sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Nós rimos, eles choram...

Quanta diferença de ânimo é o sentido hoje pelos socialistas portugueses em comparação com o dos seus camaradas franceses. Enquanto em Portugal está a crescer a confiança no rumo seguido pela atual maioria parlamentar que, se a ajudar o engenho e arte - mas sobretudo os ventos soprados dos quatro pontos cardeais! - poderá prolongar-se por muitos e bons anos, em França está prometida uma longa travessia no deserto. Porque as suas esquerdas ainda não deram o salto qualitativo, que as façam sair dos erros cometidos pelas portuguesas até há um par de anos: não só o Partido Socialista Francês ainda não se livrou dos vícios da Terceira Via, preterindo os valores em função da ambição de demonstrar ser melhor gestor da economia e das finanças do que a direita, como conta com as várias outras esquerdas, a comunista e as supostamente mais radicais, a fazerem dele o inimigo principal em vez de se concentrarem conjuntamente no ataque às práticas e valores das direitas.
Agora temos, segundo Matthieu Croissandeau no editorial do «L’Obs» desta semana, a direita a votar com a carteira e a extrema-direita com as tripas, sem que as esquerdas conquistem os jovens e os assalariados pelo lado desses tais valores. Porque qual é a capacidade de atração de um partido, em que Valls e Hollande até acham conveniente o abandono da qualificação socialista, pretendendo substitui-la por progressista?
Se até vimos na América, que Bernie Sanders cativou eleitorado à conta dessa aposta no socialismo - mesmo defendendo políticas que não chegam a integrar essa dimensão! - como poderemos aceitar essa escusa a orgulharmo-nos do que somos?
Anda a fazer falta uma movimentação determinada a nível internacional em que o Socialismo seja devidamente reivindicado como o modelo capaz de corresponder às aspirações dos povos quanto a tornarem-se mais resilientes perante as aceleradas mudanças das sociedades em que vivem.
Começa a ser altura das várias forças de esquerda da Europa e da América do Norte olharem para o que se está a passar no nosso país, e compreendam que, depois de termos conseguido desbravar os caminhos marítimos para as índias e os brasis, a nossa capacidade de servirmos de batedores para novos mundos ainda não se esgotou. 
Montague Dawson

2 comentários:

  1. Mas por cá também não há (felizmente, digo eu) Socialismo, só (infelizmente) uma Social-Democracia envergonhada, dados os compromissos europeus. E até já somos o melhor aluno, Moscovici dixit... Eu convidaria os progressistas a lerem o que diz Skidelsky de Keynes. O grande economista inglês não gostava do padrão ouro, mas também teria detestado o Estado-Providência anafado que passou a ser a norma na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, alimentado à custa de dívida pública que requer crescimento eterno, algo que vai inclusivamente contra a própria ideia de sustentabilidade ambiental. E anda o meu caro a defender o Socialismo em versão Estatista, esquecendo a paixoneta dos marxistas-leninistas com o crescimento desenfreado... Marx, esse tinha uma visão distinta parece-me, recusando a alienação do sistema capitalista que transforma seres humanos em máquinas, veja aliás esse texto admiravelmente obscuro que é o 'Fragmento sobre as Máquinas'...

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  2. E já agora, concordo plenamente com o seu comentário sobre o triste estado da Esquerda em França. Se todos aquelas tristes figuras, do Melenchon ao Valls, tivessem dois dedos de testa, entendiam-se relativamente a um candidato único (que não pode obviamente ser Macron, que é de Direita) que pudesse passar com Juppé à segunda volta, eliminado Le Pen. Iria perder a seguir, mas esmagaria a serpente e permitiria a recomposição da Esquerda nos próximos 5 anos. Se isto não suceder, a Esquerda Francesa vai pelo mesmo caminho da Húngara ao da Polaca, e tarde ou cedo teremos a Extrema-Direita no poder em França...

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