segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O setor imobiliário e a crise portuguesa (1)

“Tal como na era pré-industrial, o imobiliário voltou a ser o investimento mais seguro e rentável. Não se trata já do investimento com recurso ao crédito, por parte dos assalariados, de habitações para residência e de valor modesto, como nos anos que precederam a crise iniciada em 2007-2008. Agora são as elites que procuram imobiliário de luxo, aproveitando condições como os ‘vistos dourados’ e tributações reduzidas, anunciando uma sociedade mais desigual e de transmissão hereditária da riqueza”.
Agora que outubro acaba e, com novembro, está quase a surgir um novo número do sempre imprescindível «Le Monde Diplomatique«, vale a pena voltar ao que ainda possa ser encontrado nas bancas e abordar o texto nele publicado por Pedro Bingre do Amaral sobre o regresso ao patrimonialismo, cuja sinopse se cita acima.  Pelo seu rico conteúdo não poderá ser esgotado num único post.
Temos, para começar, uma fronteira no ano de 2007, que foi quando rebentou a bolha imobiliária nos Estados Unidos rapidamente transposta nos seus efeitos para o lado de cá do oceano sob a forma dos resgates a que se sujeitaram Portugal, a Irlanda, a Grécia e a Espanha.
Até então era explícita a situação caracterizada por um recurso quase universal à aquisição de casa própria por quem possuía emprego aparentemente estável e conseguia acesso fácil ao crédito bancário. Perante a falta de casas para alugar a preços compatíveis com os seus rendimentos, as famílias hipotecavam todo o seu futuro ao sonho de se sentirem proprietárias dos seus espaços, mesmo situados em cidades dormitórios distantes do seu local de trabalho.
Só que tudo mudou desde então: “o resultado foi a construção de um enorme stock de habitações do segmento médio, cujos vastos excedentes já não podem ser adquiridos pela geração seguinte de uma classe média já sem acesso a hipotecas - a tal ponto que o Banco Internacional de Compensações prevê uma desvalorização de 80% do parque imobiliário até 2050.”
Ainda sem a dimensão do que se pode ver em Espanha onde existem grandes bairros de prédios e moradias por concluir em torno das grandes cidades, também entre nós se verifica um aumento significativo da oferta de casas devolutas por vender em comparação com uma procura, que se vai tornando mais exígua com a estagnação demográfica, mormente da juventude obrigada por Passos Coelho a emigrar e que constituiria o mais importante contingente dos potenciais compradores de tais residências.
Pedro Bingre do Amaral atribui a essa realidade uma relevância significativa no aumento da dimensão da nossa crise recente: “Em 2013, o Banco de Portugal ordenou aos bancos portugueses que reduzissem imediatamente entre 15 a 60% o valor das avaliações dos imoveis que se encontravam nos balancetes das suas carteiras, pondo a nu a míngua de garantias colaterais, que estas entidades passaram a poder oferecer aos seus credores. O endividamento privado tornou-se, na prática, endividamento público, e o serviço de toda esta dívida tornou-se uma grilheta para a economia e a sociedade.” 
Maria Helena Vieira da Silva

