quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Uns aprendem, outros não

A entrevista com Jerónimo de Sousa, hoje inserida na edição do «Público», é bastante interessante num aspeto concreto: a explicação da assertividade do PCP para a criação da maioria parlamentar de há um ano em função de uma lição duramente aprendida pelos acontecimentos dos quatro anos anteriores: ao contrário do que sugeriria a lógica das lutas sociais, em vez de reagirem combativamente contra o corte de salários e de direitos, os portugueses adotaram uma postura abúlica, como se de cordeiros para a degola se tratassem
Após o sobressalto de 15 de setembro de 2012, Passos Coelho avançou com todas as malfeitorias congeminadas na sua mente, ou nelas inculcadas por quem lhe servia de mentor, e congregou uma máquina de propaganda capaz de fazer crer às vítimas o serem culpadas de quanto iriam sofrer sendo por isso merecedoras de tal destino.
Se estivéssemos numa leitura freudiana veríamos aqui exemplificada a dualidade entre o sadismo do poder político e o masoquismo de quem a ele se subordinava sem o contrariar.
Foi perante o reconhecimento dessa inexistência de um movimento de massas capaz de dar o troco devido a tais políticas, que o PCP fez a devida leitura dos resultados eleitorais de outubro de 2015. É esse o sentido do que diz Jerónimo aos entrevistadores:
“Sempre, mas sempre, definimos que quanto pior nunca melhor. O pior seria pior, porque, mesmo no plano da disponibilidade para a luta, para a participação, para a resistência, os lutadores também precisam de vitórias. E a verdade é que, com a forte campanha ideológica das inevitabilidades, do que tem de ser, do aguentam, aguentam, com tanta vida desgraçada, as pessoas perderam emprego, perderam a sua própria casa, perderam tudo — isso é força de combate.
O desespero, a falta de visão de saída da situação das suas vida e da situação do país não levavam à mobilização, levavam à desmobilização. Por isso, a derrota deste PSD-CDS no Governo foi muito importante. Por isso mesmo é que, tendo em conta este sentimento e o resultado das eleições de 4 de Outubro, consideramos que era preciso afastar esse perigo e, simultaneamente, criar também a ideia de que era possível haver uma saída.”
Na mesma peça jornalística embora apontando ao Bloco de Esquerda, fundamentadas críticas sobre  qual é o seu projeto ou ideologia, o líder comunista não exclui a continuidade do aprofundamento naquilo em que convergem ambos os partidos. Não deixa, porém, escapar o papel de idiota útil que os parceiros de maioria parlamentar revelaram na persistente ação de sabotagem empreendida pelo PSD contra a Caixa Geral de Depósitos e culminada na sua presente indefinição: “O BE marcou neste processo — não sei se bem se mal intencionado, não me cabe fazer juízos de valor — que era mais uma peça deste folhetim que o PSD agarrou, com o objetivo de comprometer a recapitalização da Caixa. Ergueu esta bandeira, filou-a, não a largou, conduzindo a esta situação atual.”
Jerónimo de Sousa não o diz, mas podemos sempre questionar o ressurgimento de Francisco Louçã a substituir-se à liderança do Bloco nesse mesmo assunto, por muito que Mariana Mortágua o viesse depois secundar: não podemos esquecer que terá sido ele a propiciar a chegada de Passos Coelho ao poder através da rejeição do PEC4, mostrando que priorizava a defesa dos princípios às consequências nefastas do que isso acarretaria.
Depois de se afastar o Bloco ganhou credibilidade através da nova imagem dele sugerida por Catarina Martins e expressa nos resultados eleitorais de há um ano.
Oregresso de Louçã à definição quanto ao que o Bloco deve ou não fazer - escolhendo como linha vermelha a tal questão dos princípios em vez da que seria mais lógica, a rejeição a qualquer acordo com a direita para dar acolhimento à estratégia desta - faz crer que se voltou a agudizar nesse volúvel partido parlamentar (ou para lamentar?) a tal doença infantil sobre que um conhecido Vladimir teorizou em 1920, pouco antes de morrer.
Os eventos destes últimos meses demonstram que, apesar de muitos o darem como cristalizado na sua ideologia, o PCP demonstra uma bastante maior capacidade para retirar lições da História do que o Bloco de Esquerda.

2 comentários:

  1. plenamente de acordo há quem nunca aprenda!

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  2. Os comunistas são excelentes táticos. Conseguem distinguir bem o essencial do acessório, e não alinham nos 'princípios sem política' que tantas vezes caracterizam a atuação do BE. O seu instinto político, do qual não está ausente algum cinismo, foi aguçado nos anos em que combateram a Ditadura. Do que nós precisaríamos era de uma Esquerda Radical (no seu sentido etimológico) com a abertura ideológica do BE e a frieza tática do PCP...

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