que possam envolver a maioria parlamentar e insistam em esquecer casos bem mais consistentes como o são a Tecnoforma, o caso dos vistos que envolve Miguel Macedo e Marques Mendes ou as tentativas dilatórias  de Duarte Lima para adiar o mais possível o regresso à pildra!

A palavra aos leitores

O texto intitulado «Dois aspetos de uma entrevista em que Catarina Martins tem razão» mereceram comentários de alguns dos nossos habituais leitores dos quais destaco, para já, três.
Carlos Sobral confirma o progressivo distanciamento, que se vem notando nas suas posições a respeito do governo de António Costa, que desejaria mais ambicioso em medidas efetivamente socialistas. Pessoalmente não é por andar mais devagar, que ponho em causa a bondade da ação governativa, porque tenho presentes os muitos condicionalismos, que se lhe opõem. E, como engenheiro que sou, sei bem quanto o atrito representado pela oposição das direitas (nas várias vertentes, desde a de Belém á da comunicação social) e pelas circunstâncias (os fogos, a seca)  pode obstar à ligeireza do movimento. O primeiro-ministro afigura-se-me pois como aquele que busca, em cada momento, o melhor lubrificante para fazer com que as coisas avancem.
Aqui fica o texto desencantado do Carlos Sobral:
O PS não tem vontade política de alterar a legislação laboral, como não tem vontade política de acabar com o regabofe dos privados na Saúde, como não tem vontade política de renegociar a dívida. O PS não tem vontade política de fazer políticas verdadeiramente de Esquerda. Ainda pensei que com António Costa isso fosse possível, mas já vi que o PS não renega o seu ADN de partido de direita.
O José Manuel Pereira concorda com a generalidade do que o texto aborda, mas discorda da relativização aí feita sobre as novidades inerentes ao que Catarina Martins dissera na entrevista. Embora também lhe esteja implícita a mesma vontade do Carlos Sobral relativamente à lentidão com que as coisas vão mudando, adivinhamo-lo apesar de tudo identificado com a atual maioria parlamentar:
 De acordo com a generalidade, em desacordo com o "tal aspecto" do "nada de novo". Claro que, em se verificando que nos tais elementos "ditos repetitivos" nenhuma evolução se verificou, eles devem e tem que ser repetidos. Como diz o ditado popular "água mole...". O BE hoje como o PCP sempre, podem ser denegridos com o termo da "cassete", mas sei que qualquer deles adoraria "colocá-la" definitivamente na prateleira. Seria um sintoma de que teria perdido a actualidade, a urgência, a necessidade. Mas não. Os problemas existem, estão para durar, e oxalá a fita dure o tempo necessário, até que a "água fure". Podem caricaturar o BE de "esquerda caviar" de "socialistas radicais" ou de comunistas não alinhados". Isso não lhes tira o mérito de serem (salvo raras excepções (às vezes tontas)) de se constituírem na expressão do pensamento mais puro e reformista de que o país precisa. Francisco Louçã, Catarina Martins, e as irmãs Mortágua, tem provado ser muitas vezes as vozes e os gritos das consciências amordaçadas. Para eles o meu respeito e admiração.
