quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A miopia do eterno vencido

Confesso ter tentado ler a crónica de Francisco Assis no «Público» de hoje, mas só em diagonal a considerei suficientemente suportável, dado interessar-me perceber o que defende hoje o nome mais visível da ala direita, que o Partido Socialista comporta.
Para ele o Orçamento para 2017 demonstra a opção de António Costa em render-se à Europa e em  ir abandonando de fininho as demais esquerdas em que assenta a sua maioria parlamentar.
Julgando-se dotado da grande Verdade, qual Messias momentaneamente exilado no deserto, Assis já não esconde a alegria, que lhe daria vingar-se dos «jovens turcos» simbolizados na pessoa de Pedro Nuno Santos. Ofendendo-os, porque os diz manipulados por Mariana Mortágua como se o ministro em causa ou João Galamba não tivessem já demonstrado uma inteligência, que dispensa qualquer guru, Assis compraz-se no desejo de ver o Partido Socialista regressar ao que foi nessa apagada e vil tristeza dos tempos de António José Seguro.
Nem sequer o estar no Parlamento Europeu, donde teria maior proximidade para ver o que tem acontecido aos socialistas e aos sociais-democratas com vergonha de o serem, permite a Assis sair da sua miopia de eterno vencido nas posições, que vai sucessivamente defendendo para o Partido. Mas não deixa de ser eloquente, que o jornal da Sonae nele reserve uma página semanal, como se ainda importasse o que ele ali vai exprimindo. 
(Chris Cook)

1 comentário:

  1. Eu discordo de Francisco Assis relativamente à Geringonça e pergunto-me simplesmente se ele, caso liderasse o PS, aceitaria servir de muleta às malfeitorias de Passos e de Portas, mas reconheço-lhe uma coragem para pregar sozinho que António Costa, por exemplo, não tem. Lembro-lhe que Assis defrontou Seguro numa altura em que ninguém queria carregar esse piano. Penso que Costa é muito melhor tático do que Assis, pelo que não me parece de todo que planeie tirar o tapete ao BE ou ao PCP, vai esperar que sejam estes a fazê-lo ao Governo, se tiverem coragem para tal. Mas parece-me que os Partidos da Esquerda são liderados por pessoas suficientemente inteligentes para perceberem que dada a dimensão relativa de cada um dos Partidos e o ónus da destruição da Geringonça, não lhes interessa nada precipitar uma crise política. E depois, conhecem bem, retórica à parte, a fraqueza da nossa Economia para considerarem que faz sentido afrontar a Europa, pelo menos por agora. Mas deixo-lhe uma provocação a si (entre muitas). Fala acima e bem da possibilidade de utilizarmos os fundos europeus para fazermos investimentos que poderão mudar para melhor a face do País. Lembro-lhe que esses fundos são a outra face da disciplina orçamental imposta pela Europa. Não que eu a subscreva por inteiro, mas como Theresa May irá em breve perceber, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. A Esquerda Portuguesa ou se habitua a conviver com uma Europa por ora dominada pela Direita, ou tem que encontrar um projeto alternativo (coisa que não tem de modo nenhum) que não requeira fundos europeus, nem compra de dívida pelo BCE, nem acesso ao Mercado Único, nem todas as vantagens que dispomos apesar de tudo pela nossa pertença à UE. Há sempre alternativas, não há é almoços grátis... Porque por vezes quando ouvimos Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa, o que se intui é que eles queriam era que a UE nos pagasse as contas...

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