terça-feira, 11 de outubro de 2016

Taxistas e uberistas: o desemprego ao virar da esquina

Uma das maiores evidências que as lutas sociais denotam nesta altura é a incapacidade para preverem o que não tardará a verificar-se: a sua futilidade face ao que está quase a suceder a nível da substituição acelerada das forças laborais por mecanismos de automação ou programas informáticos.
Nesse sentido, por muito que o surgimento da Uber, ou outras plataformas semelhantes, representem o primado da precariedade no emprego e a inexistência de quaisquer apoios sociais aos candidatos a empreendedores, pouco faltará para que os motoristas de táxis, ou os dessas plataformas, se revelem desnecessários nas novas viaturas sem condutor. Os Florêncios desta vida tornar-se-ão, então, empresários de muitas viaturas sem os incómodos de terem de pagar ordenados a não ser aos técnicos informáticos e de manutenção, que lhes garantam a operacionalidade. Enquanto isso não sucede usam os seus atarantados taxistas como soldados numa guerra em que são eles os inevitáveis derrotados.
O problema é que, se as direitas não pretendem obstaculizar a revolução próxima por, se por elas convenientemente orientada, transformarem as nossas sociedades na distopia totalitária secretamente desejada nas suas mentes radicais e pósfascistas, as esquerdas continuam a olhar para esse futuro com a postura das avestruzes perante os perigos. Nem os equacionam nem os preparam. Porque, num ápice, a nunca existente mas prometida Europa dos cidadãos, depressa se converterá na dos consumidores, em que a distribuição universal de magros subsídios tornará todos eles dependentes de um forte poder assistencialista, proprietário de todos os meios de produção e da grande parte da riqueza por eles produzida. Aos que contestarem, aos que se indignarem, será fácil sonegar-lhes o parco rendimento com que possam sobreviver.
Daí que seja um perigo virmo-nos a iludir com o tal subsídio igual para todos, que algumas forças políticas andam a promover na Suíça, na Finlândia ou na Islândia. Tal medida mais não significa do que o prenúncio do tipo de sociedade, que servirá de evolução possível para um capitalismo já incapaz de promover a contínua expansão dos seus endeusados mercados.
A não ser travada antecipadamente tal dinâmica involutiva, condenar-nos-á à nostalgia por estes tempos em que ainda nos podíamos indignar com tanta desigualdade na distribuição de rendimentos.
Espanta é que haja quem nas esquerdas sonhe com o regresso da social-democracia, que garantia bem estar, distribuição relativamente equitativa de rendimentos e emprego para quase todos. Uma ilusão que não se compadece com tal cenário previsível a médio prazo.
Não tardará a chegar a altura em que, ou se garante o controle coletivo dos meios de produção, ou se deixará a sociedade humana sujeita a oligarquias poderosíssimas contra as quais será quase impossível lutar.
Nesses anos, que não demorarão tanto a chegar como os mais distraídos julgarão, a Democracia será cada vez mais posta em causa por tratados e eurogrupos, que ninguém elegeu, e onde têm assento os que nos querem aprisionar em tais coletes de forças.
A resposta só poderá vir das convergências das esquerdas, que não se prendam aos atavismos passados, e tomem o Socialismo como o modelo mais adequado para preservar a Democracia. Afinal a História dos Homens continuará a ser a da luta de Classes.


(Giovanni Randazzo, Dystopia)


1 comentário:

  1. Não seremos capazes de concordar neste ponto. Mas será necessário também definir o que se entende pelo controle dos meios de produção. Quem os controla? O Governo, os sovietes (assembleias de delegados eleitos pelos trabalhadores)? E a dissidência política e económica, será ou não permitida? Se não, como será assegurado o controle da dita? Se sim, o que acontece se ela colocar em causa o socialismo? É justamente esse programa que eu gostaria de ver definido e esclarecido, para que o novo Socialismo não seja afinal uma versão requentada de Socialismos do Passado.

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