A concluir fica a posição do Leopoldino Machado, que lista um conjunto significativo de concretizações operadas pelo governo para o considerar no bom caminho. Também é essa a minha opinião:
Questões pertinentes a ter em conta...não sei bem o ADN do bloco ou do PS no atual contexto...sei é que milhares de precários da função pública e autarquias vão passar aos quadros....foi reposto salários de cerca de 20% aos trabalhadores função publica. ...vão ser descongeladas carreiras profissionais com aumentos salariais efectivos para milhares trabalhadores....foram extintos impostos ou reduzidos...aumentados salários e pensões. ..pagos milhões de dinheiro emprestado para poupança juros...sinceramente depois das calamidades de incêndios... com orçamentos sem retificativos ...reversão de privatização de empresas nos transportes já aprovadas...metro...carris...TAP. ..saneamento financeiro da CGD ...problemas graves da banca resolvidos dentro dos condicionalismos impostos pela UE. ...não sei bem se será justo não dar o benefício da dúvida ao atual governo...educação foram tomadas medidas que acabaram com as medidas de nuno crato de entregar o sector aos privados com a cessação de contratos lesivos do interesse publico...e muito mais haveria por equacionar...com todo o respeito por opiniões contudentes para com medidas aprovadas por AC e o seu governo ...eu pessoalmente penso que as coisas estão num bom caminho...questão de pessoas para mim não é importante...políticas que mexem com bem estar do povo isso para mim é o mais importante.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Dois aspetos de uma entrevista em que Catarina Martins tem razão

Catarina Martins deu uma longa entrevista ao «Expresso» onde repete os argumentos já muito seu conhecidos, quase nenhuns sem novidades dignas de nota. Para o que verdadeiramente nos importa - garantir a continuidade da atual maioria parlamentar -  nada no seu conteúdo nos pode levar a crer na possibilidade de a pôr em causa, por muito que seja esse o desejo manifesto do deputado europeu Francisco Assis, sempre apostado em ver um termo ao que lhe tem contrariado todos os seus estafados preconceitos ideológicos. Pode desgostá-lo a ele, ao presidente da República, aos desconcertados patrões da Concertação Social e respetivas marionetas  nos partidos das direitas e na quase totalidade dos órgãos de comunicação social, mas não é crível que nada ponha em causa os acordos dos  socialistas com bloquistas e comunistas até ao próximo ato eleitoral de 2019.
A entrevista contém, porém, dois assuntos controversos em que será difícil retirar razão à líder do Bloco: a legislação laboral e a designação de Maria de Belém para a coordenação da revisão da Lei de Bases da Saúde.
A Lei Geral do Trabalho chegou a ser das mais evoluídas a nível europeu quanto ao reconhecimento dos direitos nela previstos para quem está empregado por conta de outrem, mas sucessivos governos do defunto arco da governação e a traição ativa da UGT transformaram-na numa caricatura em que se atribui aos patrões o posso, quero e mando, suscetível de todas as arbitrariedades.  Se de facto, os socialistas têm uma responsabilidade significativa nesse recuo civilizacional  os quatro anos de desgovernação entre 2011 e 2015 acentuaram em muito essa involução.
Torna-se, pois, imperiosa a reversão de muitas das alterações então impostas, se pretendermos ter relações mais equilibradas entre quem manda e quem obedece, mormente limitando a precariedade e a obstrução da ação sindical dentro das empresas. Agora que as esquerdas têm uma maioria clara no Parlamento é altura de a impor em tão importante revisão da legislação por muito que se adivinhe o papel dissuasor de um Marcelo apostado em fazer de Belém o centro nevrálgico da defesa dos interesses dos que com ele se identificam ideologicamente.
As reservas emitidas por Catarina Martins a respeito da escolha de Maria de Belém para coordenar a revisão da Lei de Bases da saúde também faz todo o sentido: como se pode pôr uma raposa a tomar conta do galinheiro? É que a referida senhora está umbilicalmente ligada aos interesses financeiros ligados ao negócio privado do setor e tudo fará para que ele não seja posto em causa pela consolidação do Serviço Nacional de Saúde. A exemplo do que sucedeu com a forma como tratou do dossier Infarmed, também nesta matéria o ministro Adalberto Campos Fernandes está a agir apenas com os pés. Ademais, como provecto militante socialista repugna-me ver premiada uma das maiores responsáveis pela forma bem mais facilitada como Marcelo se viu eleito para Belém.
A História nunca poderá demonstrar o que sucederia se, como tudo o indicava, seria o Prof. Sampaio da Nóvoa o candidato oficial do Partido Socialista, mas a provável segunda volta e um novo debate em que Marcelo voltaria a ser desmascarado na sua efetiva personalidade - como sucedeu no debate da primeira volta -  ter-nos-ia dado uma outra realidade, que não esta, marcada pelas ameaças subtis de quem se guindou ao cargo para sabotar a ação governativa da atual maioria...


