quinta-feira, 27 de outubro de 2016

E pur si muove nas esquerdas europeias

Sabemo-lo desde o início do século XIX, quando Hegel o esclareceu: na política, como na ciência, uma “verdade”, que assim é entendida durante um tempo mais ou menos longo, começa a ser contestada por outra “verdade” e as duas entram numa contradição dialética até delas esclarecer-se qual a preponderante, doravante entendida como a que fica aceite.
De forma muito simplificada é assim que se define o materialismo dialético, que tem vindo a verificar-se nas esquerdas europeias com os partidos socialistas e sociais-democratas a terem de se definir entre o abandono da sua matriz original (e a mudarem de nome como aconteceu em Itália e é pretendido por Hollande e Valls em França) e o realinhamento com tal orientação ideológica como sucede em Portugal.
O desafio consiste em evitar a pasokização, mediante acordos com as demais esquerdas, que se afirmaram socialmente na rutura com essa tendência de trazer tais partidos para aquilo que se mistificou como sendo o «centro» do eleitorado.
Daí que haja já Estados alemães onde deixou de ser um estigma a coligação do SPD com o Die Linke ou em Espanha onde vigoraram acordos eleitorais entre o PSOE e o Podemos.
O que tem acontecido por estes dias com a divisão dentro desse mesmo PSOE, entre os que querem viabilizar o governo Rajoy e os que o querem impedir de tomar posse, é um sintoma dessa contradição, com Felipe Gonzalez, Susana Diaz e o «El Pais» a servirem-se de todas as manobras possíveis e imaginárias para contrariarem a posição, por agora minoritária, dos apoiantes de Pedro Sanchez e dos socialistas catalães.
Igualmente se deteta essa contradição no bloqueio ao acordo comercial entre a União Europeia e o Canadá, que interessaria sobretudo às multinacionais: foi por se sentirem eleitoralmente ameaçados por um outro partido assumidamente marxista, que os socialistas valões puseram as instâncias europeias à beira de um ataque de nervos. E pur si muove! 

(Veronese)

1 comentário:

  1. Eu francamente não vejo onde esteja o processo de recuperação do dito materialismo dialético. O que há é a aceitação (quiçá tática) da Social-Democracia pelos Partidos à Esquerda dos Social-Democratas, como aconteceu em Portugal, o que desbloqueia a possibilidade de formação de Maiorias de Esquerda. Em Espanha, Sanchez cometeu o grave erro tático de não ter declarado como Costa que não inviabilizaria uma solução governativa de Direita sem ter uma solução alternativa para apresentar (como bem enfatizou o seu camarada Porfírio Silva). Verdade seja dita que o Podemos não mostrou de modo nenhum a mesma flexibilidade tática do BE ou do PCP. Seja como for, fico à espera (e espero bem ficar sentado) da recuperação do marxismo pelo PS... Até o meu caro Jorge Rocha, na hora de defender a sua dama, revela que não se desvia muito da social-democracia, ao defender a solução CGD. Não chame marxismo àquilo que não o é. A política de Costa nem sequer é social-democrata, porque Portugal não pode executar uma política orçamental expansionista, fruto dos constrangimentos europeus (concorde-se ou não com ele). Sejamos por favor honestos connosco próprios para começar...

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