A questão racial nos EUA ainda a motivar polémica

Além da reação do José Manuel Pereira, aqui registada em post anterior, o texto dedicado à incapacidade da sociedade norte-americana para lidar com a sua questão racial tem merecido novos comentários, que ajudam a complementar, e até corrigir, o que nele se definia.
Com a habitual ressalva de definir parágrafos, para melhor facilidade de leitura, aqui fica o contributo do Reinaldo Ribeiro, que nos ajuda a situar a origem do problema na especificidade religiosa dos pais fundadores da nova nação:
O texto de Jorge Rocha é verdadeiro e a resposta de J. M. Pereira também, mas não falam do problema religioso que, para mim, é o cerne da questão.
Explico: os Pilgrims Fathers eram calvinistas e o calvinismo no seu articulado dizia que 'só alcançará o reinos dos Céus aquele que conseguir fortuna na Terra'.
Desde então, os americanos substituíram as próprias pupilas por cifrões. Esta prática mantém-se até hoje e sempre em 'crescendo'. A questão da escravatura e/ou o problema racial nunca existiu para os americanos brancos, porque os 'negroes' eram uma sub-espécie ou uma simples mercadoria. Os 'indios' americanos eram apenas 'selvagens', já Custer dizia que 'indio bom é índio morto', porque não obtinham qualquer vantagem com eles.
Apesar da mão sobre a Bíblia ou sobre o peito para cantar o hino (prática seguida pelas novo/boçais gerações portuguesas) nada mais é do que uma hipocrisia sem fim, pois o seu verdadeiro deus não é o da Bíblia nem é a Pátria, mas o omnipotente deus Dinheiro ou 'Dollar'.
Relativamente  ao comentário do Jaime Santos, ele tem logo à partida razão num erro factual do texto da minha autoria: de facto Lafayette esteve a ajudar os norte-americanos na sua Guerra de Independência contra os britânicos, antes da Revolução Francesa. No entanto, integrando-se no movimento iluminista - que inspirou e fundamentou muitas das principais conquistas de tal transformação profunda da história europeia! - decerto revia-se nos princípios que viriam a nortear  a  Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
Mas, ao contrário do José Manuel Pereira e do Reinaldo Ribeiro, de quem me sinto ideologicamente mais próximo, as minhas divergências com o Jaime Santos têm a  ver com a segunda parte do seu texto: nem admiro particularmente uma nação a quem atribuo um reiterado comportamento imperialista, apenas destinado a servir de facilitador às oligarquias capitalistas, que financiam e elegem os seus líderes, como não diabolizo de forma alguma o líder russo por muito que ele nada tenha a ver com o que defendo politicamente. Mas reconheço-lhe clara razão na falta de escrúpulos com que o ocidente faltou aos compromissos tidos em 1989, quando se convencionou um acordo de cavalheiros, que impediria a então CEE e a Nato a estenderem a sua influência até às fronteiras com a própria Rússia.
Acredito, aliás, que a falta de Democracia se equipara nos EUA (onde só consegue ser eleito quem tem uma carteira particularmente recheada, quer por fortuna própria, quer pela dos que se dispõem a tê-lo como lobista dos seus interesses corporativos) e na Rússia. Em ambos os casos há simulacros de eleições justas e democráticas, mas em qualquer deles fica no poder quem os donos das respetivas economias querem que ganhe. Mas com a amizade e o agradecimento por manter esta polémica, aqui fica o texto do Jaime Santos;
Relativamente ao seu texto inicial, faço notar que a Revolução Americana antecede a Francesa e que o Marquês de Lafayette era então um soldado leal de Luís XVI (e foi durante toda a sua vida um liberal moderado). Aliás, a ajuda dada pelo Reino de França aos nascentes EUA, que se revelou essencial para ganhar a guerra de Independência, contribuiu para a penúria financeira do primeiro, que levou em grande medida à Revolução Francesa. E o Reino de França, tendo embora abolido a escravatura na metrópole no sec. XIV, era tão esclavagista nas colónias como a Grã-Bretanha...