Mau tempo no canal das direitas atoleimadas

No «Expresso» Pedro Santos Guerreiro, seu diretor, volta aos incêndios como tema do seu editorial. Compreende-se: numa altura em que as direitas nada têm de substantivo para pôr em causa o governo, sobretudo quando Mário Centeno ganha tão significativo relevo na política europeia e o próprio António Costa é reconhecido como um dos mais influentes líderes atuais, resta aos frustrados altifalantes de quem está na mó de baixo persistir na exploração das tragédias de Pedrógão Grande e de 15 de outubro. O contínuo abuso dos mortos nos incêndios será o que resta às direitas para parecerem ter algo com que possam fazer oposição ao governo. E sabem que, nesse sentido, Marcelo tudo fará para lhes ir propiciando os abraços e selfies oportunos para manterem o tema na agenda.
No entretanto vem-nos Ângela Silva contar no mesmo semanário como Marcelo descrê totalmente de Rui Rio ou de Santana Lopes como potenciais redentores do seu partido, já que as suas esperanças andam a depositar-se em Carlos Moedas para depois de 2019. Daí que o comissário europeu mereça duas páginas desse jornal e seja dado como um convicto opositor do austericídio, ele que desempenhou tão ativamente o papel de guardião de tal política durante os anos da troika.
A mesma jornalista também foi incumbida de nos revelar que Marcelo vai manter uma firme vigilância sobre o Ministério das Finanças, sobretudo para evitar que, na ausência de Centeno em Bruxelas, Mourinho Félix & Cª criem um Orçamento para o ano eleitoral de 2019, que facilite a vitória do Partido Socialista por maioria absoluta. Ora Marcelo sabe que, a tal acontecer, pode meter a viola no saco e zarpar, porque fica privado de cumprir o seu desígnio, aquele que Carlos Carvalhas tão bem enunciou ao notar que “para os pobres e os excluídos, o Presidente da República dá os selfies e os sorrisos e favorece a solidariedade e a caridade, para os grandes faz pressão para que continuem a ter os seus milhões intactos”.
Há, porém, a constatar que a vida não lhe anda a correr de feição: até o insuspeito Miguel Sousa Tavares o dá como incompreensivelmente derrotado com a eleição de Centeno questionando se “terá Marcelo medo ou ciúmes do prestígio internacional do Governo?”.
Quem parece indiferente ao assunto já é Pedro Passos Coelho, ao que parece ocupado a escrever um livro a autoelogiar-se sobre a sua (des)governação do país entre 2011 e 2015. Nesse sentido Cavaco deixou escola ao lançar a moda de impor lamentável condenação de umas quantas árvores para que os seus relatos autobiográficos acabem a ganhar pó nos armazéns de uma qualquer desgraçada editora incumbida de lhe prestar o favor ao ferido orgulho. Mas a falta de disponibilidade de Passos Coelho não parece ficar por aí: anda ativamente à procura de emprego e já terá ido oferecer-se à consultora Deloitte para ser seu consultor. Ao que parece o possível patrão já se desmarcou de tão infausta possibilidade.
Vale ainda a pena retirar da leitura do semanário de Balsemão a enésima confirmação de dirigentes do CDS andarem continuamente a lembrar aquela fábula do sapo, que queria inchar o bastante para pedirem meças a um touro em questões de tamanho. A propósito da humilhação imposta por António Costa a Cristas no último debate quinzenal, Telmo Correia veio ufanar-se de ser o CDS o adversário principal do governo. É caso para dizer que já a formiga tem catarro!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Da cabeça oca de Cristas ao merecido PIM a Marcelo

1. Segundo contam os que já conheceram o conteúdo da carta endereçada por Cristas aos portugueses, ela pede-lhes ideias e opiniões, que a ajudem a criar aquilo que manifestamente não tem: uma Visão minimamente coerente para o futuro do país. Não espanta que, no debate parlamentar desta semana, António Costa a tenha achincalhado com elegância, ditando-lhe a impossibilidade de ser tida ou achada para o que quer que seja, tendo em conta a sua conduta continuamente mal educada, quase sempre ofensiva para com os que assumem as responsabilidades governativas.
