quarta-feira, 29 de junho de 2016

O rigor como estilo

A longa entrevista a Mário Centeno, hoje inserida na edição do «Público», é uma excelente peça jornalística não só por demonstrar o rigor e a exigência de orientar o exercício do cargo com o estrito respeito do interesse público, mas também para comparar o estilo do ministro com o dos seus antecessores.
Lembremos, em primeiro lugar, Vítor Gaspar. Tratava-se de um craque, no dizer dos que o diziam conhecer e enalteciam a sua “contratação” pelo governo de Passos Coelho. Os jornais económicos estavam rendidos à sua magia, que iria tirar o país da “bancarrota” em menos de nada. Pudera! Se ele integrava os gurus da receita austeritária, que nos iria curar da “doença despesista” e tornar-nos tão poupados e eficientes como os alemães!
Viu-se o resultado: aos primeiros sinais do falhanço do plano tão acarinhado por schäuble (a quem, como sabemos, se curvava sem pudor!) Gaspar avançou para o  «enorme aumento de impostos». E, para não se comprometer mais com o fiasco, quis sair o mais rapidamente possível aproveitando para tal a grande manifestação de setembro de 2012, que quase significou o k.o. de Passos Coelho.
Seguiu-se Maria Luís, que nada de significativo fizera na vida até então, porque fora medíocre professora numa universidade menor e só servira de espia do partido na Direção Geral do Tesouro durante o governo de Sócrates, que tudo tentava para não a deixar aceder a matérias relevantes.
Economista sem mérito e espia demasiado óbvia para causar grandes danos, ela guardou-os para a sua passagem pelo Ministério das Finanças, onde os sucessivos falhanços foram sendo medidos pelos orçamentos retificativos a que foi obrigada a recorrer ano após ano. Sem que os josésgomesferreiras desta vida lhe atenuassem a veneração, eis que tudo quanto dizia num mês logo se via desmentido nos seguintes. Mas a pior herança, que deixou foi a do calamitoso sistema financeiro expressa na falência do BES, só possível com a sua subserviente complacência com a família Espírito Santo, ou a subsequente crise do Banif causada  pela falta de coragem em resolver atempadamente os problemas.
Temos, pois, Mário Centeno com essa pesada herança e um estilo completamente contrário. Porque representando a idoneidade em pessoa, ele transforma a entrevista naquilo que Feynman definia como a definição de quem sabe muito bem aquilo que diz: é que até a avó de Pedro Sousa Carvalho (um dos mais émulos do “economimista” da SIC no jornal da Sonae) pode entender a abordagem do ministro quanto à situação das Finanças Públicas. E, apesar delas estarem condicionadas por dificuldades externas (o Brexit, as crises em Angola e no Brasil, a contenção chinesa) a sua caracterização do estado das coisas é otimista, desmentindo o título alarmista da primeira página do jornal.
À partida Centeno desvaloriza a tentação de se passar o tempo a fazerem-se previsões pouco fundamentadas, sobretudo se consideradas as conhecidas das mais diversas proveniências: “Se tivesse de fazer [projeções] todas as semanas, todas as semanas tinha de as rever. Qual é a dimensão importante para o Governo? Há duas. A primeira é que, apesar das revisões em baixa, as projeções que existem para a economia portuguesa continuam a apontar para uma aceleração da economia ao longo do ano.”
A confiança de Centeno até se consolida com o facto de conhecer dados das alfândegas do mês passado, que apontam para uma recuperação do crescimento das exportações: perante as dificuldades apresentadas por alguns mercados, os exportadores portugueses estão a reorientá-las com sucesso para outros fora da União Europeia.
A tendência da economia é a de um crescimento mais acelerado, mesmo que ainda insuficiente, em relação ao princípio do ano, mas sem comprometer a execução orçamental em linha com os objetivos “quando olhamos para a despesa, temos uma execução que é melhor do que aquela que temos projetada para o ano. Temos os salários e as despesas com pessoal, mas também contribuições a crescer menos do que aquilo que é projetado para o ano, mesmo tendo em conta que há uma aceleração da reversão do corte salarial.”
Bem pode a direita preocupar-se: onde via furacões, tudo se conjuga para que se aproximarem alísios bonançosos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

A chatice dos factos

Os factos que a direita custa a engolir:
- se forem descontadas as medidas extraordinárias que existiram nesse ano, o défice do primeiro trimestre deste Governo é o melhor desde 2002;
- nos primeiros cinco meses de 2016 houve um desagravamento de 453 milhões de euros do défice em comparação com 2014;
- estando prevista uma redução do défice em 1,3 mil milhões de euros, 900 já estão conseguidos.
- a balança comercial apresenta um saldo positivo de 270 milhões de euros, mesmo quando dois mercados importantes para o país (China e Angola) estão em contração.
São estes números que levaram António Costa a desafiar a direita a apresentar o seu plano B para contrapor ao fracasso total de todas as previsões que fez sobre a evolução económica do país sob a sua governação. Ou como alguém propunha nas redes sociais Assunção Cristas bem pode preocupar-se com a realidade criada pelo Governo para “iludir” os portugueses, já que aquele de que fez parte durante quatro anos e meio só gerou ilusões para os empobrecer.

