terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Porque não ando entusiasmado com Guterres

Não é pela quase unanimidade nacional em torno de António Guterres, que me vou esquecer de quanto ele me desagradou enquanto secretário-geral PS e primeiro-ministro do país. Para os mais esquecidos convirá lembrar ter sido ele o melhor expoente nacional do ideário da Terceira Via que, por esses anos, fazia figura de coisa moderna nas ideias de uma esquerda, já então com o socialismo há muito na gaveta.
Ademais, se as mulheres portuguesas viram adiado por mais uns anos o direito a levarem ou não por diante uma gravidez indesejada, a ele o devem, quando pôs os seus preconceitos católicos acima do dever de governar para todos os cidadãos … mesmo para os dissonantes com a sua mundividência.
De alguma forma a (falta de) consideração por ele então sentida foi sendo reaferida em função da forma como correspondeu ao problema humanitário dos muitos refugiados e exilados, empurrados pelas guerras para as modestas tendas asseguradas pela ACNUR.
Quando se colocou a possibilidade de vê-lo à frente da ONU, preferi-o obviamente a qualquer dos seus rivais, mas poucas ilusões invisto no sucesso do seu desempenho. É que o redesenho previsível das relações geoestratégicas a nível mundial inerente à presença de Trump na Casa Branca pouca autonomia lhe dará para garantir o necessário para cumprir os seus objetivos. Sobretudo quando os milhões de operários enganados pelo novo Presidente despertarem para o pesadelo, que ajudaram a criar, e manifestarem ruidosamente o seu desagrado. Como sabemos é nessas alturas que os inquilinos da Casa Branca se põem a bombardear quem lhes sirva de bode expiatório para desviarem as atenções em alegado fervor patriótico.
Que restará então a Guterres senão pronunciar discursos inconsequentes? 
Jasper Johns, Alfabeto

1 comentário:

  1. Sobre Guterres e a terceira via, convém lembrar que Sócrates não se afastou desse paradigma e que Costa presentemente também não o faz (porque não pode, sobretudo, dados os constrangimentos europeus). Sobre o catolicismo de Guterres, eu, como agnóstico que sou, tendo a concordar consigo, mas o PS é um espaço plural e o próprio Soares insurgiu-se em tempos contra as críticas a Guterres feitas por outros militantes por causa da fé do agora SG da UN. O catolicismo progressista, mau grado o conservadorismo em certas questões sociais, deve ser visto como um aliado e não como um inimigo da Esquerda, de outro modo irá engrossar a Direita. Finalmente, acho injusta a apreciação do mandato de Guterres à frente da ACNUR, basta lembrar o corte ao seu financiamento pelos países europeus, que contribuiu para a presente crise dos refugiados. A capacidade da UN é pequena, e não vale a pena ter ilusões sobre tal coisa e o 'magistério' de Guterres é mais moral do que outra coisa qualquer...

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