Irresponsável e incompetente como ministra, Cristas prossegue na rampa descendente da sua irrevogável nulidade.
2. É uma das mais elucidativas demonstrações do que significou o fervor privatizador das direitas entre 2011 e 2015: desde a data da sua entrega aos acionistas privados os CTT já perderam metade do seu valor em Bolsa. O serviço anda péssimo, o banco tem-se revelado um flop e os portugueses perderam um ativo, que não só lhes garantia significativos dividendos anuais, como veem afundar-se uma empresa cujos serviços nunca deveriam ter saído da esfera pública.
Como sempre sucede em muitas situações da vida, atirar abaixo uma empresa desta dimensão é muito fácil. Reerguê-la dificilmente poderá vir a tornar-se num projeto nacional tendo em conta os custos inerentes a tal recuperação.
3. Já se compreendeu que a decisão do PS em infletir na questão da taxa sobre a produção de eletricidade por energias renováveis ameaçaria os interesses nacionais de uma forma que os bloquistas decerto entendem, mas que fingem assim não ser por mero tacticismo eleitoralista.
Para que a conta da eletricidade baixasse um pouco poderia o país arriscar-se a ver afastarem-se investidores estrangeiros fazendo subir significativamente as taxas de juro? Um sinal desse tipo causaria danos significativos na globalidade dos interesses dos cidadãos, gerando riscos desnecessários.
A proposta do Bloco faria sentido numa sociedade ideal, mas naquela em que nos inserimos só um irresponsável trocaria alguns trocos imediatos por imprevisíveis prejuízos futuros.
4. Tenho amigos que me criticam por serem os raros os dias em que aqui me poupo ao exercício da má-língua relativamente a Marcelo Rebelo de Sousa: bem pode ele fazer isto ou aquilo em nome de todos os portugueses, que de mim ele não leva nenhum mandato para me representar no que quer que seja. Para além de nunca ter simpatizado com a criatura - que coloco nos antípodas do tipo de personalidade desejável para o cargo que infelizmente ocupa -, ele será sempre o culpado por o País ter perdido a oportunidade de ter por mais alto magistrado alguém da dimensão cívica e cultural de Sampaio da Nóvoa.
No entanto, a criatura vai-se denunciando dia-a-dia por quanto vai fazendo e agora soma mais outra atitude elucidativa sobre quem é: ao ter contratado para seu assessor o capanga Zeca Mendonça, que todos conhecemos das imagens televisivas de o vermos pontapear um jornalista, Marcelo mostra-se fiel aos seus amigos arranjando-lhes bons empregos. O Palácio de Belém está transformado em coio onde se abrigam chusmas de gente conotada com o PSD ou o CDS de acordo com a visão muito peculiar de Marcelo quanto à retórica mentirosa de assim melhor representar todos os portugueses. Neste caso em concreto cumpre-se o provérbio: diz-me quem nomeias, dir-te-ei quem és...
Se Almada Negreiros em tempos idos consagrou o Dantas com todos os desqualificativos de que o julgava merecedor, Marcelo merece igualmente um similar e vibrante PIM!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Há-de Marcelo ser quem não é? Um Democrata, entenda-se...

Sobre a eutanásia e o suicídio assistido a minha posição é muito clara: totalmente a favor. O que significa que, sendo o único dono do meu corpo, pretendo ter o direito de, assim a saúde - ou a falta dela! - a tal me obrigue, quero ter o direito de decidir sobre o momento de morrer, poupando-me a sofrimentos desnecessários. E que não me venham com a história da evolução dos cuidados paliativos, porque a questão não se prende apenas com o deixar de sentir dor, mas sobretudo com a impossibilidade de colher da vida quanto ela hedonisticamente me possa oferecer.