Lamber as feridas e seguir adelante

Voltando às eleições espanholas do último fim-de-semana, já pouco importa se os seus resultados foram ou não condicionados pelo Brexit que, segundo alguns, terá acentuado a tendência do eleitorado para manter “o que está” em vez de arriscar “o que poderia ser novo”
A verdade é que a direita no seu todo - ou seja somando o Partido Popular, o Ciudadanos, o Partido Nacionalista Basco ou os autonomistas das Canárias - dão 175 deputados, ou seja, exatamente metade da composição parlamentar. Ao contrário de António Costa em Portugal, Pedro  Sanchez deixou de ter condições para assegurar uma maioria mesmo precária com que pudesse governar, restando-lhe, pois, ir para a oposição. O que até nem lhe é desfavorável, tanto mais que a derrota do PSOE na Andaluzia travará as aspirações de Susana Diaz em lhe tomar o lugar.
Mas o futuro imediato do líder socialista espanhol passará por consolidar o partido e recuperá-lo do pior resultado alguma vez por ele conseguido desde a recuperação da Democracia. O que significa fazer uma oposição forte, determinada e bem sustentada em alternativas, que encostem o PP o mais possível às cordas. Mas já contando com a certeza de ser este o último mandato de Rajoy à frente do governo, porque reassumirá o cargo tão desgastado, que não conseguirá opor-se a uma nova geração de políticos ambiciosos e descomprometidos da corrupção, - o modo de vida dos seus companheiros mais velhos -, e por isso capazes de aparecerem ao eleitorado com a cara lavada de quem nada teve a ver com a “doença senil” do seu partido.
Sanchez não terá, pois, e tão só, de contar com o velho PP, mas com o que dele emergirá quando Rajoy sentir-se demasiado enleado nos seus constrangimentos e tentado a passar o testemunho a essa nova geração no propósito de iludir o eleitorado com a possibilidade de se tratar de algo de novo a contrapor a um PSOE, que apresentará como “mais do mesmo”.
Já imagino alguns dos barões a proporem à direção socialista uma aproximação ao tal centro, que ninguém sabe onde fica, mas alguns idealizam como a direção a tomar para se terem ganhos políticos.  Esquecem que o eleitorado que vier a ser perdido pelo PP já tem um escoamento garantido para o Ciudadanos, esse sim condenado a afastar-se do centro para ganhar apoios à direita.  Será, assim, natural, que o PSOE fique efetivamente no centro do xadrez político espanhol com o PP e o Ciudadanos de um lado, e o Podemos e a Izquierda Unida do outro.
Se fosse militante do PSOE apostaria num discurso assumidamente de esquerda, sem complexos, de forma a recuperar os que se deixaram agora seduzir pela inconsistência ideológica de Pablo Iglésias. É que o Podemos, tanto tendo prometido aos seus, também muito os terá desiludido com as exageradas reivindicações de que não quis abdicar um centímetro que fosse. E quem muito quis, muito perdeu. Proximamente até nem será improvável que muitos dos que se alinharam com o Podemos regressem à Izquierda Unida de Garzón, pelo que dever-se-á aproveitar os demais, porventura cativados pelo discurso renovado e substantivo do PSOE.
Como seus vizinhos ibéricos só podemos lamentar não termos no governo espanhol quem nos possa apoiar no esforço para contrariar a linha política dominante na União Europeia. Mas algum dia os socialistas e os sociais-democratas europeus hão-de atinar com a necessidade de ocuparem politicamente o espaço de uma direita e de uma extrema-direita sem soluções para os desafios económicos e sociais dos próximos anos. À custa de tantas derrotas algo terão de aprender...