Foi o governo da Primeira República Francesa que aboliu a escravatura em todos os territórios, depois reinstituída por Napoleão em 1802, o que levou à revolta e à independência do Haiti, a segunda no hemisfério ocidental. E existiu durante a Revolução Americana e posteriormente uma profunda contenda entre o imperialista e progressista Hamilton, anti-esclavagista, e os conservadores, agrários e esclavagistas Jefferson e Madison (mesmo Jefferson tinha uma posição ambivalente em relação à escravatura), e as respetivas fações.
E cabe lembrar que os americanos aboliram o tráfico marítimo de escravos muito antes de Portugal, pelo que não temos grande moral para os criticar, nós que contribuímos talvez mais do que ninguém para esse comércio sangrento).
É público e notório que existe um racismo profundo nos EUA, mas eu pergunto-me sobre o que se passa na Europa? Onde estão os nossos Obamas? Tirando o exemplo da França onde desde há muito pessoas de cor têm ocupado altos postos no governo (e convém lembrar o exemplo do General Dumas, pai do célebre escritor, que é ainda hoje o oficial de mais alta patente de cor a ter servido num exército europeu, no sec. XVIII (!) ) e em menor grau da Itália, e agora felizmente de Portugal, os governos europeus são todos muito branquinhos...
Só em países onde existe apesar de tudo um genuíno progresso nas relações raciais e na integração dos migrantes é que fenómenos de cariz reacionário são de observar (o que também ajudará a explicar a FN na França).
Por isso, contrariamente ao José Manuel Pereira, eu considero o legado americano apesar de tudo positivo e pergunto-lhe quais são os exemplos que ele gostaria de dar onde a civilização europeia pode dar lições aos americanos.
Portugal, pelas razões apontadas, certamente que não pode, a Bélgica tendo em conta o genocídio no Congo no princípio do séc.. XX, também não. E os (maus) exemplos sucedem-se, até os Britânicos estão cheios de sangue nas mãos das suas guerras coloniais.
Os EUA são um grande País, com um sistema político disfuncional e simultaneamente admirável no exercício da Liberdade. O seu sistema económico é simultaneamente profundamente inovador e gerador de profundas desigualdades. Claro, comportam-se exatamente como outras grandes potências imperialistas e só se distinguem delas por a sua área de influência ser mesmo o mundo inteiro.
A Rússia de Putin é bem mais atemorizadora, porque lá o Presidente nem sequer está sujeito ao controle das restantes instituições. Aliás, é bom de ver que onde no Ocidente impera a hipocrisia, Putin pode dar-se ao luxo de ser absolutamente cínico, não precisa da hipocrisia para coisa nenhuma, porque não tem que convencer ninguém.
Para mim, o anti-americanismo reinante na Europa em alguma Esquerda e na Extrema-Direita (acompanhado pelo seguidismo tradicional da Direita Tradicional) tem que ver com uma coisa simples. O Capitalismo Americano ajudou a enterrar pela via militar o Fascismo (o que explica o ódio da Extrema-Direita à América Liberal e imperialista de Roosevelt, Kennedy, Clinton e Obama, mas não à isolacionista de Trump) e enterrou (sobretudo) pela via económica o Socialismo Real, que agora algumas vozes insistem em querer, ao melhor estilo dos filmes zombies, desenterrar do caixote do lixo da História... E isso, essa Esquerda não lhe perdoa... Em lugar de reconhecer as falhas congénitas de tal sistema, prefere ao invés culpar os seus adversários...
John Trumbull