Posso admitir que terá sido exagerada a atitude contada por um colega meu de profissão, que perdeu um dos avôs debaixo de um comboio na linha de Sintra por ter perdido a capacidade de ereção e deixar, assim, de ter o prazer sexual a que se dera gratamente durante décadas, mas se o senhor via nisso o seu verdadeiro sentido da vida, quem somos nós para o condenar? Em tal situação teria sido preferível poupar-lhe a forma terrível e, decerto extremamente dolorosa, como morreu e ter-lhe facilitado a solução química adequada para dizer adeus sem grande dor.
Vem isto a propósito de mais uma marcelice: se havia quem tivesse esquecido o seu nefasto papel no adiamento por vários anos da aprovação da interrupção voluntária da gravidez a muitas mulheres, assim condenadas a, por vários anos, recorrerem às parteiras de vão de escada, pondo as suas vidas em perigo - infelizmente nem  ele, nem António Guterres foram intimados a responderem pelas mortes das mulheres que terão desaparecido em tais circunstâncias nesse hiato trágico! -  o selfieman já vai avisando que, qualquer dos previstos três diplomas a serem em breve apreciados no Parlamento sobre aquelas matérias não terão dele apenas uma apreciação jurídica. Por outras palavras, Marcelo prepara-se para voltar a demonstrar a sua essência preconceituosa contra a vontade de uma significativa percentagem de portugueses, que se estão borrifando para a forma como gente religiosamente motivada queira morrer, mas exigem que não se intrometam numa decisão, que lhes cabe a si por inteiro.
Temos, pois, mais uma demonstração dos motivos porque nunca deveríamos ter de aturar um filho de salazarista como presidente da República. Porque, como se canta num tema de Sérgio Godinho, há-de-alguém ser quem não é? Marcelo mostra que está longe de ser um democrata no que isso significa respeitar as opiniões alheias quando elas contradizem as suas sectárias convicções.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Uma eleição promissora

Agora que uns quantos - de Marcelo Rebelo de Sousa a Carlos Costa, de Marques Mendes a Passos Coelho, sem esquecer Teodora Cardoso -, já deverão estar a recuperar da crise de azia, que lhes terá suscitado a eleição de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo, e que muitos apreciadores da maioria parlamentar terão reagido com o entusiasmo, que terá faltado às direções políticas do Bloco de Esquerda e do PCP, é altura de olhar para aquilo que o ministro das Finanças português se compromete a cumprir no novo cargo: “Questionar, encontrar os erros, trazer mais abertura a estas discussões”.
Dificilmente, pois, encontrarão os paladinos da austeridade um terreno fértil para darem como inquestionáveis axiomas o que demonstrou ser um erro de palmatória, se não mesmo um crime indesculpável para quem lhe arcou com as consequências, sobretudo os povos grego, espanhol e português.
Revelando a sua experiência enquanto secretário de Estado, que terá vivido o período mais difícil de demonstração da bondade da alternativa proposta pelo novo governo contra essa miopia schaubliana, Fernando Rocha Andrade prevê o alcance da mudança na titularidade da coordenação dos ministros das Finanças da zona euro: «As decisões do Eurogrupo são enquadradas e condicionadas pelas posições da tecnocracia, que são verdadeiras opções políticas para a zona euro disfarçadas de verdades técnicas. À maioria dos políticos, mesmo ministros das Finanças, falta muitas vezes a capacidade de questionar essas opções. Mário Centeno, que tem a competência para as discutir, e aplicou com sucesso uma alternativa, está agora na posição de confrontar essa tecnocracia e de lhe perguntar, relativamente a cada uma dessas opções: “Porquê?” Isso é bom para Portugal — e é bom para a Europa.» (Público, 5/12/2017)
Daí que confie na mudança representada pelo facto de «de as reuniões do Eurogrupo passarem a ser dirigidas por alguém que aplicou com sucesso uma política que visa garantir não só finanças públicas sustentáveis, mas também um euro socialmente sustentável.»