A direita confrontada com os seus piores medos

1. Começam a surgir os primeiros indicadores económicos favoráveis ao governo e o que tem a direita a dizer? Que não são verdadeiros, antes uma mistificação a desmascarar-se até ao final do ano. Em suma, o normal para quem andou quatro anos a inventar as mais laboriosas formas de iludir os portugueses quanto ao fosso para onde os andava a precipitar, quase lhes querendo fazer crer num oásis ao virar da esquina.
Vale a pena recordar as fases por que tem passado a estratégia da direita nos últimos meses: primeiro foi a fase «eles nunca se irão entender, nem chegarão a formar governo». Depois dissram que se tratava de uma coligação de interesses tão inconciliáveis, que nem sequer duraria até à aprovação do primeiro Orçamento.
Superada essa batalha veio a do inevitável veto das instituições europeias aos documentos a elas submetidos pelo governo de António Costa, primeiro o do referido orçamento, depois o do Plano Estratégico para os próximos anos.
No entretanto, com a ajuda de situações especificas, mas que teimou em omitir - a manutenção da Refinaria de Sines e os dias de paragem da Autoeuropa - e com a ajuda do governador do Banco de Portugal, que atrasou e reduziu os dividendos a pagar ao Estado Português pelos lucros da instituição, quis dar o exercício orçamental como inviável face aos tratados orçamentais.
Agora que os indicadores confirmam as previsões do Governo a direita fica em pânico ao ver-se desmentida quanto ao défice, ao comportamento das exportações e dos investimentos e ao prometido desequilíbrio da balança comercial. E ela, que conseguiu falhar por oito vezes no seu quadriénio vendo-se obrigada a aprovar outros tantos orçamentos retificativos, sente-se sem pé num mar cada vez mais turbulento.
Para as próximas cenas da continuação do desempenho nesta enésima versão do «Pedro e o Lobo» poderá utilizar por mais uma semanas as prometidas sanções, que alguns quiseram agora dar como garantidas ao invocarem o respeitado jornal «Le Monde». Mas já será mais avisado, que mudem de disco, porque esse não tardará a revelar-se gasto.  A sua esperança residirá agora nos efeitos negativos do Brexit na economia portuguesa. É que, tal como se apressaram a culpar José Sócrates da crise dos subprimes  de 2008, também afiançarão que quem terá convencido os ingleses a saírem da União Europeia não foi outro senão António Costa cabendo-lhe a responsabilidade de todos dos efeitos subsequentes.
O que é extraordinário nesta direita é convencer-se de que os portugueses são parvos o suficiente para lhes voltarem a confiar a (des)governação do país.
2. Não são surpreendentes as notícias de episódios de racismo primário na Inglaterra do pós-Brexit, porque essa é a verdadeira natureza de uma caixa, que Cameron abriu, sem ter em conta todos os monstros que deixava à solta.
Acumulam-se as evidências de terem estado pelo «Leave» gente sem escrúpulos, apostada apenas em destruir a relação entre o Reino Desunido e a União Europeia, mas sem qualquer projeto para o que se vai seguir. Boris Johnson tem sido elucidativo no medo, que lhe causa agarrar o boi pelos cornos nesta altura. Por isso ouvem-se-lhe palavras a pedir tempo de preparação, que as instâncias europeias não estão dispostas a dar-lhe.
O mais fácil foi vencer o referendo, o complicado é saber como gerir-lhe as consequências. E é esse medo, que levará o antigo mayor  de Londres a nem sequer se perfilar como candidato a Downing Street se vir que de Bruxelas não lhe dará abébias, abrindo assim espaço para uma primeira-ministra mais credível como o será Theresa May. Mas as agressões físicas e psicológicas por que muitos emigrantes têm passado nestes últimos dias serão uma pequena amostra dos riscos de violência, que eclodirão, quando a maioria dos que se sentiram vitoriosos na sexta-feira entender verdadeiramente o logro em que caiu.
Estão prometidos dias muito complicados para os que a turba de exaltados não identificar como genuinamente british. O Brexit está fadado para ser  bandeira dos mais sinistros hooligans.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Se eu fosse espanhol…

