quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Os marginalizados deste século XXI

1. A crónica de ontem do Rui Tavares no «Público» surpreendeu-me por corrigir uma ideia falsa, que vinha alimentando em relação ao tipo de votantes abrangidos pela extrema-direita, pelo menos nos Estados Unidos.
É que olhara para o sucedido em França onde o eleitorado de Marine le Pen é constituído por muitos outrora vinculados ao Partido Comunista e pensara replicável essa ilação para o outro lado do Atlântico.
Isso faria com que muitos dos apoiantes de Trump fossem aquele tipo de eleitores brancos outrora vinculados à, entretanto deslocalizada, industria e eivados do despeito de terem sido empurrados para fora da atividade produtiva.
Afinal o historiador, agora radicado em Nova Iorque, esteve a olhar para a composição social desses apoiantes e concluiu tratarem-se de brancos em média melhor remunerados do que os dos demais derrotados candidatos republicanos. Ademais vivem quase maioritariamente em regiões quase imunes à presença dos execrados emigrantes contra quem depositam o seu voto.
Confirma-se, então, aquilo que se verificou em certos Estados alemães e nalguns países do Leste Europeu onde a probabilidade de verem um extraterrestre seria maior do que depararem com um refugiado e, no entanto, gritam nas ruas a rejeição desses infelizes e contra eles votam ao confiarem em partidos xenófobos.
No artigo Rui Tavares quase parece consolado com a ideia de serem efetivamente de direita os apoiantes de Trump, não sendo pois trânsfugas de partidos e políticas mais à esquerda.
Fica feita a correção.
2. Guy Ryder é o diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho e veio a Lisboa participar numa conferência sobre os desafios colocados ao mercado de emprego em função da inovação tecnológica. É que a uberização das relações de trabalho está a acelerar-se e evidencia-se a progressiva substituição da relação entre empregador e empregado pela que se estabelecerá entre a empresa e o prestador de serviços.
Parece inevitável a forte probabilidade de, a médio prazo, se tornar obsoleto o conceito de «ter emprego», predominando a concentração de jovens em ocupações precárias, onde não se adquirirão competências nem se criam comprometimentos com o contratador.
O que a atual 4ª revolução industrial traz de novo é uma realidade totalmente inversa ao que sucedera com as outras três: nessas a criação de novos empregos excedera em muito os que se perderam. Agora tudo aponta para que esse saldo se torne muito negativo para o elo mais fraco da cadeia social.
Pode, por isso, constituir uma espécie de luta quixotesca contra os moinhos de vento essa intenção governamental de recuperar a importância da contratação coletiva e valorizar o salário mínimo. Mas essencial será olhar para a realidade com sensatez e preparar uma transformação, que tudo aponta para que se desenrole caoticamente. Com tudo o que isso implica em sacrifícios para os mais desfavorecidos.  
(Lasar Segall,  «Interior of Poor People», 1921)

1 comentário:

  1. A constatação de que a maioria dos apoiantes de Trump são homens brancos de classe média com rendimento acima da média das famílias americanas já tem algum tempo e deriva de um longo trabalho de sondagens cujas principais conclusões pode consultar aqui: https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2016/08/12/a-massive-new-study-debunks-a-widespread-theory-for-donald-trumps-success/?wpisrc=nl_most-draw8&wpmm=1. Também no caso do Brexit, contrariamente à exultação vinda de alguma Esquerda, o principal grupo de votantes pela saída do RU da UE era constituído por Tories de classe média do Sul mais afluente. Já na República de Weimar, não foi à classe operária que Hitler for buscar o maior número de apoiantes mas, aparentemente a protestantes de classe média. A situação em França em relação a FN parece ser diferente, porque onde outrora existiam feudos do PCF, hoje há feudos da FN, mas gostaria de saber quão diferente realmente é, através da segmentação do eleitorado da FN em função dos seus rendimentos. Quanto à questão da uberização do Mundo, acho pelo contrário que o Governo deve insistir na recuperação da contratação coletiva, porque as áreas da Economia onde existe capacidade não utilizada que pode ser recuperada para tais atividades (como veículos privados que não são utilizados) são por ora restritas, e a indústria tecnologicamente mais avançada beneficia claramente de relações claras e estáveis entre empregadores e empregados (veja-se o caso da Auto-Europa). Agora, que precisamos de tecnocratas e teóricos capazes de pensar essa transformação que se avizinha e que a Esquerda parece ainda quase querer negar, numa espécie de devaneio neo-ludita, isso precisamos...

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