domingo, 30 de outubro de 2016

Sensatez e inteligência contra o medo e a miopia

1. Olho para as notícias das nove da noite e dou com Jerónimo de Sousa a dissociar o PCP da ampla coligação engendrada pelo PSD para pôr em causa a reestruturação da Caixa Geral dos Depósitos.
Como aqui tenho escrito, venho manifestando o agastamento com a forma pouco inteligente como, neste caso concreto, vejo as esquerdas desunidas no essencial: depois da direita ter levado o grande banco estatal quase até à falência de modo a facilitar-lhe o velho projeto de o privatizar, seria estulta a colaboração do PCP e do Bloco para que tal projeto renascesse das cinzas.
Após este reencontro do PCP com o que de melhor tem a atual governação, fundamentada na maioria das esquerdas no parlamento, será bom que o Bloco o imite nessa sensatez.
2. Em Espanha Mariano Rajoy está bastante enganado se pensa ter passado do purgatório para o celestial paraíso. A sua rejeição junto dos compatriotas é tão significativa, que Pedro Sanchez agiu com grande inteligência ao renunciar ao cargo de deputado. É que perdendo a tribuna parlamentar, poderá ter ganho a do próprio partido, resgatando-o da linha seguida pelos pupilos de Felipe Gonzalez, cujo envelhecimento está longe de significar a assumpção de uma maior sageza.
Custa-me constatar como certos socialistas mostram-se incapazes de analisar as dinâmicas do que se vai passando um pouco por toda a Europa traduzidas na irrelevância dos dispostos a deitarem-se na mesma cama com os mais empedernidos neoliberais, e no lento, mas sustentado crescimento de quantos regressam às matrizes identitárias e olham para as relações de forças em cada sociedade de acordo com o estado presente da luta de classes.
3. Na sua crónica dominical do «Jornal de Notícias», Manuel Carvalho da Silva dá uma explicação plausível para o nervosismo de Schäuble ao fazer do governo português o seu ódio de estimação. É que as mudanças eleitorais na Alemanha, constatadas em sucessivas eleições para os seus diferentes Estados, tornam plausível a séria possibilidade de uma grande coligação capaz de unir o SPD, o Die Linke e os Verdes a médio prazo. Ela já existe em Berlim, e pode extravasar da capital para o conjunto do território germânico. Em tal situação, o partido de Schäuble e de Merkel ficaria numa situação semelhante ao do PSD português: sem líder carismático, ver-se-ia condenado a longa travessia do deserto. Algo que começa a perspetivar-se em Portugal onde o semanário de Balsemão, já equaciona a possibilidade de ver esta solução governativa para além de 2019, cobrindo os eventuais dois mandatos de Marcelo na presidência.
4. Não surpreende que o referido semanário comece a distanciar-se progressivamente de Passos Coelho e a promover a eventual candidatura de Rui Rio ao seu lugar. Com pertinência, o seu diretor,  Pedro Santos Guerreiro, interroga-se sobre os paradoxos do discurso político do suposto líder da Oposição. “Passos dizer frases como ‘o país está bastante pior, embora as pessoas não estejam ainda bem conscientes disso’, assenta no raciocínio que levou Luís Montenegro a afirmar uma vez que ‘a vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor’: o de que as pessoas nunca sabem a realidade. O que é a realidade de um país senão as pessoas?”


Michelangelo Pistoletto

A irresoluta questão racial nos EUA - o comentário do José Manuel Pereira

 De facto os EUA mudaram muito pouco (ou nada). Como aquele ditado bem português (quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita), os States cresceram tecnologicamente, financeiramente, mas tudo o resto continua tao mau, como mau era o ser e a génese dos seus primeiros colonos. Exterminaram uma etnia autóctone, da qual preservam ainda alguns espécimenes em zoológicos puros para folclore. O apartheid existe, é rácico, é étnico, é genético. Cresceram também com a mentira do petrodólar, com a intriga e com a ambição desmedida da conquista e domínio, sem fronteiras, sem limites, sem vergonha.
Os EU são um pais policial e policiado em que 50% ou mais da população vigia e controla o resto e o resto do mundo Criam genocídios e chegam a imolar o seu próprio povo para fazer passar uma ideia ou alimentar um odio interno visceral à sua próxima vitima internacional. Mas ja pouco me surpreende.
O que para mim é de facto angustiante é o seguidismo das culturas ancestrais europeias e orientais que ainda vislumbram naquela selva o êxito do self made man e importam o vírus do sonho americano. Afinal o negro na casa branca não mudou nada. A mulher também não vai fazer diferença e se a alternativa forem "Trumps" então estamos conversados para este seculo. A ver vamos, para o XXII se la chegarmos.