… estaria a esta hora muito zangado com Pedro Sanchez, Pablo Iglesias e Alberto Garzón. Porque teria dispensado estas eleições, que só reforçaram a direita, e contaria há alguns meses com um governo tipo «Geringonça» a mudar para melhor a vida da generalidade da população.
O que terá faltado há seis meses - a superação das divergências sobre a oportunidade ou não do referendo na Catalunha - torna-se argumento fútil se considerarmos que, com o Brexit, e a provável independência da Escócia, não haverá como travar os processos independentistas de quem se sentir com força eleitoral bastante para optar por essa via.
Bem pode Pablo Iglesias acenar com apoio menos exigente a eventuais tentativas de Pedro Sanchez para agora formar Governo, que os 156 deputados conseguidos em conjunto valem menos do que os 159 de 20 de dezembro transato. Foi para isto que impôs este tira-teimas sobre quem lideraria a esquerda? Uma vez mais os acontecimentos vieram dar razão aos que acusam o líder do Podemos de ter a inconsistência ideológica, senão mesmo o oportunismo, dos que se crismam de «pós-marxistas».
Em texto anterior eu punha a possibilidade de ser positiva a emulação das várias forças de esquerda para procurarem cativar o máximo número de eleitores, como forma de os retirar à direita. O que os resultados finais em Espanha indiciam é o efeito perverso dessa rivalidade em muitas alturas a sugerir um inimigo principal errado.
A hipótese poderia ser testada quanto à sua validade no escrutínio de hoje, e ele foi esclarecedor: se as esquerdas quiserem tirar proveito do que agora se passou só têm de comparar o ocorrido em Espanha e em Portugal. Neste último caso os líderes souberam compreender o sentido do bem coletivo, secundarizando os sectarismos. O resultado está a  ver-se com as sondagens a demonstrarem um crescimento lento, mas sustentado do conjunto da esquerda plural e a queda correspondente dos dois partidos de direita.
Tal como assinalou Pedro Nuno Santos à saída da Convenção do Bloco de Esquerda, o futuro da solução governativa portuguesa continuará a passar pela discussão quotidiana de todas as políticas a implementar pelos signatários dos acordos, que garantem a estabilidade do Executivo de António Costa. E seria isso que Sanchez, Iglesias e Garzón deveriam experimentar: encontrar os mínimos denominadores comuns, cingindo as divergências ao veredito de quanto elas são mais ou menos importantes do que o interesse da maioria dos eleitores. Vai-se a ver e princípios aparentemente inabaláveis podem ser muito mais flexibilizados do que se julgaria, se a compensação beneficiar os mais desfavorecidos nas respetivas carteiras.
Em Portugal será desejável, que a esquerda plural tenha presente esta lição e prepare em conjunto e atempadamente o Orçamento e as autárquicas do próximo ano, para que se consolidem as convergências e se acautelem as divergências que subsistam.

domingo, 26 de junho de 2016

Os desafios das vertentes plurais da nossa esquerda

A Convenção do Bloco de Esquerda aprovou uma proposta importante para o governo de António Costa, mas que este não pode assumir nesta altura: a possibilidade de convocar um referendo se a Comissão Europeia ainda venha a manter a prosápia de impor sanções a Portugal.
De facto, basta ouvir alguns telejornais noutras estações televisivas europeias para, frequentemente, vir a lume o nome de Portugal como um dos países com maior progressão do euroceticismo. No «28 minutes» da ARTE da passada sexta-feira era isso que um dos entrevistados manifestava como exemplo das dificuldades colocadas à União Europeia se prosseguir no rumo, que tem sido o seu nos últimos anos e causador da redução significativa dos seus apoiantes.
Nesta altura todas as vertentes da esquerda plural são fundamentais para o sucesso do projeto político liderado por António Costa no sentido de dar ao país um rumo concordante com as aspirações da maioria de quem aqui vive.
O Bloco consegue cativar o apoio da juventude universitária e cuja vontade de mudança pouco se coaduna com o maior realismo político do PS perante as muitas contingências externas e internas com que tem de lidar. E o PCP garante o apoio dos mais velhos, aqueles que lidam pior com os efeitos e, sobretudo, os falsos «fantasmas» da globalização e que tendem a engrossar nos outros países - França, Holanda, Alemanha e Inglaterra - as forças populistas da extrema-direita.
O que António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa tiveram a sageza de compreender foi como da união das suas fracas forças eleitorais poderia criar-se uma nova realidade política, com um enorme potencial para manter a direita na oposição por muitos e bons anos.
É claro que a macrotendência liderada por Francisco Assis tenderá a empolar o eventual efeito do sorpaso em Espanha, que poderá pasokizar o PSOE definitivamente. E verem corroborados os seus receios nas afirmações de alguns dirigentes do Bloco de Esquerda (vide a entrevista de Jorge Costa ao «Expresso» desta semana) em que põem como objetivo fundamental tornarem-se eleitoralmente mais fortes do que os socialistas.
Não faltarão, pois, vozes a reclamarem a falta de lealdade dos dirigentes do Bloco, quando fazem parte da maioria parlamentar. Até não me espantaria, que a direita fizesse desta questão um novo cavalo de batalha. Mas, como socialista, devo considerar ofensiva essa pretensão dos dirigentes bloquistas? Não, pelo contrário, até considero muito positiva a emulação competitiva entre os quatro partidos da “coligação de esquerda” para procurarem alargar a dimensão dos seus eleitorados. Só assim se conseguirá o objetivo mais ambicioso de reduzir significativamente o eleitorado da direita. É que há tanto a mudar em Portugal para se transformar no país desenvolvido e socialmente mais justo, por que esperamos desde abril de 1974, que reduzir a capacidade nociva da direita para travar essa dinâmica, só pode ser encarado como algo de estrategicamente muito positivo.
Como militante socialista desejarei que o PS seja mais forte e consiga prevalecer o seu projeto na sociedade portuguesa dos próximos anos. Mas se o Bloco ou o PCP começarem a ganharem-lhe eleitorado, que não seja compensado à direita - cujo eleitorado tem de ser resgatado para os valores de esquerda, que melhor possam defender os seus interesses! - só revelará uma incapacidade dos seus dirigentes para ouvirem os anseios dos portugueses e aferirem as suas propostas nessa justa medida. O que é entusiasmantemente interessante para a vida interna do Partido Socialista, que deverá aproximar-se bem mais das populações em vez de se manter cingido aos inconsequentes almoços e jantares  dos que já se confessam seus fiéis, mas não conseguem interessar mais ninguém.

