domingo, 20 de novembro de 2016

Perigosos sim, mas vêm aí tempos interessantes!

1. Parece que a vitória de Trump entusiasmou uns quantos caceteiros, que vão escrevendo alarvidades no «Observador», mormente a de ter resultado de uma reação esclarecida de parte do eleitorado contra o elitismo de quantos supostamente comandam o sistema.
Esses eleitores tinham todas as informações disponíveis para saberem como Trump era a personificação desse sistema, que dizia execrar, e como todo o seu currículo bastaria para os dissuadir de acreditarem nas promessas falaciosas que lhes fazia.
Quase duas semanas depois do choque de vermos eleito para a Casa Branca tão sinistra figura, só encontramos razões para confirmar o que Hillary dizia a respeito dos que nele votariam: são sexistas, machistas, racistas, xenófobos, brutos, primários e deploráveis. A que podemos ainda acrescentar o de estúpidos por caucionarem quem os irá rapidamente fustigar com um vendaval de políticas, que servirão para os muito ricos enriquecerem ainda mais e para a classe média continuar a  decair para a miséria dos que vão sobrevivendo da acumulação de empregos precários ou para a triste condição dos sem abrigo a quem serão negados os parcos apoios sociais.
Crismá-los assim não corresponde a uma demonstração de ira com quanto sucedeu a 8 de novembro, mas como resultado de uma reflexão serena em que se olha para o sucedido e o que concluímos é nada haver de racional no que constituiu a súbita reação emocional de um eleitorado a quem a globalização e o afluxo constante de refugiados políticos ou económicos assustou.
2. Quanto à globalização só se justifica a pouca simpatia que as esquerdas só manifestaram por essa movimentação de mercadorias sem entraves alfandegários e cujo resultado mais óbvio foi a desindustrialização do ocidente em proveito da Ásia para onde se deslocalizaram tantas fábricas.
Não ignoramos que os defensores desse desvio de direita no seio da esquerda, que foi a Terceira Via, sempre foram dos mais entusiastas dessa exponencialização da estratégia do capitalismo chegado á sua derradeira fase expansionista de mercados por desbravar.
Um dos aspetos mais curiosos de acompanhar nos próximos anos - com Trump a rasgar ou a não prosseguir negociações relativas a todos os Tratados comerciais firmados com os países do Pacífico, da América Latina e da Europa - é saber como evoluirá essa mesma globalização. Terá algum conserto futuro ou servirá novamente de amanhãs que cantam para um capitalismo momentaneamente interrompido enquanto Kamala Harris não vencer Trump no fim do primeiro mandato e se tornar então na primeira mulher a chegar à Casa Branca.
3. Outro dos aspetos a merecer uma análise criteriosa das esquerdas é se pode manter a lógica politicamente correta segundo o qual devemos acolher todos quantos, vindos de África ou da Ásia, procuram encontrar falsos paraísos numa Europa já assoberbada em sucessivas crises.
Têm sido esses refugiados, a maior parte dos quais motivados por razões económicas, a suscitarem os mesmo receios, que levaram Trump à vitória, e ameaçam replicá-la em França, na Holanda, na Alemanha ou em Itália com gente igualmente pouco respeitável.
Num continente onde o avanço da economia digital tende a reduzir o número de empregos, a chegada sucessiva de quem não tem qualificações nem competências para essa evolução social só pode assustar quem vê nesse fenómeno uma séria ameaça ao que ainda resta de Estado Social.
$. Ao texto anterior, o Jaime Santos replicou com o seguinte comentário:
Bom, se forem só essas empresas que quer ver nacionalizadas (discordo da TAP, mas gostava que a ANA voltasse ao setor público, assim como discordo da renacionalização da EDP e do setor bancário), eu conseguiria conviver bem com o sua versão do Socialismo. Só que lhe chamaria Social-Democracia. Lembre-se que nos anos 70 e 80, o Estado controlava uma boa parte da grande Indústria sem que vivêssemos numa Sociedade realmente Socialista (e eu não gostaria de voltar a essa época, note-se) e o que o meu caro propõe é mais modesto do que isso. O que eu gostaria mesmo de ver Costa a ajudar a instaurar em Portugal é uma Sociedade verdadeiramente Liberal, aberta, tolerante, onde o Estado de Direito funcione para todos (e a atuação do MP no caso dos comandos merece-me aqui aplauso), mas que conserve no que for possível o Estado Social. Um Canadá à la Justin Trudeau' no Sul da Europa, se quiser (já sei que é um fã do líder dos Liberais canadianos). Se calhar noutros tempos eu estaria melhor no PSD ;-) (mesmo que nunca tenha votado nos laranjas), mas onde isso já vai...
Mantendo-se divergências de opinião em questões de pormenor - eu quero de facto a TAP no setor público e acredito que o socialismo difere da social-democracia por nunca perder de vista o objetivo de uma sociedade mais igualitária - também anseio por esse futuro onde o Estado de Direito exista de facto sem  a tendência zarolha do Ministério Público e onde as liberdades fundamentais sejam consagradas. Nomeadamente as que têm a ver com as decisões de cada cidadão a respeito do próprio corpo, seja quanto ao direito a abortar, a casar com quem queira ou quanto ao momento em que deseje despedir-se da vida sem dor. 
Edward Hopper

1 comentário:

  1. Qualquer pessoa minimamente responsável tem que defender algum controle da imigração, no limite a reação dos eleitores ou força os governos a mudar de política, ou muda os governos e poderemos acabar com a Extrema-Direita no poder. Mas convinha lembrar que a imigração tem um efeito positivo na Economia na generalidade dos Países e que os Países mais capazes e resilientes são aqueles que melhor aproveitam os talentos dos que aí procuram residência ou abrigo (vide os EUA e o Canadá). Importa claro integrar os imigrantes e dispor de políticas que compensem os efeitos mais perniciosos da imigração, mormente a pressão sobre os serviços públicos. E também, como se vê no RU, são os mais qualificados que agora se interrogam e recusam estudar ou trabalhar aí, não se pode ser acolhedor de maneira seletiva. Se May e a classe média e baixa inglesas querem ficar sozinhos, pois que fiquem, tenho pena porque adoro a Inglaterra, mas 'good riddance'. Agora, por um lado Portugal deve pensar nos seus próprios emigrantes e não ser hipócrita, até porque ficaríamos em sérios sarilhos se de repente Angola, a Venezuela, o Brasil, etc, retaliassem a um eventual fechamento da nossa sociedade e acabássemos por ter que receber meio milhão ou mais de pessoas sem emprego. Por outro lado, se o que nos assusta é a convivência com o Islão, faço notar que a nossa comunidade muçulmana conta com algumas dezenas de milhar de pessoas que vivem em Portugal sem problemas e aqui prosperam e que temos pois excelentes maneiras de estabelecer pontes com os recém-chegados (no caso dos sírios muitos até são bem qualificados)... Finalmente, os Chineses têm investido em Portugal porque há oportunidades, mas também porque sabemos recebê-los bem. Carlos Monjardino dizia que eles se sentem genuinamente reconhecidos aos Portugueses pela deferência com que são tratados... Sem querer pintar um quadro demasiado rosa, há que aproveitar o fechamento de outras sociedades europeias e lucrar com isso...

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