Deslealdades, lusofonias e ressurreições

1. Desde o primeiro momento, que fui um entusiasta desta maioria parlamentar mas, infelizmente, vou constatando os sinais de uma degenerescência na relação entre os partidos que a constituem com a deslealdade a ser cada vez mais uma evidência. Aspirava a ver perdurado um tempo novo com as esquerdas seriamente empenhadas em demonstrarem a viabilização de um projeto comum e ele torna-se cada vez mais distante.
O melhor exemplo de que isso está a acontecer é o do financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais. Uma vez mais, e sabendo como a situação financeira do PS está complicada, são os partidos das esquerdas a fazerem o jeito à direita para quem o melhor seguro de vida será a sua inoperacionalidade por falta de recursos.
A Democracia tem um custo e ele passa pelo financiamento dos partidos pelo Orçamento Geral do Estado e de acordo com a sua representatividade, defendeu o Pedro Marques Lopes no «Eixo do Mal», só acedendo complementarmente à existência de quotizações dos militantes. A alternativa, ou seja, partidos dependentes de financiamentos de empresas ou de interesses corporativos, só tornarão essa Democracia num simulacro como sucede nos Estados Unidos onde cada candidato a um cargo público, desde xerife ou promotor de uma pequena cidade até a quem aspira à Casa Branca tem de se munir previamente de um orçamento avultado e de quem lho possa financiar. Com o que de falta de liberdade de ação isso implica.
Será isso que os nossos políticos, mormente os das esquerdas coligadas momentaneamente ao PS pretendem?
2. Sobre as vantagens da existência da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa - haveria muito a discutir, aproveitando o ensejo de mais uma cimeira a decorrer por estes dias em Brasília. Mas tudo ainda causa maior espanto quanto se sabe de nela ter entrado a ditadura de Obiang - há quase quarenta anos no poder! - enquanto outros países «lusófonos», como as ilhas Maurícias, a Namíbia, o Senegal, a Turquia, o Japão e a Geórgia têm aí assento como observadores. Estatuto que se prepara para ser, igualmente, atribuído à República Checa, à Eslováquia, à Hungria, à Costa do Marfi m e ao Uruguai.
Com tanto país «lusófono» podemo-nos admirar com estas malhas que o Império tece!
3. Tendo sido um líder fraco, por se ter visto acossado pelos discípulos de Felipe Gonzalez desde a primeira hora - mormente pela líder andaluza Susana Diaz, que esse setor conotado com a Terceira Via pretendia efetivamente ver à frente do Partido - Pedro Sanchez poderá ter ganho segunda vida com a sua demissão de deputado e a implícita candidatura às primárias, que decidirão a nova liderança.
Se a repetição das eleições poderia ser complicada para o PSOE - muito embora as sondagens conhecidas tenham em si muito que suspeitar, nomeadamente as encomendadas pelo  «El Pais», que passou a hostilizar Sanchez depois de nunca o verdadeiramente ter aceite como legítimo líder socialista! - agita-se um papão, que poderá não fazer qualquer sentido. É que Rajoy tinha uma janela de oportunidade muito curta para ser empossado como presidente do governo espanhol, agora que a Justiça prepara-se para esmiuçar detalhadamente os muitos casos de corrupção relacionados com o PP e com alguns dos seus mais próximos colaboradores dos últimos anos.
A ameaça de dissolução do parlamento espanhol a partir de maio por sua iniciativa será muito improvável, porque a dimensão dos escândalos tenderá a acossá-lo no seu frágil reduto. Será, então, possível a Sanchez, tão-só reconquistada a liderança do partido, pôr a render a insistência com que agora quis forçar a rejeição da direita no poder.
Malangatana