E ainda falta contar com as eleições espanholas

 A semana negra para os eurocratas ainda será sujeita a rude prova nas eleições de hoje em Espanha. A confirmar-se uma sondagem ontem conhecida, publicada na Andorra, é muito possível que a soma da esquerda plural fique apenas a um deputado da maioria absoluta, o que tornaria incompreensível para a maioria dos espanhóis uma eventual incapacidade para formar governo contra a direita representada pelo PP e pelo Ciudadanos.
Bem pode o Banco Central Europeu comprar dívida em quantidades monumentais para evitar males maiores, que o terramoto financeiro não terá paralelo com a dimensão do dominó político.  Já não se tratará da União Europeia querer salvar-se do Reino Unido, mas da urgência em libertar-se de toda a parafernália de políticas que geraram mais euroceticismo do que euro entusiasmo.
Tsipras dá o mote, do que será decerto subscrito pelos governos ibéricos, e também por uma Itália a braços com os seus próprios demónios: “É urgente uma nova visão e um novo começo para uma Europa unida, mais social e democrática”.
À primeira vista não está a ser ouvido, como se demonstrou na reunião de seis ministros de Negócios Estrangeiros, que tomaram decisões, que cabem por direito ao Conselho Europeu da próxima semana. Mas entende-se que os eurocratas tenham ficado de tal forma em pânico, que quiseram dar sinal de não estarem ainda tolhidos de espanto e fingirem, que estão a fazer qualquer coisa.
Será interessante verificar qual será a reação dos líderes europeus, quando se reunirem no rescaldo das eleições espanholas e enfrentarem o ponto de vista dos que pensam como Augusto Santos Silva que, em texto publicado no «Expresso», considera que a União Europeia “não pode reagir ao Brexit com novas derivas integracionistas, que não seriam acompanhadas pelas pessoas. Não se trata de exigir (…) uma súbita marcha forçada para patamares mais altos de federalização. Agora, não precisamos de ‘mais Europa’, mas de uma Europa mais bem compreendida e assimilada pelos seus povos e nações.” Ou como sintetiza numa frase eloquente: “Integração europeia? Certamente, mas hoje prefiro sublinhar unidade europeia”.
No mesmo jornal, Daniel Oliveira repete que manter a estratégia de reduzir as proteções sociais como resposta ao processo da globalização “é a receita para uma catástrofe política”.
Nas próximas semanas a União Europeia tenderá a escolher entre dois males inevitáveis, na perspetiva de Pedro Adão e Silva: “se, agora, para vacinar a Europa, a UE impuser condições draconianas ao Reino Unido, as consequências económicas e financeiras serão devastadoras; se a UE permitir uma saída suave, as consequências políticas serão trágicas — outros países perderão o receio.”
A solução é aquela que a maioria dos eurocratas nem sequer pondera tomar e que passa por compreender as razões porque são, sobretudo, os pobres e os mais velhos, os que alimentam os diversos movimentos populistas e xenófobos um pouco por toda a Europa. Muitos deles até foram, em tempos, comunistas, socialistas, trabalhistas, mas agora, sentindo-se abandonados por quem lhes ameaça o pouco de que ainda dispõem, pretendem travar uma dinâmica também ela sem rumo, porque esquecida dos objetivos de convergência e de combate às desigualdades, que estavam no pensamento dos pais fundadores da antiga CEE.
Racionalmente os economistas podem inventariar milhentas razões para que o Brexit seja um erro, mas os britânicos serviram-se do que ainda lhes sobejava como réstia de Democracia para darem uma lição a quem dela anda particularmente esquecido.

