terça-feira, 1 de novembro de 2016

O nascimento e ascensão dos movimentos socialistas

Entre 1870 e 1914 o movimento socialista esteve quase sempre a crescer. Enquanto na altura da guerra franco-alemã e da Comuna de Paris não tinha existência concreta, em 1914 estava presente por toda a Europa Central e desempenhava um papel determinante na respetiva situação política.
Esses progressos estiveram diretamente relacionados com o desenvolvimento industrial e a influência progressiva do mundo do trabalho, ambos relacionados com a democratização das instituições. É por essa altura que o sufrágio universal é entendido como imprescindível em consonância com a relevância dada ao ensino primário e a laicização da sociedade.
Outra característica percetível nesse período é o da dispersão e desunião ideológica do movimento: se na década entre 1870 e 1880 o marxismo teve forte progressão, logo se viu contrariado pelo revisionismo de Bernstein, pela síntese de Jaurès ou o pragmatismo anglo-saxónico ou escandinavo.
Tais divergências podem-se explicar pelas diversas idiossincrasias nacionais, mas sobretudo pelos níveis diferentes de integração do proletariado na sociedade burguesa, pela atitude dos governos,  pelas diferenças culturais e pela variabilidade das condições económicas. Por isso mesmo, apesar do seu enorme prestígio, a II Internacional apenas servirá de «caução moral» sem nunca se constituir num foco de irradiação de um modelo definitivo e abrangente de todas as sociedades europeias.
Acresce que, se viria a ter um desenvolvimento asiático tão significativo quanto inesperado, o socialismo não deixa de ser sobretudo um fenómeno europeu, pois nunca conseguiu implantar-se seriamente nos Estados Unidos ou no Canadá. Pelo contrário irá influenciar seriamente as lutas coloniais, constituindo durante muitos anos uma referência obrigatória para os países do Terceiro Mundo.
Com as relativas exceções da Alemanha e da Itália, os países da Europa Ocidental tiveram um destino comum: a unidade nacional fora solidamente garantida séculos atrás e as instituições liberais, até mesmo democráticas, triunfaram no que se julgou ser um resultado definitivo.
Na perspetiva social o feudalismo tinha desaparecido e os interesses industriais e comerciais haviam suplantado os relacionados com a agricultura. O sindicalismo, cujo crescimento acompanhara paralelamente o do socialismo, ganhou influência ao tornar-se numa das componentes fundamentais da vida política.
O socialismo andou continuamente a caracterizar-se pelo confronto entre as suas perspetivas reformistas e revolucionárias, sem que o triunfo do seu projeto marxista se tenha alguma vez consumado. Por isso tenho aqui reafirmado a estulta atitude dos que apostam na sua condenação em função das experiências falhadas assumidas em seu nome.
Ao participarem nas instituições do Estado democrático, os partidos socialistas confrontaram-se, amiúde, com o desafio da participação em governos tidos como burgueses. Ora, a Europa do final do século XIX, e sobretudo a do século XX, tendeu a inclinar-se para o centro-esquerda com a prevalência dos liberais ingleses, dos radicais de esquerda franceses e os radicais dinamarqueses. Por isso os partidos com vocação para o poder criaram programas sociais e, por vezes, anticlericais nos países de maior influência católica.
Que fazer, então: apoiar? participar? - eis as questões que foram discutidas nessa época em todos os congressos, nacionais ou internacionais. 
Courbet



2 comentários:

  1. A propósito de socialismo aconselho a leitura a leitura do livro "Princípios do Socialismo" (à volta de Antero), de Francisco Castro Rego.

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  2. Tenho que lhe responder, já que caracteriza a minha atitude como estulta, ou seja estúpida. Porquê? Porque sou extremamente cético relativamente à compatibilidade do projeto marxista com a Liberdade dos indivíduos? Se da História não podemos tirar lições (ou pelo menos não podemos se elas forem incómodas), ela serve para quê? Como já aqui disse várias vezes, a 'Ditadura do Proletariado' parece impor um modelo económico socialista como força de Lei, de outro modo a Revolução pode ser posta em causa. E isso eu rejeito como efetivamente autoritário (e o dito autoritarismo é plenamente confirmado pela História de todos os Governos marxistas). Se modestamente contribuo para estragar o arranjinho de todos os marxistas que subitamente e perante a crise vigente, sonham acabar com o Capitalismo (quando provavelmente não farão outra coisa senão atuarem como 'idiotas úteis' da Direita mais reacionária, como se verifica que está a acontecer no Reino Unido após o Brexit), fico muito contente com isso. Agora, fico surpreendido que um militante do PS, o Partido da Liberdade e da Democracia, alinhe nesse discurso. Não porque o Europeísmo tenha que fazer parte da matriz identitária do PS, mas porque julgo que a defesa da Democracia Representativa, da Economia de Mercado e de um País Aberto e Plural definitivamente fazem. E todas esses elementos seriam postos em causa se o Partido regressasse aos idos de 1970-1980, em que ainda mantinha o Marxismo no seu programa, mas que Soares tinha há muito efetivamente abandonado, julgo eu, pelo menos desde o seu confronto com Cunhal, que se mantém aliás ainda hoje atravessado qual espinho na garganta da Esquerda Comunista...

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