A irresoluta questão racial nos States

As mortes violentas de muitos negros nos últimos meses, causadas por polícias com o dedo demasiado ágil no gatilho, demonstra como pouco mudou numa América, que se está a despedir de dois mandatos de uma Administração pela primeira vez liderada por um não-branco. Deste lado do Atlântico tendemos a esquecer o quão violenta foi a história da população de cor, primeiro sujeita à escravatura e depois ao racismo mais abjeto.
Os pais fundadores da nação, que tanto se tinham deixado influenciar pelo ideário da Revolução Francesa neles inculcado por Lafayette, “esqueceram-se” de contemplar na sua Constituição, tão pródiga nos conceitos de liberdade e igualdade, essa “instituição particular”, que era como Thomas Jefferson designava a escravatura.
Durante todo o século XIX vai-se criar insanável abismo entre o nordeste industrializado e os Estados do Sul onde os campos de algodão e de tabaco utilizavam mão-de-obra intensiva de escravos sujeitos às maiores brutalidades.
Quando o republicano Lincoln ganhou as eleições em 1860, os esclavagistas rejeitaram a anunciada abolição e declararam-se independentes.  Cinco anos depois, derrotados em batalhas sangrentas, tiveram de cumprir a 13ª emenda à Constituição, que acabava com a jeffersoniana instituição.
Durante dez anos, os da «Reconstrução», tudo pareceu entrar na normalidade: negros candidataram-se às eleições e foram eleitos com base na regra de um homem, um voto. O pior foi quando os exércitos unionistas deixaram o sul em 1877 permitindo que os antigos donos dos escravos criassem legislação cada vez mais segregacionista nos transportes, nas escolas, nas casas de banho e nos cemitérios, ao mesmo tempo que se dificultava progressivamente o acesso dos negros à participação eleitoral. Mormente através das ameaças físicas perpetradas pelo Ku Klux Klan. 
Entre 1880 e 1950, mais de quatro mil homens e adolescentes negros foram linchados publicamente por turbas racistas. Muitas dessas atrocidades foram testemunhadas por famílias inteiras, que participaram como se se tratasse de inocente entretenimento. Mais de um quarto desses crimes tiveram origem em acusações, quantas vezes infundadas, de agressões sexuais a mulheres brancas.
Esse mal-estar levou populações inteiras de cor a mudarem-se para os Estados do Norte para aí se proletarizarem nas grandes fábricas de Chicago ou de Detroit. Em vez de discriminados por leis celeradas, passaram a sentir-se oprimidos através da desigualdade na distribuição de rendimentos.
O racismo perdurou muito para além do fim da escravatura. Em 1896 o Supremo Tribunal garantia a legitimidade da segregação racial. Entre as duas guerras os negros alistados no exército não recebiam armas pelo medo do que com elas pudessem vir a fazer.
Será preciso aguardar pelos anos 50 para que a recusa de Rosa Parks em levantar-se do assento do autocarro onde se sentara ou a enorme marcha pelos Direitos Civis convocada por Martin Luther King em 1963 para que o poder federal agisse em conformidade com a Constituição: no ano seguinte Lyndon Johnson declarou ilegal a discriminação racial. Mas, mais de meio século entretanto decorrido, os factos comprovam ainda existir uma grande distância entre a realidade e o cumprimento da lei. 
Auguste Francois Biard 

sábado, 29 de outubro de 2016

Carisma à esquerda, é fundamental

Neste sábado andamos a deparar com «não notícias» e com «notícias absurdas«.
Nas primeiras surge a enésima sobre Rui Rio estar a preparar-se para substituir-se a Passos Coelho à frente do PSD.
Já foram tantas as ocasiões em que ele disse que avançava e não avançou! Quem ainda acredita nessa possibilidade? E, passados estes anos de travessia no deserto sem que se lhe tenha conhecido um pensamento com substância para projetar o país numa qualquer direção, quem ainda terá pachorra para o ouvir?
Deixem lá ficar o Passos Coelho, que está muito bem no retrato, que até o Schäuble continua a torcer por ele!
Outra não notícia é a convicção de António Domingues de estar a respeitar escrupulosamente a lei. Tornar-se-ia absurda, se ele e a sua equipa batessem com a porta e deixassem o país a braços com um súbito agravamento da crise no seu setor bancário. Em tal situação só faltaria que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa tivessem o despudor de reiterar juras de amor à CGD como banco público, quando, nos últimos dias, tudo têm feito para sabotar essa condição.
Absurda é, igualmente, a notícia da eleição da Hungria para o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. É que olha-se para o comportamento de Victor Orban à frente do governo húngaro e aquilo que nos vem logo à colação é o seu elevado «respeito» pelos direitos da Oposição e pelo «tratamento humanitário» dos refugiados.
Igualmente absurda é o previsto êxito eleitoral dos Piratas islandeses nas eleições deste fim-de-semana. É que, mesmo havendo quem os compare ao Podemos, eles confessam nada saber de economia e finanças, apenas suportando o seu programa em intenções de democracia direta e participada.
A forma como as esquerdas têm deixado surgir no seu seio forças populistas e incompetentes, cujo saldo final depois do banho de realidade, só pode favorecer o regresso das direitas, é preocupante. É por não terem um discurso político consistente e estruturado, que os partidos socialistas europeus estão a pasokizar-se. Olhando frivolamente para a realidade, apostam em defender aquilo que julgam ser o desejo dos volúveis eleitorados.  Ora a Política com maiúscula não pode ser a de seguirem as tendências das massas ululantes. Porque o sucesso residirá em sabê-las canalizar para programas estruturados, concebidos a partir de uma análise rigorosa e objetiva da realidade, e definindo objetivos tangíveis a serem alcançados. É preferível que os eleitorados sintam que são tratados com inteligência do que com a vazia demagogia.
Pode ser um caminho trabalhoso, mas com resultados mais sustentáveis. Por isso uma das poucas notícias com substância do dia é já existirem oito países a juntarem-se a Portugal por uma mudança de regras nas apreciações dos orçamentos pela Comissão Europeia e pelo Eurogrupo de forma a que eles sejam ferramentas úteis no crescimento das economias em vez de férreos coletes de forças.
O desafio, que hoje se pôe aos políticos das esquerdas é serem carismáticos em vez de populistas. Porque estes últimos conotam-se quase sempre com a direita, como sucede com Marcelo Rebelo de Sousa, a quem José Sócrates atribui um comportamento  que “tem uma forma de se relacionar com os portugueses muito baseada na proximidade. A vulgaridade, a banalidade, o quotidiano, a rotina, isto é, o excesso, mata qualquer ideia carismática”. Essa ideia que tem de ser alcançada por quem lidera as esquerdas e as quer levar à consagração de uma sociedade mais justa e fraterna. 