sábado, 25 de junho de 2016

À Economia o que é da economia, à Política o que é da política

Os países industrializados, particularmente, os da Europa, vão acumulando desequilíbrios que o Brexit só tenderá a agravar. Vivem o que se pode designar por uma «estagnação secular», que nenhuma das medidas até agora tomadas pelo Banco Central Europeu conseguiu pôr cobro. E, no entanto, as carências sociais são tão imensas quantos os desafios ecológicos.
Ora os políticos e os economistas, que comandam os destinos europeus, não conseguem sair do triângulo formado pelos conceitos de crescimento-mercado-competição. Dentro do seu pequeno círculo de burocratas de Bruxelas e de líderes do Eurogrupo  não existe alternativa a esta formatação, que a maioria já determinou esgotada, exigindo ideias novas.
Para Daniel Cohen, uma das vozes mais avisadas da atualidade na qualidade de professor da Escola de Economia de Paris, os economistas devem ser muito minuciosos na constatação da realidade e muito prudentes na proposta de políticas. Ao contrário do que se tem verificado nos últimos anos, deve-se deixar à economia o que a ela incumbe, e à política o que só ela deve decidir. É por isso que a passagem de Vítor Gaspar pela tutela financeira do país se revelou um desastre, de que à primeira oportunidade se quis livrar, e a preservação da influência de um advogado armado em economista, como é Schäuble, redunde num desastre de dimensão continental.
É que, nos últimos cinquenta anos, os economistas já tiveram de mudar duas vezes de paradigma: nos anos 70 transitaram do pensamento keynesiano para o neomonetarismo para vencer a estagflação então persistente. Liderados por Friedman e os demais “gurus” da Escola de Chicago, supuseram racional o comportamento das economias, o que suscitaria a criação de equilíbrios entre oferta e procura naquilo que tanto incensaram como a «mão invisível». Mas, nos anos 90, Stieglitz e Kahneman declararam falida essa tese, que fundamentaria uma suposta revolução liberal (ou neoliberal na gíria mais comum).
Hoje coloca-se a necessidade, não propriamente de um regresso a Keynes, mas de tudo repensar quanto ao crescimento, ao desenvolvimento, à finança, ao empreendedorismo, às desigualdades ou à fiscalidade. Urge, pois, dar como morto e enterrado esse paradigma do mercado-racionalidade-equilíbrio geral.
O que Cohen defende é que os economistas só têm de dar um diagnóstico sem se atreverem a propor uma «verdade». Cabe-lhes tão só dar as ferramentas para que a opinião pública reflita com mais consistência e os políticos delas se possam apropriar.
É nesse contexto que, embora Cohen não o diga, caiba aos neomarxistas adaptarem essas constatações à realidade presente e nela recriarem as condições de transformação das sociedades para os objetivos republicanos de uma maior liberdade, igualdade e justiça social.

Os equívocos do Brexit

Há já quem ande a dizer-se sem paciência para ouvir falar no Brexit apesar de só ter passado um dia sobre um resultado, que deixou a libra esterlina no valor que tinha há trinta anos, e um autêntico tsunami a varrer os mercados financeiros a nível mundial.
Convenhamos que entre o Europeu de futebol e o referendo britânico, causador de tão sérias preocupações nos burocratas de Bruxelas, prefiro claramente este último tema. Até porque, além de prometer tempos muito interessantes nos próximos meses, também vai revelando uma das características mais importantes da ação política: a irresponsabilidade de muitos dos seus atores. Nesta altura já está mais do que evidenciada a falta de um qualquer plano B, quer por parte da Comissão Europeia, quer no respeitante aos vencedores da contenda, agora subitamente confrontados com a realidade, que diziam ter desejado.
No dia de hoje as televisões já mostravam entrevistas com alguns votantes do «Leave» que, apercebendo-se tarde de mais das consequências possíveis do sucedido, já expressavam o arrependimento de se terem deixado levar por uma campanha que se virará, quase por certo, contra os seus interesses.
Parece-me óbvio, que todos pretendiam uma vitória do “Remain” muito à justa, que serviria a estratégia comum: Cameron poderia aspirar a manter-se em Downing Street, sempre a acenar à Europa com as exigências de um povo muito eurocético, que precisaria de ser cativado pelas cedências de Bruxelas. Os burocratas da organização poderiam manter a sua linha de conduta tal como a têm assumido, porque, no fundamental, nada teria mudado e o austericídio dos povos do sul poderia prosseguir em proveito dos do Norte. Farage conseguiria manter o excelente emprego no Parlamento Europeu e prosseguir com a sua retórica inconsequente. E Boris Johnson conseguiria de Cameron uma entrada em grande no reciclado governo conservador, preparando com tempo a sucessão daquele.
O mais incomodado de todos parecia ser Corbyn, que não morria de amores pela União, mas constatando a passagem de muitos antigos eleitores dos trabalhistas para o UKIP, precisava de criar uma linha vermelha diferenciadora, clarificadora quanto a quaisquer possibilidades de confusão entre o seu posicionamento à esquerda e o discurso da extrema-direita.
O eleitorado a todos terá pregado uma enorme partida. Cameron foi obrigado a demitir-se e poderá ficar para a História como o primeiro-ministro, que deu a machadada final no que restava do antigo Império com as possíveis dissociações da Escócia e da Irlanda do Norte e a maioria da Commonwealth a acompanhar o grito de Ipiranga já manifestado pela Nova Zelândia. No limite até poderá ser responsabilizado pelo fim da monarquia inglesa, porque, entrando-se num período de completa imprevisibilidade, até a própria natureza do regime poderá ficar em causa se a crise subsequente estilhaçar os mais arreigados paradigmas.
Farage dificilmente conseguirá novo e tão privilegiado emprego, como o que detém no Parlamento Europeu, a menos que o seu UKIP suba muito mais do que os já excecionais resultados conseguidos nas últimas eleições europeias, porém insuficientes para o fazer chegar ao Parlamento inglês quando para ele foi a votos.
Johnson poderá ter perdido a oportunidade de vir a ser primeiro-ministro, porque já se agitam as vozes, que o dão como impreparado para o lugar e a apostarem na atual ministra do Interior, Theresa May, que nesta batalha, nem se comprometeu com um lado da trincheira, nem com o outro.
Resta a Comissão Europeia e as demais instituições associadas a uma União sentida como fragilizada na sua capacidade para se renovar. E o que se irá passar nos próximos dias confirma o vício de Merkel considerar-se como a imperatriz não designada da organização, fazendo convites a apenas alguns parceiros para com eles conjugar as diretrizes, que pretenderá impor no Conselho Europeu da próxima semana. Como metodologia democrática, continuamos a estar conversados.
Resta uma única boa notícia para os portugueses: com os cenários catastróficos agora anunciados, quem continuará a atrever-se a impor sanções aos governos ibéricos?