Nos próximos meses Centeno poderá ser determinante para intervir positivamente no possível alívio da dívida grega, nos planos de reforma da zona euro e nas mudanças nas instituições e nas regras orçamentais europeias.
«O que nós agora ganhámos foi a possibilidade de trazermos [para o debate sobre a construção europeia] um conjunto de princípios que são do PS, estão no programa de governo, e em que nada prejudicam a condução da política do Governo», disse na conferência de imprensa subsequente à sua eleição.
Aquilo que Dijsselbloem, mais do que não saber só sabotou -  fazer do euro uma ferramenta essencial na convergência real das economias que partilham essa moeda - poderá vir a ser concretizado por Centeno, através da harmonização fiscal, impedindo que alguns países como a Irlanda, o Luxemburgo ou a Holanda prossigam com o dumping, que justifica a deslocalização de grandes empresas para os seus territórios. Assim como poderá ganhar expressão o financiamento europeu de parte dos subsídios de desemprego em caso de crise num determinado país.
Avanços decisivos nessa direção  suscitarão um novo élan no entusiasmo pela União Europeia. Algo, que se perdeu nas últimas décadas.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

E se, a exemplo da Al Qaeda, também o Daesh constitui uma invenção ocidental?

E se o discurso anti-Daesh dos Estados Unidos não fosse mais do que uma farsa destinada a escamotear uma estratégia, que foi criada durante os mandatos de Obama e tinha por objetivo acabar com um dos poucos regimes laicos ainda existentes no Médio Oriente? De facto não se compreende como os países da NATO têm diabolizado Bashar al-Assad e, ao mesmo tempo, se têm mostrado tão complacentes com regimes que, nessa mesma região, não lhe ficam atrás no recurso à violência para manter o poder. Pelo contrário são tratados com todas as mesuras pela Casa Branca e pelos principais vendedores de armamento na União Europeia, mormente a França e a Alemanha. Como poderia a Casa Branca denunciar os muitos crimes da ditadura saudita se ela se revela tão boa cliente do seu complexo industrial-militar?
As fundamentadas dúvidas sobre as estratégias norte-americanas na Síria e no Iraque tornam-se ainda mais elucidativas quanto se sabe ter sido sob proteção dos seus militares, que os dirigentes do Daesh e suas famílias saíram incólumes de Raqqa, quando a capital do califado foi tomada pelas forças curdas. Que justificação poderá haver para que criminosos de tal gabarito tenham conseguido escapar ao merecido julgamento por quanto terão ordenado, organizado e concretizado de forma a terem deixado um saldo macabro de milhares de vítimas? Até que ponto serão críveis as notícias de que alguns desses terroristas terão encontrado facilidades de regresso aos países de origem na Europa com o objetivo de ali organizarem atentados, possibilitando mais poeira para os olhos distribuída pela propaganda norte-americana, assim capaz de manter viva uma retórica antiterrorista, afinal por si mesma financiada? E que achar do enorme arsenal encontrado pelas forças sírias e seus aliados russos em zonas conquistadas ao Daesh, e constituídos por armas ainda por estrear de origem norte-americana e israelita.
Não precisamos de ler John Le Carré para saber que muitos dos acontecimentos na política internacional constituem aparências sem nexo com o que a clandestina realidade impõe como verdade dos factos. O Pentágono, a CIA e outras agências dos EUA têm sido especialistas em criarem contrainformação destinada a iludir milhões de crédulos quanto à justeza das suas atividades.
Cabe-nos recorrer ao método dos antigos sofistas e colocar as perguntas, que nos possam alertar para leituras alternativas às que nos querem impor como inatacáveis...