Caspar David Friedrich

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ter ou não ter colete eis a questão...

Uma das notícias inquietantes dos últimos dias foi a da rendição da Valónia ao acordo comercial com o Canadá sob a promessa de não se implementar o sistema arbitral de definir a justiça dos diferendos por ele suscitados  e que, invariavelmente, dá razão aos pedidos de indemnização das multinacionais por não conseguirem os lucros expectáveis nos países ou regiões onde se tenta travar a sua ganância.
Temos o exemplo da Philip Morris, que quis receber milhões de dólares do Uruguai devido à colocação nos respetivos maços de cigarros dos anódinos avisos contra os perigos de se fumar.
A guerra em torno deste tipo de resolução de diferendos estará na ordem do dia nos próximos anos porque, como escreve Daniel Oliveira no «Expresso», “na globalização somos todos atirados para alto mar. O que estes acordos fazem é distribuir coletes de salva-vidas a meia-dúzia, garantindo que a democracia nunca interfere nos seus negócios.  O que faz é pôr na lei a lei do mais forte, anulando a função moderadora da democracia. O que faz é proteger um dos imprevistos enquanto deixa a larga maioria entregue a si mesma.”
Quem também não gosta de Democracia é a corte de Schauble e de Dijsselbloem, que vão regularmente atacando o governo de António Costa para aferir até que ponto as suas palavras recuperam a capacidade danosa tida ainda há algum tempo, quando significavam de imediato o aumento das taxas de juro ao nosso país.
Muito embora contem com muitos agentes seus nos nossos jornais e em instituições como a da mais do que suspeita dona Teodora, esses senhores vão confirmando a regra já conhecida na história de Pedro e do Lobo. Tantas vezes anunciaram o iminente resgate, que já ninguém lhes liga.
Ainda assim, Nicolau Santos, também no «Expresso» tece justificado anseio: “era bom que a Comissão Europeia se demarcasse destas afirmações. Era bom que Bruxelas tivesse a coragem de valorizar o que deve ser valorizado, mesmo que não aprecie a receita que está a ser aplicada, mas que aparentemente está a conseguir os resultados que a comissão desejava. E sobretudo era bom, que ficasse claro para toda a gente que Schauble e Issing não gostam é da cor do Governo português. E detestam-no tanto que nem sequer falam sobre o que importa: os resultados que na frente orçamental estão a ser alcançados.”
Em dia de lançamento do novo livro de José Sócrates justifica-se a questão: será que os schaubles desta vida são carismáticos e como tal defensores do novo, do risco, do diferente? Felizmente não e já não conseguem sequer enquadrar-se no kitsch político denunciado pelo ex-primeiro-ministro de dizerem aquilo que os seus auditórios querem ouvir.
Hoje em dia deverão existir poucos alemães, finlandeses ou holandeses, que ainda acreditem na burla dos povos do Sul preguiçosos em contraponto com os do norte esforçados e poupados. O problema desses mesmos schaubles é o de se estar a consolidar a ideia de existirem alternativas às políticas por eles ditas como sendo as únicas possíveis. E isso poderá fazer toda a diferença nos próximos anos, tanto mais que surgem sinais de inconformismo dos mais jovens e das atacadas classes médias contra quem deles fez as vítimas principais do crepuscular austericídio. 