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O susto por que eles passam!

Imaginemos que, por hipótese, Nigel Farage ocupava o 10 de Downing Street em vez de David Cameron. Além de uma política seriamente restritiva aos emigrantes, que tem ele para oferecer como modelo económico ou programa político? Que se saiba nada de concreto para além da sua retórica simplista e sem substância.
Perante bancos que sigam o exemplo da Morgan Stanley e mudem os seus escritórios da City para Dublin ou para Frankfurt, que resposta pode dar aos que lhe deram os votos sob a promessa de, como dizia alguém numa das reportagens da SIC, fazer o Reino Unido voltar para o que era há vinte ou trinta anos atrás? Como se, por um passe de mágica, fosse possível fazer o tempo recuar para um qualquer passado de que sobram as nostalgias do que tinha de bom, sem lembrarem o que era profundamente negativo.
Cameron pode ficar para a História como Gorbatchov para a antiga União Soviética. E a tese não é minha, mas da minha cara metade, que já olha para a possibilidade de escoceses e irlandeses dizerem adeus a sua majestade real, e adotarem o modelo republicano, que tarda em atirar definitivamente as obsoletas monarquias para o tal caixote do lixo das coisas imprestáveis.
Trata-se de uma boa lição para quem anda na política sem escrúpulos: à custa de usar os argumentos mais falaciosos podem-nos virar contra consigo mesmos. E isso tanto é válido para o ainda primeiro-ministro inglês, como para os que, entre nós, não hesitam em causar sérios danos de imagem à Caixa Geral de Depósitos julgando assim alguns ganhos conjunturais de politiquice sem cuidarem do que significam os interesses nacionais.
Boris Johnson também pode enfiar a mesma carapuça, porque tendo querido assumir o papel de feiticeiro, sem lhe conhecer verdadeiramente a «arte», parece agora atemorizado com a caixa de Pandora que ajudou a  abrir. Por isso não quis falar aos jornalistas à saída de casa. Quando o fez, algumas horas mais tarde, procurou mudar a narrativa para a possibilidade de saída do Reino Unido da União Europeia … mas não para já!
É que, diferentemente de Farage, cuja demagogia só faz sentido para ganhar o estatuto de eterno oposicionista - com as convenientes mordomias dadas pelos assentos no Parlamento Europeu! - Johnson sabe que a demissão de Cameron põe-no no cimo da onda, sem prancha a que se agarrar. Desconhecendo verdadeiramente o que agora fazer.
Nesse sentido até será positiva a posição de Juncker a pressionar para uma saída rápida, ao contrário de Merkel, também ela intimidada com a situação, e disposta a avalizar uma implementação do resultado do referendo para o dia do São Nunca. É que vencer o referendo terá sido a tarefa mais fácil dos que defenderam o Brexit. O pior será agora, quando o quiserem aplicar à prática.
Mas esse deveria ser o castigo imposto a todos os populistas, se não fossem os danos que causariam aos respetivos povos!

E agora venham os Zandingas!

A decisão da maioria do eleitorado britânico em sair da União Europeia cria uma tal imprevisibilidade, que não faltarão zandingas a prever os cenários mais diversos, desde os mais catastróficos até aos dos impenitentes eurófilos, que quererão ignorar a dimensão sísmica do abalo sofrido.
O mais desejável seria que acontecesse o desejo manifestado por Pacheco Pereira de o Brexit constituir um tal abanão, que levasse os Junckers, os Dijsselbloems, os Schäubles ou os Draghis a fazerem um exercício de consciência e compreenderem como conseguiram transformar um projeto desejado pela maioria dos povos europeus numa coisa pantanosa da qual são cada vez em maior numero os que dela se querem dissociar. A questão é a de se saber até que ponto serão capazes de fazerem essa introspeção com o mínimo de honestidade intelectual.
Mas o referendo permite já tirar duas ilações, que não se revelam muito compatíveis com o politicamente correto. A primeira é que espaços económicos, que se tornem particularmente atrativos para populações a ele exógenas, mas para o qual querem convergir, veem perigada a sua estabilidade política e, sobretudo económica, ao permitirem uma entrada demasiado acelerada desse tipo de imigrantes. Até porque eles surgem tão eivados de expectativas, que depressa se frustram que irão aumentar os índices de criminalidade, senão mesmo de terrorismo.
Muito embora a questão dos refugiados tenha de ser vista numa perspetiva humanitária - e os encarceramentos em guetos, como já se verificam em vários países europeus não correspondem a essa condição - também não pode ser ignorada no risco que constitui para as políticas, que faziam desses espaços geográficos o da justificada atratibilidade de quem nele não vivia.
A outra ilação a retirar deste Brexit é a facilidade com que, perante tão rápidas mudanças populacionais, os eleitorados votam com o coração e não com a carteira, porque quer Farage, quer Boris Johnson não apresentaram nenhum programa económico, que sustente as políticas subsequentes. De facto ninguém poderá imaginar como o próximo governo irá gerir as sequelas, que implicarão a perda de competitividade da economia inglesa num contexto em que ficará cingida à sua pequenez, sobretudo se os escoceses e os irlandeses anunciarem o dobre de finados pelo que era o Reino Unido.

O crepúsculo do califado

Os recentes atentados em Orlando e nos subúrbios de Paris confirmaram a emergência de uma forma de terrorismo reticular (o que significa funcionar em rede), que fora teorizado por Abou Moussab al-Souri em 2005 no «Apelo à Resistência Islâmica Mundial» e propunha operações dos jiadistas no seu espaço de proximidade.  Tese posteriormente defendida por Abou Mohammed al-Adnani em nome do «Estado Islâmico».
A operação de Orlando faz convergir a cultura dos psicopatas norte-americanos com a do ódio aos homossexuais, que subsiste nos Estados da chamada cintura bíblica, e com a passagem ao ato inerente à estratégia do Daesh, cujo objetivo pressupõe a criação de situações de rutura e de provocação. A morte de pessoas num espaço de diversão dos homossexuais garantiu-lhe à partida uma divulgação gigantesca à escala mundial.
Segundo Gilles Kepel estamos no chamado «jiadismo de terceira geração», que se baseia na criação dos maiores efeitos possíveis com o mínimo custo em meios despendidos.
Com o atentado em Orlando o Daesh consegue um efeito maximizado por condicionar, de imediato, a campanha eleitoral para a Casa Branca como se viu nas reações imediatas de Donald Trump e de Hillary Clinton.
Os atentados provocadores visam suscitar reações emotivas contra os muçulmanos, mesmo os moderados, de forma a criar as condições de uma verdadeira guerra civil passível de provocar a implosão do Ocidente. Nesse sentido o Daesh vota objetivamente em Trump.
Para Kepel os atentados de Paris em 13 de novembro e de Bruxelas em 22 de março foram operações politicamente falhadas por causarem vítimas mesmo entre jovens muçulmanos potencialmente recrutáveis pela retórica do Daesh. Nesse sentido conta a sua experiência de contacto com muçulmanos presos em França, que terão desaprovado esse tipo de atentados. O que decerto não sucederá com os da semana passada, que tinham como alvos uma população especifica permanentemente diabolizada nos vídeos da organização.
Esta poderá, porém, estar a perder a sua capacidade de sedução, tão só se confirme a perda de Falluja, de Mossul e de Raqqa. Sem um território, que reivindique como sendo o do «califado», a sua existência só poderá subsistir na ciber-realidade, ainda muito danosa, mas menos eficiente politicamente.