Georges Braque

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Notas colaterais à leitura do vespertino

1. A direita continua a fazer pessimamente ao país com a sanha contra a Caixa Geral de Depósitos, o tal banco público cuja privatização falhou tão só chegou ao governo em 2011.
A questão que me fica é sobre o conforto intelectual sentido atualmente por Catarina Martins e Jerónimo de Sousa ao acolitarem tal contínua sabotagem dos esforços em recuperar uma instituição financeira cujo estatuto, exclusivamente público, defenderam e estão a dificultar nesse comprometedor acompanhamento por quem prossegue objetivos confessadamente opostos.
2. Há mês e meio, quando me ligaram do lar onde estava internada a minha mãe, a informarem-me da sua morte, quase pediam desculpa pelo teor de tal notícia.
“Mas, aos 90 anos, não é natural que as pessoas morram?” - redargui surpreendido.
Quando já deram à vida tudo quanto estivera ao seu alcance e, na sua senilidade, são apenas fantasmas de si mesmas, fará sentido prosseguirem nesse arremedo de existência?
Nas notícias sobre a morte de figuras públicas, que se sabiam já em fase terminal, sucedem-se testemunhos mediáticos mais ou menos comovidos dos que as conheceram. Razão para me interrogar: será mera hipocrisia por ser politicamente correto quase chorarem em frente aos ecrãs televisivos? Ou que mágoas pessoais os faz transferirem para essa notícia as próprias dores?
É certo que não se chega ao paroxismo dos enterros dos líderes norte-coreanos, mas há algo de semelhante nessas reações públicas.
A morte, a começar pela minha quando acontecer, será algo de trivial, porque, como dizia Saramago, um dia estamos cá, no outro deixamos de estar. E o mundo continuará a girar.
3. Na sua crónica de hoje no «Expresso», Daniel Oliveira invetiva o ministro alemão das finanças e pergunta porque não se cala: é que não se trata de sair disparate, sempre que abre a boca. Se fosse isso ainda se poderia manifestar alguma tolerância. Mas a verdade é que ele e a sua corte tudo fazem para semear obstáculos a um governo que teme. É que, a comprovar-se o sucesso desta fórmula de maioria de esquerda parlamentar, outros povos europeus podem sentir-se tentados a seguir-lhe o exemplo.
Houve um tempo - escreve Daniel Oliveira—em que as relações entre estados da União se baseava nas regras diplomáticas usuais entre aliados: a não ser em casos extremos ou conflitos bilaterais, governos de um país não opinavam sobre os governos de outro país. E quando o faziam isso era dito com o aprumo diplomático que se exige entre estados que se respeitam. Desde que Schaeuble chegou à pasta das finanças isso mudou. Opina sobre tudo e todos, alimenta a instabilidade, provoca os mercados para que punam aqueles que não se verguem.
Mas, como se identifica argutamente nesse texto, Schäuble é apenas um dos principais responsáveis da crise, que atravessa quase todo o continente. E a sua resolução passa inevitavelmente por nos libertarmos de quem a não sabe resolver, substituindo-os por quem já compreendeu, com a ajuda dos Piketty, dos Krugman ou dos Stiglitz, que urge seguir por outro carreiro: “Os problemas da Europa ultrapassam em muito o governo alemão. Resultam de quase duas décadas perdidas com uma moeda disfuncional, que para além de promover a divergência económica e social entre Estados, consome todos os recursos políticos enquanto o projeto europeu de desagrega. Resulta de um défice democrático que está a chegar a um ponto de não retorno. Resulta da incapacidade de reagir rapidamente a uma crise financeira que levou a um crescente afastamento entre as expectativas dos povos do norte e do sul em relação à União.” 
Paul Klee